Vira Lattes
Lincoln G. Dias, Yiftah Peled e Ricardo Maurício curadores da exposição. Foto arquivo pessoal Ricardo Maurício.

Por Giuliano de Miranda

O nome já carrega a provocação. Em Vira Lattes, o vira-lata, cão sem raça definida e meio sem dono, encontra o Currículo Lattes, plataforma que registra e mede a produção dos pesquisadores brasileiros. Da fricção entre as duas palavras nasce Vira Lattes: pesquisa e confia? 2026, exposição coletiva em cartaz na Galeria de Arte e Pesquisa da UFES (GAP/UFES), em Vitória, até 5 de novembro.

Vira Lattes
Claudia França, sem título, 2008-2026, Louças, água e texto em acetato. Foto: Fabíola Fraga.

A mostra reúne trabalhos de 35 professores artistas do Departamento de Artes Visuais (DAV) da UFES, sete deles convidados de outras universidades. A curadoria é dos professores Lincoln G. Dias, Ricardo Maurício e Yiftah Peled, que também expõem. Desenho, pintura, objetos, cerâmica, instalações, fotografia e vídeo compõem um panorama da produção contemporânea feita dentro da universidade pública.

O texto curatorial descreve o cotidiano de quem é, ao mesmo tempo, professor, pesquisador e artista. “Ser professor de arte e permanecer artista; ser pesquisador e se manter professor; ser artista e se manter pesquisador; parece uma ciranda. E é”, escrevem os curadores. À tríade soma-se a extensão universitária, formando o que eles chamam de “trindade quaternária”.

Vira Lattes
Ricardo Maurício, Nuvem chuva lápis-de-cor (2025), lápis dermatográfico e papel, e Máscara (2025), papel, papelão, tinta\colagem. Foto: Fabíola Fraga.

No fecho do texto, o vira-lata aparece como figura de resistência à corrida por produtividade imposta pelas instituições. Confiando num certo lugar de independência, ele “vira o lattes, late, arfa e resfolega: arte! arte! Arte!”.

A abertura, em 8 de outubro, foi precedida por uma palestra da artista e professora Márcia Ferran, da Universidade Federal Fluminense (UFF), sobre sua pesquisa artística. Márcia também está entre os expositores.

Em entrevista à ARTE!Brasileiros, Ricardo Maurício, curador e artista da mostra, comenta a ironia do título, a relação entre ensino, pesquisa e criação, os cuidados de quem cura uma exposição da qual também participa e o papel da universidade pública no circuito de arte do Espírito Santo.

Um vira-lata diante das métricas

Os instrumentos de avaliação da produção acadêmica no Brasil foram pensados, em grande parte, a partir dos padrões das ciências exatas e biomédicas. Neles, o professor que também produz arte nem sempre encontra lugar. É dessa inadequação que o título da exposição tira sua ironia.

ARTE!Brasileiros: O título brinca com o vira-lata e com o Currículo Lattes. Que relação vocês quiseram provocar entre a métrica da produtividade acadêmica e a liberdade, meio sem dono, do vira-lata?

Ricardo Maurício: Buscamos, pela via da ambiguidade, uma abordagem irônica da imposição quantitativa dos instrumentos de avaliação da produção acadêmica. Esses instrumentos têm dificuldade em lidar com a figura híbrida do artista-professor-pesquisador, esse “vira-lata” que se apresenta como um “outro” diante de parâmetros focados nos padrões das ciências exatas e biomédicas.

A!B: O subtítulo, “pesquisa e confia?”, termina com uma interrogação. Desconfiar faz parte do método?

RM: Cada cabeça, uma sentença. Na minha avaliação, a dúvida incide sobre uma indagação: é suficiente pesquisar e produzir para que se possa confiar?

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Lincoln G. Dias, o fólio, 2026. Foto: Fabíola Fraga.

Ensinar, pesquisar, criar

Para os curadores, o desafio do professor artista é “fazer o que ensina e pesquisar o que faz”. O texto da mostra vai além e propõe acompanhar a trajetória dos estudantes sem perder a própria. Na prática, segundo Ricardo Maurício, essas dimensões mais se alimentam do que se chocam.

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Isabela Frade, Instalação arte Sonora com montagem em objetos de cerâmica, 2016-2026, aparatos elétricos|eletrônicos e grãos. Foto: Fabíola Fraga.

A!B: O texto curatorial fala em uma “trindade quaternária”: ensino, pesquisa, extensão e criação. Na sua experiência, onde essas dimensões se alimentam e onde entram em conflito?

RM: A meu ver, há mais mútua alimentação que conflito. As esferas se aproximam e se estimulam constantemente. O que se transmite em sala de aula e o que se descobre na investigação teórica retorna para a produção artística, e vice-versa, o tempo todo.

A!B: O texto diz que é preciso acompanhar a trajetória dos estudantes “sem perder a própria”. Como você lida com isso no dia a dia, como professor que segue produzindo?

RM: O desafio para o professor que também é artista consiste em manter a percepção dos limites entre o próprio trabalho e o de seus alunos e alunas. Onde termina um e começa o outro? Como as sugestões para a construção de uma poética própria delas e deles podem ultrapassar esses limites e contaminar processos autorais? O desafio é constante, cotidiano mesmo: manter certo grau de lucidez.

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Gilca Flores, Cocoi, 2026, aquarela, guache sobre papel|desenho. Foto: Fabíola Fraga.

Curadores que também expõem

No Vira Lattes, os três curadores estão também entre os artistas. A posição dupla exige cuidado com o próprio trabalho e com a forma de organizar 35 produções muito distintas no espaço da GAP. O resultado, descreve Ricardo, é uma exposição feita de tensões e diálogos.

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Hernani Guimarães, Os meninos (2026) Meninos vestem rosa (2026), colagem. Foto: Fabíola Fraga.

A!B: Como foi curar uma mostra em que os próprios curadores também expõem? Que cuidados essa posição dupla exige?

RM: Esse, a meu ver, é um dos principais cuidados que o curador-artista deve ter: procurar manter o máximo de objetividade ao lidar com seu próprio trabalho em meio aos outros. A tarefa foi muito facilitada, no caso de Vira Lattes: pesquisa e confia?, pelo fato de haver outros dois colegas na mesma posição, como fiéis da balança a evitar desequilíbrios subjetivistas.

A!B: Com 35 artistas e grande pluralidade de meios e linguagens, qual foi o critério para fazer esses trabalhos conversarem no espaço da GAP sem virar apenas um inventário do departamento?

RM: Procuramos enfrentar o desafio de apresentar as diferenças de mentalidade sobre a visão de arte dos nossos colegas e as nossas próprias, em toda a sua heterogeneidade, e também mostrar convergências de linguagem quando elas ocorrem. O espaço expositivo da GAP, amplo e até difícil em sua configuração, permitiu essa abordagem produtiva. O resultado são tensões e diálogos, divergências e proximidades. Tem de tudo: desenho, pintura, objetos, cerâmica, instalações, fotografias, vídeos.

Três edições e um diálogo que se amplia

O Vira Lattes chega à terceira edição. Yiftah Peled, curador das duas anteriores, observa que a exposição foi incorporando mais convidados externos, incluindo professores de outras universidades, “algo que promove um diálogo desejado”.

Também a produção dos professores mudou ao longo das edições. Segundo Yiftah, “nota-se a diversificação dos meios e algumas poéticas que se aproximam da pedagogia, na medida em que buscam a participação nos processos de produção”. Para Ricardo, porém, o intercâmbio entre universidades ainda depende mais de esforços pessoais do que de políticas institucionais.

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Fabíola Menezes, corpo-casa: “para além de natureza e cultura”, 2026, técnica mista sobre papel. Foto: Fabíola Fraga.

A!B: Sete participantes vêm de outras universidades. O que esse olhar de fora acrescenta, e que diálogo existe entre a produção do DAV/UFES e a de outros centros?

RM: O diálogo é, até certo ponto, incipiente e depende de esforços pessoais bem mais do que de incentivos institucionais, principalmente no que diz respeito às exposições artísticas, mais do que à circulação da produção acadêmica. O Vira Lattes se propõe a colaborar para uma maior aproximação e a contribuir para o preenchimento dessa lacuna.

A!B: Depois de três edições, o Vira Lattes já tem história. Para onde vocês querem levar o projeto nas próximas?

RM: O Vira Lattes começou como um projeto periódico anual, uma oportunidade de exposição da produção dos professores-artistas dos cursos de artes visuais da UFES e de contato dessas produções com alunas e alunos. Restabelecida essa anualidade, a intenção é mantê-la. Mas ainda não está definido nenhum viés curatorial para a próxima edição, como o que foi definido pelo subtítulo desta.

Arte, universidade pública e cidade

Uma exposição de professores artistas numa galeria universitária também é um gesto político. Para Ricardo, ela defende a especificidade da pesquisa em arte e a liberdade que a universidade pública oferece longe das imposições do mercado. Defende, ainda, o papel da GAP na formação de público no Espírito Santo.

A!B: Uma exposição de professores artistas numa galeria universitária pode funcionar também como gesto político, em defesa da arte como forma legítima de pesquisa. Você vê o Vira Lattes assim, especialmente no contexto atual das universidades públicas?

RM: Sem dúvida. Primeiro, em defesa da especificidade da arte e da pesquisa em arte, que é diferente da pesquisa sobre arte, com outra especificidade. Esse aspecto é bem problemático, como mencionei antes, no que diz respeito aos critérios e às categorias avaliativas do Currículo Lattes, por exemplo.

A!B: A universidade pública é hoje um dos poucos espaços onde a arte pode ser produzida sem depender diretamente do mercado. Que tipo de obra, de experimentação ou de risco só se torna possível dentro dela?

RM: É exatamente essa liberdade, derivada da independência em relação às imposições do mercado, que torna possível a ampliação do campo de experimentação em arte e a renovação de linguagens, livres dessas amarras. Em 2024, escrevi um artigo para a revista Palíndromo, da UFSC, respondendo a um desafio proposto em forma de dossiê pelo professor Stéphane Huchet, da UFMG, que indagava: arte para quem? Arte para quê? Chamei o texto de A lua, o lobo, o copo de vinho e o coração selvagem da arte e evoquei a fábula de La Fontaine em que um cachorro e um lobo confrontam suas respectivas liberdade, faminta, e obediência, geradora de conforto e restrições.

A!B: Galerias universitárias como a GAP formam público, abrem espaço para artistas em início de carreira e documentam a produção local. Qual o papel da universidade pública na construção do circuito de arte no Espírito Santo, e o que ainda falta para que esse papel seja reconhecido?

RM: Talvez uma maior aproximação entre essas instâncias, não só para o reconhecimento desse papel, que é fundamental, mas para a construção de uma dinâmica mais orgânica entre arte e sociedade, de modo que a arte possa estar mais presente na vida de todos. É impressionante como, apesar de todo o avanço na democratização do acesso, a maioria das pessoas ainda está alijada do processo de criar e fruir arte. Muitas nunca entraram num museu ou numa galeria pública, que são de todos nós.

Infelizmente, por falta de hábito, mesmo nossas alunas e alunos frequentam muito pouco vernissages e exposições, apesar da nossa insistência. O Vira Lattes é uma tentativa, um pequeno tijolo nessa construção.

 


SERVIÇO
Vira Lattes: pesquisa e confia? 2026 Galeria de Arte e Pesquisa da UFES (GAP/UFES), Vitória (ES) Até 5 de novembro de 2026
Visitação: terça a sexta, de 9h às 12h e de 13h às 17h


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