"Ofrenda" [Oferenda], mural feito em ocasião do Converse City Forests em Lima, Peru. Foto: Divulgação.

A poluição do ar é um dos principais problemas das grandes metrópoles. Mas como seria se uma arte de rua conseguisse agir para minimizar esse impacto ambiental? É isso que propõe o projeto Converse City Forests. A ação global pretende espalhar em diversos países murais feitos com tinta fotocatalítica, um material que usa a energia da luz para decompor os poluentes atmosféricos nocivos. 

Segundo a Converse, empresa responsável pelo projeto, “qualquer superfície revestida com esta tinta torna-se uma superfície purificadora de ar ativa, que ajuda a proteger as pessoas de gases nocivos. A tinta faz o papel de árvores em lugares que elas não podem crescer”. Pesquisas de instituições brasileiras e internacionais[1] também apontam as propriedades deste material e explicam que é a presença de nanopartículas de elementos como o dióxido de titânio que confere à tinta, a partir do fenômeno da fotocatálise, novas propriedades: a autolimpeza das superfícies e a purificação do ar.

Em 2020, o Brasil recebeu pela primeira vez um mural ecológico deste tipo. Em uma empena vizinha à Via Elevada Presidente João Goulart (o famoso Minhocão), em São Paulo, Rimon Guimarães criou Pindorama. A estimativa é que o grafite tenha um efeito equivalente a 750 árvores. Ao lado de outros murais ecológicos da América Latina – feitos em Santiago (Chile), Lima (Peru) e Cidade do México -, a obra segue a temática “orgulho, ancestralidade e raízes locais”, baseada em referências e pesquisas dos povos originários brasileiros.

Além disso, o Converse City Forests teve atuação em outros continentes. Na África, realizaram um mural em Joanesburgo (África do Sul), já a Oceania conta com um grafite em Sidney (Austrália). Na Europa, Varsóvia (Polônia) e Belgrado (Sérvia) receberam obras ecológicas, enquanto a Ásia foi o continente mais impactado, com produções em Ho Chi Minh City (Vietnã), Manila (Filipinas), Jakarta (Indonésia), Bangkok, Ratchaburi e Chiang Mai (Tailândia).

Em todas ações do projeto há uma atuação intensa da comunidade criativa da Converse, os All Stars. Parte de uma comunidade global da empresa, eles são aproximadamente 3 mil membros ao redor do mundo em 30 países. O grupo de São Paulo conta com cerca 120 jovens entre 18 a 23 anos, todos ligados ao universo da arte de alguma forma. 

Descentralizando lutas e artes

Porém, para a equipe, as florestas urbanas pareciam ainda muito centralizadas. Pensando em pulverizar a ação do projeto em São Paulo e levar a tecnologia da tinta para mais pontos da cidade, criaram o City Attack, eixo do Converse City Forests responsável pela criação de 60 murais distribuídos pelas diferentes regiões da capital.

Essa etapa foi destinada ao artista Pina e baseia-se em obras feitas com estêncil, buscando replicar as artes de forma mais rápida. Em colaboração com a Converse, o artista escolheu três All Stars que tivessem linhas de pesquisa e militâncias distintas, para que pudesse expressar as lutas de cada um através da sua arte. Os selecionados foram Lucas Fidelis representando a luta anti-racista; Vitória Leona, que retrata os povos originários, e Lucy Eclipsa, simbolizando a luta de pessoas trans não binárias.

“É importantíssimo que olhemos para a cidade como um território em disputa. Trazer mais camadas ao projeto e levá-lo para os mais variados lugares é democratizar o acesso à arte e informação nas ruas”, explica Lucy Eclipsa. Para a artista, isso tem especial importância pela missão do City Attack de colocar em pauta as lutas identitárias: “Não é de hoje que espaços culturais como museus e galerias não são convidativos e inclusivos para pessoas trans, negras, indígenas e periféricas, porque a maioria desses lugares é elitizado. Essas intervenções trazem pautas para que todos que passarem por ali tenham a experiência de pensar – mesmo que por pouco tempo – na importância das lutas dos corpos pretos, indígenas e trans, inspirando artistas e marcas a levarem essas responsabilidades nos seus trajetos”.

Vitória Leona faz coro e acredita que a ação também tenha um impacto direto em sua arte e militância. “Participar dessa ação me fez refletir sobre o que faço, o que represento e como isso me posiciona no mundo. Não é uma campanha para exaltar à minha imagem, e isso me faz entender como carrego uma mensagem comigo e sou representante da minha história”, compartilha.

Para Fidelis, é justamente a justaposição das pautas que torna o projeto ainda mais potente e atual, “a ambiguidade que essa tecnologia traz, entre a mesma tinta que emite arte e mensagem política, emite um ato ambiental, é bonita de acompanhar.” Ao que Lucy complementa: “Hoje em dia é necessário unir a luta pelos direitos humanos e meio ambiente, são lutas emergentes e que falam sobre a vida, a saúde e a ocupação dos espaços, colocando em xeque a raiz desses problemas atuais”.

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[1] C.f.: AMORIM, S. M. Desenvolvimento de tintas fotocatalíticas com estabilidade aumentada utilizando fotocatalisadores à base de microesferas de dióxido de titânio. 2017. 126 p. Tese (Doutorado em Engenharia Química) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2017.
BALDISSARELLI, V. Z.; SAPATIERI, J.C; MOREIRA, R. F. Avaliação da atividade fotocatalítica e antifúngica de tintas inteligentes. In: Congresso Brasileiro de Engenharia Química em Iniciação Científica. São Carlos, 2017. Anais… São Carlos, 2017.
DIAMANTI, M. et al.  Long term self-cleaning and photocatalytic performance of anatase added mortars exposed to the urban environment. Construction and building materials, v. 96, p. 270-278, 15 out. 2015.
HAGHIGHAT, L.; FARIBORZ, Z. Photocatalytic air cleaners and materials technologies – Abilities and limitations. Building and Environment, v. 91, p. 191-203, set. 2015.

 

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