Vladimir Herzog
Créditos: Wilson Ribeiro/ Acervo Vladimir Herzog

Por Giuliano de Miranda 

Na manhã de 25 de outubro de 1975, Vladimir Herzog se apresentou voluntariamente ao DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, para prestar depoimento. Tinha 38 anos, era diretor de jornalismo da TV Cultura, professor, apaixonado por cinema e teatro. Não saiu de lá com vida. Horas depois, o regime divulgou a fotografia que deveria encerrar o assunto: Vlado pendurado numa grade baixa demais para um enforcamento, com as pernas dobradas e os pés tocando o chão. A versão do suicídio era tão grosseira que acabou virando, ela mesma, uma prova.

Cinquenta e um anos depois, em 25 de outubro de 2026, eleitoras e eleitores voltam às urnas no segundo turno que vai definir a Presidência da República e o governo de seis estados e do Distrito Federal. O calendário não escolhe suas coincidências, mas nós podemos escolher o que fazer com elas. E esta é eloquente: no mesmo dia em que o Estado brasileiro matou um homem por causa de suas ideias, milhões de pessoas vão expressar as suas livremente, numa cabine de votação, sem precisar pedir licença a ninguém.

O voto não é rotina, é conquista

Para quem nasceu depois de 1985, votar pode parecer um gesto banal, quase burocrático. Não é. Em 1975, o presidente do país era escolhido por um colégio eleitoral controlado pelos militares. A imprensa trabalhava com censores nas redações, canções eram vetadas, peças eram proibidas na véspera da estreia. A eleição direta para presidente só voltaria em 1989, depois de anos de mobilização popular.

A morte de Herzog é um dos pontos de virada dessa história. A indignação que ela provocou rompeu o medo de uma parte importante da sociedade e ajudou a acelerar o desgaste do regime. A democracia que temos hoje foi construída também sobre aquele corpo.

O autoritarismo raramente se anuncia

Nenhuma ditadura começa se apresentando como tal. O autoritarismo avança por pequenas concessões: o desprezo pela imprensa, o tratamento de adversários como inimigos a serem eliminados, a desconfiança sistemática das instituições, a tolerância com a violência do Estado contra quem pensa diferente, a ideia sedutora de que a ordem vale mais do que a liberdade. Em 1975 também havia quem achasse exagero falar em ditadura.

A memória serve justamente para reconhecer esses sinais cedo, venham de onde vierem. Esse alerta não tem dono nem partido. Vale para qualquer governante, de qualquer campo, que se sinta tentado a tratar a democracia como obstáculo, e vale para cada eleitor que, na frustração com a política, flerta com soluções de força. A democracia é imperfeita, lenta e cheia de ruído. A alternativa a ela já foi experimentada, e Herzog é uma das muitas provas do seu custo.

Enterro do estudante Edson Luís. Foto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã

A arte respondeu primeiro

Quando a imprensa estava amordaçada, foram a arte e a cultura que encontraram brechas para dizer o indizível.

Seis dias após a morte, em 31 de outubro de 1975, um ato ecumênico na Catedral da Sé, conduzido por Dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo reverendo Jaime Wright, reuniu cerca de oito mil pessoas cercadas por barreiras policiais. Foi um protesto feito de silêncio, e talvez por isso tão difícil de reprimir.

O artista Cildo Meireles levou a pergunta para dentro da economia. Dentro da série Inserções em circuitos ideológicos, carimbou em cédulas de dinheiro a frase “Quem matou Herzog?” e as devolveu à circulação. Nenhum censor conseguiria recolher todas as notas: a pergunta passava de mão em mão, anônima e incontrolável. Hoje a obra integra o acervo do MoMA, em Nova York.

No teatro, Gianfrancesco Guarnieri escreveu Ponto de Partida (1976), uma alegoria ambientada numa aldeia medieval sobre a morte de um poeta encontrado enforcado, referência transparente ao caso. Na música, O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, eternizada por Elis Regina em 1979, tornou-se o hino da anistia e lembra o choro das mulheres que perderam seus companheiros para a repressão, entre elas Clarice Herzog.

CildoMeireles, Cédula Quem Matou Herzog. Acervo Instituto Vladimir Herzog
CildoMeireles, Cédula Quem Matou Herzog. Acervo Instituto Vladimir Herzog

A memória que não se cala

Ao longo das décadas, a cultura seguiu fazendo o trabalho que a Justiça demorou a fazer. O Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, criado em 1979, segue reconhecendo o jornalismo comprometido com a dignidade humana. O documentário Vlado: 30 Anos Depois (2005), de João Batista de Andrade, reuniu testemunhos de quem viveu aquele outubro. O Instituto Vladimir Herzog mantém viva sua trajetória, inclusive em exposições que reconstituem sua vida, seu trabalho e sua permanência como símbolo.

Mais recentemente, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, ao contar a história de Eunice e Rubens Paiva, levou milhões de brasileiros aos cinemas e conquistou o Oscar de melhor filme internacional em 2025. A prova de que essa história ainda mobiliza, sobretudo os mais jovens, que não viveram o período mas reconhecem nele algo que precisa ser lembrado.

O Estado também acabou, tardiamente, dando razão à arte. Em 2013, a família recebeu um novo atestado de óbito reconhecendo que Vlado morreu em decorrência de lesões e maus-tratos. Em 2018, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil por não ter investigado nem punido os responsáveis.

O que a urna guarda

Vladimir Herzog não teve direito a defesa, a advogado, a julgamento. Teve uma sala fechada e uma versão oficial mentirosa. Nós temos o que lhe foi negado: a liberdade de escolher, de discordar em voz alta, de perder uma eleição e continuar vivo para disputar a próxima.

Neste domingo, a escolha não é abstrata. Estão em disputa dois projetos de país que se definem, entre outras coisas, pela relação que mantêm com aquele outubro de 1975.

De um lado, um campo político cujas principais lideranças já exaltaram torturadores como heróis, tratam o golpe de 1964 como movimento salvador e lançam suspeitas sobre as urnas, a imprensa e os tribunais sempre que estes lhes impõem limites. Nesse projeto, a cultura é vista com desconfiança, artistas são tratados como inimigos e a memória da ditadura é assunto a ser esquecido.

De outro, um projeto que, com contradições, erros e limites que merecem ser cobrados, reconhece o resultado das urnas como regra do jogo, trata a memória das vítimas da ditadura como dever do Estado e a cultura como direito e política pública, e não como ameaça.

Não é preciso concordar com tudo o que um lado propõe para perceber que apenas um deles cabe na democracia sem forçá-la. Herzog morreu porque um projeto de poder decidiu que certas ideias não tinham direito de existir. Ir às urnas neste 25 de outubro, votar de forma consciente e defender que o resultado seja respeitado é a forma mais poderosa de honrar sua memória.

Cinquenta e um anos depois, a pergunta carimbada por Cildo Meireles continua circulando. A resposta que a democracia oferece a ela cabe em duas palavras: nunca mais.


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