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Início Site Página 185

Poder econômico e corrupção: afinal, qual é a peculiaridade brasileira?

Por
Redação
-
20 de junho de 2017
'Que rumos daremos para as instituições políticas brasileiras de modo a mitigar o monopólio do poder econômico das grandes corporações e das famílias endinheiradas sobre o sistema político?' FOTO: EBC

O poder econômico e a corrupção política são faces de uma mesma moeda, a bem da verdade: o capitalismo acontece naquela antessala mal iluminada, em horários duvidosos, onde se encontram os donos do dinheiro e os donos do poder. A negociação de decisões do executivo, do legislativo ou do judiciário como barganha para interesses de grandes corporações, de conselhos administrativos e de empresários é a regra global e não a exceção brasileira.

Não haveria economia de mercado dos EUA à China, passando por Inglaterra, França, Alemanha, Rússia, Japão ou Coréia, sem que houvesse a imbricação entre interesses políticos e interesses empresariais, como, aliás, demonstram os grandes e recentes casos de corrupção na Siemens alemã, na Samsung coreana, na Alstom francesa, na BAE inglesa, na Weatherford suíça, para não mencionar os bancos norte-americanos e agências de classificação de risco que, com muitos desvios, propinas e ilícitos, provocaram a grande crise econômica de 2008, ou alguém imaginou que um país que elegeu Donald Trump como presidente seria um caso de capitalismo asséptico e de democracia auto-imune? Talvez nossos crédulos republicanos liberais nativos que tanto admiram os federalistas e os founding fathers norte-americanos tenham se deixado seduzir por esse engodo, mas ele pouco ajuda a compreender o caso brasileiro atual.

Noutras palavras, a mistura entre público e privado – ao contrário do que acredita parte do pensamento social e da opinião pública brasileira – não é uma peculiaridade nacional. Mas tal enunciação não deve servir para naturalizar ou para normalizar a corrupção no mundo e no Brasil, ela serve antes para colocar o debate em outro lugar, talvez, no seu devido lugar.

O escândalo provocado pelas delações de Marcelo Odebrecht e Joesley Batista não tratam apenas das relações entre a Odebrecht e a Petrobrás, ou entre a J&F e a CEF ou o BNDES, elas revelam problemas mais profundos e que são pouco observados tanto pelos operadores e entusiastas da Lava Jato quanto pela maior parte daqueles que fazem uma leitura crítica da Operação. Um ponto os une: a obsessão em resumir todo o problema brasileiro à famigerada questão do patrimonialismo. No Brasil esse conceito cria ares de família entre as mais variadas posições teóricas e colorações políticas[1]. Nada disso, vale explicitar em tempos de calores e polarizações políticas, ameniza ou absolve o escandaloso butim praticado pelo bando de Aécio, Temer et caterva. Mas a conjuntura desafia a reflexão, ao menos ela, a ir além da lama onde nos colocou essa quadrilha de saqueadores.

Entre nós o conceito de patrimonialismo virou uma espécie de “pau para toda obra” e a flexibilidade teórica chega a tal ponto que a ideia de patrimonialismo é tratada como mero sinônimo de patriarcalismo, de patronato, de privatismo, de clientelismo, de fisiologismo, de corporativismo, de mistura entre público e privado, e toda sorte de patologias que abatem nossa cultura política, em favor do conceito dão-se abraçaços conceituais para acolher e dilatar a ideia de que o Brasil é mesmo o país dos mal-feitos e do “jeitinho”, onde o capitalismo é mal-ajambrado e a democracia é um mal-entendido. A boa intenção em encontrar a tal singularidade brasileira esconde por trás de si a suposição de que em algum lugar do mundo exista um capitalismo puro e uma democracia ideal. Ledo engano.

Mas, se a corrupção não é exclusividade nacional, como entre nós ela tem criado tanto assombro? A nossa peculiaridade se encontra em outro lugar, não no problema, mas na falta de iniciativas concretas capazes de enfrentar o referido problema. O que se percebe em ao menos três aspectos fundamentais, que, infelizmente, tem sido negligenciados pelo debate público, quais sejam[2]:

  • A ausência de regulamentação do lobby; diante da falta de uma normatização clara sobre o que é permitido e o que é proibido no campo das relações público-privadas, as interpretações ficam a cargo das vontades e dos valores de procuradores, juízes e policiais de plantão, tudo agravado pela utilização indiscriminada das delações premiadas, dos acordos de leniência e dos vazamentos seletivos;
  • A possibilidade de que as doações de campanha sejam proporcionais às rendas e riquezas dos doadores. Esse tipo de jabuticaba só existe no Brasil, se não houver um teto universal para todos os doadores é evidente que os mais ricos sempre terão mais poder de decisão nessa democracia, ainda que como pessoas físicas, o que só reforça o surgimento de fenômenos como a ascensão de empresários na política;
  • A existência de uma cultura política fraca e de instituições políticas pouco sólidas, criando um clima muito favorável para a desqualificação e a criminalização da política em geral e para a construção de uma opinião pública muito suscetível ao moralismo e desejosa menos de justiça e mais de justiçamentos e linchamentos.

Em qualquer capitalismo mais organizado a mistura entre público e privado sofreu algum tipo de regulamentação mais contundente, no Brasil não, de forma que toda negociação passa a ser potencialmente tratada como relação espúria ou como crime, ao sabor do jogo de interesses do momento. Nesse ambiente, toda negociação, toda barganha, todo ajuste de interesses está passível de ser colocado numa sombra de avaliação moral, dando margens para perseguições políticas como a realizada pela Operação Lava Jato contra o PT e contra Lula.

É sintomático que as investigações tenham atingido outros partidos, como o PMDB e o PSDB, apenas quando a “delação preventiva” da J&F recorreu diretamente à PGR de Rodrigo Janot sem passar pela instância curitibana de Sérgio Moro. Ao realizar tal procedimento, evidentemente, para salvar a si próprio, à família e aos negócios privados, Joesley Batista revelou, ainda que indiretamente, os limites da Operação Lava Jato, parafraseando a expressão popular: o buraco é mais em cima. Os procuradores, juízes e policiais de Curitiba não tem um diagnóstico claro do problema que pretendem combater.

Passa ao largo da leitura desses jovens justiceiros elementos fundamentais para compreender e enfrentar a relação entre poder econômico e corrupção no Brasil: (i) historicamente, o arranjo institucional que permitiu o desenvolvimento da nossa economia se ancorou na articulação entre empresas estatais e empresas privadas; (ii) estruturalmente, o poder econômico monopoliza o sistema político em qualquer Estado-nacional relevante no sistema capitalista; (iii) dinamicamente, o poder econômico e o poder político são essencialmente interconectados, é possível melhorar a relação entre eles, mas não é possível isolá-los um do outro, ao menos não no capitalismo; (iv) tampouco se questionam que o comportamento político que está sendo investigado talvez seja a regra geral do sistema político e não a exceção partidária brasileira.

Entretanto, na concepção estreita e moralista dos operadores da Lava Jato, o problema da corrupção no Brasil é um mal recente, concentrado em pessoas más e antiéticas que precisam ser enfrentadas por pessoas boas e competentes. Tamanho reducionismo é risível, vexatório, e seria apenas uma piada de mau gosto se ele não tivesse se transformado no princípio que justifica a teoria do domínio do fato, a hipótese da flexibilização das provas, a priorização das convicções do MP sobre o direito de defesa de indiciados, e o expediente de se condenar acusados pela mídia antes do que pela própria justiça, tudo isso levado a cabo pela generalização da delação premiada, um instrumento propício para quem entende a corrupção como um problema pessoal ou moral e que vem substituindo a construção de outros mecanismos mais eficientes de combate à corrupção.

Com esse diagnóstico moralista e essa prática inquisitória a Operação Lava Jato cria um clima político instável, marcado ora pelo êxtase com a revelação da suposta verdade ora pela depressão com o desnudamento da realidade, enquanto isso ela coloca sob suspeita todas as instituições do país, o resultado em última instância tem sido o assombro e a desesperança da população com a política como um todo.

Em certa medida, os operadores da Lava Jato contam com a cumplicidade da opinião pública, que, se por um lado sempre desconfiou que as coisas funcionassem assim, posto que ela própria é dada aos pequenos delitos e ilícitos do cotidiano, por outro lado, ela ficou assustada e boquiaberta ao ver de forma nua e crua as entranhas “do sistema”. Aliás, enquanto a opinião pública não superar o choque do trauma e não der boas vindas ao deserto do real dificilmente nos recuperaremos de fato, e a avenida política seguirá aberta para outsiders de plantão e aventureiros de última hora.

A corrupção é um problema sistêmico que precisa ser enfrentado? Sim. Qualquer instrumento é válido para enfrentar a corrupção? Não. A Operação Lava Jato caminha na contramão da governança e da jurisprudência internacional e presta um desserviço ao Brasil jogando água no moinho daqueles que só repetem monotonamente feito uma cantilena: o Brasil é o país do patrimonialismo, onde o capitalismo não vingou. Não, o Brasil é um país capitalista como tantos outros, e se quisermos superar os reclamos e lamentos temos que enfrentar o choque de realidade que nos tem sido imposto pela conjuntura adversa e responder uma questão já enfrentada por outros países:

Que rumos daremos para as instituições políticas brasileiras de modo a mitigar o monopólio do poder econômico das grandes corporações e das famílias endinheiradas sobre o sistema político? Sobressaltos, moralismos e expedientes inquisitoriais não nos ajudarão nesse momento, isso a Operação Lava Jato já faz, assim como não nos ajudarão formulações genéricas sobre a democracia e platitudes etéreas sobre a falta do republicanismo brasileiro.

O tempo histórico exige mais do que pudemos oferecer até agora, exige medidas concretas de reconstrução e aperfeiçoamento das nossas instituições em outros patamares, sem regular e regulamentar a sanha do poder econômico e o assanhamento do poder político seguiremos aos tropeços, enfrentando golpes, rupturas constitucionais e quebras de pactos sociais.

*  William Nozaki é cientista político, economista e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo

[1] A crítica contra o uso generalizado e indiscriminado do conceito de patrimonialismo pode ser encontrada em: Souza, Jessé. A tolice da inteligência brasileira. São Paulo: Leya, 2015.

[2] Essa problematização pode ser encontrada de forma mais aprofundada em: Reis, Bruno. A Lava-Jato é o Plano Cruzado do combate à corrupção. Disponível em:< http://novosestudos.uol.com.br/a-lava-jato-e-o-plano-cruzado-do-combate-a-corrupcao/>.

 

Sidney Chalhoub: “A meritocracia é um mito que alimenta as desigualdades”

Por
Redação
-
9 de junho de 2017
Sidney Chalhoub
Sidney Chalhoub
  • André Sampaio

Ao aprovar o princípio das cotas étnico-raciais, a Unicamp se alinhou às grandes universidades do mundo, como Harvard, Yale e Columbia, que adotam a diversidade como critério para o ingresso de seus estudantes. O pressuposto dessas instituições é que a diversidade melhora a qualidade. A afirmação é do historiador Sidney Chalhoub, professor titular colaborador do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp e docente do Departamento de História da Universidade de Harvard (EUA). Na entrevista que segue, concedida ao Jornal da Unicamp, Chalhoub salienta a importância das ações afirmativas como mecanismo de reparação e promoção de justiça social e contesta argumentos utilizados pelos críticos das cotas, como a necessidade de preservar a meritocracia. “A meritocracia como valor universal, fora das condições sociais e históricas que marcam a sociedade brasileira, é um mito que serve à reprodução eterna das desigualdades sociais e raciais que caracterizam a nossa sociedade. Portanto, a meritocracia é um mito que precisa ser combatido tanto na teoria quanto na prática. Não existe nada que justifique essa meritocracia darwinista, que é a lei da sobrevivência do mais forte e que promove constantemente a exclusão de setores da sociedade brasileira. Isso não pode continuar”, defende.

Jornal da Unicamp – Quem tem medo das cotas étnico-raciais?

Sidney Chalhoub – Quando esse assunto começou a ser discutido no Brasil, ainda nos anos 1990, houve uma resistência grande entre intelectuais e acadêmicos que consideravam que a adoção desse sistema provocaria tensões raciais na sociedade brasileira. No entanto, o que se viu, conforme essas políticas foram sendo adotadas, primeiro isoladamente por algumas universidades estaduais, e depois em várias universidades federais, até que uma legislação federal sobre o assunto fosse aprovada, foi que as cotas foram muito bem acolhidas no interior das instituições. Hoje, o que se vê na Unicamp é a defesa das cotas pelo movimento estudantil. A defesa não está restrita ao movimento negro. A partir das experiências das universidades estaduais e federais, houve o entendimento de que a diversidade do corpo discente contribui para a qualidade acadêmica e para a produção de conhecimento nas universidades. Os que têm medo das cotas são os setores que têm tido acesso às universidades públicas e gratuitas como uma prerrogativa sua, de muitas décadas. São pessoas que vão a escolas particulares porque têm maior poder aquisitivo e que defendem a exclusividade de acesso à universidade pública, gratuita e de qualidade. Esta é uma distorção grande na sociedade brasileira.

Entretanto, não é possível generalizar. Hoje você tem um contingente grande de estudantes da Unicamp que são brancos e de classes favorecidas e que também entendem a importância das cotas para promover a diversidade no corpo discente e para promover diferentes perspectivas a respeito dos assuntos abordados pela universidade. Esse novo contingente de alunos colocará em cheque vários hábitos da universidade. Vai forçar um questionamento a respeito da importância da existência da universidade pública, a quem ela deve servir e que tipo de conhecimento ela deve produzir. Essa experiência é muito bem-vinda. A resistência às cotas é mais barulhenta que generalizada. O país convive bem com a ideia das cotas. O engajamento dos estudantes da Unicamp em geral mostra a receptividade à ideia. As pesquisas de opinião mostram que a maior parte da população brasileira é favorável às políticas de ação afirmativa e o próprio Supremo Tribunal Federal aprovou por unanimidade a necessidade dessas políticas para combater o racismo e as consequências dele na sociedade brasileira.

JU – O princípio das cotas é um tema novo?

Sidney Chalhoub – Não. O tema está longe de ser uma originalidade brasileira. As melhores universidades do mundo, aquelas que a própria Unicamp utiliza como referência para qualificar suas atividades, adotam a diversidade no ingresso dos estudantes há bastante tempo. Harvard, Yale e Columbia, para ficar em três exemplos, adotam políticas agressivas de promoção da diversidade do corpo discente. Não fazer isso deixaria a Unicamp na contramão da história. A decisão do Conselho Universitário em aprovar o princípio das cotas foi muito bem-vinda.

JU – Correntes contrárias às cotas étnicos-raciais argumentam que esse tipo de política pode comprometer a qualidade do ensino, ao permitir o ingresso de estudantes “despreparados” na vida acadêmica. Como o senhor analisa esse tipo de justificativa?

Sidney Chalhoub – A primeira observação a respeito disso é que, como mencionei anteriormente, o pressuposto das grandes universidades do mundo é que a diversidade melhora a qualidade. Obriga a um contraste de pontos de vista. Enquanto a universidade existe como prerrogativa de uma mesma classe social, de uma mesma raça e dos mesmos setores, ela não se abre ao tipo de questionamento e de tensões que são criativas, oriundas da necessidade da convivência de grupos sociais e raciais com perspectivas diferentes. O segundo ponto é que, na prática, todas as pesquisas existentes demonstram claramente que o desempenho dos estudantes cotistas é igual ou superior ao desempenho dos não cotistas nas universidades estaduais e federais que adotaram esse tipo de política afirmativa. Isso é fácil de entender.

Ao contrário da propaganda maldosa que se faz, a adoção de cotas não tem nada a ver com a exclusão do mérito. Tem a ver com a utilização de critérios de seleção que promovam a competição entre estudantes que tiveram oportunidades educacionais semelhantes até o momento em que se candidatam ao ingresso na universidade. Dessa forma, os estudantes negros e indígenas que serão selecionados representarão uma fração dos que postularam uma vaga na universidade. Serão, portanto, os melhores entre eles. A tendência é que sejam ótimos alunos, tanto quanto os não cotistas. Por fim, a universidade evidentemente tem o desafio de lidar com eventuais dificuldades que existam entre os estudantes de modo geral. Tanto as dificuldades de origem socioeconômica quanto as acadêmicas e pedagógicas. Nada disso impede, porém, que a apolítica de cotas seja implementada. Essa é uma dívida das universidades públicas em relação à população afrodescendente. Obviamente, os programas de permanência estudantil são tão importantes quando a criação de oportunidades de ingresso. Esse é um desafio que a Unicamp terá que enfrentar.

JU – Numa das audiências públicas promovidas em 2016 pela Universidade para discutir o princípio das cotas, um professor universitário de origem indígena disse que os indígenas não querem mais ser apenas estudados pela academia. Eles também querem contribuir para a construção da ciência…

Sidney Chalhoub – Esses novos sujeitos que ingressam na universidade representam um deslocamento importante de negros, indígenas e populações pobres, que são objeto de estudos da academia, mas que raramente têm a oportunidade de se tornarem sujeitos do conhecimento. Isso também é uma experiência fundamental e epistemológica. Isso descentraliza o conhecimento e permite que perspectivas diferentes passem a fazer parte do cenário das universidades. Um assunto no qual a universidade é bastante carente diz respeito a uma reflexão conjunta sobre que tipo de conhecimento ela deve produzir e para quem são esses conhecimentos.

Será que o conhecimento que a universidade produz na área de energia, por exemplo, deve estar voltado às necessidades do mercado ou deve priorizar as necessidades de preservação do planeta? Até que ponto os conhecimentos gerados na área médica priorizam o bem-estar do conjunto da sociedade? O conhecimento de ponta pode ser produzido em várias frentes. A escolha de que frentes serão priorizadas é uma questão que precisa ser politizada na universidade. Não se pode partir do pressuposto de que o conhecimento deve necessariamente atender às necessidades do mercado. É preciso haver debate a respeito dos motivos pelos quais a instituição deve investir nesta ou naquela frente. Na minha opinião, o critério fundamental é produzir o bem-estar social. Esse é um tema que a universidade discute pouco.

JU – O senhor mencionou a questão do mérito numa resposta anterior. Correntes contrárias às cotas alegam que o modelo desconsidera a meritocracia, o que geraria injustiças. O que o senhor pensa a respeito desse tipo de argumento?

Sidney Chalhoub – O fundamental é questionar a ideia da meritocracia como um valor abstrato universal, que justifique a existência de alguma medida comum da aptidão e de inteligência da humanidade. Fica parecendo que a meritocracia partiu de uma definição abstrata, excluída das circunstâncias sociais e materiais de vida das pessoas. A universidade, sendo pública, é da sociedade inteira. O ideal seria que todos aqueles que tivessem condições intelectuais e interesse em entrar na universidade, obtivessem uma vaga. Como não há nenhuma perspectiva de que nossos políticos priorizem o acesso ao ensino universitário, é preciso fazer algum tipo de seleção. A seleção deve fazer com que a sociedade esteja representada no corpo discente da universidade. Não se pode ter somente uma determinada raça ou classe social na universidade.

Já que o ingresso não pode ser da maneira universal, que a sociedade esteja presente, então, por meio da representatividade. Esse foi o princípio aprovado pelo Consu. Não é possível que todos os candidatos entrem em competição pelas vagas como se tivesse havido uma igualdade ideal de oportunidade entre eles. Não se pode fazer com que o aluno negro, pobre e que estudou numa escola pública localizada na periferia de Campinas concorra em igualdade de condições numa prova padronizada com alunos cujos pais cursaram universidade, têm alto poder aquisitivo e tem alto acesso ao capital simbólico. É preciso que a universidade busque equilibrar essa disputa.

Desse modo, quando há reserva de vagas para negros e pessoas de baixa renda, a competição se dá entre eles, entre iguais. Então, não há exclusão do mérito. É uma maneira de ter o mérito qualificado pelas condições sociais e econômicas dos candidatos, e não uma competição que exclui alguns segmentos da sociedade desde sempre. Então, a ideia da meritocracia como valor universal, fora das condições sociais e históricas que marcam a sociedade brasileira, é um mito que serve à reprodução eterna das desigualdades sociais e raciais que caracterizam a nossa sociedade. Portanto, a meritocracia é um mito que precisa ser combatido tanto na teoria quanto na prática. Não existe nada que justifique essa meritocracia darwinista, que é a lei da sobrevivência do mais forte e que promove constantemente a exclusão de setores da sociedade brasileira. Isso não pode continuar.

JU – As cotas étnico-raciais constituem uma política de reparação ou de justiça social?

Sidney Chalhoub – As duas coisas. Se você pensar na história de São Paulo, onde a Unicamp está localizada, a prosperidade do Estado, principalmente a partir da expansão do café, na década de 30 do Século XIX, se deu por meio de duas ilicitudes praticadas pela classe proprietária de maneira abusiva durante décadas. Ela se beneficiou do contrabando de africanos. A lei brasileira de 7 de novembro de 1831 havia proibido o tráfico africano de escravos, mas a propriedade cafeicultora fluminense e paulista se formou por meio da continuidade do tráfico. Um contingente formado por 750 mil africanos foi trazido ao Brasil ilegalmente, em condições desumanas. Esses negros foram escravizados e seus descendentes também. Além disso, a formação da grande propriedade cafeicultora ocorreu através de invasão das terras. Trabalho e terras foram obtidos pela classe dominante ao arrepio da lei. Portanto, a reparação é uma questão que deve ser levada a sério. Se não for levada a sério do ponto de vista legal, que pelo menos seja levada a sério sob o aspecto da promoção de uma justiça social que é devida a essa população cuja presença no país se deu por meio de crimes cometidos pelos cafeicultores.

No caso de São Paulo, também se adotou políticas afirmativas em favor de imigrantes. No final do Século XIX, foram adotadas políticas para subsidiar a imigração de europeus brancos, italianos inicialmente. A vinda desses imigrantes era subsidiada pelo tesouro da Província de São Paulo e depois pelo Estado de São Paulo, o que favoreceu a adaptação dessas pessoas ao país. Tratou-se de uma política de inclusão social que jamais existiu para a população negra até recentemente. Portanto, já houve no Brasil a adoção de política de ação afirmativa para brancos europeus e seus descendentes. Dessa maneira, não há nada demais que se veja como reparação as políticas de cotas para negros e indígenas.

Além disso, é importante pensar que, no caso da população negra, quando houve uma aceleração no processo de emancipação escrava, nas duas últimas décadas da escravidão, ocorreu uma mudança na lei eleitoral, em 1881, que proibiu o voto de analfabetos, o que não existia antes. Isso, numa situação em que não havia escola primária para negros. Devido à falta de acesso à instrução, nas primeiras décadas após a emancipação, a população negra ficou excluída da política formal. Esse foi outro movimento importante de desvantagem dessa população na luta por direitos na história do país. Eu entendo que as pessoas esbravejem quando perdem privilégios. Mas as razões históricas, sociais e filosóficas em favor das cotas justificam plenamente a medida. Não há futuro possível com esse perfil de desigualdade se reproduzindo ao longo do tempo. É uma missão de todos superar essa desigualdade.

JU – Aproveitando essa reflexão, o quão prejudicial tem sido para o Brasil essas posturas vinculadas à nossa herança escravocrata?

Sidney Chalhoub – Quando as pessoas se espantam ao constatar que a corrupção no Brasil está tão generalizada, isso é pura ignorância histórica. Como eu citei, o maior exemplo de corrupção na história do país talvez tenha sido a importação ilegal de centenas de milhares de trabalhadores por meio do tráfico africano. Isso no período de formação do Estado nacional, nas décadas de 20 e 30 do Século XIX. Esse Estado se organizou em grande medida para defender os interesses dos contrabandistas e dos cafeicultores. A corrupção está no cerne da formação do Estado brasileiro. Qualquer solução simplista e messiânica para esse problema não faz sentido. É preciso reconhecer a complexidade da questão, o que pode levar a sociedade brasileira a superar essa corrupção crônica que existe no país. Isso tem a ver com a escravidão. A escravidão foi, insisto, a pedra de toque da formação do Estado nacional. A corrupção é capilar na sociedade brasileira e essa capilaridade esteve ligada à própria escravidão no Século XIX.

JU – No contexto da aprovação do princípio das cotas étnicos-raciais, a Unicamp anunciou a criação da Secretaria de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade. Qual a importância dessa instância para promover a reflexão sobre esses aspectos que o senhor abordou?

Sidney Chalhoub – As cotas vão envolver muitas coisas. Vão envolver mudanças curriculares, para que as disciplinas ligadas à história do racismo e do pensamento negro e indígena sejam disseminadas, de maneira que se reconheça a densidade desse tipo de conhecimento. Há uma série de movimentos que apontam para uma receptividade em relação às cotas. Mas é preciso ser vigilante. Haverá tentativas de fraudes no vestibular. Haverá tentativa de agressões gratuitas, como a do professor da Medicina, que felizmente não representa o pensamento da comunidade da faculdade. É preciso ter acompanhamento desses assuntos. É preciso acolher os ingressantes, oferecer condições para que a inclusão ocorra de fato e fazer com que o conhecimento que essas pessoas trarão à universidade seja reconhecido e disseminado. Tudo isso exige um acompanhamento próximo. Desse modo, a criação da secretaria, que terá essa atribuição, é bem-vinda.

O Brasil está pronto para as cotas. A Unicamp está pronta, sim, para adotar as cotas. E a comunidade está mobilizada nesse sentido. Acho que a nova gestão da Reitoria, que herdou a discussão da gestão anterior, começa muito bem, inclusive para tentar assegurar a governabilidade num momento difícil da universidade, ao abraçar uma causa que é bastante popular entre os estudantes, funcionários e grande parte dos docentes. O Consu, que é o parlamento da universidade, já aprovou. Resta aplicar a política da melhor forma possível e assegurar a permanência estudantil. Daqui a poucos anos, teremos finalmente médicos, engenheiros, físicos, historiadores e biólogos de alto nível formados numa das melhores universidades do país. Pessoas que servirão de exemplo e inspiração para a transformação da sociedade brasileira em uma sociedade racialmente mais justa.

Leia mais sobre: A elite intelectual teve de dividir seus privilégios

Texto publicado originalmente pelo Jornal da Unicamp

Tragicomédia russa

Por
Redação
-
27 de maio de 2017
Foto: Bruno Alfano
Foto: Bruno Alfano
  • Laíssa Barros

Quem nunca viveu uma história que daria um filme? Os dias tragicômicos vividos pela atriz Martha Nowill no auge do inverno de Moscou de 2009 não só dariam como se transformaram em Vermelho Russo, longa-metragem que chega hoje aos cinemas.

Muita vodka, risadas, perrengues e choradeiras aconteceram durante a viagem que Martha fez a Rússia para estudar a famosa técnica Stanislavski de interpretação. Ela escreveu em um diário, que acabou virando a gênese do roteiro do filme, as situações, os dramas e surrealidades que vivenciou em uma das cidades mais peculiares do mundo.

No filme, em meio à neve ela chega a Academia Russa de Arte Teatral junto com uma amiga, a também atriz, Manu (Maria Manoella, com quem Martha foi, de fato, fazer o curso na Rússia) sem saber falar uma vírgula do idioma local. As duas em busca de se reinventarem na profissão vão fazer as aulas do método com um professor rígido (Vladimir Poglazov), que, com a ajuda de uma interprete, corrige e crítica quase todos os passos das duas atrizes e dos demais colegas de classe. Além da dupla, o filme conta com as participações de Michel Melamed, Soraia Chaves e Esteban Feune de Colombi.

Constantemente testadas pelo professor, desapontadas e com muito frio, as duas refletem sobre as dificuldades da profissão, os caminhos que escolheram e a amizade uma da outra, que ao longo do filme é testada e extrapolada por muitas vezes.

Com direção de Charly Braun, que também assina o roteiro, Vermelho Russo acaba sendo um misto de ficção e documentário, onde o diretor abusa da fotografia lindíssima de uma Moscou cheia de luzes, neve e arquitetura histórica, ao mesmo tempo em que segue as atrizes com uma câmera documental muito próxima, principalmente no momento de suas aulas, dentro de seus quartos e, até mesmo, no meio de suas brigas.

O frio deve ter impedido, claro, a vivência das atrizes fora dos espaços fechados, faltam mais cenas e imagens da cidade que não sejam da escola, dormitório, restaurantes e metrôs. Mas, ao mesmo tempo, ele amplia o sentimento de clausura diante da temperatura. Condição que intensifica os sentimentos de medo, busca e fuga que, por vezes, rodeia as duas atrizes. Nos vemos em um divertido caleidoscópio de possibilidades tentando descobrir o que elas teriam vivido realmente em 2009 e o que seria ficção para o filme de 2017.

Nessa “montanha russa”, os dias passam rapidamente e um misto de felicidade e infelicidade visitam Martha e Manu: seja em um raro elogio do professor, em um bate-boca, em encontros com atores aposentados que se refugiam nos dormitório da Academia Russa de Arte Teatral, nas situações hilárias que vivem por não entenderem a língua ou nas singularidades de um povo com uma cultura bem diferente da nossa, até mesmo na forma de atuação teatral.

Com esse cruzamento improvável de frivolidade e profundidade, Vermelho Russo fala sobre os dias que se movem, sobre nossos olhos diante das novidades e das diferenças, de teatro e da busca eterna por sentimentos, afirmações e conexões com o que fazemos em nossas vidas.

Foto: Bruno Alfano
Foto: Bruno Alfano
Foto: Bruno Alfano

Governo federal cobra investigação de mortes de trabalhadores rurais

Por
Redação
-
25 de maio de 2017
Foto- EBC
Foto- EBC
  • André Sampaio

A procuradora federal dos Direitos do Cidadão, Deborah Duprat, está no Pará e integra uma missão federal que busca informações sobre a investigação a respeito da morte de 10 pessoas que ocupavam uma fazenda em Pau D’Arco, no sudeste do estado, ocorrida na manhã de ontem (24). O presidente do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), Darci Frigo, e um representante da Defensoria Pública da União também integram a comitiva que sobrevoou a área antes de pousar em Marabá, a cerca de 300 quilômetros do local da chacina, onde se encontram os corpos das vítimas.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará, as mortes ocorreram durante uma ação policial para cumprimento de 16 mandados judiciais de prisão preventiva, temporária e de busca e apreensão determinada pela Vara Agrária de Justiça de Redenção. Ainda de acordo com a secretaria, os policiais militares e civis foram recebidos a tiros. Nenhum policial, no entanto, foi ferido. Entre os posseiros mortos, há nove homens e uma mulher. Há ainda relatos de que vários posseiros foram feridos durante a ação policial.

A missão do Conselho Nacional dos Direitos Humanos tem o objetivo de acompanhar a perícia e exigir celeridade na investigação e responsabilização dos culpados. As mortes ocorrem um dia após o conselho, órgãos públicos e organizações sociais realizarem um ato contra a violência no campo, em Brasília. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), no ano passado, foram registrados 61 assassinatos em conflitos no campo, o pior resultado desde 2003. Este ano, o total de mortes no campo já chega a 36 – incluídos os 10 casos de ontem (24).

Segundo a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Estado do Pará (Fetraf), o caso da Fazenda Santa Lúcia, em Pau D’Arco, só perde em número de mortos para o episódio que ficou conhecido como Massacre de Eldorado do Carajás, em 17 de abril de 1996, quando 19 trabalhadores foram assassinados.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, os 16 mandados de prisão foram resultado de uma investigação sobre uma suposta tentativa de homicídio. As vítimas da tentativa de homicídio seriam parentes do dono da fazenda e um funcionário de uma empresa de segurança que trabalhava para o dono da propriedade.

A Polícia Civil apreendeu 11 armas de grosso calibre no local, incluindo um fuzil 762 e uma pistola Glock modelo G25. A secretaria informou que o governo estadual enviou para o município de Pau D’Arco uma equipe especial para intensificar as investigações e reforçar a segurança na região da Fazenda Santa Lúcia.

Para que tenhamos novos Antonios Candidos

Por
Redação
-
19 de maio de 2017
Antonio Candido
Antonio Candido
  • Laíssa Barros

As ciências humanas e sociais no Brasil experimentam hoje uma situação paradoxal. De um lado, nunca se produziu tanto conhecimento acadêmico em nosso país, sobretudo no formato de artigos em revistas científicas; do outro, estamos lendo cada vez menos sobre temas fora das nossas confortáveis especialidades, e talvez nunca tenhamos sido tão carentes como agora de intelectuais de ampla erudição. A perda do grande Antonio Candido, que nos deixou no último dia 12 de maio, desnuda claramente esse paradoxo. Onde estão os nossos Cândidos contemporâneos? O que explica essa aparente contradição? Seria apenas consequência de uma inevitável especialização intelectual e do enorme avanço dos meios de disseminação e armazenamento de informação? Em parte, sim. Atualmente, tornar-se especialista de qualquer coisa demanda um esforço hercúleo para ler tudo o que se produziu e se produz em determinados assuntos, e analisar as diversas (e cada vez mais infinitas) fontes primárias disponíveis. No entanto, há um outro lado dessa história, a meu ver igualmente responsável pela situação em que nos encontramos: a crescente e angustiante pressão produtivista.

A estrutura de incentivos da academia brasileira em ciências humanas e sociais está totalmente dependente de índices quantitativos de produção, sobretudo publicação de artigos em revistas acadêmicas, reproduzindo acriticamente estruturas advindas das ciências exatas e naturais. Para qualquer coisa que queiramos fazer, de pedidos de auxílio de pesquisa à progressão na carreira profissional, da solicitação de bolsas para alunos à manutenção de vínculo em programas de pós-graduação, tudo passa pela questão da produtividade. Nada mais importa. Qualidade das aulas, participação em debates públicos, atividades de extensão universitária, coordenação de grupos de estudo tornaram-se secundários. No grande Big Brother acadêmico que virou a Plataforma Lattes (portal público de currículos acadêmicos do Brasil), professores e estudantes só olham uma coisa: número de artigos publicados. Até mesmo livros (sic) estão ganhando reputação de produção inferior quando comparados a “papers”.

Essa rápida e grande mudança da academia brasileira, que basicamente ocorreu nas últimas duas décadas, provou que acadêmicos em ciências humanas e sociais do nosso país (eu incluso) respondem muito bem a incentivos. Em menos de uma geração, a tendência a uma reflexão cuidadosa, crítica e profunda de diversas questões, que desaguavam na produção de poucos (mas muito substantivos) resultados intelectuais, especialmente livros, deu lugar a uma frenética e periódica produção de artigos científicos, muitos dos quais fruto de pesquisas em estágios iniciais e que, em vários casos, precisavam de maior maturação para ir para o papel. Como não temos tempo a perder, porém, hoje mais importante do que publicar algo relevante é simplesmente publicar. Muitos chegam a dizer que, para sobreviver na academia, temos que ter “estratégia de publicação”. Inverteu-se a lógica: ao invés de a produção científica ser resultado natural de indagações e inquietações acadêmicas (ou, se preferirem, de uma “estratégia de pesquisa”), está se tornando cada vez mais comum a decisão de formular projetos e participar de núcleos de pesquisa a partir de seu potencial para gerar a maior quantidade possível de publicações, independentemente do conteúdo. Ao fazer isso, tomando-me de metáfora formulada por uma grande colega, professa Rossana Reis (FFLCH-USP), tenho a sensação de que estamos caminhando felizes para a câmara de gás: quanto mais produzimos e quanto menos refletimos sobre o que estamos produzindo, mais munição estamos dando para aqueles que advogam a inutilidade de nossas funções perante à sociedade.

Essa estrutura de incentivos produtivista também está desnudando e potencializando práticas no mínimo questionáveis na academia – quando não antiéticas. Dois exemplos emblemáticos são a explosão de coautoria em textos científicos e a publicação de artigos em revistas predatórias (isto é, periódicos que publicam qualquer coisa em troca de pagamento). A questão da coautoria é algo muito complexo e que demandaria mais espaço para ser discutida com propriedade. Coautoria em si não é problema algum: pelo contrário, dada a crescente interdisciplinaridade e especialização acadêmicas, a possibilidade de publicar trabalhos em conjunto é um mecanismo importantíssimo para viabilizar determinadas empreitadas intelectuais. O problema é a disseminação da prática (muito difícil de provar, mas que todos sabem que ocorre, e em intensidade cada vez maior) da coautoria fantasma. Isto é, acadêmicos que pouco ou nada colaboraram para a produção de um determinado artigo aparecem como autores desses trabalhos, seja devido a uma troca de favores (eu ponho seu nome no meu artigo e você põe o meu nome no seu), seja por assimetria de poder (patrimonialismo, clientelismo e relação de dominação orientador-orientando).

O fenômeno das publicações entre orientador e orientando, em especial, constitui um problema gravíssimo. De novo: não há problema algum de orientadores e orientandos redigirem um artigo em conjunto. A questão é que está virando normalidade orientadores colocarem seus nomes em artigos de orientandos apenas por terem supervisionado esses trabalhos – algo que, ao menos nas ciências humanas e sociais, nunca foi prática corrente. Se o pré-requisito fundamental para obtenção do título de mestre ou doutor é o fato de candidatos serem capazes de apresentar à comunidade científica um trabalho individual, como se explica o fato de, magicamente, aparecem artigos, resultados diretos de teses e dissertações (em andamento ou finalizadas), com o nome do orientando e do orientador como coautores? De duas uma: ou o orientando não fez o trabalho sozinho – e, logo, a defesa da tese ou dissertação teria constituído em uma fraude –, ou o orientador colocou seu nome no artigo do aluno sem ter sido autor de fato, o que perfaz coautoria fantasma.

Tão grave quanto práticas antiéticas de coautoria é a disseminação de publicações pagas em revistas internacionais. Sob a falsa justificativa de que com a cobrança de taxas se estaria garantindo acesso aberto a artigos – algo que ocorre, de fato, com periódicos respeitáveis em ciências exatas e naturais, mas não em ciências humanas e sociais –, algumas revistas internacionais publicam qualquer coisa, literalmente, em troca de dinheiro. Para incentivar o maior número possível de submissões em todas as áreas do conhecimento, muitas dessas revistas possuem os títulos mais amplos, vazios e esdrúxulos possíveis, como International Review of Basic and Applied Sciences, International Review of Social Sciences and Humanities , e International Science and Investigation Journal (uma lista recente das principais editoras e revistas predatórias pode ser encontrado aqui: http://beallslist.weebly.com). A ânsia produtivista e pró-internacionalização vem empurrando alguns acadêmicos a procurar esse tipo de publicação, mesmo sabendo que tais revistas e editoras serão necessariamente mal classificadas por órgãos federais de ensino, como a CAPES. O pensamento é: melhor publicar algo, mesmo que em revistas predatórias, ainda mais se for em inglês, do que não publicar nada. Como consolação para as muitas e muitos na academia que são obrigados a conviver com essas práticas e ficam indignados com o fato de que essas ações antiéticas muitas vezes dão resultados (bolsas, prestígio, cargos, poder), lembremos que toda publicação permanece para a posteridade. O tempo é o melhor dos juízes para transformar em pó a reputação de acadêmicos sem escrúpulos.

Temos todas as condições de produzir novas e novos Antonios Candidos, Celsos Furtados, Florestans Fernandes e Darcys Ribeiros, mas isso não será possível se continuarmos trilhando o mesmo caminho. Precisamos debater urgentemente formas alternativas (e necessárias) de prestar contas à sociedade e à comunidade científica que não estejam baseadas simplesmente na produção quantitativa de artigos. Recuperar a liberdade, a tranquilidade e o tempo de pensamento deve ser nossa principal bandeira. Que a perda de Antonio Candido nos estimule a refletir sobre novos caminhos.

*Felipe Loureiro é Professor, Instituto de Relações Internacionais, USP

A derrocada da ciência brasileira

Por
Manuela Azenha
-
19 de maio de 2017
Foto- Monique Oliveira
Foto- Monique Oliveira

A comunidade científica enfrenta um período de trevas. O governo afiou a tesoura e cortou 44% do orçamento do MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação) em março. Dos R$ 5 bilhões previstos para 2017, R$ 2,2 bilhões estão contingenciados: ou seja, o dinheiro “até existe”, mas ninguém pode gastar.  O corte vai render para 2017 o título do pior orçamento em ciência nos últimos 12 anos.

A tesoura tem um porquê, justifica o governo. O PIB caiu 3,6% em 2016 e chegamos à pior recessão da história. Quando os ministérios da Fazenda e do Planejamento divulgaram que o rombo público seria ainda maior que o previsto inicialmente, quase todas as pastas passaram por cortes para tentar segurar o déficit. A meta era cortar R$ 42,1 bilhões (28%) de onde desse. Só o Ministério da Saúde ficou de fora.

O problema, argumenta a comunidade científica, é que a ciência já vinha sofrendo cortes “generosos” nos últimos anos. Em 2013, o orçamento era de R$ 10,2 bilhões e foi sendo re­du­zido progressivamente até chegar aos R$ 2,8 bilhões de hoje (ou R$ 3,2 bilhões, se contados recursos de outras iniciativas de ciência atreladas ao PAC – Programa de Aceleração do Crescimento). Soma-se a isso o fato de que a ciência já tem um orçamento bem menor se comparado ao de outras áreas. O setor consome cerca de 1% do PIB, enquanto o gasto com saúde fica em torno de 8%. Para completar, tivemos a fusão do ministério com a pasta de Comunicação na era Temer.

“Resultados exemplares, como o aumento em quatro vezes da produtividade da agricultura, a melhoria da exploração de petróleo em águas profundas ou ainda o enfrentamento de epidemias emergentes… tudo isso está ameaçado.”

Luiz Davidovich, presidente da ABC (Academia Brasileira de Ciências)

Diante do cenário, cientistas estão boquiabertos. “Olha… a situação é grave, muito grave”, desabafa Helena Nader, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). “É aquela imagem de alguém se afogando e chega uma mão para afundar ainda mais”, diz Marcos Barbosa, professor de Filosofia na USP. “Os cortes ameaçam o futuro do País”, diz Luiz Davidovich, presidente da ABC (Academia Brasileira de Ciências).

A Brasileiros perguntou ao MCTIC qual a perspectiva para o ano diante dos cortes. A resposta oficial é que a pasta tenta negociar para recuperar o orçamento. O que se comenta nos bastidores, contudo, é que isso dificilmente ocorrerá. Resta aos cientistas chamar a atenção para o impacto da tesoura: os cortes afetarão a formação de pesquisadores de todo o País; paralisarão laboratórios por falta de insumos e de materiais; impedirão pagamentos de projetos de pesquisas já aprovados; e dificultarão medidas implementadas de internacionalização da ciência brasileira. “Resultados exemplares, como o aumento em quatro vezes da produtividade da agricultura, a melhoria da exploração de petróleo em águas profundas ou ainda o enfrentamento de epidemias emergentes… tudo isso está ameaçado”, alerta Davidovich.

Marcha pela ciência: Annelise Frazão, doutoranda da USP, e Thais Guedes, pós-doutora em Biologia, no Largo da Batata, em São Paulo. “A gente não pode tapar o sol com a peneira. Temos que discutir e mostrar o que está acontecendo, independente do partido. Devemos discutir com a população os problemas”, diz Annelise. Foto: Monique Oliveira
Marcha pela ciência: Annelise Frazão, doutoranda da USP, e Thais Guedes, pós-doutora em Biologia, no Largo da Batata, em São Paulo. “A gente não pode tapar o sol com a peneira. Temos que discutir e mostrar o que está acontecendo, independente do partido. Devemos discutir com a população os problemas”, diz Annelise. Foto: Monique Oliveira

Os cortes em ciência também chegam em um momento em que fundações estaduais de apoio à pesquisa passam por dificuldades. Essas entidades, que financiam pesquisas e bolsas de pós-graduação, também enfrentam as crises dos Estados e a recessão. A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo), a mais rica fundação do País, fica com 1% das arrecadações tributárias em São Paulo. Em janeiro, no entanto, deputados redirecionaram R$ 120 milhões da entidade para institutos de pesquisa. Foi a primeira vez que a Fapesp ficou com um orçamento abaixo do previsto por lei desde a sua criação em 1960.

No Rio, a situação da Faperj (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) é tão grave que há atraso no pagamento de bolsas. “É uma perda grande porque esses alunos sobrevivem disso”, diz Tatiana Roque, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “No Rio, formamos uma rede para estudo do Zika em todas as frentes, mas tudo está parado.”

Também cerca de 70% da ciência brasileira é feita dentro das universidades públicas do País – e elas estão em crise. A situação na Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) chegou a tal ponto que em janeiro a reitoria avisou o governo que a universidade poderia fechar. Na USP, uma intensa política de demissões voluntárias abalou o funcionamento de vários serviços da universidade e a creche foi fechada. O atual reitor, Marco Antonio Zago, estabeleceu um teto para os gastos. A medida foi apelidada de “PEC do fim da USP”.

Com tudo isso, o consenso é de que o cenário não só afeta o momento presente e o futuro: ele inutiliza o investimento já feito. Para os pesquisadores, enquanto o País se perde em meio à visão estreita do ajuste, o atraso social e científico não será recuperado facilmente. “O Brasil corre o risco de perder a competência construída ao longo de muitas décadas”, diz Davidovich.

Enquanto a tônica por aqui é segurar o orçamento em tempos de crise, a SBPC e a ABC sustentam que outros países têm visões opostas. A União Europeia, por exemplo, tem a meta de aplicar 3% do PIB em ciência até 2020. A China quer chegar a 2,5% do PIB. Coreia do Sul e Israel investem mais que 4% do PIB. “Ciência é desenvolvimento. A cada US$ 1 aplicado em ciência, retornam US$ 7”, alerta Helena.

“Eu acho os cortes abusivos e por isso estou aqui. As sociedades são dependentes de ciência em todos os sentidos e, por isso, você tem que ter um Ministério que dê prioridade à ciência, que confira uma maior diversidade à pesquisa.” Mariana Stanton, 32, bióloga. Foto: Monique Oliveira
“Eu acho os cortes abusivos e por isso estou aqui. As sociedades são dependentes de ciência em todos os sentidos e, por isso, você tem que ter um Ministério que dê prioridade à ciência, que confira uma maior diversidade à pesquisa.” Mariana Stanton, 32, bióloga. Foto: Monique Oliveira


Cortes são falta de visão?

A ideia de que ciência traz retornos certos para a economia precisa ser mais bem problematizada no caso brasileiro, dizem pesquisadores do tema. Para Renato Dagnino, da Unicamp, e Marcos Barbosa, da USP, o discurso da ciência como alavanca do desenvolvimento deve levar em conta a estrutura da economia brasileira e o fato de que políticas que apostaram nessa faceta da ciência não deram certo.

O mote ciência-desenvolvimento chegou com mais força ao Brasil em meados dos anos 2000 com a política de inovação. “Inovação aqui é a ideia de uma invenção rentável”, explica Barbosa. A política tinha por objetivo dar incentivos às indústrias que desenvolvessem projetos mais originais e de maior valor agregado – tarefa que, no Brasil, é historicamente exercida em estatais como Embraer, Embrapa e Petrobras.

“A imagem que está se formando de que esse governo é obscurantista, que não gosta da ciência, é equivocada. É apenas o reconhecimento de que os dados obtidos são irrelevantes para o mercado.”

RENATO DAGNINO, PROFESSOR DA UNICAMP

“Foi um fracasso total”, diz Barbosa. A última Pintec (Pesquisa de Inovação), referente ao período de 2012 a 2014, mostra que 36% das empresas fizeram algum tipo de inovação, valor que ficou abaixo do observado entre 2006 e 2008 (38%). O índice preocupa porque as empresas contaram com grande incentivo governamental para inovar. E essas taxas de inovação incluem itens como a compra de máquinas e softwares – quando se pensa em “inovação real”, os dados despencam.

Do mesmo modo, a falta de investimento da indústria em inovação não pode ser explicada simplesmente por uma “ausência de cultura das empresas”, diz Barbosa. O pesquisador cita trabalhos que mostram as razões pelas quais a inovação não deslancha por aqui. São três: ainda estamos concentrados na produção de commodities, que é menos dinâmica em tecnologia; em muitas indústrias, não há escala para venda mundial; e o nosso setor produtivo é muito “internacionalizado”, com multinacionais que apenas replicam aqui o conhecimento produzido lá fora.

Assim, os cortes podem ser em parte explicados porque a ciência não está logrando os resultados esperados para uma economia neoliberal. “A imagem que está se formando de que esse governo é obscurantista, que não gosta da ciência, é equivocada” diz Dagnino. “É apenas o reconhecimento de que os dados obtidos são irrelevantes para o mercado.”  Já Helena Nader, da SBPC, diz que o Brasil estava começando a mostrar para o empresariado a importância da  inovação. “Não foi um extraterrestre que tirou o petróleo do pré-sal. Foram centros de pesquisas de todo o País, financiados ao longo de todos esses anos pela Petrobras.”

“Eu acho os cortes abusivos e por isso estou aqui. As sociedades são dependentes de ciência em todos os sentidos e, por isso, você tem que ter um Ministério que dê prioridade à ciência, que confira uma maior diversidade à pesquisa.” Daniel Seda, 43, professor de tecnologia e artes. Foto: Monique Oliveira
“Eu procuro também ensinar o método científico para os meus alunos. A ciência ensina como as coisas funcionam. Eu estou aqui em defesa da ciência porque eu acho que todos devem ter acesso a ela, todos deveriam entender como o mundo funciona.” Daniel Seda, 43, professor de tecnologia e artes. Foto: Monique Oliveira

Por uma outra ciência

Se o investimento em ciência não interessa para os interesses do mercado, que os cientistas se voltem para as necessidades diretas da população, defende Dagnino. Ele diz que muitos dos problemas da nossa sociedade padecem de um “déficit cognitivo”: ou seja, não temos conhecimento disponível para pensar sobre nossos imbróglios, muitos deles históricos. “Você sabe que mais da metade da população brasileira não tem saneamento básico, né?”, pergunta o pesquisador. “Se quisermos resolver o problema com tecnologia convencional, teremos um custo econômico e ambiental absurdo porque essa tecnologia não foi renovada. Sem falar que não geraremos trabalho e renda, não vamos fomentar setores da economia que poderiam usufruir desse poder de compra do Estado”, explica.

Dagnino defende uma revisão na política científica brasileira para que sejam priorizadas no Brasil as chamadas “tecnologias sociais”, um ramo do conhecimento que tem ganhado defensores na esquerda. É a ideia de que a ciência feita com dinheiro público deve ser usada para melhorar as condições de vida da população diretamente. Segundo ele, também a esquerda hegemônica não deve considerar a ciência como neutra. Há um tipo de ciência que pode, sim, promover mais igualdade.

Na aula magna de apresentação dos cursos de pós-graduação da USP desse ano, o neurocientista Miguel Nicolelis afirmou que a ciência não vive sem utopia. Parte dessa utopia, disse, deve levar o cientista a pensar para além dos artigos publicados ou da bolsa recebida. “O cientista tem um compromisso com a humanidade e pode ter uma posição política.”

"É importante se mobilizar não só para defender a ciência, mas para disputar uma política científica mais justa. De que adianta uma ciência autônoma e forte, se suas instituições forem o retrato da nossa elite, e suas aplicações só ampliarem nossa desigualdade? ". Miguel Said, professor da UFABC (Universidade Federal do ABC). Foto: Monique Oliveira
“É importante se mobilizar não só para defender a ciência, mas para disputar uma política científica mais justa. De que adianta uma ciência autônoma e forte, se suas instituições forem o retrato da nossa elite, e suas aplicações só ampliarem nossa desigualdade? “. Miguel Said, professor da UFABC (Universidade Federal do ABC). Foto: Monique Oliveira

Se para uns essa utopia é a tecnologia social, mais próxima da população; ou a esperança de um Brasil mais competitivo com empresas inovadoras, o fato é que a ciência precisa levar esse debate para a sociedade. Na última pesquisa de Percepção Pública de Ciência e Tecnologia (2015), feita pelo MCTIC, 87,5% dos entrevistados não conseguiram citar uma instituição que se dedique a fazer pesquisa no Brasil. E 93,3% nem sequer lembraram de um único cientista brasileiro.

Impulsionada pelos cortes e pela crise, a ciência tem tentado buscar o diálogo. Prova disso é que pela primeira vez por aqui tivemos a “Marcha pela Ciência”, que no dia 22 de abril ocorreu em 15 cidades brasileiras. Em São Paulo, a marcha mostrou as divisões que povoam a comunidade científica. No evento, a fala de um convidado que criticou reformas do governo foi interrompida. A justificativa foi o apartidarismo da marcha. Também quando um passante pediu voz, a organização só permitiu a intervenção depois de manifestações favoráveis dos presentes.

Talvez não à toa, a ciência é pouco citada nas pautas de movimentos sociais – boa parte dos cientistas quer distância dos debates políticos, e boa parte da esquerda não a inclui em suas reivindicações. A comunidade científica tem, então, o desafio de levar um projeto de nação para a sociedade brasileira. E, por que não, uma utopia? Que País a ciência pode ajudar a construir e por que ela merece os recursos públicos? Que venha o debate. E que todos participem dele.

A gangue do Sargento Pimenta

Por
Redação
-
18 de maio de 2017
Capas dos 30 álbuns selecionados nesta reportagem. Foto- Divulgação
Capas dos 30 álbuns selecionados nesta reportagem. Foto- Divulgação

*Por Marcelo Pinheiro, Daniel de Mesquita Benevides e Bia Abramo

Houve uma vez um Verão do Amor. Retrato vívido da atmosfera de sonho coletivo que cooptou parte ex­­pressiva da juventude ocidental em 1967, o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band completa, com frescor intacto, meio século de seu lançamento no próximo dia 1° de junho. Longe de configurar episódio isolado de ousadia estética, o oitavo LP dos Beatles amplificou ex­pe­ri­­mentações presentes no trabalho lançado no ano anterior, o essencial Revolver, e difundiu estatutos de uma nova era de invenção para o rock, também ensaiada em 1966 por grupos como Beach Boys, na obra-prima Pet Sounds, e The Kinks, em alguns temas do sublime Face to Face.

Herdeiros de movimentações subterrâneas da cultura norte-americana – como as proposições de vanguarda do jazz bebop e o existencialismo hedonista da geração beat –, os jovens que protagonizaram o Verão do Amor tiveram como pautas de sua política de transformação comportamental as defesas do sexo livre e do pacifismo, o combate ao racismo, a interação com a natureza e a expansão da consciência por meio do uso recreativo de substâncias lisérgicas, como a maconha, o haxixe e o LSD – esta última, como sabemos, aludida nas iniciais de Lucy in the Sky with Diamonds, de Sgt. Peppers.

Em 1966, essa busca por transcendência, que teve a música como principal vitrine, foi sintetizada no título de um álbum homônimo falado. Nele, o psiquiatra norte-americano Timothy Leary, notório pelas pesquisas inaugurais sobre o uso do LSD, cunhou a expressão “turn on, tune in, drop out!” (em tradução livre, “se ligue, sintonize, caia fora!”). Em 14 de janeiro de 1967, essa sentença reverberou novamente em um discurso proferido por Leary durante a abertura do Human Be-In, festival embrionário do Verão do Amor, que reuniu mais de 20 mil jovens no Golden Gate Park, em San Francisco. Organizado pelo artista plástico Michael Bowen e o poeta Alan Cohen, o encontro reuniu, entre outros, o ativista Jerry Rubin, fundador do YIP (sigla em inglês de Partido Internacional da Juventude), os poetas beat Allen Ginsberg, Gary Snyder e Lawrence Ferlinghetti e bandas locais pioneiras do psicodelismo, como Grateful Dead, Jefferson Airplane e Quicksilver Messenger Service.

Com o aval científico de pesquisadores como Leary, o LSD foi comercializado para fins psiquiátricos até outubro de 1966. A substância, que era produzida e distribuída pelo laboratório suíço Sandoz, inspirou um dos primeiros temas lisérgicos dos britânicos do The Animals, a composição A Girl Named Sandoz, lançada em compacto no mesmo ano da proibição. Pouco antes, em 1962, um grupo de proto-hippies denominado Merry Pranksters (algo como “festivos gozadores”) e liderado pelo escritor Ken Kesey, autor do clássico Um Estranho no Ninho, deu início a experiências de uso coletivo de LSD em uma comunidade alternativa sediada em La Honda, na Califórnia.

Em 1964, Kesey decidiu comprar um velho ônibus escolar, cobriu a lataria de temas e cores psicodélicos e fez adaptações, como incluir um sistema de áudio para que os músicos que viajassem no utilitário pudessem “transar” um som. Com o neologismo furthur como itinerário (um trocadilho entre as palavras além e futuro), municiado de LSD diluído em litros de suco de laranja, Kesey caiu na estrada com o escritor beat Neal Cassidy, que inspirou o personagem Dean Moriarty de On The Road, de Jack Kerouac, ao volante. O drop out rodoviário tinha um propósito bem definido: cruzar o máximo de cidades norte-americanas e identificar voluntários dispostos a realizar os chamados “acid tests” (a excursão tresloucada foi retratada no livro O Teste do Ácido do Refresco Elétrico, lançado em 1968 por Tom Wolfe.)

Quando Sgt. Peppers foi colocado na praça, ações desbundadas como o Human Be-In e a itinerância chapada dos Pranksters proliferavam com a mesma desenvoltura com que Jimi Hendrix solava sua Fender Stratocaster. Nas páginas a seguir, reunimos 30 álbuns que chancelam: 1967 foi mesmo um ano mágico para a música. Não por acaso, a influência dos sonhos e os sons multicoloridos vindos de fora logo ressonaram no Brasil, com a insurreição tropicalista de Caetano Veloso, Gilberto Gil e os Mutantes no Festival da Música Popular da TV Record daquele mesmo ano. A onda bateu tão forte que, em 1967, até mesmo Ronnie Von mergulhou no psicodelismo.

Alguns títulos selecionados aqui, de bandas como Rolling Stones, The Doors e The Who, são mais conhecidos, mas todos podem ser ouvidos em plataformas de streaming como YouTube, Spotify e Deezer, escolha a sua. Antecipamos, no entanto, que todos estão disponíveis, via clique nos títulos, destacados em amarelo, no Youtube. Boa viagem! (M.P).

Estudo de composição para a capa de “Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band”. Foto: Reprodução / Parlophone Records
Estudo de composição para a capa de “Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band”. Foto: Reprodução / Parlophone Records
A icônica versão definitiva, criada pelo casal de artistas Peter Blake e Jann Waworth. Em celebração aos 50 anos do álbum, Paul McCartney, que inspirou a produção da capa a partir de um desenho seu, se apresentará no Brasil entre os dias 13 e 20 de setembro, em Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte e Salvador. Foto: Reprodução / Parlophone Records


POR DANIEL DE MESQUITA BENEVIDES 

The Doors – The Doors (janeiro)
Com um mix original de jazz, rock e blues, e um vocalista que parecia um Prometeu erótico, os Doors logo se tornaram uma das bandas mais incendiárias da história. Tanto neste primeiro álbum quanto em Strange Days, de dezembro de 1967, Jim Morrison, Ray Manzarek, Robbie Krieger e John Densmore gravaram canções inesquecíveis, que se equilibravam entre o hedonismo sem culpas (Love Me Two Times) e incursões às turbulências da psique (The End, com seu famoso “breque” edipiano). Light my Fire ganhou as paradas e When the Music is Over virou ponto alto nos shows, muitos deles conturbados por histeria de fãs e intervenções policiais. Como Hendrix e Janis Joplin, Morrisson morreu cedo, aos 27. E entrou para a mitologia.
Country Joe & The Fish – Electric Music for the Mind and Body (abril)
Nenhum grupo de San Francisco foi mais politizado que o Country Joe & the Fish, cujo nome faz referência a Stalin e Mao. No disco de estreia, anterior a dois EPs independentes, essa politização também se dirigia ao corpo, como bem diz o título. Amor, sexo livre, legalização das drogas, defesa dos direitos civis e pacifismo contra a guerra do Vietnã faziam parte das preocupações da banda, presença constante nas manifestações de estudantes, hippies, beats e trabalhadores. Três bons exemplos desse álbum a um só tempo viajante e pé no chão: a divertida Superbirdridiculariza o presidente Lyndon Johnson; Base Stringsconclama ao uso de LSD e Grace faz uma declaração de amor a Grace Slick, musa do Verão do Amor.
The Jimi Hendrix Experience – Are You Experienced(maio)
Quem pichou “Clapton is God” errou feio: deuses de verdade eram John Coltrane e Jimi Hendrix. Não apenas porque tocavam divinamente, mas também porque foram longe em suas investigações sônicas. Hendrix adorava explorar as possibilidades de estúdio (vide If 6 Was 9) e as distorções na guitarra. Ao mesmo tempo, era um grande vocalista, de um flow suave e malandro (no melhor dos sentidos), que fazia um contraste perfeito com a violência sensual de seus solos. Ao seu lado, o baixista Noel Redding e o sensacional baterista Mitch Mitchell formavam a melhor cozinha da época. Purple Haze, Hey Joe e Foxy Lady, entre outras, eternizaram o trio. O segundo álbum, Axis: Bold as Love, do mesmo ano, também é uma obra-prima.
Frank Zappa & The Mothers of Invention  – Absolutely Free (maio)
Sem as canções mais “pop” de Freak Out!, este segundo álbum de Zappa e seu combo californiano é uma colagem louca e livre de sons, cuja unidade é a sátira sócio-política e o pastiche de gêneros, que vão do rock primitivo de Louie, Louie à vanguarda clássica de Stravinski. É a obra mais experimental do começo da carreira do guitarrista e compositor, e mesmo assim chegou ao Top 50 nos EUA. Anarquista convicto, Zappa também tira sarro do presidente americano logo na primeira faixa e não poupa nem mesmo os amigos hippies e psicodélicos. Como desprezava as drogas e os junkies, ele é provavelmente o único artista dessa seleção que nunca tomou LSD. Sua inteligência alucinante era suficiente para qualquer viagem.
The West Coast Pop Art Experimental Band – Part One (maio)
Banda bastante peculiar, mesmo para os padrões psicodélicos. Formada em Los Angeles, em 1965, era tida como a resposta da costa oeste ao Velvet Underground. Tiveram vida curta e apenas o álbum inicial atingiu a boa dosagem entre psicodelia, experimentação, certo desleixo bem-humorado, harmonias vocais à Byrds e melodias típicas da chamada Invasão Britânica. Há alguns covers, de Zappa e Bob Johnston, mas o que conta é a inventividade dos arranjos, a estranheza (às vezes sutil, outras escancarada) das canções e a dinâmica morde-e-assopra da narrativa musical, alternando faixas sombrias e ensolaradas. Bom antídoto para qualquer momento de tédio. Mas cuidado com a dosagem: convém consumir com moderação.
The Red Crayola – The Parable of Arable Land(junho)
Um dos álbuns pioneiros do rock experimental, em que ruídos e barulhos de toda espécie fazem parte da festa, The Parable of Arable Land é uma aventura sonora inesquecível (e perturbadora), bem diferente do espírito hippie da época. Ninguém sabia tocar direito, mas as ideias explodiam como estrelas novas. Ali já estavam contidas a atitude do-it-yourself do punk e o tom sombrio e esquizoide do pós-punk, movimento (se é que dá para chamar assim) do qual o grupo, texano como os 13th Floor Elevators, iria participar, numa nova encarnação em torno do líder Mayo Thompson, incluindo integrantes das bandas X-ray Spex, Swell Maps e Raincoats. Thompson ainda teve uma passagem pelo lendário Père Ubu.
Moby Grape – Moby Grape (junho)
Uma das bandas mais subestimadas da história do rock. Melhor que seus amigos de San Francisco, o Jefferson Airplane e o Grateful Dead, a Moby Grape tinha três geniais guitarristas e cinco ótimos vocalistas. De quebra, todos compunham. A produção do disco de estreia, um dos grandes lançamentos dos anos 1960, é de um frescor tal que parece que foi gravado hoje. Melodias bonitas, harmonias arrepiantes e um entusiasmo contagiante quase fazem esquecer a trajetória triste do quinteto, que, não fossem os cartolas da música, as prisões por porte de drogas e as brigas internas (além da esquizofrenia de Skip Spence, que dois anos depois lançaria o lindo e alucinógeno Oar), teria sido tão popular quanto Beach Boys e Byrds.
Pink Floyd – The Piper at the Gates of Dawn(agosto) 
As duas primeiras músicas formam um dos começos mais arrebatadores do rock. Astronomy Domine e Lucifer Samdefinem a origem do Floyd: órgão viajante (quando não sinistro), metáforas espaciais, guitarras levemente distorcidas, efeito nos vocais, melodias doces e estranhas, baixo e bateria beirando uma síncope. Interestellar Overdive é outro ponto alto: corta o disco inaugural da banda como um raio cósmico. Syd Barrett ainda não tinha pirado ompletamente com o LSD no chá das cinco (e das seis, sete….). Suas composições, entre o infantil e o lunático, que por vezes fazem lembrar Lewis Carroll, revelam um talento nunca igualado. Nem mesmo os Beatles, gravando no mesmo estúdio, o lendário Abbey Road, fizeram melhor.
Vanilla Fudge – Vanilla Fudge (agosto)
Ponte direta entre o rock psicodélico e o heavy metal, o Vanilla Fudge influenciou decisivamente bandas como o Deep Purple e o Led Zeppelin, que chegou a abrir alguns shows do quarteto de Long Island (Nova York). Guiado por um Hammond pantanoso, o Fudge gravou vários covers no bem-sucedido álbum de estreia, que chegou ao sexto posto na parada americana. Entre eles, Ticket to Ride e Eleanor Rigby, dos Beatles, e People Get Ready, do imbatível soulman Curtis Mayfield. A novidade estava no andamento mais lento e pesado das versões, de forma que as canções ficavam quase irreconhecíveis, proporcionando um clima de chapação forte. Além do organista Mark Stein, o destaque era o batera Carmine Appice.
Procol Harum – Procol Harum (setembro)
Para quem só conhece A Whiter Shade of Pale, single tocado em toda rádio rock que se preze, o primeiro disco da banda inglesa deve ser uma boa surpresa. O estilo é ousado: um pré-progressivo com pegadas alternadas de pop e hard-rock, piscadelas ao clássico e à música de vaudeville ou dance-hall (algo, aliás, bem típico das bandas inglesas da época, vide Beatles e Kinks) e vocais de soul branco. Há melodias que grudam no ouvido e climas de órgão e piano fazendo cama para letras sombrias, cheias de imagens sugestivas. Depois gravaram outros álbuns tão bons ou até melhores, como A Salty Dog, de 1969. Recentemente voltaram a se reunir e lançaram uma nova coleção de inéditas, Novum, com elogios da crítica.
Beach Boys – Smiley Smile (setembro)
Este é o primeiro disco do grupo em que a liderança de Brian Wilson não se traduz na música. Se a banda perde o lado mais experimental e sublime, revelado um ano antes na obra-prima Pet Sounds, parece ganhar em coesão e entusiasmo. A coesão está em Smiley Smile, um disco que frustrou muita gente na época, pois lançado depois das especulações sobre o inacabado Smile (que, bem mais tarde, ganharia várias edições especiais). Na verdade, é muito bom, trazendo grandes harmonias vocais e esquisitices divertidas. Além disso, tem Heroes and Villains e Good Vibrations, dois dos melhores singles dos anos 1960. No quesito entusiasmo está o álbum Wild Honey, do mesmo ano, com uma pegada mais solta, beirando o soul.
The Electric Flag – The Trip Original Soundtrack(setembro)
Um sujeito careta toma ácido pela primeira vez e sai pelas ruas de Los Angeles. Passa por festas, casas noturnas, praias. Cores, luzes e sons explodem em sua mente e na do espectador. Ele é Peter Fonda. O roteiro é de Jack Nicholson. O filme, The Trip, é de Roger Corman, lenda do cinema B. A trilha sonora faz o acompanhamento perfeito para as aventuras lisérgicas na tela. É o primeiro lançamento da banda Electric Flag, fundada pelo guitarrista Mike Bloomfield, que fez história em alguns dos melhores discos de Bob Dylan. Todo instrumental, o álbum traz breves suítes de um psicodelismo impressionista e alguns blues funkeados, especialidade de Bloomfield. Bom clima para qualquer temperatura, em qualquer época.
Tim Buckley – Hello, Goodbye (setembro) 
Um dos vocalistas mais impressionantes dos anos 1960, não apenas pelo alcance extraordinário, mas também pela entrega emocional, Tim Buckley teve vida curta e morte trágica, como seu filho, Jeff Buckley, igualmente talentoso e mais conhecido pelas novas gerações. Era uma figura romântica, sempre em busca de um ideal, não importando as consequências. Construiu uma carreira não comercial, com mudanças de estilo e um direcionamento crescente para improvisações jazzísticas e experimentais, o que contrastava muito com o folk-rock gentil e poético do homônimo primeiro disco. Tinha apenas 21 anos em Hello, Goodbye, o seguinte. É seu álbum mais abertamente psicodélico, com belas e oblíquas melodias e letras enigmáticas.
The Rolling Stones – Their Satanic Majesties Request (dezembro)
Depois de lançarem o genial Between the Buttons no começo de 1967, com as clássicas I Can’t Get No (Satisfaction) e Ruby Tuesday, os Stones se viram diante do Sgt. Peppers. O álbum dos eternos rivais fazia com que tudo parecesse antiquado. De certa forma, obrigava os demais a darem uma resposta. Their Satanic…, a investida de Jagger & Cia., no entanto, não fez mágica, apesar da capa com os chapéus de feiticeiros. Tirando She’s a Rainbow e 2000 Light Years from Home (alô, Primal Scream!), o disco naufraga em experimentos estéreis com batidas tribais, ruídos e ingênuas intenções hippies. Nos anos seguintes, se redimiram numa sequência talvez nunca atingida: Beggar’s Banquet, Let it Bleed, Sticky Fingers e Exile on Main St..
Traffic – Mr. Fantasy (dezembro)
Todos no Traffic tinham sólida formação musical (o que talvez explique a diversidade nos arranjos da banda), a começar do vocalista, guitarrista e tecladista Steve Winwood, que aos 15 já cantava no Spencer Davies Group. Mais ligado ao jazz, soul e folk, ele fazia frente ao espírito pop e psicodélico de Dave Mason, que, além de guitarra e baixo, também tocava cítara. Antes de lançado o primeiro álbum, Mason deixou a banda, completada pelo baterista e letrista Jim Capaldi e o saxofonista e flautista Chris Wood. A faixa Dear Mr. Fantasy ganharia versões de Hendrix, Grateful Dead e Crosby, Stills, Nash & Young. Nos EUA o álbum foi lançado como Heaven Is In Your Mind, acrescido dos três primeiros singles do grupo.

POR MARCELO PINHEIRO
Donovan – Mellow Yellow (janeiro)
Mais por compartilhar influências – sobretudo do ídolo Woody Guthrie – do que por imitar o bardo norte-americano, Donovan Leitch foi celebrado como uma espécie de Bob Dylan escocês. Em seu terceiro álbum, no entanto, decidiu abandonar os maneirismos folk para acrescentar guitarras distorcidas, contrabaixo elétrico, solos de órgão e sitar indiano. A materialização dessa nova fase, o álbum Sunshine Superman, veio à tona em setembro de 1966. A transição deu tão certo que meses depois, em janeiro de 1967, Donovan botou na praça Mellow Yellow, um sucessor à altura. Capitaneado pela faixa-título, que traz arranjo e contrabaixo de John Paul Jones, o álbum também reúne outro futuro led zeppelin, o guitarrista Jimmy Page.
The Byrds – Younger Than Yesterday (fevereiro)
Gravado em janeiro de 1966 e presente em 5th Dimension, Eight Miles High é considerado o primeiro registro psicodélico. Com frases e solos dobrados de guitarras de 6 e 12 cordas, as legendárias Rickenbacker de Roger McGuinn, a canção, no entanto, foi boicotada logo que seu título foi interpretado como uma apologia ao LSD. McGuinn, porém, jura ter feito uma homenagem a John Coltrane – daí a dinâmica bebop. Equivocada ou não, a polêmica fez com que o grupo caísse em breve derrocada comercial. A bancarrota, felizmente, não sabotou a beleza deste sucessor, que reúne temas luminares, como So You Want to Be a Rock n’ Roll Star e duas das melhores composições de David Crosby, Mind Gardens e Everbybody’s Been Burned.
Grateful Dead – The Grateful Dead (março)
Nomeado guru dos conterrâneos do Jefferson Airplane na contracapa de Surrealistic Pillow, até chegar a este début Jerry Garcia e sua trupe de proto-hippies já haviam percorrido, desde 1965, um longo caminho de derretimento cerebral na cena de San Francisco. Produzido por David Hassinger – responsável pela sonoridade de Aftermath (1966) dos Stones, e que depois assinaria o álbum de estreia do Electric Prunes –, o LP epônimo capta a estética transgressora dos papas do acid rock e capitula convenções pueris da primeira metade dos anos 1960, para abrir um caminho de expansão mental e musical. Com canções assinadas coletivamente, o LP também reúne releituras de Sony Boy Williamson e Jessie “The Lone Cat” Fuller.
The Velvet Underground – The Velvet Underground & Nico (março)
Um dos mais influentes álbuns da história do rock, inspiração para bandas como Modern Lovers, The Fall e Joy Division, The Velvet Underground & Nico dispensa maneirismos ripongas e versa sobre temas obscuros como sadomasoquismo e dependência de heroína. Embalado com arte gráfica de Andy Warhol, também produtor e responsável pelo acréscimo da voz sedutora da modelo alemã Nico, o álbum não traz sequer vestígios de celebração à paz, ao amor e à atmosfera solar de 1967. Autor de oito das 11 composições – as demais com John Cale (Sunday Morning e Black Angel’s Death Song), Sterling Morrison e Moe Tucker (European Son) –, Lou Reed impõe sua grandiosidade em Waiting for the Man, I’ll Be Your Mirror, Femme Fatale e Heroin.
Jefferson Airplane – Surrealistic Pillow (março)
Ao lado de bandas como Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service, o Jefferson Airplane foi ponta de lança da cena psicodélica de San Francisco. Lançado em março de 1967, Surrealistic Pillow, segundo álbum do grupo, é um dos pilares do chamado Frisco Sound e marca a entrada da cantora Grace Slick na banda. Egressa do Great Society, Grace trouxe de seu ex-grupo dois clássicos instantâneos: White Rabbit e Somebody to Love. Em meio a sutilezas acústicas, frases de flautas transversais, riffs e solos frenéticos de guitarras, o “travesseiro surrealista” do Jefferson Airplane reserva ainda tesouros como Today, My Best Friend, Coming Back to Me e D.C.B.A-25 – esta última faz referência aos acordes da canção e ao composto químico do LSD.
The Electric Prunes – The Electric Prunes (abril)
Em um artigo escrito dias depois da morte de Jimi Hendrix em 1970, o escritor Luiz Carlos Maciel defendeu que a grande revolução do guitarrista foi expandir as possibilidades da música por meio do uso da eletricidade. Repleto de efeitos de estúdio, sobretudo o uso de trêmulos e wah-wahs travestidos de cítara na guitarra de Ken Williams, o primeiro álbum do Electric Prunes chancela, até mesmo no nome da banda (os ameixas elétricas), essa teoria. Capitaneado pelo sucesso de I Had Too Much to Dream (Last Night), Top 11 da Billboard e presente em dez entre dez coletâneas com o melhor do rock psicodélico, o LP não renega o passado surf e garage rock da banda californiana, originada a partir da extinção do The Sanctions.
The Kaleidoscope – Side Trips (junho)
Los Angeles divide com San Francisco o status de epicentro da revolução psicodélica. Da Califórnia e adjacências vieram bandas divisoras como The Doors, Love e Buffalo Springfield. Menos conhecido, mas não menos cultuado, o quinteto Kaleidoscope fez de Side Trips, seu álbum de estreia, uma miríade de sonoridades inusitadas. A fórmula dos compositores Chris Darrow e David Lindley contou com o uso de instrumentos gregos, persas e indianos, como bouzouki, vina e dombek. Composições como Egyptian Garden e Keep Your Mind Open – eleita pela revista Mojo uma das 100 maiores canções psicodélicas – fizeram a cabeça de ouvintes anônimos e de estrelas como Jimmy Page, que considera Side Trips seu álbum predileto dos anos 1960.
The Seeds – Future (agosto)

Símbolo da estética proto-punk – de bandas como The Sonics, The Wailers, Count Five e The Litter –, o The Seeds foi liderado por um dos maiores freaks do panteão psicodélico, o vocalista e compositor Sky Saxon. Também egresso da cena de L.A., o quarteto decidiu expandir horizontes musicais em Future, depois de rarefeitas experiências transcendentais em seus dois primeiros álbuns. Em meio à oratória debochada de Saxon, riffs obsessivos de guitarra, órgão e piano elétrico saltam aos ouvidos em mantras hipnóticos do melhor acid rock, como Flower Lady and Her Assistant, Travel With Your Mind e A Thousand Shadows. Produzido em paralelo ao lançamento de Sgt. Pepper’s…, Future também conta com breves arranjos orquestrais.

Eric Burdon & The Animals – Winds of Change(setembro)
Nanico, mas dono de uma das vozes mais potentes de sua geração, Eric Burdon foi um dos artífices da chamada Invasão Britânica. Em 1966, com a saída do baixista Chas Chandler, que abandonou o Animals para pavimentar a carreira de ninguém menos que Jimi Hendrix, Burdon reformulou a banda e iniciou a guinada psicodélica que culminou em Winds of Change. Com efeitos sobrepostos às canções, como o barulho do mar na singela Poem by The Sea, uma versão arrasa-quarteirão de Paint it Black, dos Stones, e citações a ícones do soul, do rock e do jazz em It’s All Meat, o álbum também traz um “diálogo” com o universo hendrixiano em Yes, I’m Experienced. Menos energéticas, mas impregnadas de beleza, faixas como Good Times e Anything fazem desta incursão psicodélica uma pequena obra-prima.
Buffalo Springfield – Buffalo Springfield Again(novembro)
Em um ano turbulento para a banda liderada por Stephen Stills e Neil Young, com saídas temporárias deste último, a chegada às lojas do segundo álbum do grupo californiano foi um alento para os fãs de primeira hora. Resultante de um processo de produção fragmentado ao longo de 1967, o LP reúne dez composições. Entre elas, joias de autoria de Young, como Mr. Soul, Broken Arrow e Expecting to Fly, canções insuspeitas de Stills, como Bluebird, Everydays e Rock n’ Roll Woman, e as três primeiras composições do guitarrista Richie Furray, Sad Memory, Good Time Boy e A Child’s Claim to Fame. Antes de iniciarem consagradas carreiras solo, Young e Stills lançaram ainda um terceiro álbum do grupo, o também obrigatório Last Time Around (1968).
Cream – Disraeli Gears (novembro)
Intitulado com uma corruptela entre o nome do ex-primeiro ministro britânico Benjamin Disraeli e o termo derailleur gears (câmbio de bicicleta), Disraeli Gears é o segundo álbum do Cream. Formado por Eric Clapton (aclamado em seu país como o “Deus da Guitarra” até a chegada de Jimi Hendrix por aquelas bandas), Jack Bruce (baixo) e Ginger Baker (bateria), a banda personificou o conceito de power-trio. Em Disraeli Gears, no entanto, atribuiu à atmosfera bluesy selvagem texturas psicodélicas baseadas sobretudo no uso do pedal wah-wah na guitarra de Clapton – caso explícito de Tales of Brave Ulysses, cantada por Bruce. Hit do álbum, Sunshine of  Your Love escancara a cadência hipnótica de Baker, um dos maiores bateristas de sua geração.
Love – Forever Changes (novembro) 
Em janeiro de 1967, os californianos do Love lançaram Da Capo, seu segundo álbum. Nele, em faixas como Orange Skies e She Comes in Colors, é perceptível a transição para as texturas lisérgicas que culminaram na obra-prima Forever Changes. Liderada por Arthur Lee, cantor e compositor de brilho intenso, a banda também contava com outro autor inspirado, o guitarrista Bryan McLean. Ao longo de 11 temas – alguns revestidos de cordas e sopros, outros marcados pela estética folk e influências flamencas –, Lee e McLean emocionam com o lirismo de canções como Alone Again Or, Old Man, The Red Telephone e a apoteótica You Set The Scene. A despeito das “mudanças eternas” do título, o álbum antecipa vestígios da ressaca de realidade que capitulou o Verão do Amor, sintetizada depois por John Lennon com a sentença “o sonho acabou”.
Strawberry Alarmclock – Incense and Peppermints(dezembro)
Também egressos da cena californiana, os músicos do Strawberry Alarmclock fizeram da capa (hippie até a medula) e do título de seu primeiro álbum (“incenso e balas de hortelã-apimentada”, notórios atenuantes para o mau cheiro da maconha) carta de intenções de suas proposições desbundadas. Associada ao som personalíssimo do sexteto, responsável por impecáveis harmonias vocais, a estratégia de marketing deu mais que certo: impulsionado pelo compacto que contém a faixa-título, o grupo vendeu milhões de cópias. Do transe inaugural de The World’s On Fire, passando pelos loopssinestésicos de Rainny Day, Mushroom, Pillow, até chegar ao desfecho jazzy de Unwind With The Clock, a viagem do Despertador Morango não contém bad trips.
13th Floor Elevators – Easter Everywhere(dezembro)
Prova inconteste de que a chapação estava prestes a tomar os EUA de norte a sul, o primeiro grupo a estampar na capa de um LP o termo “psicodélico” foi este combo texano, que, em 1966, lançou o cultuado The Psychedelic Sounds of The 13th. Floor Elevators. Liderada pelo brilhante poeta Roky Erickson, que enfrentaria problemas psiquiátricos a partir da década seguinte, a banda lançou no ano seguinte um consistente sucessor. Composto de dez canções assinadas por Erickson, o guitarrista Tommy Hall e o freak Stacy Sutherland (que tocava jarra elétrica!), Easter Everyhere reúne tesouros como She Lives (In a Time of Her Own), I Had to Tell You, Postures (Leave Your Body Behind) e uma releitura de It’s All Over Now, Baby Blue, de Bob Dylan.
The Who – The Who Sell Out (dezembro)
Depois de conquistar os Estados Unidos com uma turnê arrasa-quarteirão que contabilizou um sem-número de guitarras e kits de bateria destruídos em rituais selvagens, os britânicos do The Who se trancafiaram em estúdio para produzir seu terceiro álbum. Longe de obsessões da cultura mod, Pete Townshend, Keith Moon, John Entwistle e Roger Daltrey investiram neste ambicioso álbum conceitual. Nele, sugerem que, a exemplo dos produtos anunciados na capa do LP, eram só mais um item “descartável” da sociedade de consumo. Concebido como um programa da pirata Radio London, em meio a faixas cabeçudas como I Can See For Miles, Tattoo e Armenia City in the Sky, The Who Sell Out é recortado por hilárias vinhetas. Um primor.

Presa por vazar dados ao WikiLeaks, Chelsea Manning é solta nos EUA

Por
Redação
-
17 de maio de 2017
Chelsea Manning
Chelsea Manning
  • Manuela

O Exército dos EUA confirmou que a militar Chelsea Manning foi solta da prisão de Fort Leavenworth, no Kansas, nesta quarta-feira, 17/5, após sete anos atrás das grades. Condenada originalmente a 35 anos de prisão por vazar dados ao WikiLeaks, Chelsea teve sua sentença comutada em janeiro de 2017 pelo ex-presidente Barack Obama em uma das suas últimas ações no cargo.

“Agradeço o apoio incrível que recebi de tantas pessoas ao redor do mundo nesses últimos anos”, afirmou Chelsea em um comunicado enviado para a rede ABC News.

Chelsea foi condenada por vazar informações diplomáticas e militares ao WikiLeaks em 2010, que incluem vídeos de ataques aéreos no Iraque e Afeganistão, junto com documentos classificados enviados ao U.S. State Department. Ela foi presa e começou a cumprir pena no mesmo ano.

Os dados oferecidos por Chelsea ajudaram a colocar o WikiLeaks no mapa como uma fonte secreta do governo, mas pediu rápida condenação de oficiais americanos.

Obama comutou a pena de Chelsea porque disse acreditar que ela assumiu responsabilidade e expressou remorso por seus crimes, de acordo com representantes da Casa Branca.

Espelho, espelho nosso

Por
Christian Dunker
-
15 de maio de 2017

Há algum tempo os pacientes falam mais de séries do que de filmes. O ritual de ir ao cinema e depois discutir impressões no café foi gradualmente substituído pela cerimônia mais íntima e às vezes muito mais solitária de consagrar o fim de semana inteiro para zerar uma série. Traições e contendas surgem quando alguém adianta a ordem dos capítulos, vai direto para a última temporada ou faz spoiler, como o leitor terá logo abaixo sobre a série Black Mirror. Há anos minha casa tornou-se um ponto de encontro domingo à noite com amigos de meus filhos vibrando a morte e a vida de Jon Snow ou Ramsey, em Game of Thrones. Antes disso vieram as quintas-feiras com House e as noitadas de Law and Order.  No Brasil este fenômeno dá continuidade à arquetípica experiência familiar de assistir novelas juntos. Narrativas deste tipo são um poderoso alimento para a nossos laços sociais não apenas pelos exemplos que trazem, pelos conflitos que tratam, mas também pela lógica específica de reconhecimento que nos convidam a praticar.

Black Mirror (2011-2016) é a primeira série que toma para si, como tema e como forma, a própria degradação da experiência exigida por este novo formato digital. Lembremos que o espelho negro é uma técnica de bruxaria que envolve visualizar o futuro a partir da deformação artificial das imagens refletidas no presente. De fato a série trabalha sistematicamente com a exageração de tecnologias que se não estão disponíveis no momento, podemos intuir sua existência em um futuro próximo. Disso tiramos consequências éticas desagradáveis. Não se trata de uma ficção científica que nos faz olhar, de longe, os efeitos distópicos do que hoje valorizamos, mas de um reflexo do que já está em curso no momento. A série é uma espécie de mapa conceitual de novas formas de sofrimento, o que torna o experimento dotado de alto valor para clínicos e psicanalistas.

No fundo, a grande questão em Black Mirror são as experiências de falso reconhecimento. Elas estão na origem de nosso sentimento de inadequação, do ressentimento incurável gerado por uma cultura de promessas não cumpridas e de amores exagerados. O déficit crônico de reconhecimento, seja ele nomeado como depressão ou como baixa autoestima, aparece em um amplo espectro de sintomas que  vão da insatisfação insolúvel com o corpo próprio, com a carreira, com o país onde se vive, com a vida que se leva. Experiências massivas de falso reconhecimento são a causa social epidêmica para a indução de sofrimento neurótico na atualidade. Vidas sentidas como deficitárias, inautênticas e abaixo do que se espera são frequentemente vidas formadas à base de ideais de reconhecimento muito além do que se pode realizar, mas sobretudo vidas que não entenderam que é possível e desejável escolher os termos pelos quais se quer ser reconhecido. A lei do reconhecimento não tem conteúdo a priori, por isso a luta pelo reconhecimento não é apenas como uma batalha narcísica para ver quem tem mais e melhor imagem, mas um antagonismo estrutural para determinar qual lei simbólica governará nossas experiências de reconhecimento.

No episódio Nosedive a protagonista só pode ter o direito de comprar uma determinada casa se estiver em certo patamar social de pontuação. Para tanto ela deve ser aprovada por pessoas da classe superior à dela. Tudo isso ocorre em meio a um sistema de avaliação permanente das pessoas por qualquer gesto, ato ou encontro cotidiano, feito por meio do celular. O reconhecimento dos mais reconhecidos vale mais que o reconhecimento dos menos reconhecidos. Logo, vale a justiça bíblica de Mateus: “quem muito tem, mais lhe será dado, quem pouco tem, mesmo este pouco lhe será tirado”.  Todos os desastres acontecem no caminho para chegar ao casamento da amiga “popular”, onde ela espera ser devidamente pontuada. Isso mostra que a degradação do reconhecimento decorre da obsessão em progredir na sua corrida sem questionar seus termos ou sua conveniência. Ao aceitar esta lei geral de “uberização” das relações sociais, com métodos e médias de aprovação que subornam as pessoas, o episódio faz emergir, ironicamente, a lei obscena que tal métrica cria.

Em outro episódio, o primeiro ministro britânico deve manter relações sexuais com um porco, com transmissão ao vivo em todos os meios de comunicação, como forma de salvar uma princesa sequestrada. Ainda que ela tenha sido liberada antes da hora, ainda que o dedo enviado pelo sequestrador seja falso, ainda que tudo tenha sido uma farsa inventada por um artista performático, a verdade criada por esta estrutura de ficção impõe um registro de realidade autônomo, impulsionando a carreira do político. O heroísmo criado pelas circunstâncias volta-se contra a intenção inicial do artista de denunciar a servidão que temos diante de nossas imagens públicas. Ou seja, ao tentar simbolizar o funcionamento imaginário da política como espetáculo, o artista teve seu ato absorvido a este mesmo imaginário.

De quantas formas podemos fracassar, bloquear ou recusar reconhecer o outro e a nós mesmos? Freud [1] tem um pequeno artigo dedicado ao falso reconhecimento em que examina esta experiência de estranhamento na qual sentimos que já estivemos ali, ou que aquela situação já aconteceu, o déjà-vu(sentimento de já ter visto) e o déjà-raconté (sentimento de que já se falou aquilo). Uma forma mais branda deste fenômeno ocorre quando nos sentimos telepatas, pensando em uma pessoa que logo em seguida nos liga, ou quando somos tomados pela intuição de que sabemos que algo vai acontecer. Pitágoras argumentou que eram reminiscências de vidas passadas e a neurologia sugere tratar-se de uma espécie de descompasso na tramitação dos impulsos cerebrais entre os dois hemisférios. Para a psicanálise as duas hipóteses são verdadeiras, trata-se de uma vida passada, a vida infantil, e estamos mesmo diante de um descompasso entre a inscrição inconsciente e consciente, entre desejo e memória. Por isso recordamos algo sem saber exatamente o que estamos recordando, mais ou menos como no luto quando sabemos que perdemos alguém, mas não sabemos exatamente o que foi perdido junto com a pessoa. Esta é a questão perturbadora que nos leva, tantas vezes, a perguntarmos: quantos gramas de real existem em uma determinada articulação simbólico-imaginária?

É o caso do episódio San Jinupero, no qual pessoas em estado vegetativo vivem uma experiência de ilusão, no interior da qual certas escolhas podem ser feitas. Neste contexto, a protagonista tem que escolher entre o companheiro familiar, com o qual levou uma vida morna, e uma grande paixão de juventude por outra mulher. Ela escolhe, improvavelmente, a segunda. Ou seja, é uma denúncia de que vidas inteiras podem ser consumidas em estado de falsidade quando não se reconhece o próprio desejo. É também uma alusão ao fato de que certos atos possuem a propriedade de separar imaginário e simbólico, decidindo seu sentido e sua ordem.

Quando se trata do falso reconhecimento entre memória e desejo, Freud cita o caso do paciente que lembrava-se de ter ferido o dedo com uma navalha e que viveu muito tempo depois disso achando que tinha um dedo a menos. Falsas lembranças levam a falsos reconhecimentos. O falso reconhecimento envolve tanto a relação consigo e o próprio corpo (sentido então como impróprio) quanto a relação com o outro (sentido então como estranho). O correlato disso em Black Mirror é o episódio da mulher que perde seu marido e gradualmente o substitui por um robô com anatomia, memórias e disposições do falecido. O incômodo que sentimos com isso é que percebemos que ela está se enganando; mas o engano é tão eficaz que será que ele não vale a pena?  Neste caso parece ser o simbólico que reocupa e substitui este grama impossível de real: a morte e a finitude.

O falso reconhecimento pode decorrer também da dificuldade de separar nossa percepção de nossa alucinação. No episódio Men Against Fire, soldados são submetidos a um implante cerebral de tal forma que enxergam seres humanos estrangeiros e indesejáveis como baratas que devem ser exterminadas. Isso evita o sentimento de piedade que pode perturbar a eficácia da operação. Um determinado erro permite que o protagonista veja as coisas como elas realmente são. Também em Polar Bear uma assassina é condenada a reviver todos os dias, em uma espécie de Big Brother, as experiências terríveis que infligiu a sua vítima. Depois de um dia neste parque de horrores e perseguições ela é submetida a uma máquina de esquecimento para reviver e repetir seu martírio no dia seguinte, sendo punida, assim,infinitamente pelo seu crime (elatorturou e matou uma criança).  Nos dois casos, o sistema de ilusões comporta uma espécie de erro na máquina. Minha percepção é real, vejo seres humanos como baratas, vivo as perseguições como reais, mas elas são em verdade percepções alucinadas porque eu não consigo reconhecê-las como falhas de memória ou falhas de percepção.  Quando emerge a possibilidade de reconhecer o erro, quase sempre o sujeito escolhe o pior. Tendo percebido que as pessoas são vistas como baratas, o soldado é indagado se quer ser tratado como uma barata pelos outros ou se prefere ter suas memórias apagadas e começar de novo. O que há, portanto, de mais real é o erro e a falha, e o que há de mais trágico é este real emergir e não o reconhecermos, nada querendo saber ou lembrar dele.

O interessante da série é que ela quase sempre supera o primeiro nível no qual certa ilusão é denunciada submetendo o sujeito a uma segunda escolha. Ou seja, quando descobrimos a mentira de nossas ilusões, podemos escolher reforçar nossas ilusões. Continuar a agir como se não soubéssemos. Nem sempre o reconhecimento do falso reconhecimento leva a uma verdadeira transformação. Ele pode nos levar a uma espécie de dupla alienação, uma alienação dentro da alienação, como vemos no episódio do jovem garoto que passa a vida viajando, evitando atender o telefonema de sua mãe, e que acaba enlouquecendo ao se submeter como cobaia em um teste para a criação de um videogame de terror.

O falso reconhecimento também pode ser produzido por meio da exageração de afetos ou interesses, ao modo de um espelhismo de recordação. Por exemplo, em Hated in the Nation, um ex-funcionário vingativo desenvolve uma rede social onde podemos escolher pessoas que devem morrer (tanto criminosos contumazes quanto pessoas comuns que cometem erros morais). Uma vez condenado, abelhas mecânicas entram pelos ouvidos da vítima e devoram a área do cérebro responsável pela dor. Aqui a metáfora é literal, se tivéssemos os meios de nos desresponsabilizar agiríamos como uma colmeia assassina. Uma releitura atualizada da Experiência de Milgram, que na década de 1960 mostrou que sob ordens de um cientista a maior parte das pessoas faria mal a outra pessoa indefesa. Só que aqui o falso reconhecimento desloca-se da autoridade constituída da ciência para a autoridade do grupo anônimo de uma rede social. Isso capta um sentimento coletivo e ascendente de que todas as nossas instâncias de autoridade – científica, moral, religiosa ou política – são no fundo apenas expressões de um sistema de interesses obsceno. Black Mirror vai além disso ao mostrar que esta insatisfação com a impostura de nossas instituições simbólicas pode ser apenas um pretexto para dar curso aos nossos impulsos sádicos e violentos.

O mal-estar que Black Mirror cria é um espelho negro de nós mesmos. Mas ele não é apenas um indutor de angústia por que mostra nosso lado imoral, mesquinho e egoísta, mas porque denuncia e explica, de forma quase didática, como nossa forma de lidar com o reconhecimento, hoje e agora, está nos levando ao desencontro de nós mesmos e de nossos desejos. Ele mostra como nós estamos produzindo ativamente e exagerando nosso próprio vazio de experiência, tocando no ponto essencial da etiologia de sofrimento narcísico de nossa época, mais além do receituário tradicional sobre esta matéria.

 


[1] Freud, S. (1914) Acerca del fausse reconnaissance (déjà-raconté) en el curso del trabajo psiconanalítico. Sigmund Freud Obras Completas V-XIII. Buenos Aires: Amorrortu  págs. 207-212.

Diário de um pistoleiro zen

Por
Marcelo Pinheiro
-
12 de maio de 2017
O ator Nelson Xavier interpreta Amador, 0 ex-matador de aluguel que protagoniza o filme de estreia de Erico Rassi. Foto- Divulgação : Rio Bravo Filmes
O ator Nelson Xavier interpreta Amador, 0 ex-matador de aluguel que protagoniza o filme de estreia de Erico Rassi. Foto- Divulgação : Rio Bravo Filmes

Em tratamento de um câncer de pulmão e, com a prática da meditação, reinventando sua relação mente/corpo, o ator Nelson Xavier rompe um hiato de três anos longe dos cinemas no papel de Amador, o matador de aluguel aposentado que protagoniza Comeback, longa-metragem de estreia do cineasta goiano Erico Rassi, que entra em circuito comercial no dia 25 deste mês.

Presente em grandes títulos da filmografia nacional, como Os Fuzis, de Ruy Guerra (1964), ABC do Amor, de Eduardo Coutinho (1967), Dois Perdidos Numa Noite Suja (1967), de Braz Chediak, Vai Trabalhar, Vagabundo, de Hugo Carvana (1973), e Eles Não Usam Black-Tie, de Leon Hirszman (1981), Xavier repete a boa atuação de A Despedida, de Marcelo Galvão, seu trabalho mais recente na tela grande, em que fez par romântico com Juliana Paes e, assim como a atriz, conquistou o prêmio de melhor atuação no Festival de Gramado de 2014.

Aos 75 anos, com quase 60 de carreira profissional, a cancha do veterano redime problemas, como pequenas inconsistências do roteiro, e redimensiona qualidades de Comeback, como a tensão gradual das sequências, que dialoga com a monótona rotina de Amador. Experiência à parte, em entrevista à CULTURA!Brasileiros, Xavier enfatizou a importância de um elemento que, segundo ele, reinventou sua dinâmica de atuação. “Atribuo o sucesso que tive com o Amador ao fato de meditar regularmente há sete anos. A meditação aumentou minha sensibilidade e me permitiu lidar com a interpretação de uma maneira nova. Um dos significados de protagonizar esse filme foi confirmar que a meditação me enriqueceu. Não só como pessoa, mas também na capacidade de lidar com a matéria da interpretação. Em A Despedida e em Comeback, senti uma liberdade que nunca tinha experimentado em minha carreira”, diz.

Ambientado em Goiás, na periferia de Anápolis, cidade natal de Rassi, Comeback narra o dia a dia ordinário do ex-justiceiro, que abandona o antigo ofício, mas continua a atuar no submundo do crime, exercendo a tripla função de intermediário de locação, entregador e reparador de máquinas caça-níqueis em bares decadentes, como o da cena inicial do filme. Nesse primeiro plano-sequência, rodado em um desses botecos xexelentos, Amador é procurado pelo neto de Davi, um velho amigo seu, parceiro dos tempos de pistolagem. Propenso ao crime, o rapaz, que não tem o nome revelado na trama, voluntariamente acompanha o dia a dia do matador para aprender o ofício que outrora deu a ele fama e respeito no meio da bandidagem.

Desconfortável com a insignificância de sua nova ocupação e também com a falta de traquejo para lidar com seus clientes, encerrado o expediente, Amador passa horas a folhear um álbum com cerca de 50 páginas em que, por meio de colagens de recortes de jornais da imprensa policial dos anos 1980 e 1990 – “superstar do Notícias Populares”, parafraseando os Racionais MCs –, mantém viva a memória dos crimes que cometeu. Repleto de manchetes assombrosas, como “chacina deixa seis mortos”, “banho de sangue na madrugada” e “casal morto a tiros”, para aqueles que desconhecem o ímpeto violento de Amador, o álbum serve como atestado de que ele, de fato, foi um sujeito barra pesada.

“Gostei do personagem porque ele traz uma visão independente da realidade brasileira, nunca abordada em nosso cinema, apesar da diversidade de nossa produção. Lembro de Ozualdo Candeias ter feito um filme sobre o assunto (Manelão, o Caçador de Orelhas, de 1982), mas com uma abordagem completamente diferente. Gostei muito de fazer o filme também porque tive plena liberdade para fazer o que eu sentia e escolhia”, diz Xavier.

 

Xavier contracena com Gê Martu, o Tio de “Comeback”. Foto: Divulgação / Rio Bravo Filmes
No filme, o ator interpreta Amador, um ex-pistoleiro de aluguel. Foto: Divulgação / Rio Bravo Filmes
Morto no último dia 10 de maio, Nelson Xavier fez sua última participação no cinema em Comeback. Foto: Divulgação / Rio Bravo Filmes
Cartaz do filme “Comeback”, de Erico Rassi. Foto: Divulgação / Rio Branco Filmes

 

Exibido em primeira mão no Festival do Rio de 2016, Comeback (o título faz referência a um possível retorno de Amador ao antigo ofício) rendeu a Xavier o prêmio de Melhor Ator na mostra carioca e foi considerado por alguns críticos signatário da estética western. Rassi, no entanto, parece mais norteado pela cartilha “faroeste do Terceiro Mundo” de O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla. No bangue-bangue à brasileira do diretor goiano, a inspiração para o roteiro, também de sua autoria, veio de um personagem real, mitificado pelo escritor e jornalista João Antônio.

“O filme surgiu a partir de entrevistas que fiz com o jogador de sinuca chamado Carne Frita, que serviu de inspiração para o personagem do Amador. Os dois se assemelham, na medida em que se apegam a feitos do passado como uma maneira de se sentirem relevantes, e talvez escaparem do ostracismo. Acho que o filme possui alguns elementos de faroeste, o mais forte deles a ambientação em um local onde lei e ordem não estão plenamente constituídas. Há também alguns aspectos visuais da periferia, como as ruas empoeiradas e pouco movimentadas, que podem remeter a um cenário de faroeste, mas de forma mais incidental”, defende o diretor.

Parcialmente financiado por meio de crowdfunding, Comeback também contou com uma rede de colaboradores. “A escolha de Anápolis se deu tanto por aspectos estéticos quanto por viabilidade de produção. Primeiro, a gente queria um cenário de periferia que trouxesse algum ineditismo, fugindo de uma requentada periferia paulistana ou favela carioca. E a possibilidade de filmar em Anápolis, com todo o apoio que nos foi oferecido – de parentes, amigos e moradores locais, certamente por lá ser nossa cidade natal –, acabou unindo as duas coisas”, conclui Rassi.

* Entrevista realizada no dia 3 de maio, uma semana antes da morte de Nelson Xavier 

MAIS
Veja o trailer oficial de Comeback, de Erico Rassi.

 

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POLÍTICAS PÚBLICAS | Criada em 1975, a Fundação Na POLÍTICAS PÚBLICAS | Criada em 1975, a Fundação Nacional de Artes concentra, entre fevereiro e março, as ações de seu cinquentenário. O segundo ato do marco celebra a trajetória institucional e coloca em pauta demandas históricas do Teatro e da Dança, em diálogo com artistas, gestores e sociedade civil.

As atividades integram o eixo “Brasil das Artes”, que reúne programas de fomento, difusão e memória, além de medidas recentes de reestruturação administrativa e fortalecimento da participação social nas políticas culturais.

Acesse a programação completa em:  gov.br/funarte

SERVIÇO
Funarte 50 anos – Ato 2

28 de fevereiro – Manaus (AM)
Centro Cultural Palácio da Justiça (15h às 19h)
Teatro Amazonas (20h)

4 de março – Brasília (DF)
Centro de Dança do DF (15h às 18h)
Teatro Nacional Claudio Santoro – Sala Martins Pena (19h)

Entrada gratuita | Sujeita à lotação
Informações: gov.br/funarte
EXPOSIÇÃO | O biológo e artista Peter de Brito art EXPOSIÇÃO | O biológo e artista Peter de Brito articula biologia, memória e história para examinar mecanismos de apagamento racial na mostra “Epitélio”. A exposição apresenta trabalhos que utilizam a descoloração como procedimento formal, tensionando a construção social da cor da pele e as permanências do pensamento eugenista no Brasil.

Idealizador da performance “A presença negra”, o artista constrói uma trajetória marcada pela reflexão sobre representação e ocupação de espaços institucionais. Na Galeria Pórtico, sua primeira individual no espaço aprofunda esse debate sob curadoria de Claudinei Roberto da Silva.

SERVIÇO
📍Galeria Pórtico: Travessa Dona Paula, 116 – Higienópolis, São Paulo
🥂Abertura: 28 de fevereiro de 2026, das 14h às 18h
📆Em cartaz até 11 de abril de 2026
⏰Visitação: terça a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 17h
🎟Entrada gratuita
EXPOSIÇÃO | A 4ª edição do Festival de Videoarte d EXPOSIÇÃO | A 4ª edição do Festival de Videoarte da Simões de Assis reúne oito artistas em uma sessão contínua dedicada à circulação de obras audiovisuais. 

João Trevisan participa pela primeira vez desde o início de sua representação pela galeria. O vídeo “Caminhar para acender” já foi exibido no Museu de Arte Sacra de São Paulo e na Slag&RX Gallery, em Nova York.

Dashiell Manley estreia no Brasil com obra apresentada no festival. Enquanto Ayrson Heráclito, que integra coleções como a do Solomon R. Guggenheim Museum, exibe trabalhos vinculados a matrizes afro-brasileiras.

SERVIÇO
📍Galeria Simões de Assis: Al. Carlos de Carvalho, 2173 A – Batel – Curitiba/PR
📆25 de fevereiro, quarta-feira, das 15h às 21h
🎟Entrada gratuita
EXPOSIÇÃO | A abertura da sede da Blombô no Rio de EXPOSIÇÃO | A abertura da sede da Blombô no Rio de Janeiro apresenta a exposição "Aos Quatro Ventos", que reúne um núcleo significativo da produção gráfica de Roberto Burle Marx, com obras que permitem observar desdobramentos formais de sua pesquisa visual.

Conhecido por redefinir a relação entre arte, natureza e espaço urbano, Burle Marx encontra na gravura um campo de experimentação que dialoga com sua atuação no paisagismo. As obras expostas integram o espólio do artista e serão disponibilizadas em leilão on-line.

SERVIÇO
Blombô – Sede Rio de Janeiro: Rua Juquiá, 61 – Leblon – Rio de Janeiro
Em cartaz até 25 de fevereiro
Leilão: blomboleiloes.com.br |26 de fevereiro de 2026, às 20h
Para participar, é necessário cadastro prévio no site
ILHA DO FERRO | Roxinha já trabalhou na roça, “que ILHA DO FERRO | Roxinha já trabalhou na roça, “quebrou brita” e varreu as ruas de seu povoado por quase duas décadas. Aos 59 anos, quando os filhos já estavam crescidos, começou a desenhar junto com o seu marido Binga. 

Apesar de Roxinha estar na região da Ilha do Ferro, sua casa e ateliê ficam na Lagoa de Pedra. O trajeto leva cerca de 45 minutos de carro, mas a visita vale a viagem. Além de conhecer o processo de criação de Roxinha e de Binga, que trabalha majoritariamente com madeira, o casal tem muita história pra contar.

Por Luiza Lorenzetti (@luiza.lorenzetti)
EXPOSIÇÃO | Em cartaz no CCBB São Paulo, "Joaquín EXPOSIÇÃO | Em cartaz no CCBB São Paulo, "Joaquín Torres García – 150 anos" apresenta obras, documentos, cartas e demais escritos do artista, teórico e pedagogo uruguaio que dedicou sua vida e obra a elevar a arte da América Latina, frequentemente desprezada no início do século 20.

Nesta sexta e sábado, 20 e 21 de fevereiro, acontece o ciclo de palestras "OS LIVROS DE TORRES GARCÍA", às 18h30, com o curador Saulo di Tarso.

20/02, sexta, 18h30 – La tradición del hombre abstracto
21/02, sábado, 1830 – Universalismo constructivo

📍Local: Auditório | Capacidade: 40 pessoas | Duração: 1h15 | Classificação indicativa: Livre – recomendado para pessoas acima de 14 anos 
🎟Entrada gratuita – Ingressos na bilheteria do CCBB a partir de uma hora antes do início do evento (sujeito a lotação). 

📌Leia o texto completo de Lara Paiva (lara.apv), que conversou com o curador, pelo site artebrasileiros.com.br (link na bio)

#exposição #torresgarcia #americalatina
CRÍTICA | Relembre os textos de Fabio Cypriano (@c CRÍTICA | Relembre os textos de Fabio Cypriano (@cypriano) e de Maria Hirszman (@mariahir) sobre a última Bienal de São Paulo.

Eles fazem parte da edição #72 da @artebrasileiros, e é exclusivo para colaboradores arte✱plus, que possuem acesso às nossas quatro revistas digitais por ano. Apoie uma das plataformas de arte e cultura contemporânea mais reconhecidas no Brasil.

📌Acesse o site artebrasileiros.com.br. O link direto está na bio. Boa leitura!
ILHA DO FERRO | Se para vender mais é preciso de u ILHA DO FERRO | Se para vender mais é preciso de um bom storytelling, a Ilha do Ferro entendeu isso bem. Os ateliês dos artistas ficam, na maioria das vezes, dentro de suas casas. Para conhecer as peças, os visitantes também acabam conhecendo a sala, a cozinha e a família de cada um. 

Seja por calor ou receptividade, as portas das casas estão sempre abertas. O Mestre Nonô, que trabalha com madeira, deixou a construção civil para investir no próprio ateliê. Seus banquinhos redondos com pés irregulares estão espalhados pelo Brasil e pelo mundo. 

Por Luiza Lorenzetti (@luiza.lorenzetti)

Fotos 1-2, 6-9: Luiza Lorenzetti
Foto 3: autoria desconhecida
Foto 4-5: @galeriaestacao
ACERVO | Efrain Almeida, morto prematuramente em 2 ACERVO | Efrain Almeida, morto prematuramente em 2024, é um dos nomes mais reconhecidos da arte contemporânea brasileira. Cearense do sertão do Canindé, ele não consta no acervo da Pinacoteca do Ceará, inaugurada há três anos a partir da reunião de diversas coleções públicas.

A ausência de Efrain na Pinacoteca acabou gerando uma homenagem especial na mostra “Existências paralelas – acervo em (des)construção”, concebida para repensar um acervo público. Com 484 obras de 63 artistas do Ceará de projeção local e nacional, populares e contemporâneos, históricos e desconhecidos, a exposição se divide em cinco módulos.

📌Leia o texto completo de Fabio Cypriano @cypriano) para a edição #73, que está excepcionalmente aberta para todos os leitores, pelo link na bio (@artebrasileiros)

Imagem 1 Efrain Almeida, 2020 , "Cabeça Transe com Lágrimas de Nossa Senhora". Foto: Marília Camelo | Pinacoteca do Ceará
Imagem 2 Vista da exposição “Existências paralelas - acervo em (des)construção”
Imagem 3 Vista da exposição “Existências paralelas - acervo em (des)construção”
Imagem 4 Telma Saraiva, década de 1970, "Flash com grinalda, Ernesto vestido de noiva e Ernesto vestido de noivo"
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