Por Giuliano de Miranda
Carolina Ruas chegou ao comando da Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo depois de uma trajetória de quase duas décadas ligada à produção cultural. Jornalista de formação, começou a se aproximar desse universo ainda na Universidade, entre o movimento estudantil, a Rádio Universitária, a cobertura de exposições e eventos e o contato com artistas e produtores. Passou por redação e teatro, mas a experiência como repórter acabou despertando outro interesse: participar diretamente da realização daquilo que antes acompanhava. Vieram trabalhos em festivais de música e no Festival de Cinema de Vitória, além da convivência com uma geração que, diante das lacunas existentes no Estado, buscou criar os eventos e circuitos que desejava frequentar.
Carolina integrou posteriormente o programa Rede Cultura Jovem, participou da elaboração do Plano Estadual de Cultura, passou pela Secretaria Municipal de Cultura de Vitória e, em 2019, foi convidada por Fabrício Noronha (Secretário de Cultura do Estado do Espírito Santo) para assumir uma subsecretaria na Secult. Agora, como titular da pasta, assume projetos cuja formulação e desenvolvimento acompanhou de perto.
Giuliano de Miranda: Você costuma dizer que é uma pessoa “da cena, da rua”. Como essa experiência prática conduziu sua trajetória até a gestão pública?
Carolina Ruas: Minha trajetória nunca foi planejada para chegar a esse lugar, mas, quando olho para trás, percebo que as experiências acabaram me conduzindo até aqui. Trabalho com produção cultural há quase 20 anos e praticamente toda a minha vida profissional esteve ligada a esse campo. Comecei ainda na universidade, participando do movimento estudantil, organizando atividades e fazendo coisas com meus amigos. Sou jornalista de formação e minhas primeiras experiências profissionais também já estavam relacionadas à cultura. Na rádio universitária, por exemplo, fazia um programa com outros estudantes e entrevistava artistas. Foi assim que conheci boa parte da cena do Espírito Santo. Minha formação é muito prática. Sou da rua, não do gabinete. Até hoje, quando chego aos lugares, muitas vezes as primeiras pessoas que conheço são os montadores, os técnicos, os fornecedores, porque são eles que estão fazendo as coisas acontecerem.
GM: Você e Fabrício Noronha trabalhavam juntos antes da Secretaria? O que caracterizava aquela geração de produtores?
CR: Somos parceiros há muitos anos, desde antes de ele ser Secretário. Fazemos parte de uma geração muito de arregaçar as mangas e fazer, de tentar produzir a cena que queríamos para o Estado.
Havia muitas lacunas e falta de oportunidades, tanto para receber exposições, shows, filmes e outras atividades quanto para os próprios artistas daqui conseguirem se projetar para fora. Nós nem éramos artistas e fomos nos encaixando nesse lugar da produção porque queríamos construir aquilo que desejávamos ver. Queríamos realizar festivais para trazer artistas de que gostávamos, ter acesso a determinados tipos de música e cinema e, ao mesmo tempo, movimentar o Espírito Santo. Houve também um período muito marcado pelos coletivos, que foram importantes para reunir pessoas e alimentar essa movimentação.

Da produção à formulação de políticas públicas
A experiência no Rede Cultura Jovem abriu uma nova frente no percurso de Carolina. O programa, voltado a políticas culturais para a juventude, tinha editais, formação de agentes comunitários e uma equipe também jovem, pensada para estabelecer diálogo direto com esse público.
Depois, a participação na elaboração do Plano Estadual de Cultura ampliou sua percepção sobre o território. O trabalho envolveu percorrer diferentes regiões para identificar potencialidades, deficiências e expectativas. Se os coletivos haviam ajudado a compreender principalmente Vitória e a movimentação ao seu redor, o plano permitiu enxergar o Espírito Santo em outra escala.
Em 2018, Carolina integrou a Secretaria Municipal de Cultura de Vitória e trabalhou com a Lei Rubem Braga (lei de incentivo à cultura) durante um período de retomada e reformulação. A passagem foi breve. No ano seguinte, ingressou na Secult como subsecretária.
GM: O que essas primeiras experiências na gestão mudaram na sua compreensão sobre política cultural?
CR: O Rede Cultura Jovem foi minha primeira experiência diretamente ligada à política pública do Estado. Havia editais que podiam ser acessados por jovens a partir dos 15 anos, formação para agentes comunitários e uma equipe formada também por pessoas muito jovens, justamente para criar uma relação com esse público. Depois fui convidada para participar da elaboração do Plano Estadual de Cultura. Percorremos todo o Espírito Santo para fazer um diagnóstico, entender as potências e as deficiências nos municípios e ouvir o que as pessoas desejavam para construir um plano decenal. Foi muito importante porque, se o trabalho com os coletivos tinha me ajudado a compreender Vitória e aquela cena mais próxima, esse processo me permitiu compreender o Espírito Santo como um todo, sua formação e suas raízes.
Em seguida, fui para a Secretaria Municipal de Cultura de Vitória trabalhar com a Lei Rubem Braga. Em 2019, Fabrício Noronha me convidou para assumir a subsecretaria na Secult.
GM: Você participou diretamente da gestão anterior. Agora, como secretária, a prioridade é manter o que já vinha sendo feito ou abrir novas frentes?
CR: É continuar no trilho abrindo novos caminhos. A política de cultura é um contínuo. Política pública precisa de tempo para se consolidar, e muitas coisas foram pavimentadas ao longo desses anos e agora entram em outras etapas.
Construímos, por exemplo, um modelo de gestão para equipamentos como o Parque Cultural Casa do Governador e o Cais das Artes do Espírito Santo por meio de parcerias com outras instituições. Esse modelo precisa ser consolidado, avaliado e refinado. No Cais, houve um momento em que a prioridade era finalizar uma etapa da obra e abrir. Agora é necessário avançar na estruturação como equipamento cultural. Entram a discussão do programa que será oferecido à sociedade, o plano museológico e as diretrizes curatoriais.
Há muitas coisas em andamento que começaram anteriormente. Temos também a instalação de seis CEUs (Centros Culturais) previstos para municípios do Estado do Espírito Santo: Vila Velha, Cariacica, Serra, Linhares, Baixo Guandu e Fundão. A proposta é descentralizar os equipamentos e ativar esses territórios. Nem tudo será construído e entregue em um período curto, mas podemos iniciar e estruturar esses processos.
Intercâmbio, circulação e uma política para além do edital
Entre as frentes que Carolina Ruas considera estratégicas para os próximos anos está o audiovisual. Na avaliação da secretária, os editais continuam necessários, mas o setor já exige um desenho mais amplo, capaz de reunir qualificação profissional, acesso a mercados, atração de produções e troca com agentes externos.
Essa abertura também aparece quando ela fala de artistas, espaços e instituições. A circulação, em sua leitura, não pode significar apenas a saída de profissionais capixabas em direção a centros maiores. Interessa criar relações nos dois sentidos: levar a produção do Espírito Santo para fora e trazer outros projetos, referências e interlocutores para o Estado.
GM: O audiovisual é uma das áreas em que você identifica a necessidade de uma política mais específica?
CR: Sim. É um setor estratégico porque alavanca muitos outros. Nos últimos anos mantivemos uma política de fomento por meio dos editais, mas agora precisamos conectar outras frentes. Isso envolve formação, qualificação profissional, oportunidades em janelas de mercado fora daqui e também atração de produções para o Espírito Santo. A ideia é criar intercâmbio entre quem produz aqui e quem produz em outros lugares. É uma frente que já conseguimos começar a estruturar como programa.
GM: E essa lógica de intercâmbio pode alcançar outras áreas da cultura?
CR: Acho que sim. É sempre muito saudável. Quando você encontra o outro, encontra aquilo que é diferente, troca e percebe também o que pode estar faltando. Podemos articular espaços, colocá-los em contato, dar circulação e visibilidade às atividades. Eles podem aprender mutuamente e ter experiências para fora. Mas não é só sair. Sair é importante, assim como voltar e trazer coisas para cá.
Considero termos uma síndrome de pensar que somos muito pequenos. Podemos ser pequenos em número, mas, pela qualidade da produção e pela consistência do trabalho, somos relevantes. Há artistas daqui circulando e também começamos a perceber um interesse maior de artistas de fora em vir para o Espírito Santo. Existem barreiras estruturais e centros como São Paulo e Rio de Janeiro terão sempre uma concentração e um mercado muito maiores. Isso não significa que apenas eles possam ocupar lugares de vanguarda. Nós também temos condições.
Os limites do fomento por editais
A ampliação do fomento, entretanto, trouxe um problema que Carolina considera necessário enfrentar. O acesso aos editais não ocorre em condições iguais. Quem já domina os processos de inscrição, possui recursos técnicos e acesso à informação tende a acumular experiência e aumentar as chances de ser novamente contemplado. Para quem ainda não entrou nesse circuito, as barreiras permanecem maiores.
A solução, segundo ela, passa por mecanismos capazes de distribuir melhor os recursos e ampliar o alcance territorial. Mas o desafio não termina na seleção dos projetos: a gestão precisa pensar também no que permanece quando o recurso financeiro se encerra.
GM: O edital continua sendo indispensável, mas precisa ser corrigido?
CR: Ele é fundamental, principalmente para expressões de menor visibilidade e mais frágeis do ponto de vista do mercado. Ao mesmo tempo, pode reproduzir desigualdades que já existem na sociedade. Quem tem mais acesso à informação, aos recursos e à tecnologia acaba largando na frente. Se uma pessoa já aprovou um projeto, ela aprende como aquele mecanismo funciona e tende a ter mais facilidade nas próximas vezes. Quem nunca acessou encontra mais dificuldade. Por isso precisamos fazer correções e induções para tornar os recursos mais distributivos. Cotas e mecanismos de territorialização ajudam nesse sentido.
Também não basta entregar o recurso. O desafio é fazer com que o projeto tenha longevidade, conectar iniciativas que acontecem em lugares diferentes e estimular trocas. O ideal é que essas ações consigam existir para além daquele financiamento específico.
GM: Como encontrar um equilíbrio entre o apoio público e a sustentabilidade desses espaços?
CR: O estímulo é importante para que continuem existindo, mas essas instituições também precisam amadurecer. Algumas vão nascer e encerrar seu ciclo; outras têm condições de construir um trabalho mais robusto, crescer e encontrar formas de sustentabilidade. A política pública precisa ser indutora da cena, não responsável inteiramente por ela. É necessário criar um ambiente no qual outros atores consigam se desenvolver, buscar alternativas e ampliar suas relações. Também é interessante perceber como um espaço alimenta o outro. Surge um lugar, forma-se uma movimentação ao redor, outras pessoas criam novos espaços e aquela rede começa a se retroalimentar.
Formação, patrimônio e espaços de encontro
Entre o que ainda não avançou na medida que gostaria, Carolina destaca a formação cultural. A expansão de projetos, recursos e equipamentos criou novas oportunidades, mas também aumentou a demanda por profissionais qualificados.
Nas artes cênicas, o tema ganha peso adicional. Ela observa que as gerações estão mudando e que o Estado precisa formar novos atores, dramaturgos e outros profissionais. A ausência de uma política continuada, capaz de articular cursos livres e formação técnica, é apontada como uma lacuna.
Outro campo que exige abordagem própria é o da cultura popular. Para Carolina, os editais não conseguem responder sozinhos à preservação dos saberes transmitidos por mestres e mestras. Reconhecimento, registro e acompanhamento são dimensões igualmente necessárias.
GM: Quais são hoje as lacunas mais evidentes que ainda precisam ser enfrentadas?
CR: Uma delas é a formação. Ainda não conseguimos construir uma política mais robusta e contínua, que trabalhe em vários níveis, desde cursos e oficinas livres até qualificação técnica. Se temos instituições e uma produção mais estruturada, também precisamos de pessoas bem formadas para trabalhar nesse ambiente. Nas artes cênicas isso aparece de maneira muito clara. As gerações vão mudando e é necessário formar novos atores, dramaturgos e outros profissionais.
Outra questão é a salvaguarda da cultura popular, especialmente dos mestres e mestras. Existem ações e editais, mas esse campo exige uma delicadeza diferente. Não é apenas o recurso que fará a diferença. É preciso reconhecer, acompanhar, registrar expressões e saberes populares e dar visibilidade a conhecimentos que muitas vezes são orais e transmitidos entre gerações. É uma política que precisa avançar por meio das próprias pessoas que mantêm esses saberes vivos.

GM: O que o Parque Cultural Casa do Governador revela sobre novas formas de pensar um equipamento cultural?
CR: Ele é um primeiro passo na direção de um tipo de espaço que não tínhamos antes. Muitos equipamentos são especializados em determinados públicos. O Parque é multicultural. Circula por ali todo tipo de gente: crianças, pessoas mais velhas, estudantes de artes, quem vai à feira de artesanato, quem pratica ioga, quem leva o cachorro para caminhar. Há pequenas comemorações acontecendo de forma completamente autônoma e espontânea. Isso é muito interessante porque a gente não precisa falar de arte o tempo todo para estar falando de cultura. Cultura também é o lugar onde as pessoas se encontram, se conectam e trocam experiências.

Entre a recuperação do patrimônio cultural e a construção de novos espaços
O Theatro Carlos Gomes representa uma experiência diferente. O desafio foi preservar um equipamento centenário e, ao mesmo tempo, atualizá-lo. Carolina considera a reabertura um símbolo da possibilidade de conciliar tradição, acessibilidade e recursos técnicos contemporâneos. A retomada do teatro também se relaciona a um período em que diversos palcos permaneceram fechados ou com atividades reduzidas. A reconstrução de um circuito para as artes cênicas, portanto, envolve tanto prédios quanto formação e circulação.
No Cais das Artes, a etapa atual passa pela consolidação institucional. Além do programa, do plano museológico e das diretrizes curatoriais, permanece no horizonte a entrega do teatro do complexo, concebido para receber produções que exigem uma estrutura inexistente hoje em outros espaços do Estado.
A ampliação do acesso não se restringe, porém, aos grandes equipamentos. Carolina Ruas cita a Biblioteca Transcol, instalada em terminais do sistema metropolitano de transporte, como exemplo de uma experiência que coloca os livros no caminho cotidiano de milhares de passageiros. Para ela, iniciativas que funcionam podem ser replicadas e levadas a outros lugares.
A Secretária também recorre à formação acadêmica em Economia para explicar uma preocupação com o futuro: previsibilidade. Uma política continuada permite que artistas, produtores, curadores e técnicos vislumbrem condições para desenvolver suas trajetórias no Espírito Santo. Sem isso, repete-se um movimento conhecido por sua geração: profissionais que saem para estudar ou trabalhar em grandes instituições e acabam construindo a carreira fora. Carolina não questiona a circulação; ao contrário, considera a troca necessária. O que defende é a possibilidade de sair, retornar ou permanecer sem que o deslocamento se transforme na única alternativa de crescimento.
GM: O que mais preocupa quando você pensa no futuro da cultura no Estado?
CR: Existe uma necessidade de permanecer vigilante e acompanhar aquilo que foi construído. A continuidade dá previsibilidade. Se alguém começa agora como artista, produtor ou curador, precisa encontrar oportunidades para se desenvolver com qualidade aqui. Minha geração viu muita gente sair para estudar e depois trabalhar em outras instituições, inclusive fora do país. Isso faz parte da circulação e pode ser muito positivo. Mas também precisamos criar condições para que existam trajetórias no Espírito Santo. Ir para fora é importante, voltar também é. Essa troca alimenta o que fazemos aqui. Quando damos um passo, percebemos o quanto ainda existe para caminhar. A política precisa continuar amadurecendo, ampliando acesso e criando novas possibilidades.
Ao final, Carolina retorna à comparação com os grandes centros. Reconhece as diferenças de escala, mas rejeita que elas sejam usadas para medir a qualidade da produção local. Para ela, artistas circulando, equipamentos mais preparados, espaços independentes e maior interesse de agentes externos indicam que o Espírito Santo tem condições de ocupar posições mais afirmativas no circuito cultural.
GM: O Espírito Santo ainda se enxerga como pequeno diante dos grandes centros?
CR: Acho que ainda existe um pouco essa ideia, mas não somos tão pequenos assim. Podemos ter uma escala menor, porém isso não diminui a qualidade e a consistência daquilo que é produzido aqui. Temos artistas muito bons, instituições mais fortes e espaços capazes de receber projetos. Nossos artistas estão circulando e profissionais de fora também começam a demonstrar interesse em vir para o Estado. Centros maiores continuarão tendo mercados maiores. Isso não significa que tenham exclusividade sobre a vanguarda. Nós também temos condições de ocupar esse lugar.





