
Em 2026, o Inhotim, um dos maiores museus a céu aberto da América Latina, completa 20 anos e comemora com iniciativas nas artes, na ecologia e na educação. Nesta última, destaca-se o Descentralizando o Acesso — um dos projetos mais longevos da instituição, que nesta edição convida professores de todo o país a investigar o próprio acervo do museu.
Criado em 2008, o Descentralizando o Acesso — iniciativa da Diretoria de Educação e Território do museu em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) — adota um tema a cada ano. Em 2025, foi “Artes e Pedagogias Indígenas”; nesta edição, o escolhido foi o próprio acervo da instituição, composto por mais de 1.800 obras de mais de 280 artistas. “Aprender com os acervos: coleções contemporâneas e perguntas para o presente” marca os 20 anos do museu, que olha para si mesmo de forma crítica.

É uma das várias iniciativas do Inhotim voltadas ao aprendizado, ao lado do Laboratório Inhotim, do Lab Mães e da Bolsa de Pesquisa Arte e Natureza. João Paulo Andrade, Gerente de Educação Continuada, afirma que a área é uma das prioridades do museu: “A educação não traduz, não está a serviço da arte ou da curadoria. É a área que produz situações para que as pessoas participem de um debate público. Neste ano, o objetivo é tirar a coleção de um lugar em que ela é acessada como fonte e colocá-la num lugar em que é pensada como lugar de investigação. Isso muda tudo”, afirma.
O Descentralizando é composto por quatro etapas. A primeira se trata de um curso de extensão online com certificação da UFMG para 300 professores e estudantes de licenciatura de todo o Brasil. Os encontros foram ministrados por convidados — Wayne Modest, Clarissa Diniz, Pollyana Quintella, Guilherme Marcondes e Diane Lima — que trouxeram reflexões sobre o papel do acervo na produção de conhecimento. “O museu não fala só de arte ou natureza. As fronteiras já estão borradas — e o compromisso público colocando só essas questões em primeiro plano fica frágil”, afirma João Paulo.
A próxima etapa é voltada para cem professores de Minas Gerais, que percorrem o acervo artístico e botânico em percursos acompanhados por profissionais do museu. Em seguida, esses professores acompanham visitas escolares com grupos de estudantes da educação básica. Por fim, dez professores são selecionados para compor a residência editorial e recebem uma bolsa para desenvolver pesquisas que culminam em uma publicação, prevista para outubro.
Fundado em 2006 para abrigar a coleção do empresário Bernardo Paz, o Inhotim foi institucionalizado em 2022. Neste momento, o museu instaurou uma nova política de acervo, voltada para o comissionamento de obras — antes, a programação artística dependia dos gostos pessoais de seu fundador. João Paulo destaca que essa mudança também acarretou uma virada nos públicos e prioridades do museu: “Não adianta nada ter visibilidade mundial sem impacto local”.
Desde então, o museu incorpora trabalhos que dialoguem não só com debates universais, mas com questões locais e específicas do município em que está sediado, Brumadinho. Exemplo disso é “Contraplano”, obra recém-inaugurada de Laís Myrrha que reproduz uma edificação modernista nos moldes de Oscar Niemeyer. A estrutura vazada deixa entrever a paisagem, e o espectador se depara com uma grande área devastada pela mineração, um dos maiores passivos ambientais do estado.

‘Contraplano’ (2026), instalação de Laís Myrrha no Instituto Inhotim (MG). Divulgação/Instituto Inhotim
“Museus e coleções são resultado de uma decisão. Uma decisão que privilegia um campo, público e abordagem em detrimento de outros”, aponta o gerente. “Tem obras que estão aqui desde que o museu abriu — Cildo Meireles, Hélio Oiticica, Adriana Varejão, Tunga. Será que as conversas que tínhamos sobre elas em 2007 são as mesmas de hoje?”, questiona, citando que agora esses trabalhos podem ser reinterpretados ao lado de novas aquisições e mostras, como Dalton Paula e Grada Kilomba, atualmente em cartaz.
A diferença é tangível. Um exemplo é a galeria permanente Cláudia Andujar Maxita Yano – “casa da terra”, na língua Yanomami –, dedicada até então exclusivamente a fotografias de Cláudia Andujar nestas comunidades indígenas. Em 2025, foi reformulada e passou a integrar trabalhos em fotografia e vídeo de 22 artistas indígenas de toda a América do Sul, abrindo o local a novos artistas, povos e cosmologias.

Dalton Paula, um dos artistas brasileiros mais relevantes da atualidade, ganhou a mostra “Dupla Cura”, que investiga processos de apagamento e reconstrução histórica a partir de saberes e cosmologias afro-brasileiras. João Paulo destaca que Paula se envolveu com o Inhotim primeiro pela equipe de educação — em 2024, jovens do projeto Lab Arte Natureza foram levados a um intercâmbio no Sertão Negro, ateliê-escola em Goiânia, passando também pelo Quilombo Kalunga. Idealizado pelo artista e pela pesquisadora Ceiça Ferreira, o espaço é dedicado à formação e à valorização de artistas negros, reflexo de uma visão da arte como formação e redistribuição de recursos, não só como obra exposta.
Nesta edição, especificamente, a arte é colocada em um lugar de suspensão, para ser olhada, criticada, validada, apropriada e pesquisada por agentes da educação de várias áreas — artes, literatura, geografia, mas também disciplinas menos óbvias, como educação física, química e inglês. O professor não é obrigado a levar os aprendizados do Inhotim à sala de aula, mas é o que muitos fazem, e citam as visitas ao museu como experiências transformadoras para seus alunos.
Flávia Barbosa, professora de artes da rede pública em Contagem e Ibirité, participa do Descentralizando o Acesso pela segunda vez. Numa tarde de sábado, acompanhou os arte-educadores do museu e participou de discussões formativas com os outros professores. Já trouxe os alunos ao instituto, que, segundo ela, ficaram deslumbrados com a união de arte e natureza. “Isso aqui tem que ser ainda mais aberto, para trazer mais escolas, porque isso aqui é cultura pura”, afirmou.

Ela conta que já discutiu em sala de aula obras de Paulo Nazareth, como a jornada “Notícias de América”, empreendida pelo artista entre 2011 e 2012, após convite para expor nos Estados Unidos. Nazareth registrou seu percurso, feito sem lavar os pés, caminhando e de ônibus, de Minas Gerais até a feira Art Basel Miami. Barbosa destacou aos alunos a importância dessa peregrinação, que evidencia a desigualdade latino-americana ao contrastá-la com a opulência da feira — uma das mais importantes do mundo, para a qual o artista levou “Mercado de Artes/Mercado de Bananas” (2012), composta por uma kombi repleta de bananas.
O Descentralizando integra a programação dos 20 anos do Inhotim, que se estende ao longo de 2026 com novas exposições e um seminário internacional. Nesta edição, o curso online alcançou professores de 29 municípios mineiros e 33 cidades de outras regiões do país. Em dezembro, será lançado um livro, que compila os projetos e pesquisas dos professores comissionados.




