sem título [Modelos Paulo Henrique e Miguel Oliveira]; Lázaro Roberto; Salvador; 1994; Fotografia em preto e branco/negativo em 35mm; Zumví Arquivo Afro Fotográfico.

Em uma tarde em Salvador, o curador Hélio Menezes estava na sede do Zumví Arquivo Afro Fotográfico, no Pelourinho, quando alguém bateu à porta e perguntou por Lázaro Roberto, fundador e hoje diretor geral do Zumví. Era o filho de um trabalhador da Feira de São Joaquim, uma das maiores feiras populares do Brasil, na Cidade Baixa da capital baiana.

Com a morte do pai, ele procurava por fotografias dele, já que não tinha nenhuma. Sabia que Lázaro havia fotografado, e muito, a vida da feira, e tinha esperança de encontrar ao menos uma imagem. Lázaro não só tinha a fotografia, como sabia quem era o retratado e onde estava o registro. “Eu acho que a gente tem que fazer a exposição para isso, sabe?”, conta Menezes, em coletiva de imprensa no IMS Paulista.

A instituição acaba de inaugurar a mostra Zumví Arquivo Afro Fotográfico, que apresenta um panorama da trajetória do arquivo, fundado em 1990 por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, com o objetivo de valorizar o protagonismo negro, unindo fotografia e militância política. 

Menezes, que faz a curadoria da mostra, diz que Lázaro Roberto é um “HD ambulante”. “Ele lembra os nomes dos fotografados, o contexto, a data, o sussurro, o comentário, lembra do irmão, às vezes do nome do avô. Não é brincadeira”, afirma.

Essa característica de Lázaro é um dos pilares da exposição. O curador explica que houve um esforço sistemático de identificação de cada pessoa retratada e de contextualização das imagens. Em arquivos, observa, pessoas negras costumam aparecer sem nome ou identificação, “sem nenhuma característica além de ‘negra com turbante’”.

Lázaro conta que não é filho de fotógrafo nem de artista. Sua mãe era lavadeira e seu pai estivador. Um “padre comunista”, que tinha sido perseguido pela ditadura, incentivou a criação de um grupo de jovens na região. Ali, teve contato com três vertentes que foram importantes para a sua formação: o teatro, o Movimento Negro e o bloco afro Ilê Ayê.

Nos anos 1980, quando já documentava Salvador, a cidade passava por um processo de reafricanização. Nesse contexto, deu-se conta de que Salvador é uma cidade negra. “A fotografia me deu consciência racial”, afirma. Assim, ao final da década de 80, passa a fotografar a Feira de São Joaquim, que define como “um polo de pessoas negras que vão ali para tirar a sua sobrevivência”. 

Lázaro nunca teve grandes câmeras. Para fotografar, precisava chegar bem perto dos retratados. O desejo de ter uma câmera com zoom, que conquistou depois, era o de trazer o que está longe para perto. Não por acaso, o nome Zumví junta “zoom”, grafado em português como “zum”, ao verbo ver na primeira pessoa: “eu vi”.

A exposição

Ocupando dois andares do IMS Paulista, a mostra apresenta cerca de 400 imagens, um desafio já que o Zumví é composto por cerca de 50 mil fotogramas e documentos. Além da curadoria de Menezes, a exposição tem assistência curatorial de Ariana Nuala, consultoria de Elson Rabelo e pesquisa de Vilma Neres, expografia e arquitetura assinadas pelo escritório Vão e identidade visual do Namíbia Chroma.

As fotografias estão organizadas em 16 temáticas. Entre os temas, estão os Movimentos Negros e os Blocos Afro e Afoxés, a luta por território do Quilombo do Rio das Rãs, os universos do hip-hop e do reggae em Salvador, momentos históricos como a visita de Nelson Mandela à capital baiana em 1991, as festas populares, a Feira de São Joaquim e a Beleza Negra. 

Nesta última, Lázaro Roberto e Raimundo Monteiro registram salões de beleza das periferias de Salvador. Além de fotografar placas e objetos de trabalho, eles também retratam a variedade de penteados e cortes de cabelos, dos dreadlocks ao blackpower.

Lázaro diz que fotografa para o futuro. Menezes acredita que parte desse futuro chegou. Isso porque, segundo ele, durante muito tempo não houve reconhecimento do trabalho de Lázaro, nem se dava atenção à dimensão documental de sua produção. “Hoje isso mudou. A gente tem um grupo de historiadores, sociólogos, antropólogos, curadores, artistas negros, intelectuais, ativistas de várias outras formações que se preocupam”, diz.


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