Rosana Paste e Lando na Galeria Matias Brotas na abertura da exposição, julho de 2026. Foto: Cloves Louzada.

Por Giuliano de Miranda

Nenhum corpo permanece igual ao longo da vida. A matéria também não. Ela retrai, oxida, rompe, endurece, acumula marcas e registra a passagem do tempo de maneiras que nem sempre podem ser previstas. Em escalas diferentes, corpo e matéria compartilham uma mesma condição: ambos são atravessados por transformações contínuas.

É dessa percepção que parte “Eu é o outro“, exposição que reúne obras inéditas de Lando e Rosana Paste na Galeria Matias Brotas, em Vitória. Embora desenvolvam pesquisas independentes e utilizem materiais distintos, os dois artistas encontram um ponto de convergência na compreensão da criação artística como um processo permanente de investigação.

Na conversa com os artistas, fica claro um aspecto que nem sempre se torna evidente ao primeiro olhar do visitante. Tanto Lando quanto Rosana falam menos das obras acabadas do que dos processos que lhes deram origem. O ateliê aparece como espaço de investigação permanente, onde o erro, o acaso e a resposta inesperada dos materiais deixam de ser obstáculos para se tornarem parte da construção da obra.

Lando
Lando, sem título, 1999, acrílica sobre tela. Foto: Cloves Louzada.

Nos últimos meses, Lando decidiu colocar-se novamente na posição de aprendiz ao dedicar um período de formação à cerâmica em Portugal. A experiência não significou uma ruptura com sua produção anterior, mas a continuidade de uma trajetória que sempre transitou entre diferentes linguagens, recusando limitar sua pesquisa a um único meio expressivo. “Foi um momento muito rico. Quando você se coloca novamente na condição de aprendiz, percebe que sempre há outras possibilidades para o trabalho. A cerâmica me levou a experimentar novos procedimentos e abriu caminhos que certamente continuarão repercutindo na minha produção”, afirma.

Cabeças
Lando, Cabeças, 2026, cerâmica. Foto: Cloves Louzada.

Ao longo de sua trajetória, construiu uma produção marcada pela escultura, pela fotografia, pelo desenho e por diferentes experimentações com materiais. Em comum, permanece o interesse pelas transformações da matéria e pela maneira como o tempo modifica tanto os objetos quanto a percepção de quem os observa.

Rosana Paste percorre caminho semelhante, embora parta de outra experiência sensível. Seu trabalho nasce da observação do próprio corpo e das marcas deixadas pela passagem do tempo, convertendo experiências íntimas em esculturas que ultrapassam o caráter autobiográfico para alcançar questões compartilhadas por qualquer indivíduo.

Rosaninhas
Rosana Paste, Rosaninhas, 2026, bronze. Foto: Cloves Louzada.

Entre os destaques da mostra está a série Cabeças, de Lando. As esculturas recusam a lógica tradicional do retrato e apresentam rostos que parecem existir entre a lembrança e a imaginação. Cada peça preserva as marcas do modelado manual, da manipulação do barro e da ação do fogo, tornando visível o processo de sua construção. As obras sugerem identidades abertas, sujeitas às mudanças impostas pelo tempo, pela experiência e pela própria matéria. Essa investigação prossegue na série fotográfica Margem Sul, em que a paisagem deixa de funcionar apenas como registro documental para assumir uma dimensão sensível. As imagens revelam espaços onde permanência e transformação coexistem, evidenciando que também os lugares acumulam marcas do tempo e da memória.

Coágulos
Lando, Coágulos, 2026, cerâmica. Foto: Cloves Louzada.

Nas obras da artista, essa reflexão assume outra materialidade. Em Cabeça Oca, o vazio deixa de representar ausência para tornar-se elemento constitutivo da escultura. O espaço interno permanece aberto à imaginação do observador, fazendo com que aquilo que não está preenchido adquira a mesma importância da superfície em bronze. A artista desloca a atenção da forma acabada para aquilo que permanece em construção, sugerindo que toda identidade conserva espaços ainda desconhecidos.

Cabeça Oca
Rosana Paste, Cabeça Oca, 2026, bronze. Foto: Cloves Louzada.

O percurso expositivo encontra um de seus momentos mais expressivos na instalação Cipó, em que bronze e vidro dialogam para construir uma estrutura que parece expandir-se pelo espaço. A obra aproxima materiais de naturezas distintas e sugere crescimento, continuidade e interdependência. Como a planta que lhe dá nome, a instalação ocupa o ambiente estabelecendo conexões, contornando obstáculos e revelando que toda existência se desenvolve a partir dos vínculos que estabelece com o outro.

A disposição para experimentar também aparece na diversidade de materiais reunidos na mostra. Cerâmica, bronze, fotografia, vidro, instalações e objetos convivem sem hierarquia, demonstrando que cada linguagem oferece possibilidades distintas para refletir sobre memória, identidade e transformação. As obras constroem um percurso em que a matéria participa ativamente da elaboração de sentidos.

Nas cerâmicas de Lando, o barro conserva as marcas do gesto e da ação do fogo, revelando um processo que permanece visível mesmo após a conclusão das peças. Nas esculturas de Rosana, o bronze registra medidas do próprio corpo, preservando um instante que já não existe da mesma maneira. Em ambos os casos, o material deixa de ser apenas suporte para tornar-se testemunha da passagem do tempo e das transformações inevitáveis que acompanham toda existência.

Rosana Paste
Rosana Paste, Cipó, 2026, bronze e vidro. Foto: Cloves Louzada.

Essa compreensão também modifica a experiência do visitante. Em vez de percorrer uma sucessão de obras isoladas, o público é convidado a estabelecer relações entre elas. As cabeças modeladas por Lando dialogam com as esculturas corporais de Rosana; as fotografias ampliam a reflexão sobre memória para além da figura humana; as instalações expandem essas questões para o espaço da galeria. Pouco a pouco, percebe-se que nenhuma obra pretende afirmar uma identidade fixa ou definitiva.

Nesse sentido, o título “Eu é o outro” funciona como um convite à reflexão. Ao longo do percurso, torna-se evidente que identidade não corresponde a uma essência imutável, mas a um processo contínuo de construção, atravessado pela memória, pelas relações e pelos materiais que nos cercam. O outro deixa de representar apenas alguém externo para tornar-se parte indispensável daquilo que somos.

Ao final da visita, permanece a impressão de que tanto Lando quanto Rosana Paste recusam qualquer ideia de conclusão definitiva. Suas obras preservam perguntas em vez de respostas, transformando a exposição em um espaço de investigação compartilhada.


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