Ricardo Ohtake, diretor do Instituto Tomie Ohtake. Foto: Divulgação

Uma das figuras mais atuantes no campo da gestão cultural no Brasil nas últimas décadas, Ricardo Ohtake vê com grande preocupação o atual momento do país. Não só por conta da pandemia do novo coronavírus, mas pelas crises econômica, política e cultural que já davam as caras nos últimos anos. “Temos um governo que não gosta de cultura e também não gosta das posições progressistas que a cultura costuma ter”, diz ele em entrevista à arte!brasileiros.

Diretor do Instituto Tomie Ohtake desde sua fundação, em 2001, Ricardo vê no governo de Jair Bolsonaro não só características que se assemelham ao período da ditadura militar brasileira (1964-1985) – o que é explícito nas palavras do próprio presidente -, mas também traços do fascismo e do nazismo que governaram países europeus na primeira metade do século passado. “É uma situação muito perigosa”, afirma. 

Ainda assim, Ricardo segue firme com as atividades – agora virtuais – do Tomie Ohtake. “Nós temos que achar caminhos né? Se não podemos agir no país inteiro, pelo menos instituição por instituição, exposição por exposição”, afirma. “Temos que voltar a construir um projeto de país”, complementa, pensando tanto neste fazer cotidiano das instituições quanto em uma escala macro. “E um projeto de país tem a ver com arte, com educação e cultura.”

Filho da artista nipo-brasileira Tomie Ohtake, Ricardo, hoje aos 77 anos, se formou em arquitetura na FAU USP, onde ingressou no movimento estudantil durante o regime militar. Além de atuar como designer gráfico, Ohtake se aproximou ainda nos anos 1970 de projetos culturais e urbanísticos da prefeitura de São Paulo, tornando-se o primeiro diretor do Centro Cultural São Paulo, em 1982. Nos anos seguintes, foi diretor do Museu da Imagem e do Som (MIS-SP), da Cinemateca Brasileira, secretário da Cultura de São Paulo e secretário Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Recebeu ainda o Prêmio Ciccillo Matarazzo para Personalidade do Ano em 2013 e assumiu a Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência em 2017.

Tamanho prestígio não tornou simples, no entanto, o trabalho de captação de recursos para as exposições e atividades do Tomie Ohtake, como conta Ricardo na entrevista. “Também porque não temos um padrinho, um patrono, como a maioria das grandes instituições têm”, explica. Ohtake falou também sobre as atividades virtuais promovidas pelo instituto durante a quarentena, sobre o programa educativo do instituto e sobre o mercado de arte. Leia abaixo. 

ARTE! – Estamos passando por uma enorme crise por conta da pandemia do coronavírus, então eu queria começar perguntando como você vê esse momento e como estão lidando com isso no Instituto Tomie Ohtake? Como estão agindo e que tipo de planejamento é possível fazer?

Ricardo Ohtake – Nós estamos vivendo várias crises ao mesmo tempo. Uma delas é a crise econômica do país. De alguns anos para cá estamos tendo dificuldade de fazer as coisas por falta de dinheiro mesmo. Aí temos um outro problema que é uma questão política, porque nós temos um governo que não gosta de cultura e também não gosta das posições progressistas que a cultura costuma ter. Esse governo não quer saber de nada progressista e faz de tudo para atrapalhar a vida. E a terceira coisa é a crise com a pandemia do coronavírus, que faz com que a gente tenha que fechar as instituições culturais e que e a gente não possa sair de casa nem para fazer reuniões. E, como consequência, nós também não conseguimos fazer um planejamento, porque não sabemos quando é que vão acontecer as coisas. Então você leva as ideias até certo ponto e a partir daí não consegue planejar mais nada, fica tudo meio no ar.

ARTE! – Ainda assim existe uma atuação do instituto que segue, com os cursos online, o podcast, com o #juntosdistantes no Instagram…

Sim, a gente teve que inventar coisas para esse período, para não ficar sem que nada acontecesse. Então estamos também fazendo atividades, inclusive relacionadas ao assunto do coronavírus. No #juntosdistantes tomamos alguns depoimentos de pessoas que pensam de modo muito interessante sobre esse assunto. Convidamos pessoas que são pensadores de coisas muito profundas, ensaístas, professores, artistas etc., e com eles fazemos esses vídeos mais curtos. Vídeos de cinco ou dez minutos que têm dado um resultado muito interessante. Então a gente tem conseguido fazer algumas coisas. E seguimos também com os cursos online.

ARTE! – Pensando nessas propostas e nos cursos, fica muito clara uma preocupação educativa da instituição, que vem desde a sua fundação. Queria que você falasse um pouco sobre isso. A missão de um museu ou instituição cultural atualmente deve ir para além apenas da parte expositiva?

Bom, a gente abriu o instituto em 2001, há quase 20 anos, e a partir do segundo ano começamos a organizar essa parte educativa. Nós chamamos a Stela Barbieri, uma excelente artista e educadora, com uma ação muito forte. E ela, com ajuda do Agnaldo Farias, nosso primeiro curador, organizou um trabalho educativo muito intenso. No primeiro momento a gente pensou que queria resolver o problema educativo brasileiro. Pensamos isso de manhã, mas à tarde já vimos que era impossível, porque o problema é grande. Então nós resolvemos fazer uma coisa um pouco menos ambiciosa, mas sempre quisemos trabalhar com bastante gente, de forma que tivéssemos muitos alunos, que muitas pessoas pudessem se formar em arte. E que a arte fosse o caminho para a pessoa receber uma educação mais completa. E começamos a trabalhar junto à Secretaria Municipal de Educação, primeiro com o Fernando José de Almeida, depois com a Eny Maia e com a Cida Perez.    

Fachada do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Foto: Divulgação

ARTE! – Isso tem a ver com algo que você já falou outras vezes, que é um desejo de aproximar o instituto das periferias, das escolas públicas, mesmo que ele esteja localizado em um bairro nobre da cidade?

Sim, o fato de trabalhar com escolas públicas já aproxima de um tipo de público que não é dos colégios mais de elite próximos ao instituto. Então nós fomos atrás da escola pública, neste sentido de pegar um público que não é aquele considerado culturalmente sofisticado. Mas é um pessoal de muita ação e vontade. E decidimos também que queríamos trabalhar mais do que com os alunos, mas com os professores. Porque os professores é que vão multiplicar para os alunos. E aí nós trabalhamos, no primeiro momento, com 4 mil professoras. Isso significava chegar a milhares de alunos. E dos cursos curtos do início passamos para cursos mais longos, de formação mesmo, de um semestre. E a gente envolvia teatro, cinema, desenho, música. Sem contar um mergulho na parte mais teórica. Depois, com a mudança de gestão na prefeitura, o projeto foi encerrado. Mas mais para a frente conseguimos retomar outros cursos para professores, não exatamente como aquele, mas também de formação.

ARTE! – E tem os cursos abertos para o público…

Sim, tem dois tipos de cursos. O primeiro são cursos de desenho, de história da arte, de colagem, de assuntos mais ou menos fechados. E também damos outros cursos que são de preparação crítica para jovens artistas.

ARTE! Você falou sobre o trabalho com diferentes áreas artísticas e linguagens que existia no curso para professores. Existe esse aspecto do Instituto Tomie Ohtake, que acho que se relaciona também com a sua trajetória pessoal, que é a multidisciplinaridade. Qual é a importância, no instituto, de trabalhar com diferentes áreas do conhecimento?

Acho que à medida que você vai abrindo o campo do conhecimento, o campo da experimentação, fica tudo mais interessante. A pessoa vê artes visuais, mas vai ver música, ver dança. Acho que é da maior importância cobrir todas essas áreas. E a gente se preocupa em trazer pessoas de altíssimo nível. Por exemplo, o coro da Osesp e o Grupo Pau Brasil. De dança, a gente traz o Ismael Ivo e o Balé da Cidade, que acho que é dos maiores grupos de dança do Brasil. E ele inclusive faz espetáculos especiais para nós, em diálogo com as exposições que estamos fazendo. Por exemplo, na exposição do Takashi Murakami. Já fizemos coisas também com a Orquestra de Câmara da ECA/USP, do Gil Jardim. Quando a gente fez a exposição do Miró, por exemplo, eles fizeram um concerto com músicas da época em que o artista viveu e da terra em que ele nasceu. E também vamos começar a trabalhar com literatura, com a Cooperifa, que reúne um pessoal impressionante. Eles fazem semanalmente um encontro em um bar na zona sul, com declamação de poesias e textos. E reúne um monte de gente, é uma coisa incrível. E vamos fazer um projeto com eles, junto com uma exposição.

ARTE! – Para além disso, arquitetura, urbanismo e design ganham um destaque especial no instituto. Pode falar um pouco sobre isso?

São as áreas que a gente trabalha mais diretamente. A gente faz exposições não só de artes visuais, mas também de arquitetura e design. Já fizemos várias exposições com arquitetos vencedores do Prêmio Pritzker (espécie de Nobel da arquitetura), como o Oscar Niemeyer. Fizemos também exposição do Vilanova Artigas, entre outros. E a gente organiza exposições de design também, de brasileiros e estrangeiros. Temos ainda as premiações, tanto de design quanto de arquitetura, que são principalmente para incentivar a produção contemporânea e de jovens.

ARTE! – Mas para além das exposições, existe uma preocupação de se abrir e dialogar com a cidade…

Claro. Por exemplo, uma das premiações que fazemos chama-se Territórios, voltada para escolas e professores da rede pública. E a gente vê qual tipo de trabalho esses professores estão realizando junto com seus alunos, junto com a escola, de atuação na cidade, nas proximidades da escola. E seleciona dez projetos e faz uma exposição com vídeos sobre eles. E tem coisas incríveis, desde mobiliário feito para uma praça perto da escola até trabalhos sociais. Temos feito esse prêmio com muito entusiasmo, porque dá muito resultado. E esse vasto programa de cultura e participação, do qual o prêmio faz parte, foi criado pelo Felipe Arruda, que tem trazido muita gente para o instituto.

ARTE! – Falando um pouco mais das artes visuais, em uma homenagem que você recebeu no Instituto de Estudos Avançados da USP alguns anos atrás, você afirmou que a arte mais vinculada ao mercado e às galerias é em geral uma arte mais formalista. E disse que o trabalho no instituto procura sair um pouco dessa zona mais dominada pelo mercado. Poderia explicar?

Isso que eu falei cerca de três anos atrás é algo que já vinha mudando um pouco e que agora acho que mudou mais. Essa arte muito formal, “bem feitinha”, ainda existe bastante, mas acho que o mercado tem se voltado mais também para uma arte mais política. E eu acho que em tempos como os que estamos vivendo temos que mostrar essa arte política, fugir de coisas mais conservadoras.

ARTE! – Ao mesmo tempo é possível perceber na programação do instituto, nos últimos anos, um grande número de mostras de grandes nomes, bastante vinculados também ao mercado. Desde contemporâneos como Murakami e Yayoi Kusama até modernos como Picasso, Dalí, Frida Kahlo e Miró. De que modo essas mostras de grande apelo são importantes para o instituto e se adequam a esse objetivo de não ser excessivamente ligado ao mercado?

Evidentemente não fazemos mostras só de coisas que estão fora do mercado. A organização de exposições grandes, como essas, a gente começou a fazer no sentido de trazer um público maior, que não estava frequentando o instituto. E este público não é o público “chique”, digamos assim. É um público de classes sociais mais baixas. E era isso que a gente queria trazer. Porque trabalhar apenas com a arte contemporânea menos conhecida pode acabar sendo uma coisa muito fechada, para poucos. Acho que a gente tem que chegar neste público que não está acostumado a frequentar espaços artísticos. E aí o cara vê o Picasso e de repente se interessa em ver outras coisas menos conhecidas também. É um processo.

E para você ver… como essas exposições são muito caras de produzir, nós começamos a cobrar em um dado momento. Era R$ 12 a entrada inteira e R$ 6 a meia. E sabe que isso mudou a cara do público? Deixou de ter o público mais popular. E então decidimos voltar a fazer gratuito, porque nossa ideia é essa, todo mundo poder ver. Mas o fato é que nós temos tido dificuldade de fazer essas mostras, porque são muito caras.

ARTE! – Mas o Murakami, que estava em cartaz recentemente, não é uma dessas?

O Murakami, apesar do que pode parecer, não é tanto assim de grande público. Ele não é tão conhecido no Brasil quanto a gente imagina. Ele é muito conhecido em outros lugares do mundo, especialmente nos EUA, mas depois fiquei sabendo que mesmo no Japão ele não é tão bem recebido assim.

Área expositiva do Instituto Tomie Ohtake durante mostra de Murakami. Foto: Divulgação

ARTE! – Nesse sentido, lembro de uma entrevista em que você falou que cada exposição que o instituto planeja realizar demanda uma batalha para conseguir recursos.

Sim, porque não temos um padrinho, um patrono, como a maioria das grandes instituições têm. Então a gente pena para fazer as exposições, não só as grandes, mas também as menores. A captação é mesmo difícil. Inclusive pensamos em reduzir um pouco o número de mostras. Estávamos organizando cerca de 17 mostras por ano, o que é muito. Provavelmente teremos que reduzir esse número para cerca de 12. E essas mostras grandes só poderemos programar quando conseguirmos um patrocinador logo de cara.

ARTE! – Como você mesmo disse, independentemente da quarentena já existia no Brasil um quadro muito conturbado e ameaçador para a cultura nos últimos tempos. Como trabalhar nesse momento?

Acho que o fato de ter um governo como esse atual exige que a gente invente as coisas para fazer. Precisamos ser mais inventivos. E acho que todo mundo na área cultural está pensando isso.

ARTE! – E tratar de questões políticas se torna mais difícil? Ou talvez se torne mais urgente?

Olha, em 2018 a gente fez uma exposição forte sobre o AI-5, com curadoria do Paulo Miyada – que é nosso curador-chefe -, porque completava 50 anos da data. E a gente vai organizando algumas exposições como essa, ligadas diretamente à questões políticas, e outras que não são assim tão diretas, mas que tem um caráter político. Por exemplo, fizemos a exposição daquele menino de Minas Gerais, o Pedro Moraleida, que se suicidou com 22 anos e era um cara com uma produção muito forte. Ele já conhecia tudo, de pintura, de história da arte, de filosofia, era um cara impressionante. E é uma mostra que tem esse caráter político.    

ARTE! – Falando sobre o AI-5, você é uma pessoa que tem um histórico de luta contra a ditadura militar na sua juventude. Em 2014, foi também autor do projeto de um monumento em homenagem aos mortos e desaparecidos políticos. Nós temos nesse momento um presidente que repetidamente defende a ditadura militar, homenageia figuras como Brilhante Ustra ou, recentemente, o major Curió… enfim, queria saber como você enxerga esse momento político.

Eu acho que a questão desse presidente não é só uma questão ideológica, digamos assim. Parece que tem uma questão psicológica também, como muitas pessoas dizem. Porque ele fala tanta bobagem. Claro que tem a ver com a posição ideológica dele, mas ele vai falando qualquer coisa, briga com todo mundo, vê todo mundo como inimigo, provoca todo mundo. Chama um ministro e depois manda embora, mesmo que sejam pessoas que rezam da cartilha dele, que são da mesma linha. Além disso, ele fala mentira demais, sobre tudo. Responde qualquer coisa mentindo e encerra o assunto. Então acho que é uma situação muito complicada, que eu realmente não sei como se faz para ultrapassar. Mas acho que as instituições democráticas do país precisam saber lidar com essas coisas. Todo mundo reclama, mas a rigor ninguém chega e peita para valer o homem. Agora, nós temos que achar caminhos né? Se não podemos agir no país inteiro, pelo menos que seja instituição por instituição, exposição por exposição… 

ARTE! – Inclusive a censura voltou a ser um assunto, depois de muito tempo.

Sim, essa coisa da censura é muito forte, e mostra a chegada de um certo fascismo… É uma situação muito perigosa.

ARTE! – Você vê paralelos desse governo com o período da ditadura militar?

Acho que tem sim. E pior do que isso, acho que tem um paralelo muito grande com a época do Hitler. Algumas situações que ele provoca são muito parecidas.

ARTE! – E nesse momento conturbado, de que modo você acha que a arte e a cultura podem ajudar, podem propor caminhos?

Acho que está todo mundo procurando caminhos, procurando saídas para isso tudo. E é muito difícil saber o que deve ser feito. Se soubéssemos já estaríamos fazendo. Então eu acho que cada um vai fazendo seu trabalho, algo que consiga responder a essa situação do país. E nós temos que voltar a construir um projeto de país. Projetos como tivemos no fim dos anos 1950 e começo dos 1960, antes do golpe, ou como tivemos de uns 20 anos para cá. E um projeto de país tem a ver com arte, com educação, cultura. Isso pensando no grande. E no pequeno é o que cada um já vinha fazendo e que vai adaptando. Mas acho que se não tiver essa visão do grande, perseguir isso, acho que a gente não vai conseguir sair desse ponto em que nós estamos. Acho que é isso o que temos que procurar.    

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