Tereza de Arruda e Adriana Almada

A 16ª Bienal Internacional de Curitiba retorna ao formato presencial em um momento marcado por profundas transformações tecnológicas, sociais e ambientais. Sob o conceito LIMIARES, as curadoras Adriana Almada e Tereza de Arruda propõem reflexão sobre as zonas de transição que atravessam o mundo contemporâneo e as novas formas de pensar e fazer arte.

Em entrevista à ARTE!Brasileiros, elas comentam os desafios conceituais e os diferenciais de uma bienal que busca ampliar seus horizontes sem perder a conexão com o território que a acolhe.

ARTE!Brasileiros – Depois da edição online de 2021, quais desafios curatoriais e institucionais se apresentam nessa volta ao modelo presencial?

Adriana Almada – Uma interrupção de vários anos sempre representa um desafio importante, tanto para a instituição quanto para as equipes, que precisam se reorganizar e retomar o ritmo. Para a curadoria também foi um desafio, já que, nos últimos cinco anos, ocorreram grandes mudanças no mundo, particularmente no campo das novas tecnologias e da inteligência artificial.

Isso reconfigurou relações geopolíticas, sociais e econômicas, além das formas de circulação cultural. Conceber uma Bienal que dialogue com seu tempo e questione as novas formas de convivência em um planeta em risco foi uma das premissas centrais desta edição.

Tereza de Arruda – Na edição online de 2021, a Bienal de Curitiba foi obrigada a pensar novas formas de mediação e circulação digital, ampliando o alcance do evento, mas também percebendo os limites da experiência virtual diante da potência do encontro presencial com as obras, os artistas e os espaços expositivos.

O desafio atual consiste em integrar os aprendizados adquiridos no ambiente digital sem perder a dimensão humana, espacial e afetiva da exposição presencial. Institucionalmente, isso significa fortalecer redes internacionais, ampliar programas educativos e desenvolver formatos híbridos que dialoguem com públicos diversos. Curatorialmente, o retorno presencial exige pensar a relação entre corpo, espaço, arquitetura e experiência, sobretudo em um momento histórico marcado por transformações sociais, políticas e tecnológicas profundas.

A!B – O conceito “LIMIARES” propõe habitar zonas de transição e incerteza. Como esse conceito será traduzido concretamente na seleção dos artistas e obras da 16ª Bienal?

AA – A seleção buscou obras que expressam essa condição transitória, tanto em suas propostas quanto em suas linguagens. São trabalhos que operam em zonas de cruzamento entre natureza e tecnologia, corpo e algoritmo, memória e simulação, presença e virtualidade.

Embora haja forte presença da inteligência artificial e da virtualidade, há também uma significativa presença material. Esta edição incorpora ainda perspectivas não ocidentais e cosmologias historicamente excluídas das narrativas tecnológicas dominantes. A ideia foi criar um fluxo de obras que se contaminem mutuamente, produzindo conexões e deslocamentos de sentido.

TA – “LIMIARES” parte da ideia de fronteira como espaço de transformação, deslocamento e possibilidade. O conceito se traduz na seleção de artistas cujas práticas abordam estados de passagem, tensões culturais, identidades híbridas, processos de metamorfose e formas de coexistência entre diferentes realidades.

A Bienal reunirá obras que transitam entre materialidades, linguagens e disciplinas, investigando relações entre natureza e tecnologia, memória e futuro, ancestralidade e inovação. O limiar aparece também como espaço de instabilidade e questionamento, onde categorias fixas deixam de existir.

A!B – De que forma a curadoria pretende equilibrar reflexões sobre tecnologia e inovação com questões humanas, sociais e políticas contemporâneas?

AA – Ocorre que a tecnologia tem um impacto direto sobre os corpos e faz parte da construção das subjetividades, afetando, portanto, as relações sociais e as formas de convivência. Nesse sentido, a Bienal não apresenta uma visão celebratória da tecnologia, mas tampouco uma perspectiva distópica.

A curadoria propõe um espaço crítico de reflexão sobre como as transformações tecnológicas estão redefinindo a experiência humana e destaca outras formas de comunicação e intercâmbio, revisitando práticas analógicas. Diante da crescente virtualização da vida, há obras que recuperam questões ligadas aos afetos, ao cuidado, à sensibilidade e às relações entre os seres vivos e seus ambientes, assim como problemáticas territoriais, sociais e políticas diversas.

TA A tecnologia não será apresentada como um fim em si mesma, mas como parte das transformações que atravessam a vida contemporânea. A curadoria procura compreender como os avanços tecnológicos impactam subjetividades, relações sociais, ecologias e estruturas de poder.

Ao lado de obras que utilizam inteligência artificial, realidade imersiva e linguagens digitais, estarão presentes trabalhos que abordam migração, desigualdade, pertencimento, crise climática, memória coletiva e direitos humanos. O interesse da Bienal está justamente em criar diálogos entre inovação e experiência humana, evitando visões puramente futuristas ou tecnocráticas.

A!B – A proposta menciona “novos modos de coexistência”. Quais debates sociais e ambientais a Bienal considera urgentes nesse contexto?

AA – O conceito da Bienal, “Limiares”, parte da questão da convivência em um mundo em transição, afetado por uma crise ecológica e ambiental sem precedentes. O aquecimento global, a perda de biodiversidade, a poluição, o desmatamento, a situação dos mares e dos cursos d’água, o degelo das geleiras, as secas, o extrativismo e o crescimento urbano descontrolado são temas que, de uma forma ou de outra, são abordados pelos artistas.

Por outro lado, também se coloca em debate o impacto das novas tecnologias sobre a vida social e pessoal, assim como as estruturas financeiras que as sustentam: a expansão da inteligência artificial, os sistemas de vigilância, a automação e o uso massivo de dados (big data).

TA – A Bienal considera urgente refletir sobre formas mais sustentáveis, inclusivas e éticas de coexistência. Isso envolve debates sobre emergência climática, preservação ambiental, justiça social, diversidade cultural, direitos indígenas, deslocamentos migratórios e os impactos das tecnologias sobre a vida cotidiana.

Também nos interessa discutir a necessidade de reconstruir vínculos coletivos em um cenário global marcado por polarizações, conflitos e isolamento social. A arte contemporânea possui a capacidade de imaginar outras possibilidades de convivência e produzir espaços de escuta, empatia e troca.

Museu Oscar Niemeyer. Foto: Carlos Renato Fernandes

A!B – Em um cenário global de proliferação de bienais, o que diferencia a Bienal Internacional de Curitiba no circuito internacional da arte contemporânea?

AA – A realidade contemporânea é tão complexa que a existência de muitas bienais ao redor do mundo representa uma oportunidade para destacar questões realmente relevantes. Esta edição soma-se ao debate global sobre as novas formas de interação na era digital, quando as fronteiras entre o real e o virtual, o artificial e o natural tornam-se cada vez mais difusas. Uma característica que diferencia a Bienal de Curitiba é sua capacidade de incorporar a cena local ao projeto internacional. A exposição principal no Museu Oscar Niemeyer se articula com galerias, centros culturais, universidades e iniciativas independentes, refletindo a vitalidade da produção artística de Curitiba, do Paraná e do Brasil.

TA – A Bienal de Curitiba se diferencia por sua capacidade de estabelecer diálogos entre o contexto latino-americano e o circuito internacional da arte contemporânea, criando conexões entre diferentes geografias, culturas e perspectivas críticas.

Outro aspecto fundamental é sua relação com a cidade e com os espaços arquitetônicos e institucionais que a acolhem. Curitiba possui uma identidade cultural singular que permite pensar a Bienal de forma expandida e integrada ao tecido urbano.

Curadoras da 16ª Bienal de Curitiba
Tereza de Arruda e Adriana Almada

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