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Resgate na hora certa

Rubem Ludolf, Estudo para pintura, 1970, Giz pastel sobre papel.
Rubem Ludolf, Estudo para pintura, 1970, Giz pastel sobre papel. Foto: Coleção particular

Duas importantes instituições ganharam uma sede física no início de 2020 em São Paulo. O Paço das Artes e o Instituto de Arte Contemporânea (IAC) têm histórias um pouco parecidas no que diz respeito à busca por um espaço que pudessem chamar de “casa”. Ambas as instituições possuem em comum o fato de terem à frente duas mulheres que não descansaram por um só momento ao trabalhar por um lugar fixo.

Com atividades desde 1997, o Instituto de Arte Contemporânea (IAC) nasceu da vontade da galerista Raquel Arnaud de cuidar de acervos documentais de artistas. Foi por “acidente”, ela conta, que tudo começou a se desenrolar. “Um dia, houve uma enchente na casa do Willys de Castro e ele veio me trazendo alguns documentos para que eu guardasse e salvasse da enchente”. A partir daí, ela passou a pensar de forma mais intensa sobre como faria para guardar aqueles materiais de forma a preservá-los. Anos mais tarde, quando o escultor Sérgio Camargo faleceu, em 1990, ela recebeu da família o seu espólio, e junto a ele vieram muitos documentos. “De repente, me vi com documentos desses dois artistas e pensei em fundar o Instituto de Arte Contemporânea”. O bom relacionamento de Raquel com outros artistas foi fazendo com que, com o passar dos anos, eles fossem aderindo ao IAC, que hoje cuida de mais de 42 mil documentos higienizados, organizados, catalogados e digitalizados. Raquel enfatiza o apoio do arquiteto Jorge Wilheim no incentivo à criação da instituição.

Sérvulo Esmeraldo, Projeto para Lentes, 1968, caneta hidrocor sobre papel
Sérvulo Esmeraldo, Projeto para Lentes, 1968, caneta hidrocor sobre papel Foto: Acervo Instituto de Arte Contemporânea

Quando foi fundado, apoiadores conseguiram que o IAC fosse alocado em um prédio na Universidade de São Paulo (USP), em um prédio que tinha pertencido à Faculdade de Filosofia. “No primeiro comodato que ficamos lá, mais reformamos do que qualquer outra coisa”, ela conta. Com a troca de reitoria da universidade no ano de 2011, o prédio foi requisitado de volta. Saindo de lá, o IAC foi acolhido pelo Centro Universitário Belas Artes. À época, acervos de mais de 8 artistas já eram cuidados pelo instituto. “Já tínhamos um volume de documentos muito grande, que só crescia. Então, o espaço lá foi se tornando pequeno. Precisávamos crescer, mas a faculdade também precisava de mais salas, por exemplo”. Ela frisa a gentileza do Belas Artes em todo o tempo de acolhida: “O tempo lá foi importante porque nos deu fôlego para pensar em soluções”.

A única forma encontrada de não ter mais dúvidas sobre a permanência nos espaços foi arrumar uma sede própria. Então, Raquel decidiu junto à família que venderia algumas obras de sua coleção para a compra de um imóvel que servisse como sede fixa. A partir deste ano, o IAC tem, portanto, uma sede própria, localizada no começo da Avenida Doutor Arnaldo, em São Paulo, pouco depois do entroncamento com Avenida Paulista. Somam-se, ao todo, 900 metros quadrados em um projeto assinado pelo arquiteto Felippe Crescenti, com salas de exposição, área administrativa, café, sala de higienização e os espaços específicos para arquivamento, que contam com aparelhagem especial para armazenamento e preservação, além de segurança. O instituto é responsável por cuidar, hoje, de documentos de Amilcar de Castro, Hermelindo Fiaminghi, Iole de Freitas, Lothar Charoux, Luiz Sacilotto, Sergio Camargo, Sérvulo Esmeraldo e Willys de Castro. Até o próximo ano, arquivos documentais de Antonio Dias, Carmela Gross, Ivan Serpa, Jorge Wilheim e Rubem Ludolf serão tratados e também disponibilizados.

Regina Silveira, CASCATA, 2020 instalação. Impressão digital sobre vinil adesivo.
Regina Silveira, CASCATA, 2020. Instalação. Impressão digital sobre vinil adesivo. Foto: Divulgação

Um caso similar

Desde o início de 2016, quando o Paço das Artes foi despejado do espaço que ocupava na USP, houve uma sensação de incerteza de qual seria seu futuro. O edifício, projetado pelo mesmo Jorge Wilheim que ajudou a impulsionar o IAC, possuía um grande espaço para a realização das atividades e era habitado pelo Paço há quase 20 anos. Por pertencer à Secretaria do Estado da Saúde, sempre houve uma tensão em relação à permanência da instituição naquele local. “De qualquer maneira, pegou a gente de surpresa. Foi tudo muito rápido. A solicitação para que saíssemos de lá foi feita muito em cima da hora”, conta a diretora do Paço, Priscila Arantes.

Ainda houve negociação para que pudessem ficar ali em um período expandido, pelo menos até realizarem a exposição de Harun Farocki, que já estava programada há algum tempo, o que foi acatado. Após o despejo, apenas um ano depois, o Paço foi orientado a ocupar uma sala na entrada do Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP), enquanto internamente se articulava na procura de uma nova sede. Essa alocação se deu pelas duas instituições serem geridas pela mesma Organização Social (OS). A sala cedida para a realização de exposições foi utilizada para manter a Temporada de Projetos, o carro chefe do Paço. Exposições maiores precisaram de parcerias para serem montadas, como com a Oficina Oswald de Andrade e o MAC-USP. “Estabelecer redes de relações, conexões, foi nossa forma de resistir. Essas redes foram muito importantes porque ficava muito confuso para as pessoas saberem se o Paço tinha fechado ou não”. Em momento algum, a equipe deixou de se engajar na busca por um local que pudesse chamar de lar.

Regina Silveira, LUNAR, 2002/2003. Vídeo digital. Em colaboração com Ronaldo Kiel
Produção e realização: Olhar Periférico
Trilha sonora: Rogério Rochlitz.
Foto: Divulgação

Foi apenas ao final de 2018 que um desenrolar substancial aconteceu, quando foi anunciado que o casarão Nhonhô Magalhães, em Higienópolis, teria um espaço designado para ser a nova sede do Paço. Desde então, a equipe da instituição trabalhou na transferência de suas atividades para lá. A inauguração foi realizada no dia 25 de janeiro, com a individual Limiares, de Regina Silveira.

O Paço ocupa o subsolo do Casarão, tendo três salas de exposições que somam mais de 300 metros quadrados. Enquanto isso, sua parte administrativa fica na parte superior do edifício, que é de propriedade do Shopping Pátio Higienópolis desde 2005, quando foi vendido pelo governo de São Paulo. O edital de licitação, porém, tinha como cláusula que uma parte deveria ser cedida por vinte anos à Secretaria de Cultura, tempo que pode ser renovado. “As pessoas dizem: ‘Ah, que bom que você esperou’. Não, eu não esperei. Foi um trabalho que conquistamos como equipe”, comentou Priscila em entrevista para a ARTE!Brasileiros em dezembro. Ela comenta todo o processo que encarou até, finalmente, ter um espaço para o Paço. Ela também fala sobre os projetos que serão realizados ainda este ano, sobre a residência artística internacional que será oferecida e sobre o machismo no mundo da gestão cultural. Confira a entrevista na íntegra em nosso site.

Olhares indígenas apontam para outro futuro possível

O coletivo Mahku, do povo Huni Kuin (Acre), que expõe na mostra Encontros Ameríndios
O coletivo Mahku, do povo Huni Kuin (Acre), que expõe na mostra "Encontros Ameríndios". Foto: Mauricio Azzolini

Em uma fala contundente na Flip de 2014, Eduardo Viveiros de Castro afirmou que “nós temos que aprender a ser índios antes que seja tarde”. O antropólogo se referia a “nós”, civilização branca ocidental, e ressaltava que era preciso aprender com os povos indígenas “como viver em um país sem destruí-lo, como viver em um mundo sem arrasá-lo e como ser feliz sem precisar de cartão de crédito”.

Cerca de seis anos depois, é difícil afirmar que as coisas caminharam neste sentido. A destruição do meio ambiente e a crise climática se agravam globalmente e, no Brasil, a situação dos povos indígenas se torna cada dia mais dramática. Enquanto país, elegemos um presidente que afirma ser abusivo o tamanho das terras indígenas, tenta liberar a mineração nestes territórios e coloca na chefia da Funai um delegado apoiado por ruralistas. Em consonância com a política governamental, a grilagem e o desmatamento na Amazônia – onde habitam diversos povos – batem recordes, assim como as invasões de terras demarcadas no país. Entre essas e outras, destaque-se ainda que o número de assassinatos de lideranças indígenas em 2019 foi o mais alto da última década.

Pilón de Arroz, mola feita por Gilda Tejada, do povo Guna (Panamá), na mostra Encontros Ameríndios
Pilón de Arroz, mola feita por Gilda Tejada, do povo Guna (Panamá), na mostra Encontros Ameríndios. Foto: Everton Ballardin

Frente a este panorama, é em sentido oposto que o universo das artes visuais tem se voltado para os povos indígenas, suas produções, seus modos de pensar e viver. Esse movimento parece nítido quando se observa a pauta recente de várias das principais instituições culturais do país. O Sesc, na sequência de outros projetos marcantes nesta área, apresenta em 2020 a mostra Coração na Aldeia, Pés no Mundo, em Piracicaba, e a conclusão do projeto Sawé, no Ipiranga, ambos ligados à luta de mulheres indígenas. Encontros Ameríndios, por sua vez, na unidade do Vila Mariana, reunirá trabalhos contemporâneos de diferentes etnias das Américas.

O Museu Afro, após mostras sobre as origens africanas e portuguesas, encerra sua trilogia sobre os povos que formaram o país com a exposição Heranças de um Brasil Profundo. A Pinacoteca prepara uma grande mostra de arte contemporânea indígena, Véxoa, e o MASP definiu Histórias Indígenas como seu eixo curatorial para 2021. Ainda se poderia citar obras apresentadas nas últimas bienais de SP, exposições realizadas recentemente no Instituto Moreira Salles – como A Luta Yanomami, de Claudia Andujar, artista que também ganhou uma galeria permanente em Inhotim –, no Museu de Arte do Rio, no Centro Cultural Banco do Brasil e no Instituto Tomie Ohtake, entre outros.

“Uma característica desses povos ameríndios é a de não diferenciar coisas que nós consideramos como esferas separadas: ética, estética e moral. Então aquilo que é esteticamente belo é porque é eticamente correto e moralmente é o certo”

Sylvia Caiuby

Afirmar quais são as motivações para tamanho movimento seria arriscado, até por serem elas variadas e imprecisas. A própria percepção da ameaça crescente aos povos indígenas e as consequências da crise climática certamente estão entre elas. Mas há também quem perceba outras nuances. “Acho que talvez o mundo das artes tenha despertado mais agora porque as coisas começaram a atingir uma ‘branquitude’ que estava tranquila, protegida, presa num romantismo. Mas tem gente que já estava acostumada com a perseguição, que tem sabedoria do que é estar em guerra. Quando há necessidade, tudo se aprende mais rápido”, afirmou o artista Guerreiro do Divino Amor em entrevista recente à ARTE!BRASILEIROS. A fala dialoga com a declaração dada recentemente pelo líder indígena Ailton Krenak: “Já passamos por tanta ofensa que mais essa agora não vai nos tirar do sério. Fico preocupado é se os brancos vão resistir. Nós estamos resistindo há 500 anos”.

O enfoque dado pelas instituições não vem dissociado do crescente destaque recebido por artistas indígenas contemporâneas, membros de variadas etnias e com trabalhos diversos em suas linguagens e temáticas. “Os artistas indígenas são cada vez mais importantes hoje no Brasil. Já há muito tempo os cineastas indígenas têm uma presença conhecida, mas nas artes isso é algo recente, diferente do que se vê em países como Canadá e Austrália”, explica a antropóloga Sylvia Caiuby Novaes, coordenadora-geral de Encontros Ameríndios. A exposição, com curadoria de Aristóteles Barcelos Neto, coloca em diálogo obras contemporâneas de membros dos povos Haida (Columbia Britânica), Guna (Panamá), Huni Kuin (Acre) e Shipibo Conibo (Peru).   

De onde se fala

Neste contexto de aproximação das instituições com o universo indígena não se trata, como em outros momentos da história da arte, de apresentar trabalhos de artistas ocidentais influenciados pela produção de outros povos (por mais que isso também possa ocorrer), nem de trabalhar na linha das mostras de etnologia, com viés mais científico, acadêmico ou histórico. É característica marcante no atual movimento o diálogo estreito com os próprios indígenas, participantes ativos na construção das mostras, e um cuidado para não folclorizar ou exotizar as produções. Neste sentido, o MASP contratou para seu time a antropóloga Sandra Benites, de origem Guarani Nhandewa, que se tornou a primeira curadora indígena em uma grande instituição de arte do país, e a Pinacoteca convidou a artista e pesquisadora Naine Terena, de origem Terena, para curar uma mostra.

O trabalho com o universo contemporâneo procura, portanto, romper o arraigado estereótipo de que os índios “fazem parte do nosso passado”. Na contramão de fala recente do presidente Jair Bolsonaro, que afirmou que “cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós”, percebe-se que o mundo indígena não só é parte do presente como pode nos ensinar sobre outros futuros possíveis, como pediu Viveiros de Castro na Flip. “No século 16 os jesuítas pensavam os índios como bestas-feras, ou seja, seres em passagem do estatuto animal para o humano. E essa mentalidade típica daquela época é a mesma do presidente hoje em dia”, diz Caiuby.

Indígenas Marc Ferrez
Foto da série Indiens de Mato Grosso, de Marc Ferrez, 1890, na mostra no Museu Afro. Foto: Divulgação/ Coleção Ruy Souza e Silva

A antropóloga ressalta também que as áreas mais preservadas da Amazônia são as terras indígenas. “Muitos não percebem que a riqueza está na floresta em pé, não nela derrubada. E os índios, mais que ninguém, não se colocam separados da natureza. Acho importante essa visão de muitos deles de que os rios, as montanhas, a terra, elas agem e reagem. A terra sangra”, explica. “Veja os rios de São Paulo se manifestando. Construímos cidades sobre eles, aterramos, deixamos sem porosidade, e eles se revoltam.” Como escreveu recentemente o líder indígena Marivelton Baré, em artigo na Folha de S.Paulo, “o que nossos ancestrais já sabiam instintivamente há milhares de anos, hoje é comprovado pela ciência do homem branco. A mesma ciência que essas pessoas negam. Somos nós os atrasados?”

Diretor do Museu Afro Brasil e curador da mostra Heranças de um Brasil Profundo, Emanoel Araujo segue a mesma linha. “Existe essa ânsia desgraçada de pegar toda a floresta e transformar em soja e gado. Por isso essas exposições vêm em um momento crucial. E é preciso que as pessoas se conscientizem, porque como isso parece estar longe de nós, que vivemos na cidade, muita gente não tem a menor ideia do que está acontecendo.” A mostra no Museu Afro reúne uma grande diversidade de produção material de povos como os Karajá, Marubo, Kayapó, Panará e Juruna – entre máscaras, adornos, cestarias e um rico acervo de arte plumária – colocada em diálogo com fotografias de nomes ocidentais como Albert Frisch, Marc Ferrez, Maureen Bisiliat e Nair Benedicto e quadros de José Roberto Aguilar, Claudio Tozzi e Rubens Ianelli. Há ainda uma grande construção em sapé feita por membros da etnia Mehinako, nomeada Casa dos Homens, e trabalhos contemporâneos de Denilson Baniwa.

Museu Afro
Mulher na cerimônia do Yamaricumã, de Maureen Bisiliat, 1975, na mostra no Museu Afro. Foto: Divulgação/Acervo Instituto Moreira Salles

“Essa exposição celebra a vida desses povos das florestas que através de séculos vivem e sobrevivem sendo achacados pelos homens brancos. (…) Esse povo que aqui estava e que aqui continua em terras onde sempre foi o dono, para sempre”, escreve o curador em texto sobre a exposição. Araujo destaca ainda que a mostra não possui exatamente um caráter antropológico ou acadêmico, mas propõe uma reunião de peças que passam uma “ideia de deslumbramento” e que mostram a sabedoria dos povos indígenas. Ele se refere também a algo que Darcy Ribeiro chamou certa vez de “vontade de beleza”, ou seja, um cuidado estético presente em toda a produção dos povos indígenas que vai das coisas mais efêmeras às mais duradouras.

“Existe essa beleza notável nas coisas”, concorda Caiuby, se referindo à produção ameríndia. “Porque aquilo que é certo, que é bem feito, tem que ser bonito. E isso se relaciona com outra característica desses povos que é a de não diferenciar coisas que nós consideramos como esferas separadas: ética, estética e moral. Então aquilo que é esteticamente belo é porque é eticamente correto e moralmente é o certo.” E ela exemplifica: “A gente pode admirar um pôr do sol com poluição, porque dizemos que fica mais vermelho, mas isso para eles é inadmissível”.

Diversidade e o conceito de arte

Quando destacam as características comuns aos povos indígenas, os curadores e artistas das mostras atentam também para o perigo de homogeneizar a produção e o pensamento das diferentes etnias, reduzindo a enorme pluralidade ameríndia como se fosse uma coisa só. Na exposição Encontros Ameríndios, por exemplo, uma diversidade de linguagens e temas ficam explícitos nas obras dos povos dos diferentes continentes. Seres mitológicos, seres da floresta, temáticas relativas ao contato – além de vídeos que remetem à própria produção das obras – são algumas das questões que surgem nos trabalhos em variados suportes, seja nas caixas de madeiras feitas pelos Haida, no painel pintado pelos Shipibo Conibo ou nas molas (arte têxtil) dos Guna. Trabalhos feitos a partir dos grafismos tradicionais, temas xamânicos, espiritualidade, a questão do exílio e obras de forte cunho político também se apresentam na produção contemporânea de diversos artistas indígenas.

Museu Afro
Cestarias e outras peças reunidas na exposição Heranças de um Brasil Profundo, no Museu Afro. Foto: Marcos Grinspum Ferraz

“São povos que têm inúmeras semelhanças e diferenças entre si. E acho que esse encontro entre eles é uma oportunidade de ver isso”, diz Caiuby. “Inclusive, são povos que valorizam muito a diferença e não a transformam, ao contrário de nós, em desigualdade.” Entre as semelhanças, a antropóloga ressalta a importância da troca e da reciprocidade como princípios da vida social, assim como o processo histórico de dominação a que foram submetidos. Há, ainda, uma percepção clara de que o conceito de “arte” como usado no mundo ocidental não se adequa ao pensamento ameríndio. “Para nós, não há essa diferença entre arte e vida ou arte e resistência como há no Ocidente, onde a arte é um instrumento de poder em relação a outros seres humanos”, afirma Denilson Baniwa (leia mais em entrevista concedida à ARTE!Brasileiros).

Assim, a confusa e problemática distinção entre o que seria arte ou artesanato na produção indígena passa a ter maior espaço no debate contemporâneo de instituições, curadores, galeristas e artistas. Segundo Barcelos Neto, em entrevista recente ao jornal Nexo, a produção indígena exposta nos museus de arte moderna e contemporânea normalmente está restrita àquela feita com técnicas e suportes semelhantes aos canonizados pela arte ocidental. De modo geral, aplica-se à produção indígena uma classificação própria à arte ocidental, a partir de parâmetros estéticos, plásticos e utilitários alheios aos próprios indígenas.

Encontros Ameríndios
O pombo cantador que vem de longe, lá do céu, já virou jiboia, do coletivo Mahku (Huni Kuin), na mostra Encontros Ameríndios. Foto: Everton Ballardin

“Posso te dizer que alguns dos artistas e coletivos indígenas com quem converso não estão preocupados com os conceitos de arte ocidental. Nem o que esse termo possa significar nas escolas de arte ocidentais, se for pautado pelo olhar do intelectual não indígena”, afirma Naine Terena, que no momento trabalha na montagem da mostra na Pinacoteca. Ao mesmo tempo, a produção de diversos artistas indígenas contemporâneos a partir do que Naine chama de um “ajuntamento” de técnicas – indígenas e ocidentais – têm contribuído para o desenvolvimento de um fértil campo de criação, além de ser um dos motivos da crescente visibilidade deste trabalho.

Segundo Baniwa, quando esses artistas se propõem a utilizar linguagens não indígenas, trata-se também de uma estratégia de conversar com quem não faz parte dessas culturas. Ele afirma ainda que ao trabalhar, através da arte, com temas que já tratava em sua luta no movimento indígena, consegue tocar as pessoas por um viés mais ligado à emoção e afetividade. Essa aproximação com instituições ou com o mercado de arte, diferentemente do que diria a visão “evolucionista” do atual governo, não faz destes índios menos índios, como fica claro em seus trabalhos e discursos de afirmação de identidades. “As culturas não são estanques, paradas. Todos nós vivemos a partir da absorção das coisas que vem de fora”, afirma Caiuby. E se os índios se transformam no contato com os brancos, talvez seja hora de, antes que seja tarde, nos transformarmos mais profundamente em nosso contato com os índios.

Projeto reúne artistas e propõe modelo alternativo de vendas durante quarentena

Toda vez que uma obra é vendida, o Instagram do projeto Quarentine compartilha esse envelope aberto, como comemoração.

Acostumados a comercializar seus trabalhos por conta própria ou por meio de galerias, uma série de artistas brasileiros decidiram participar de uma iniciativa distinta – talvez inédita – em tempos de pandemia do novo coronavírus. Na tentativa de enfrentar as enormes dificuldades impostas pelo novo contexto, cerca de 45 artistas de diversas regiões do país se reuniram no projeto Quarentine, “uma iniciativa de incentivo à produção e venda de trabalhos durante a quarentena”, nas palavras dos organizadores.

Concebido pelas artistas Lais Myrrha e Marilá Dardot, pela curadora Cristiana Tejo e pela fundadora da plataforma 55SP Julia Morelli, o Quarentine propõe uma ação coletiva na qual os trabalhos de todos os artistas são vendidos por um mesmo preço (R$ 5 mil) e o valor total reunido é repartido igualmente entre todos os colaboradores.

Os artistas participantes são: Ana Dias Batista, Ana Lira, Arissana Pataxó, Armando Queiroz, Bruno Faria, Caetano Costa, Cinthia Marcelle e Diran Castro, Clara Ianni, Clarice Cunha, Daniel Lie, Debora Bolsoni, Denilson Baniwa, Fabiana Faleiros, Fabio Morais, Fabio Tremonte, Fernando Cardoso, Guto Lacaz, Jaime Lauriano, Janaina Wagner, João Loureiro, Laercio Redondo, Lais Myrrha, Lenora de Barros, Lia Chaia, Lucas Bambozzi, Manauara Clandestina, Marcellvs L., Marcia Xavier, Marco Paulo Rolla, Mariana de Matos, Marilá Dardot, Marta Neves, Maurício Ianês, Nicolás Robbio, Patrícia Francisco, Paulo Bruscky, Rafael RG, Ricardo Basbaum, Romy Poc, Rosângela Rennó, Sara Não Tem Nome, Sara Ramo, Traplev, Yana Tamayo e Yuri Firmeza.

“O coronavírus tem reforçado a importância da cooperação entre todos e da redistribuição mínima de condições materiais como as únicas possibilidades de sua superação. Sem a ação coletiva não há solução”, diz o texto de divulgação da iniciativa. “Esta situação sem precedentes na história recente mundial tem convidado-nos a repensar estilos de vida, alianças, formas de contribuição e maneiras de atuação profissional. Diante deste contexto de incertezas e de interrupção do cotidiano, o grupo propõe um experimento coletivo de re-imaginação de modelo econômico para as artes”, conclui.

Além disso, uma cota extra foi criada para ser doada para o fundo emergencial de apoio às pessoas trans afetadas pelo covid-19 e assistidas pela Casa Chama, uma organização civil de ações socioculturais com foco em artistas Transvestigêneres.

Artistas das mais variadas regiões, em momentos distintos da trajetória, de diferentes gêneros e grupos raciais foram convidados a propor trabalhos de acordo com as condições de quarentena – em casa, com os materiais e instrumentos disponíveis. As obras resultantes são desenhos, gravuras digitais, arte sonora, vídeos, fotos e textos, entre outros, pensadas para serem enviadas digitalmente e realizados (baixados, impressos e/ou executados) pelos compradores também em condições de quarentena. Os trabalhos só serão visualizados pelas pessoas que os comprem. Segundo os organizadores do Quarentine, há a intenção de, ao final do processo, realizar uma exposição online com as proposições desenvolvidas. Os trabalhos podem ser adquiridos na Plataforma 55SP (www.55sp.art/quarantine)

Sem tempo para ficar sem arte!

Visita virtual ao Hermitage, em São Petesburgo, é uma das mais completas. Foto: Divulgação

Algumas das instituições culturais mais aclamadas do mundo possuem um sistema de visita virtual em 360 graus. Outros colocam todo o seu acervo digitalizado na web para que o público possa acessá-lo. Em um momento em que todos precisam evitar aglomerações e lugares por onde passam muitas pessoas, não há necessidade de deixar de ver e apreciar a arte.

A ARTE!Brasileiros recomenda uma série de museus para visitar de forma gratuita e sem sair de casa. Confira:

Europa

Vitória Alada de Samotrácia, no Louvre
Vitória Alada de Samotrácia, no Louvre. Foto: Divulgação

Musée du Louvre: O emblemático museu francês foi construído originalmente como uma fortaleza pelo Rei Filipe Augusto; hoje, o Louvre disponibiliza três guias virtuais em seu site: pelas antiguidades egípcias, pelo fosso da antiga fortaleza e pela Galerie d’Apollon. Além disso, é possível conhecer outras obras da instituição através de visitas temáticas também disponibilizadas online.

Uffizi: Chamado também de Galleria degli Uffizi, o museu situado em um palácio foi inaugurado em 1769 em Florença, na Itália, com projeto arquitetônico original de Giorgio Vasari. O museu abriga trabalhos de Raffaello a Michelangelo e Cimabue. O Uffizi disponibiliza – em parceria com o Google – um tour virtual por todo o museu.

British Museum: A coleção do The British Museum, fundado em junho de 1753, abrange mais de 2 milhões de anos da história. Sua coleção inclui objetos conhecidos mundialmente como a Pedre de Rosetta, os frisos do Partenon de Atenas e as múmias egípcias. Também em conjunto com o Google Arts & Culture, a exploração do museu pode ser feita de casa, em segurança.

Museo Nacional del Prado: Um dos mais prestigiados museus da Espanha, localizado em Madrid, o Museo del Prado foi planejado no reinado de Carlos III. Seu acervo – disponível no site do Museu – guarda obras importantes, principalmente na coleção de pinturas espanholas, que inclui a famosa obra “As Meninas” de Diego Velázquez.

Hermitage: O Hermitage está localizado às margens do rio Neva, em São Petersburgo, na Rússia. Dentro das construções que o compõem está o Palácio de Inverno, que foi a residência oficial dos Czares quase ininterruptamente desde sua construção até a queda da monarquia russa. Talvez este seja o museu com uma versão virtual mais ampla: é possível visitá-lo por inteiro no site da instituição e em 2020, em parceria com a Apple, o museu fez um tour virtual de 5 horas gravado em um take só, no estilo de a “Arca Russa”.

Estados Unidos

Washerwomen, de Paul Gauguin, no MoMA
Washerwomen, de Paul Gauguin, no MoMA. Foto: Divulgação

Solomon R. Guggenheim Museum: O museu de Nova Iorque coloca online algumas coleções e exposições para que as pessoas possam apreciar obras de nomes como Mondrian e Picasso. Em 2005, o museu foi designado um edifício do Registro Nacional de Lugares Históricos bem como um Marco Histórico Nacional, em 2008. Recentemente, a instituição passou por expansões surgindo assim o Guggenheim Bilbao, o Guggenheim Hermitage Museum, em Las Vegas, o Deutsche Guggenheim, em Berlim e a Coleção Peggy Guggenheim, em Veneza.

National Gallery of Art: A instituição, que tem sede em Washington, oferece passeios virtuais por suas exposições e por sua coleção. Grande parte da sua coleção inicial veio do colecionador Andrew W. Mellon, que começou a reunir as obras para montar a galeria em meados dos anos 1920. Quando o museu foi criado em 1941, era a maior estrutura em mármore do mundo.

The Metropolitan Museum of Art: Localizado em Nova Iorque, o MET é um dos museus mais queridos do mundo. Seus serviços virtuais incluem visita ao acervo e tours virtuais, podendo ser vistas obras de Pollock e Van Gogh.

The Museum of Modern Art: O MoMA tem uma parceria com o Google Arts & Culture para disponibilizar visitas virtuais de suas exposições e vistas de peças de sua coleção. Foi idealizado na década de 1920 por Miss Lillie P. Bliss,  Cornelius J. Sullivan e John D. Rockefeller, Jr. Em 1971, o museu recebeu um irmão mais novo, o MoMA PS1, dedicado inteiramente à arte contemporânea, apresentando uma coleção com tom mais provocador.

The J. Paul Getty Museum: Com sede em Los Angeles, a instituição tem em seu acervo peças estimadas de Paul Gauguin e Van Gogh. Visitas virtuais e acervo também podem ser conferidos no Google Arts & Culture. O museu também tem um podcast em seu site.

América Latina

Rosa e azul - As meninas Cahen d'Anvers, de Renoir, no MASP
Rosa e azul – As meninas Cahen d’Anvers, de Renoir, no MASP. Foto: Divulgação

MASP: Fundado em 1947 e sediado no arrojado edifício feito por Lina Bo Bardi desde 1968, o MASP veio a ser o primeiro museu moderno no país. Do seu acervo, um total de 1.000 itens dos 8.000 contidos na sua coleção permanente está disponível na plataforma do Google Arts & Culture, assim como seis mostras

MAM-Rio: O Museu de Arte Moderna do Rio tem um dos acervos mais importantes de arte moderna e contemporânea da América Latina, e abrigou parte considerável dos movimentos artísticos brasileiros. Quem cuidou do paisagismo do museu foi Roberto Burle Marx. Uma visitação virtual está disponível no próprio site do museu.

Pinacoteca: Com a colaboração da Pina com o Google, o visitante passa a explorar o museu não só pelas fotos das obras dispostas pela instituição. Além disso, outro projeto torna possível ver de cima as salas expositivas através de um modelo virtual do terceiro pavimento da Pina. Entre os artistas em seu acervo permanente estão nomes importantes da arte brasileira como Lygia Clark e Tarsila do Amaral.

Museo Nacional de Bellas Artes de Argentina: Inaugurado em dezembro de 1896, o museu abriga o maior acervo de arte do país; sua exposição permanente de arte argentina oferece uma sequência que varia desde os pintores estrangeiros que visitaram a Argentina no início do século XIX até as últimas tendências artísticas do século XX. Já sua coleção internacional lista nomes como Goya, Tintoretto e El Greco.

Munal: O Museu Nacional de Arte (MUNAL), localizado no centro histórico da Cidade do México, abriga a coleção mais importante de arte mexicana do país. Sua coleção consiste em mais de 3.500 obras apresentando trabalhos de Orozco, Rivera e Siqueiros.

Amor em tempos de pandemia

Fotografia de Gohar Dashti, da série "Home" de 2017. Enviado pelo Museum of Fine Arts de Boston

Sobre este momento na pandemia do novo Coronavírus, o historiador e filósofo israelense Yuval Noah Harari escreveu que, enquanto a quarentena a curto prazo for fundamental, o verdadeiro antídoto para a epidemia seria a cooperação e não a segregação. Em um exemplo mais palpável da fala de Harari, no dia 24 de março instituições culturais no mundo começaram a “enviar flores“ virtuais umas para as outras: pinturas, fotografias e outras formas de arte começaram a ser compartilhadas online junto com mensagens de agradecimento, empatia e até mesmo poemas. 

A ação começou com a Sociedade Histórica de Nova Iorque enviando um quadro com flores de uma macieira, do pintor estadunidense Martin Johnson Heade, para o Museu Smithsonian. O museu foi ágil em passar o presente para o próximo, destinando um bouquet de flores coloridas por H. Lyman Saÿen para o Akron Art Museum. Assim, as entidades que receberam os bouquets começaram a retribuí-los incluindo na brincadeira cada vez mais instituições artísticas.

Não demorou muito para que isso se transformasse em uma verdadeira corrente, com centenas de museus – mais de 300 instituições – participando com a hashtag #MuseumBouquet, preenchendo seus espaços virtuais com imagens de flora. 

A National Portrait Gallery, o MET e o Guggenheim estão entre os colaboradores dessa ação de fortalecimento de espírito comunitário, principalmente no mundo da arte, que foi atingido pela crise – com os fechamentos das exposições e eventuais danos financeiros – e teve que repensar ações destinadas ao ambiente virtual como forma de se manter na ativa e entregar arte para seu público.

Coroa de Espinhos

Tentação de São Antônio (1650), Joos Van Craesbeeck

Em agosto de 2019 o céu de São Paulo tornou-se subitamente escuro, em função das queimadas da região Norte. Anos antes não pudemos sair de casa porque o PCC assumiu um ataque massivo contra a polícia. Vez ou outra as chuvas interditam ruas e estradas do país destruindo casas e barragens.

Estes momentos de exceção trazem transtorno, medo e desordem pois neles nossa vida prática se vê obstruída. Temos que parar e pensar. A lei do dia a dia é revogada e surge uma brecha na ordem das coisas. Tais momentos nos lembram que por mais que tenhamos sonhos de controle sobre a natureza, sobre os outros e sobre nós mesmos, há ainda uma força maior que nos submete.

Não estamos mais acostumados a enfrentar o poder da natureza, sem que ele esteja combinado com a imprudência, imperícia ou negligência humana.

Quando algo dá errado nos dirigimos inevitavelmente à busca de culpados e responsáveis, como se estes, uma vez localizados, nos autorizassem a voltar a dormir o sono dos justos. A pandemia de covid-19, que alastra-se pelo Brasil, faz lembrar as lições trazidas, desde sempre, pela peste como estado de exceção. A primeira delas é que a peste é democrática, atingindo ricos e pobres, mulheres e homens, brancos e negros, crianças e idosos, ainda que sobre estes últimos ela seja mais impiedosa e letal. Como dizia Hegel, diante da doença temos que nos lembrar que só há um mestre absoluto: a morte. Ela é a razão e medida de todas as vidas e diante dela somos todos iguais. Por isso ela pode ao mesmo tempo nos colocar tão juntos e solidários quanto separados e concorrentes.

A peste materializa e sintetiza nossa relação com os outros, porque mobiliza a ideia de contágio e transmissão pelo contato. Coisas que passam de um para outro se prestam a simbolizar que a essência do convívio humano é a troca. Por isso a peste encarna nosso imaginário sobre a origem do mal. O mal não está e nem vem de nós mesmos, mas vem do outro, ele vem de longe, vem do Oriente, vem da China, que como os bárbaros da antiguidade, não fala nossa língua. A peste nos ameaça porque não ataca apenas nossos corpos, mas nossas identidades, nossos sentimentos de pertença e de filiação a uma determinada ordem. Toda doença séria e potencialmente letal levanta esta pergunta moral: o que fiz para não ser tão amado e protegido pelo Outro que me envia isto. Nossa irresistível tendência a ler a doença como uma mensagem tem a ver com a resistência a aceitar que existem coisas que não conhecemos e, portanto, não dominamos. Quando isso acontece nós criamos ficções e hipóteses para ler e atribuir significado ao que, em princípio, não tem sentido.

É como a metáfora da desordem que, durante a idade Média, a lepra punia com a degradação do corpo aqueles que se deixavam levar pela luxúria. É como a deshumanização, animalização e imputação de irracionalidade que tornamos a loucura o grande mal da modernidade, esta época definida pela razão. Durante os anos 1990, lemos na aparição do HIV-AIDS uma espécie de castigo divino contra homossexuais e todos que exerciam “demasiadamente” sua liberdade sexual. Ou seja, desde sempre transformamos o medo de um objeto que vem de fora na angústia indefinida de um pavor que vem de dentro. Tendemos a moralizar eventos naturais que escapam ao nosso controle, depositando sobre eles um sentido que eles não possuem. É assim que a experiência de adoecer e entrar nesta espécie de intervalo ou parênteses da vida, pode tornar-se uma experiência de culpa e desamparo.

Na grande peste de 1666 erguiam-se fogueiras imensas nas encruzilhadas que davam caminho para as grandes cidades, como forma de evitar a peste bubônica. A teoria por trás da prática era de que o medo predispunha a pessoa a contrair a peste. A prova de coragem, enfrentando o fogo, ao mesmo tempo purificava e autorizava a chegada do estrangeiro puro e afastava o estrangeiro impuro. A peste transmitia-se pelo olhar invejoso que o doente lançava sobre o sadio. Nossa tendência diante do que não compreendemos é ficar junto, criar grupos e dar as mãos. Ora, a crueldade adicional imposta pelo coronavírus é que justamente isso é o que não devemos fazer.

A peste convoca em nós esta dupla tarefa de enfrentar o medo e de fazer frente à angústia. O medo nos faz agir, avaliar riscos e calcular estratégias. Diante do medo podemos atacar ou fugir. Ele nos incita a tomar medidas protetivas, obedecer restrições de contato social, ou métodos de higiene e limpeza. Só um tolo desfaz do medo apegando-se à ideia de que não há motivo para o temor, que a fé nos protegerá ou que a doença é apenas uma invenção imaginativa.

O problema começa quando o medo do que vem de fora se contamina com a angústia que vem de dentro. Percebe-se assim como a ideia de contaminação é uma ideia objetiva e subjetiva

Ela fala da transmissão real de um vírus de corpo para corpo, da passagem simbólica da cultura entre nativos e estrangeiros, mas também da mistura imaginária entre o bem e o mal dentro de nós. Por isso a doença é o pretexto ideal para ativar preconceitos, invocar fantasmas e revitalizar complexos infantis. É como se diante da possibilidade da morte nos víssemos diante da inadmissível falta de sentido da vida e contra isso respondêssemos com nossas crenças inconscientes.

Podemos distinguir três reações básicas diante da peste: o tolo, o confuso e o desesperado. O tolo desconhece a importância do medo. Desprevenido e desinformado ele irá em busca de culpados. Ele não é corajoso porque não reconhece os riscos e resolve atravessá-los mesmo assim. Ele simplesmente não quer saber do perigo, por isso também não toma providências.  O confuso é aquele que lida com a angústia tentando transformá-la inteiramente em medo real. Ele estocará quilos de papel higiênico porque ouviu algo sobre a Coréia, andará com tonéis de álcool em gel no bolso e saberá tudo que todos os governantes falam, mas também acompanhará todos os boatos e disseminará todas as hipóteses conspiratórias. Finalmente, a reação dos desesperados transformará todo o medo, gerado pela indeterminação, em motivo para incremento de angústia. No fundo ele já estava inquieto antes disso tudo, a doença só veio dar corpo e carne aos seus piores fantasmas. Acalmar-se é algo que ninguém pode fazer por você. Se você espera que apenas mais notícias, informações e comentários venham a te pacificar, ou se você acha que aumentar o estoque de máscaras vai sanear sua angústia, você está se enganando.

O verbo chama-se “acalmar-se”,  e não ser acalmado pelos outros e seus objetos. O medo se combate com precaução e medidas objetivas, a angústia com cuidado de si e trabalho subjetivo.

Neste sentido a peste tem muito a nos ensinar, especialmente quanto a nossas ilusões de controle e dominação sobre o mundo e sobre nosso destino. A cultura do ódio e da emulação, a crença digital de que somos muitos importantes e tantas outras promessas nos fazem acreditar que somos soberanos sobre nossas vidas. Daí aparece um pequeno micro-organismo, bastante limitado do ponto de vista de sua capacidade reprodutiva e de estrutura biológica de RNA e nos derruba. Ou seja, do ponto de vista de nossa angústia o coronavírus não poderia ter um nome melhor: ele nos tira do trono de nós mesmos e coloca a coroa de nossas vidas em sua justa dimensão.

É a coroa de espinhos que convoca uma experiência escassa em nossa época: a humildade. Diante desta pequena e destrutiva força da natureza nosso grandiloquente narcisismo se dobra como um vassalo encurralado.

Apesar de dolorosa como um espinho na alma esta pode ser uma experiência profundamente transformativa. Descobrir que podemos muito menos do que pensamos, aceitar o imponderável que nos governa e acolher com humildade o que ainda não dominamos, pode ser muito benéfico. Pode ser uma verdadeira terapia, para aqueles que precisam descansar a cabeça do peso de sua coroa de espinhos narcísicos.

 

 

Colaboradores da edição #50


Alles Blau é o nome dado à parceria entre Elisa von Randow e Julia Masagão. A dupla de designers gráficas, desde 2015, desenvolve ilustrações, identidades visuais, projetos editoriais e expográficos. Elas são as criadoras do novo projeto gráfico da plataforma ARTE!BRASILEIROS, concebido para comemorar os nossos 10 anos de existência e a nossa edição de número 50


Miguel Groisman é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e graduando em Cinema pela FAAP. Já escreveu sobre cinema e fotografia para a Revista Esquinas e foi pesquisador discente sob orientação da Profa. Dra. Simonetta Persichetti, desenvolvendo uma pesquisa sobre a representação das pessoas que vivem com HIV/AIDS no fotojornalismo. Produz conteúdo para nossas plataformas digitais desde fevereiro.


Benjamin Seroussi é curador, editor e gestor cultural, com mestrado em antropologia e sociologia pela Ecole Normale Supérieure e em gestão cultural pela Sciences-Po (França). Foi curador associado da 31ª Bienal de São Paulo. Atualmente, é diretor da Casa do Povo. Escreve para esta edição sobre o projeto Vila Itororó Canteiro Aberto, onde atuou como curador.


Jamyle Rkain é jornalista, formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. É pesquisadora nas áreas de Mídia, Literatura, Arte e Gênero. Em 2016 e 2017, se dedicou à revista CULTURA!Brasileiros e desde o início de 2018 atua como repórter na ARTE!BRASILEIROS. Também trabalha como produtora editorial. Para esta edição, entrevistou o artista Denilson Baniwa.


Tadeu Chiarelli é curador e crítico de arte. É professor titular no curso de Artes Visuais da USP. Foi diretor da Pinacoteca de São Paulo e do Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP). Também já atuou como curador-chefe do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). É colunista no site da ARTE!BRASILEIROS.

Vila Itororó canteiro permanente

Vila Itororó. Foto: Nelson Kon

Por Benjamin Seroussi

Como rotular a Vila Itororó? Como Casa de Cultura? Teatro? Museu? Sabemos das limitações das políticas públicas que precisam encaixar em rubricas burocráticas uma realidade singular que foge à regra geral. Porém, entre uma gestão e uma outra, houve um contínuo esforço da Secretária Municipal da Cultura (SMC) para adequar os dois lados da equação.

É impossível olhar para a complexa história da Vila Itotoró sem levar em consideração que o local sempre foi um lugar de moradia (popular e burguês) e de lazer (tendo uma das primeiras piscinas da cidade). É lamentável que o reconhecimento da importância da Vila como patrimônio passou pela retirada do que faz dela ser justamente um patrimônio – os seus moradores. É como se o desejo (de preservar) matasse o seu objeto (a Vila). Não por acaso, a Vila atravessou os tempos justamente por ter ficado um tanto à margem da especulação imobiliária – o relativo abandono foi seu maior fator de preservação. Hoje, estando sob os holofotes, é preciso ter cuidado para não destruí-la de vez.

O futuro não existe

Quando vai ficar pronto? O que vai ser? São as primeiras perguntas que os visitantes fizeram ao adentrar o canteiro de restauro da centenária Vila Itororó quando abriu seus portões ao público em 2015, já esvaziada dos seus moradores. É curioso como a crença no futuro persiste apesar de vivermos em uma cidade repleta de canteiros abandonados, de políticas públicas descontinuadas e de promessas não cumpridas… E quando São Paulo vai ficar pronta? O poder público se sente na obrigação de propor respostas como se um plano irrealizável reconfortasse mais do que uma mirada realista sobre as nossas capacidades de agir no presente.

É curioso como a crença no futuro persiste apesar de vivermos em uma cidade repleta de canteiros abandonados, de políticas públicas descontinuadas e de promessas não cumpridas… E quando São Paulo vai ficar pronta?

A espessura do presente

Tentar responder a uma pergunta errada é a garantia de que nunca encontraremos a resposta certa. Por isso, o projeto Vila Itororó Canteiro Aberto evitou respostas superficiais como “residência artística”, “centro cultural público”, “museu da história da cidade”, para elaborar novas perguntas: o que pode ser agora? Como sua história e as necessidades atuais da cidade informam seu potencial? Como ativá-lo? O que é público? O que é cultura? – e assim inventar o que o arquiteto Yona Friedman chama de “utopias realizáveis”, um exercício radical de imaginação, porém, dentro de uma possiblidade de atuação que visa dar espessura ao presente.

O centro cultural temporário

O galpão anexo à Vila virou um experimento, em escala real, do que poderia ser a Vila uma vez renovada… ou melhor, habitada. Muitas parcerias foram realizadas para fortalecer o projeto para além das gestões políticas. A arquitetura temporária do coletivo franco-alemão Constructlab criou as bases para uma escuta ativa das demandas do bairro. Essas não surgiram por meio de consultas públicas mas sim dos usos da cozinha, da arquibancada móvel, dos espelhos, dos banheiros públicos, dos armários para pessoas em situação de rua, da marcenaria aberta e de outros dispositivos que vieram substituir os cafés, lojas de design e outros serviços que hoje parecem mais importantes que a própria utilidade pública dos espaços de cultura.

Foto de arquivo da Vila Itororó no início do século passado. Foto: Arquivo Milu Leite

Habitar a cultura

Paralelamente, houve uma abertura da noção de cultura – já que, legalmente, o espaço tem de ser usado para fins culturais. Mas se a cultura extrapola as práticas artísticas, por que não usar o espaço de outras formas? Habitar não é cultura? Cultivar não é cultura? Alimentar-se não é cultura? Práticas não previstas pelas limitações sociais e cognitivas dos curadores do projeto não teriam espaço nos centros culturais? Definindo acordos básicos com o público em construção, surgiram o que chamamos de “usos espontâneos”: esgrima, ensaio de circo, reuniões de ex-moradores e outras práticas realizadas pelos frequentadores, sem outras mediações curatoriais.

Ensaiando outras políticas públicas

O projeto Vila Itororó Canteiro Aberto terminou em 2020 com a entrega, pelo Instituto Pedra, de algumas casas reformadas para a SMC que já tinha assumido a gestão das atividades do canteiro em 2018. Desde então, é importante observar o processo de normalização (ou domesticação) em curso – os “usos espontâneos” ficando menos visíveis do que as oficinas e os espetáculos; a comunicação visual ganhando caráter oficial; e o vocabulário ficando acrítico – falando-se em “economia criativa”, “ocupação artística” ou “museu”. Mas a Vila segue viva dentro do leque aberto pelo canteiro! Reconhecer essas limitações ajuda a apontar para os desafios atuais: como o poder público pode manter a vida comunitária que existe ali sem cerceá-la? Que papel os frequentadores podem ter na gestão do espaço? Como incluir moradia no programa de uso? Como seguir a reforma sem travar o funcionamento da Vila?

“Panapana”, de Carla Zaccagnin, 2016. Foto: Camila Picolo.

Para concluir, eu gostaria, por um lado, de pensar, junto aos curadores e gestores, sobre a importância de seguir almejando o melhor dos melhores para seus projetos mas também de ter a capacidade de antecipar o melhor dos piores cenários possíveis, pois nossa capacidade de controle da realidade é limitada. Por isso, apesar dos problemas apontados, celebro que a Vila mantém um público diverso, que a clínica de psicanálise siga funcionando e que as obras de arte, comissionadas para estruturar o projeto, continuam ali: o mobiliário de Constructlab (infelizmente repintado sem conversa com seus criadores); os murais de Monica Nador; o jardim de atração de borboleta de Carla Zaccagnini (cuja parte sonora não é bem sinalizada); a casa reformada pelo Raumlabor (mas sem contar mais com apoio do Goethe Institut); e os excertos videos de Graziela Kunsch on-line.

Por outro lado, à SMC, chamo a atenção para o fato, que, no cenário atual, a Vila continua uma ocasião única para criar políticas intersetoriais. Se, por meio do Fablab, há uma parceria da SMC com a Secretária de Inovação e Tecnologia, por que não uma com a Secretária de Habitação? Em uma situação de escassez de recursos, a Vila aponta para um modelo econômico onde o poder público pode apoiar as iniciativas coletivas que ali surgiram, garantindo suas coabitações livres apenas, sem apagar suas singularidades e disponibilizando um espaço comum para desenvolverem suas atividades. Em uma cidade que tenta apagar suas feridas e silenciar suas vozes minoritárias, a Vila, medalhão de um colar que já se foi (parafraseando Flavio Império, que morava no quarteirão), pode funcionar como memória viva das tantas formas de viver na capital da vertigem.

Goethe na Vila
Imagem do espaço durante o programa Goethe na Vila, com peças do coletivo sediado em Berlim, RAUMLABOR, em 2017. Foto: Fernando Stankuns.

Benjamin Seroussi

Atuei como curador do projeto Vila Itororó Canteiro Aberto. Compartilho a autoria junto à equipe com a qual trabalhei diretamente – Fabio Zuker (curador associado), Graziela Kunsch (formadora de público), Helena Ramos (gerente de projeto), Francesca Tedeschi (coordenadora do Goethe na Vila) – e com toda a equipe do Instituto Pedra, liderada pelo Luiz Fernando de Almeida, que me convidou em 2014 para pensar como abrir esse canteiro.

Para saber mais sobre o projeto Vila Itororó Canteiro Aberto e sobre a história da Vila Itororó, convido a navegar pelo site vilaitororo.org.br onde é possível encontrar arquivos fotográficos, livros, videos, obras e registros de todas as atividades realizadas entre 2015 e 2018.

Mais que luzes

Livro Rousseau

Organizado por Pedro Paulo Pimenta, professor livre-docente no departamento de Filosofia da FFLCH-USP, o volume sob o título Escritos sobre a política e as artes é dividido em cinco partes e reúne, além dos textos do filósofo suíço precursor das ideias iluministas, notas dos tradutores e de pesquisadores. Entre as temáticas dos textos estão a desigualdade entre os homens, a linguagem e o ilustre contrato social, dentre outros. O destaque, no entanto, fica para “Discurso sobre as ciências e as artes”, que causou grande polêmica entre 1751 e 1752, culminando em discussões que permeavam as páginas do Mercure de France, famosa revista literária francesa, naquele momento dirigida por Thomas Raynal.

Essa questão é desvelada em texto crítico de Franklin de Mattos, professor titular no mesmo departamento que Pimenta. Outra versão das Luzes destrincha o pensamento nas respostas de Rousseau aos críticos (os “mau-polemistas”, como foram chamados pelo iluminista) do Discurso. As respostas também estão publicadas no volume, que tem edição da Ubu e coedição da UnB. O escrito de Mattos também faz uma análise vinculatória que coloca o Discurso em diálogo com outros textos presentes no livro, Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens e Do contrato social ou Princípios do direito político.

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Um espaço independente que resiste na cena paulistana

Pessoas na entrada do Atelie397, na Pompeia, na abertura da exposição Que Barra!, em 2018.
Pessoas na entrada do Atelie397, na Pompeia, na abertura da exposição Que Barra!, em 2018. Foto: Divulgação/Ateliê397

Em um livro lançado em 2015 sobre o Ateliê397, um dos mais longevos espaços independentes de arte de São Paulo, chama atenção que a foto da capa seja de uma festa – com corpos dançando e mãos segurando cervejas – e não de uma exposição, de uma obra de arte ou de uma performance. E isso não significa que o Ateliê397 seja um espaço de festas, por mais que tenha abrigado muitas delas, especialmente antes de se mudar da boêmia Vila Madalena para uma rua residencial na Pompeia. O que a escolha da foto parece demonstrar, na verdade, é que nas mais variadas atividades que abriga e realiza – ateliês, cursos, debates, residências artísticas e exposições – o espaço preza especialmente pelo convívio, pelas trocas, diálogos e encontros, assim como acontece em uma boa festa.

“Espaço dedicado à circulação, produção e exibição de arte contemporânea”, como explica a placa na entrada do grandioso galpão na pacata rua Gonzaga Duque, o 397 completa 16 anos de atuação tendo passado não só pela mudança de endereço, em 2017, mas também por reformulações na equipe e nos modos de gestão. Nunca perdeu de vista, neste percurso, que certo grau de informalidade e irreverência são desejáveis para o tipo de experimentação e pensamento crítico que busca produzir e para o lugar – nem mercadológico nem excessivamente institucional – que pretende ocupar.

“Talvez não seja bem a festa, mas sim a cerveja”, comenta o artista Raphael Escobar, colaborador do 397. “A cerveja como esse espaço de comunhão da conversa, da troca, do discutir, do pensar ideias boas e ruins. No Ateliê as coisas fluem muito desse jeito, em um encontro de pessoas de diferentes gerações, em diferentes estágios da carreira. Acho que esse convívio dá força para todo mundo, tem uma potência incrível, possibilita a construção do pensamento.” Escobar, que frequenta o 397 há cerca de dez anos e hoje ministra cursos no local, é um dos muitos artistas que ali chegou no período final de sua graduação.

O Ateliê397 durante a exposição Abraço Coletivo. Foto: Divulgação

Como explica a museóloga e educadora Tania Rivitti, gestora do espaço ao lado de Ana Elisa Carramaschi, Bia Mantovani e Carollina Lauriano, “desde o início existe essa proposta de formar jovens artistas. Esse artista que sai da faculdade e percebe que ainda precisa discutir mais, apresentar mais seu trabalho, entender como apresentá-lo”. Esse caráter de formação, que permeia boa parte das atividades propostas pelo Ateliê, está presente tanto em cursos como o Clínica Geral, um acompanhamento semestral para projetos de artistas e pesquisadores, quanto na residência artística Temos Vagas!, que neste momento se encontra em sua segunda edição, com nove jovens artistas e um coletivo.

Na vasta área central do galpão, os artistas da residência têm seus espaços de trabalho separados apenas por uma faixa no chão, sem paredes ou divisórias, o que propicia um diálogo permanente entre os participantes. As salas restantes são alugadas para outros artistas mais experientes que têm seus ateliês no local, normalmente compartilhados por duas ou três pessoas cada um. Há ainda uma sala para gestão, reuniões ou pequenas mostras e um recinto, logo na entrada, que sedia a Escola da Floresta, projeto comandado pelo artista Fábio Tremonte. Apesar de algumas poucas paredes, nenhum dos ambientes têm portas fechadas.

Para o curador Gabriel Bogossian, outro dos colaboradores do Ateliê ao lado de Escobar e de Thais Rivitti, esse caráter de formação é dos traços da identidade do 397 mais relevantes de se destacar no atual contexto da cidade de São Paulo. “Acho que falta aqui, historicamente, uma escola livre nos moldes do Parque Lage no Rio de Janeiro. E nos últimos anos os espaços independentes ocuparam um pouco esse lugar”. Ao mesmo tempo, ele ressalta, com o encerramento das atividades de muitos deles, em decorrência de dificuldades financeiras, o 397 acabou se tornando ainda mais singular no cenário da cidade.

Performance realizada no galpão do Ateliê397 durante a exposição “Abraço Coletivo”, em 2019. Foto: Amalia Coccia

“Existem outros lugares que abrigam exposições, debates e performances, mas poucos têm essa ocupação constante, esse espaço de encontro regular que permite a pedagogia da convivência”, afirma Bogossian, que destaca ainda o valor acessível (quando não gratuito) dos cursos e atividades do 397. “E acho que ainda falta no meio artístico a consciência da importância desse espaço, que é um lugar de oxigenação do campo, da prática”, completa o curador.

Passado e futuro

Ao longo dos 16 anos de história do 397, o desejo constante de questionar as práticas institucionais e mercadológicas do universo da arte contemporânea resultou em variados tipos de atividades e experiências. No Surpraise, por exemplo, que já teve oito edições, um leilão de arte é realizado “às cegas”, sem que os participantes sejam informados da autoria das obras vendidas. Trabalhos de artistas iniciantes e consagrados se misturam e recebem o mesmo preço inicial, transformando a experiência em uma espécie de aposta que coloca em cheque a ideia de autoria e a especulação financeira no meio artístico.

A partir de um projeto proposto pelo Ateliê397 e contemplado pelo Prêmio Funarte de Arte Contemporânea de 2012, a exposição Espaços Independentes: A Alma é o Segredo do Negócio foi montada em parceria com o Ateliê Aberto (Campinas), o Atelier Subterrânea (Porto Alegre) e as paulistanas Casa Contemporânea, Casa Tomada e Casa da Xiclet. A ideia de unir e colocar em diálogo as práticas de diferentes espaços independentes buscava se contrapor às premissas individualistas do mercado e favorecer o compartilhamento de conhecimentos e práticas coletivas. 

“Existem outros lugares que abrigam exposições, debates e performances, mas poucos têm essa ocupação constante, esse espaço de encontro regular que permite
a pedagogia da convivência”

Gabriel Bogossian

   

Com o trabalho do grupo de estudos “Mulheres não precisam estar nuas para entrarem nos museus”, a exposição Vozes Agudas foi organizada em 2018 e emprestou seu nome para um novo grupo de estudos e intervenções que segue em atuação no 397. Com ênfase feminista e formado exclusivamente por mulheres atuantes no circuito artístico paulistano, o Vozes Agudas tem realizado encontros, leituras e uma série de podcasts disponíveis no site do Ateliê.

Em julho de 2019, uma grande mostra intitulada Abraço Coletivo reuniu obras de quase 300 artistas no galpão. A partir de uma chamada aberta (em que nenhum artista seria recusado), a mostra atraiu expositores de diferentes idades e com trabalhos em variadas plataformas, chamados à pensar o espaço junto à curadora Paula Borghi.

Se alguns destes projetos de anos anteriores – especialmente na primeira metade da última década – foram financiados a partir da aprovação em editais ou da captação nas leis de incentivo à cultura, o quadro se tornou mais crítico para o 397 nos tempos recentes. “É nítido um intenso desejo de desmonte da cultura”, comenta Bogossian. Assim, o espaço tem debatido novas estratégias de sobrevivência e tentado colocar em prática projetos que possam manter sua sustentabilidade.

Performance realizada durante a exposição Abraço Coletivo, em 2019. Foto: Divulgação

Um crowdfunding (financiamento coletivo) realizado em 2017 arrecadou R$ 65 mil e possibilitou a manutenção das atividades do 397 no primeiro semestre de 2018. A venda dos múltiplos, obras de diversos artistas ligados à casa, é outro caminho que tem ajudado. Cursos, residências e os aluguéis pagos pelos artistas que ali trabalham representam outra parte da arrecadação, mas não o suficiente para fechar as contas. Neste sentido, o 397 pensa em possibilidades como a retomada do Surpraise, a realização de um crowdfunding permanente e a criação de parcerias com outros coletivos e instituições da cidade – sejam museus, galerias ou universidades –, sem que isso signifique uma diminuição na autonomia do Ateliê.

Outro objetivo neste ano de 2020 é estabelecer um diálogo mais forte e horizontal com o bairro da Pompeia e seus moradores. Para isso, segundo Rivitti, é preciso tanto ir às ruas e praças quanto atrair as pessoas para dentro do galpão. “E um dos desafios é achar uma linguagem em que a gente se reconheça e que esses moradores também se reconheçam. Não adianta achar que vamos iluminar as pessoas com a ideia de arte contemporânea, com uma mentalidade de especialista que quer muito mais ensinar do que ouvir o outro”, diz ela. “Então temos que levar propostas, saber se colocar, e ao mesmo também ouvir, conseguindo se aproximar do dia a dia do bairro.”

Para as gestoras do Ateliê, uma maior ocupação do espaço público se insere também como prática política em tempos de ataque às artes e à educação. “Nesse momento difícil, que temos um governo inimigo da cultura, estamos pensando que tipo de questões queremos trabalhar, que discussões queremos fazer, com ousadia e sem ter amarras. Discussões sobre a cidade, questões de gênero e raciais, feminismo e meio ambiente, sempre olhando com atenção para as pessoas que estão na mira de um modo geral”, diz Rivitti.

Nestes 16 anos de estrada, tentar fazer uma lista dos artistas que passaram pelo Ateliê397 seria tarefa quase impossível. Entre nomes menos conhecidos e consagrados, centenas de pessoas tiveram parte de suas formações ou trajetórias marcadas por alguma prática ou experiência vivida neste espaço independente paulistano. “A arte demanda formação e bons profissionais”, conclui Rivitti. “E precisa de tempo, não é imediata. Então esse processo que o ateliê sempre propiciou, com os alunos, artistas, professores e frequentadores, resultou no amadurecimento de muita gente boa que está por aí. É um trabalho longo e que deve continuar.”