Jana Želibská
Jana Želibská (Olomouc, República Tcheca, 1941)
Cash on Delivery, 1978
Serigrafia sobre papel
VERBUND COLLECTION, Vienna
© Jana Zelibska / VERBUND COLLECTION, Vienna

Subvertendo estereótipos e iluminando a posição destinada à mulher na sociedade patriarcal, as artistas reunidas na mostra Insurgências – Vanguarda Feminista da década de 1970: obras da Coleção Verbund, Viena integram um grande movimento internacional no qual experimentação artística e militância feminista se confluem e retroalimentam. Dedicada a estas questões  desde sua criação, em 2004, a Coleção Verbund – criada pela principal produtora de eletricidade hidrelétrica da Europa – constituiu ao longo das últimas décadas um acervo importante sobre o tema. E desde 2010 vem realizando mostras itinerantes desse capítulo importante de seu acervo. A mostra que será inaugurada no próximo sábado (28 de março) no Museu de Arte Contemporânea (MAC) é a primeira dessas itinerâncias fora da Europa.

Com cerca de 70 obras de 30 artistas, a exposição trabalha com mais intensidade a produção feminista desenvolvida na Áustria nos anos 1970, mas agrega também autoras de outras nacionalidades como Itália, Japão, Polônia e Estados Unidos. E promove um interessante diálogo entre o acervo do museu anfitrião e a coleção visitante. Em cada um dos cinco núcleos em torno dos quais se organiza, há uma obra selecionada da coleção do MAC que reafirma a importância das poéticas trabalhadas e também a conexão entre as artistas selecionadas e o acervo da instituição brasileira. A intenção é estimular sintonias férteis entre os acervos e traz coincidências como o encontro de duas obras da ítalo-austríaca Mirella Bentivoglio – “Ti Amo” e “Love Story” – e de duas séries de imagens de autoria da polonesa Anna Kutera. Embora a Coleção Verbund possua artistas brasileiras em seu acervo, a curadoria optou por enfocar na produção austríaca, do leste europeu e em criadores raramente vistos no Brasil.

Intitulados a partir de questões-chave que marcam essa “nova e fundamental ‘imagem da mulher’ a partir de uma perspectiva feminina” — como define a curadora Gabriele Schor —, os eixos estruturantes da exposição são: “Esposa/Mãe/Dona de casa”, “Aprisionamento/Libertação”, “Ditames da Beleza/Corpo Feminino”, “Sexualidade Feminina” e “Identidade/Jogos de Representação”. As fronteiras entre eles são por vezes sutis, com obras que poderiam transitar por mais de um núcleo, indicativo do próprio entrelaçamento entre os múltiplos enfoques trabalhados pelas artistas e também de uma ressonância clara entre luta pelos direitos das mulheres e uma cena internacional marcada pela contestação política mais geral.

Como explica Ana Magalhães, curadora de Insurgências pelo MAC e pesquisadora dedicada à arte austríaca e italiana, “a década de 1970 foi atravessada, em diversos países — entre eles Brasil, Itália, nações do Leste Europeu e grande parte da América Latina —, pela consolidação de regimes de exceção. Nesses contextos, o controle sobre os corpos e comportamentos das mulheres caminhava lado a lado com a repressão a outras formas de diversidade”. Essas produções compartilham uma base coesa: a batalha por uma sociedade menos opressiva, por formas de arte capazes de revolucionar a tradição e por um espaço mais igualitário entre os gêneros.

Nelas, o corpo feminino é ao mesmo tempo tema e alegoria, condensando em imagens e atos a posição naturalizada da mulher na sociedade, como esposa, mãe, objeto de desejo. Atuando nessas fissuras de forma contundente e literal, essas artistas agem desvelando as diferentes camadas de hipocrisia e controle que recobrem e naturalizam relações desiguais de poder.  Em sintonia com as pesquisas do período, as artistas partem das linguagens de vanguarda — vídeo, fotografia, performance — para colocar o dedo em feridas. Censuradas, estereotipadas ou invisibilizadas, criam imagens que explicitam o caráter repressivo da sociedade. No caso da Áustria, país profundamente católico e marcado por um negacionismo persistente em relação ao trauma do passado nazista, o conservadorismo moral é especialmente arraigado — pautas como divórcio, aborto e autonomia da mulher só avançariam nos anos 1980. Nesse contexto, Viena funcionava como uma espécie de enclave rebelde, em intenso trânsito com Berlim e Berna, e o Acionismo Vienense emergia como resposta visceral a essa acomodação.

Não por acaso, obras como as da vienense Renate Bertlmann – que ilustra o convite da exposição com uma foto de performance intitulada “Noiva grávida em cadeira de rodas” (1976) – adquirem aqui uma dimensão de provocação que vai muito além do gesto formal. Florentina Pakosta radicaliza essa crítica em “O anel de casamento e suas consequências”, desenho em que uma figura feminina decapitada exibe em destaque o dedo com a aliança — figurando a castração imposta pelo matrimônio. “Entrave”, da escocesa Elaine Shemilt, é outro exemplo de afronta a essa situação sufocante. A artista, que ouviu de um professor da Slade School of Art, em Londres, que não se podia ser mulher e artista ao mesmo tempo, usa sua imagem atada com fita adesiva como uma espécie de protesto silencioso. “Por meio da ironia e da provocação, essas obras expressam uma poderosa autoconfiança feminina, desafiando papéis e estereótipos existentes”, afirma Gabriele Schor.

Destaque na seleção, VALIE EXPORT se choca frontalmente contra hipocrisias, em ações como “Aktionshose: Genitalpanik” (“Calça de Ação: Pânico Genital”). Nesta performance, presente em Insurgências por meio de um registro fotográfico, a artista desfila trajando calças sem fundo, com a genitália à mostra, enquanto porta um fuzil.

Outra obra da artista, cujo nome artístico ironiza o consumismo e a arte como produto de exportação, é “Madonna dos Nascimentos”, uma fotocolagem sobre a “Pietà” de Michelangelo em que realiza uma releitura ácida de ícones da história da arte. Lançando mão da citação e do sarcasmo, a imagem confronta, segundo a curadoria, “a representação idealizada do sofrimento feminino em seu papel de mãe com a realidade desencantada da dona de casa cercada por objetos cotidianos”.

Outras artistas exploram com acidez referências pertencentes ao cânone das artes. É o caso por exemplo do grupo Int. Akt (fotografado por Margot Pilz), que reencena uma Santa Ceia de Kremser Schmidt, célebre pintor barroco austríaco, substituindo os personagens masculinos por mulheres, ou Ulrike Rosenbach, que estabelece um jogo de representação e alternância identitária com mitos femininos como Vênus, Medusa e “Supergirl”.

O circuito brasileiro já vem promovendo uma releitura historiográfica de gênero, com mostras como “Mulheres Radicais” e “Histórias Feministas”, e mergulhando na produção de artistas fundamentais como Marina Abramovic, Ana Mendieta e Orlan. Insurgências amplia esse horizonte, trazendo uma camada até então pouco vista por aqui — a da vanguarda austríaca e do leste europeu — e aprofundando o debate sobre as relações entre experimentação artística, gênero e resistência política.


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