Aline Motta, "Escravos de Jó", trabalho que ilustra a capa desta edição.

Esta edição é um documento dos 100 dias que atravessamos, até aqui, acompanhando as notícias da morte de mais de 60 mil brasileiros e mais de meio milhão de cidadãos vítimas de Covid-19 ao redor do mundo.

Como a sociedade e a arte, perplexas, conseguiram enfrentar esta enorme provação? Como a arte se pronunciou? Como sofreu e sofre junto?

No caso do Brasil, o negacionismo do governo e sua falta de uma política clara, homogênea e enérgica de saúde pública, transformou nosso dia a dia num duplo pandemônio. Não basta lutar contra o vírus, é preciso lutar também contra o autoritarismo e a ignorância.

Frente ao vírus, sua invisibilidade teve a capacidade de fazer visíveis a falta de cuidado de anos com as populações mais carentes. Onde não há saneamento o vírus se propaga com mais facilidade. Ficaram visíveis, escancaradas, mazelas seculares.

A violência do racismo; o ataque ao meio ambiente e aos povos indígenas, tão importantes na sua manutenção; a falta de auxílio na saúde; o lugar da mulher que, além de trabalhar, cuida da família. Politicamente, trouxe à tona grandes setores da sociedade totalmente descompromissados com o outro, com a empatia, com a solidariedade.

Nesse sentido, abriram-se novos caminhos de reflexão e denuncia. Nesta edição, artistas indígenas, negras, curadores e especialistas refletem sobre diversos movimentos que nestes meses irromperam contra a iconoclastia colonial que esteve aí desde sempre. Monumentos e esculturas e sua função histórica, são questionados.

Ao mesmo tempo, apareceram novas articulações de grupos independentes, buscando dar conta da falta de Estado. A organização de sistemas de doações. A ressignificação de tarefas, a organização de reuniões virtuais. A comunicação de cancelamentos e adiamentos, procurando privilegiar a saúde contra as aglomerações. Tudo isto exigiu esforços das instituições, empresas e profissionais que não estavam preparados tecnologicamente.

Da esq. para a dir., acima, a diretora editorial Patricia Rousseaux e o programador e editor web Coil Lopes; abaixo, o designer gráfico Enelito Cruz e os repórteres Miguel Groisman e Marcos Grinspum Ferraz

A maioria dos artigos, ensaios e reportagens desta edição conseguem fazer um balanço de como, nos diferentes setores da comunidade artística e cultural e, em vários setores da sociedade como um todo, há uma busca de redefinições de comportamentos. Gestores dos mais importantes museus falam aqui das suas preocupações, galeristas comentam o quanto o mercado da arte foi atingido e revelam novos caminhos para se reerguer.

Nas palavras do líder indígena Ailton Krenak, organizador da Aliança dos Povos da Floresta, no seu último livro O amanhã não está à venda, “tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu de nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro”.

Fiquemos todos com saúde e boa leitura.

 

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