La Chola Poblete no MASP. Foto: Eduardo Ortega

Na exposição La Chola Poblete – Pop Andino, em cartaz no MASP, o olhar do público é imediatamente desafiado. Mais do que exibir obras, a mostra aciona interpretações que se expandem e incomodam: identidade, religião e poder aparecem em constante disputa. A exposição integra o programa Histórias Latino-Americanas, eixo curatorial que ocupa o museu ao longo de todo o ano.

A produção de La Chola se estrutura a partir de uma lógica de acumulação e desvio. Signos se sobrepõem, referências se contaminam, códigos visuais são deslocados de seus contextos originais e reinscritos em uma gramática que recusa hierarquias claras. Nesse processo, o que poderia ser lido como excesso revela-se método: uma estratégia de saturação que impede a estabilização do olhar. As 31 obras reunidas não compõem um percurso linear, mas um campo instável, no qual cada imagem parece reabrir o problema colocado pela anterior.

Como observa o curador Leandro Muniz, que divide a curadoria com Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp, “La Chola se manifesta na primeira pessoa, mas ultrapassa o âmbito do íntimo e se projeta para o coletivo abordando identidades indígenas, dissidências de gênero e os efeitos persistentes do colonialismo na América Latina”.

Formalmente, a exposição se estrutura a partir de uma linguagem de contaminação. Elementos da cultura pop convivem com iconografias pré-colombianas, referências religiosas e signos da história da arte, produzindo uma visualidade densa, por vezes excessiva, que dissolve hierarquias entre o erudito e o popular. Esse procedimento se evidencia nas aquarelas da série Vírgenes Cholas, nas quais a imagem da Virgem Maria é reconfigurada por símbolos andinos, slogans políticos, referências à moda e à cultura de massa.

La Chola Poblete, Purple María [Maria Púrpura], da série Virgenes cholas [from the series Chola Virgins], 2023

No início de sua trajetória, a artista recorreu à performance como principal meio de crítica ao sistema. Com o tempo, passou a deslocar essa carga discursiva para o desenho e aquarela. “La Chola percebe que, no lugar desse tipo de apresentação, seus desenhos poderiam ganhar mais corpo e presença, além de fazer circular as mesmas ideias em diferentes formatos. A partir daí, ela começa a abordar temas como amor, vida, morte, religião e angústia”, afirma Leandro Muniz.

As obras reunidas reafirmam esse caráter desmistificador e revelam um processo em constante elaboração. Desenhos de toda a ordem transformam a exposição em uma espécie de multidão imagética, composta por centenas de pequenos personagens aparentemente dissonantes, mas articulados por uma poética reconhecível. Nesse conjunto convivem figuras como Che Guevara, Mafalda, sereias, virgens, dançarinas e indígenas. A recorrência de uma narrativa fragmentada reforça a escolha da artista, formada em pedagogia, por uma construção visual que espelha as tensões e contradições da contemporaneidade.

La Chola interpreta sua inserção no circuito argentino de arte como parte de um movimento mais amplo de reconfiguração institucional na Argentina, marcado pela pressão, por diversidade e pela revisão de critérios historicamente excludentes. Em seu relato, a abertura do mercado a artistas trans, negras e indígenas não aparece como concessão, mas como uma mudança de paradigma que ela soube ocupar de forma consciente. “Comecei a expor nesse contexto. Aceitei porque sabia que, além do fato de ser trans e ter origem indígena, eu tinha talento”, afirma, tensionando leituras que reduziriam sua presença a uma política de inclusão.

Esse posicionamento ganha projeção internacional na 60ª Bienal de Veneza (2024), onde La Chola recebe menção honrosa por As Virgens Chola, apresentada no Arsenali di Venezia. Mais do que um reconhecimento institucional, a premiação amplia o alcance de questões já presentes em sua obra e as desloca para o centro do debate simbólico.

No discurso de premiação, a artista afirma ser a primeira argentina indígena e trans a receber esse reconhecimento em Veneza. A declaração não aparece como celebração individual, mas como evidência de uma lacuna histórica. Ao final, sintetiza essa crítica em uma frase direta, “A Argentina não é branca”, questionando o imaginário nacional que se construiu como europeu, baseado na ideia de que o país foi formado por imigrantes que chegaram de navio, enquanto as populações indígenas foram sistematicamente marginalizadas.

O reconhecimento na Bienal amplia o alcance internacional, mas, como observa Leandro Muniz, não se resume a só isso. “A presença de La Chola Poblete entre o grupo restrito de jovens artistas para os quais o MASP publica o catálogo de suas exposições, não é pouco.” 

La Chola Poblete, Il Martirio de Chola, 2014

La Chola Poblete nasce em Guaymallén, na região de Mendoza, onde passa a infância e a adolescência, período em que ainda se identificava como um garoto. “Sempre quis ser cantora e estar no palco. Sou artista visual porque não sei cantar”, afirma. Sua produção parte, em grande medida, do desejo de recontar o lado apagado da história latino-americana, em especial o que denomina de “Argentina Marrom”, segmento historicamente invisibilizado. “No meu país, chamo mais atenção pela minha cor e pelos traços indígenas do que por ser uma mulher trans”, observa.

Além da dimensão política, sua obra incorpora referências da cultura pop e da religiosidade. A artista declara devoção à Virgem Maria, figura central na série Virgens Cholas, premiada na em Veneza. Esse projeto prevê 33 trabalhos, dos quais 28 já estavam concluídos no início deste ano. A religião constitui um dos eixos estruturantes de sua trajetória. “Antes de lidar com sua identidade de forma mais tranquila, ela, como boa parte da população LGBT, passou por diferentes religiões, entre elas a mórmon”, afirma Leandro Muniz. Todas elas são campos de tensões entre catolicismo, espiritualidades populares e experiências pessoais, funcionando como dispositivos visuais onde fé, opressão e identidade se cruzam.

Nesse sentido, uma experiência marcante ocorreu ainda na adolescência, quando dois missionários mórmons visitaram sua casa, em um bairro pobre e periférico de Guaymallén. “Enquanto conversavam com minha mãe, fiquei observando a branquitude deles, os olhos claros, os ternos pretos. Em um momento, cheguei a pensar que estava interessada neles”, recorda. O episódio reverbera em sua produção recente. Em La loba (2023), um dos trabalhos mais impactantes da exposição, dois missionários examinam uma figura híbrida, metade homem, metade lobo. Já em Virgem de la leche (2023), a artista se representa dentro de um açougue, com um bebê no colo, na presença de um missionário. Em outra obra do mesmo ano, aparece nua, suspensa por um gancho, em um açougue ao lado de partes de um boi esquartejado, na presença de um missionário. A cena evoca de maneira direta a lógica de exposição e avaliação do corpo como mercadoria.

Em meio a imagens de grande impacto, a obra de La Chola também se constrói a partir de pequenas histórias que remetem ao universo das notícias. Leandro Muniz destaca, por exemplo, uma aquarela que apresenta o brasão da cidade de Mendoza com um tênis All-Star pendurado, uma alusão a tragédias semelhantes ao incêndio da Boate Kiss no Brasil, que vitimou dezenas de jovens. “Nesse sentido, o trabalho de La Chola estabelece um bonito e sensível trânsito entre experiências micro e macro, a partir da perspectiva de uma mulher trans indígena, abordando temas como amor, amizade, transfobia e gênero”, afirma o curador.

No MASP, a exposição de La Chola Poblete evita um desfecho conciliador. Ao final do percurso, não há síntese. Ao sair, o visitante leva consigo não respostas, mas a evidência de que certas imagens, quando realmente incisivas, não se deixam apaziguar.


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