Arte por Baniwa
Nhandecy Eté e o Peabiru. Fotos: cortesia do artista

ESCREVO ESTE TEXTO no meio do isolamento a que fomos submetidos nos últimos dias pela pandemia que assolou nosso planeta, em maior ou menor grau, na maioria dos países.
Na Itália, de onde até agora pouco comentávamos as mostras da Bienal de Veneza, morreram nos últimos 30 dias aproximadamente 12 mil cidadãos. Todos nós acompanhamos estarrecidos as cenas internacionais, próprias de filmes de ficção científica.Lemos e ouvimos diariamente uma infinidade de dados e informações sobre um flagelo desconhecido, o COVID-19, que só se aproxima da Peste Negra, na Idade Média, ou da Gripe Espanhola, antes da I Guerra Mundial. Hoje e aqui, estamos tentando minimizar os números das perdas humanas no Brasil, colaborando com uma quarentena que permita a menor quantidade de infectados.
Assistimos perplexos em nossa fragilidade às rachaduras de um sistema econômico e político que não se sustenta quando se trata de atender ao ser humano por igual. Quem até poucos dias atrás defendia o Estado mínimo, reconhece hoje no Sistema Único de Saúde Pública (SUS) a única saída para crises desta magnitude. Cientistas que no começo do ano foram forçados a parar suas pesquisas graças aos cortes de bolsas e investimentos agora passam a ser solicitados a todo momento.
O coronavírus veio de encontro ao vírus nosso de cada dia.
Na cultura, onde já discutíamos os cortes nas leis de incentivo e assistíamos ao desmantelamento de várias instituições, a pandemia traz um novo desafio.
Até a presente data, 31 de março de 2020, todos os encontros e todas as atividades culturais foram canceladas ou adiadas. Fecharam suas portas as edições das feiras Art Basel em Hong Kong e na Basileia; ARCO Lisboa; a SP-Arte, em São Paulo; e a arteBA, em Buenos Aires. As Bienais de São Paulo e do Mercosul foram adiadas, assim como a Manifesta13, em Marselha. Falta ainda a Bienal de Berlim anunciar se será mantida em junho.
O Centro de Exibições IFEMA, onde funcionou há apenas um mês a tradicional feira ARCO Madrid, acaba de ser transformado em um “hospital” com mais de mil leitos para pacientes contaminados.
“O panorama é desolador para o setor da cultura do país”, disse Manuel Fernandez-Braso, presidente da Asociación de Galerías de Arte de Madrid.
Não obstante à angústia que vivenciamos, tendo que cuidar de nós e dos nossos semelhantes, tivemos que encontrar, no nosso dia a dia, momentos de reflexão e soluções de trabalho para não esmorecer.
Para nossa equipe, este seria um momento de grande comemoração. Nesta edição #50, a primeira do ano, ARTE!Brasileiros completa 10 anos. Dez anos onde defendemos a ideia de que a arte sintetiza narrativas transversais e que, especificamente na obra de arte, o artista exprime sua capacidade de se afastar do mundo e percebê-lo como sujeito. Nela estão contidas suas ideias e, com certeza, as suas angústias e as do seu tempo.
Nestes anos buscamos retratar a pujança e a diversidade da arte contemporânea brasileira, para os brasileiros e para o mundo, em alguns dos temas que se sobressaíram nesse período de forma marcante: a defesa da liberdade e as questões de gênero; a luta contra a discriminação racial, a segregação da mulher, a opressão econômica, social e política; os movimentos migratórios, as liberdades, a denúncia das agressões ao meio ambiente e ao planeta.
Retratamos também a inovação no movimento, na cor, a busca por novos suportes, a experimentação, a pesquisa de materiais e de histórias.
Para isso, investimos numa plataforma de cultura e arte contemporânea digital, capaz de falar tanto com a academia como com o mercado.
Criamos uma enorme rede de colaboradores nacional e internacional e nossos seminários aproximaram interlocutores de vários países.
Chegamos até aqui com um saldo positivo. Mais de mil assinantes da revista impressa, perto de 50 mil seguidores orgânicos e fiéis no Instagram, além de uma rede de relacionamento e de leitores que ronda cerca de 80 mil no portal da www.artebrasileiros.com.br
Este ano, se conseguirmos vencer o COVID-19 e suas sequelas, realizaremos nosso VI Seminário Internacional, previsto para começo de outubro.
Esta edição, que traz um novo projeto gráfico, encomendado especialmente à equipe de designers do Alles Blau Studio, teve a capacidade de se adequar às dificuldades do momento. O trabalho com as equipes em home-office, suas entrevistas e reportagens, mostraram um altíssimo grau de colaboração e competência por parte de todos os envolvidos. A maioria dos textos foi produzida antes dos vários adiamentos de mostras e bienais, mas optamos por mantê-los, acreditando que dias melhores virão.
Esperamos encontrar todos com saúde, podendo imaginar um outro momento, que certamente vai nos exigir re-nascer.

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