Em sua 36ª edição, aberta no início de setembro, a Bienal de São Paulo reafirma seu papel de difusora de uma produção artística que se desenvolve distante do grande público, sendo acessível apenas a pequenos grupos de iniciados. Em 2025, a tônica da exposição parece ser a de mesclar linguagens suaves, que se orientam por uma relação pessoal e poética com o universo das coisas, muito calcada em fazeres tradicionais, sem grandes arroubos teóricos, técnicos ou emotivos. A isso se soma uma escolha por uma montagem fluida, gerando como resultado uma mostra aprazível, ventilada, que muito se assemelha à metáfora dos estuários, uma das várias utilizadas pela equipe curatorial para definir sua intenção de iluminar momentos de encontro fértil entre águas de diferentes naturezas, doces e salgadas.
Durante quatro meses — já que este ano o período de exibição foi dilatado em um mês, o grande público (estimado em cerca de um milhão de pessoas) terá acesso a uma seleção ampla de poéticas, de lugares e autores distantes a serem observados sem a ilusão de que se trata de um resumo do maior, do melhor, ou do mais novidadeiro, mas como reflexo de um esforço narrativo autoral. O panorama — ou melhor, o percurso — proposto por Bonaventure Soh Bejeng Ndikung e sua equipe de curadores assistentes, Alya Sebti, Anna Roberta Goetz, Keyna Eleison e Thiago de Paula Souza, tem alguns traços característicos. Suas principais qualidades residem numa visão alargada de tempo, na incorporação de formas de fazer e pensar a arte, nem a partir da obediência dos modelos eurocêntricos nem de combate feroz a eles. Nota-se na seleção uma quantidade ampla de artistas, de diferentes partes do mundo, que construíram uma gramática particular, mesclando ancestralidade e reinvenção da modernidade, como é o caso, por exemplo, dos pioneiros Ernest Mancoba (1904-2002) e do marroquino Farid Belkahia (1934-2014), figuras de destaque no modernismo africano e internacional.
Curiosamente, essa mesma fluidez e amplitude são indícios de um de seus pontos mais problemáticos: a desinformação. Bastante precária, a sinalização das obras faz com que o visitante perca um tempo precioso caçando o nome do artista e da obra, que pode estar no chão, na parede, em forma de QR-Code ou que simplesmente não exista. Convém destacar a inventiva intervenção nos pilares do edifício: alguns deles foram ampliados em sua circunferência para criar uma superfície larga o suficiente para abrigar um texto explicativo acerca dos temas e participantes de cada núcleo. Mas trata-se de uma leitura mais densa, que não substitui a referência mais direta da legendagem.
O que aparentemente veio para ajudar as pessoas a se guiarem pela mostra — uma subdivisão em “capítulos”, associados a uma paleta de cores variada — na verdade amplifica essa sensação de desnorteamento. Após familiarizar-se com o título siléptico, porém pleno de significado, tirado de poema de Conceição Evaristo (“Nem todo viandante anda estradas”), surgem os nomes dos capítulos. Além de herméticos (como “Fluxos de cuidado e cosmogonias plurais” ou “Cadências de transformação”), eles são tão abertos que não faltam exemplos de trabalhos que poderiam facilmente ser deslocados de um bloco a outro sem grandes perturbações.
A falta de informação e essa trama conceitual que se aplica sobre o chão da exposição — as obras — acabam por reduzir a força de seu impacto poético. É o caso da obra de Chaïbia Talal (1929-2004), que ganha uma nova e potente dimensão quando o espectador fica sabendo que essa marroquina, nascida em 1929, casou-se aos 13 anos, teve um filho, enviuvou aos 15 e só aos 25 tornou-se artista, autodidata, quando sonhou que estranhos lhe ofereciam papéis e canetas — vindo a ser, na década de 1960, a primeira marroquina a ter uma carreira internacional.
A menção a Chaïbia — ao lado de outras artistas como a brasileira Maria Auxiliadora (1935-1974) — nos permite enfatizar dois aspectos centrais dessa 36ª Bienal: a força do autodidatismo, da pulsão artística como elemento de organização (pessoal ou social) e o peso das mulheres no rol dos artistas selecionados, sendo esta talvez a mais ampla participação feminina da história das Bienais. São elas que respondem por parte significativa dos trabalhos de maior impacto visual da mostra, ao interagir com os espaços mais sacramentados do Pavilhão: a ganesa Theresah Ankomah (1989) recobre com um gigantesco tapete de folhas de palmeira trançadas a fachada frontal do prédio, cobrindo o rigor modernista com a persistência e imperfeição do gesto artesanal e do material natural, perecível. A francesa Laure Prouvost (1978) domina o vão central do pavilhão com uma obra viva e sonora, um conjunto de elementos como plantas, sementes e uma engenhoca feita em diáfano tecido cor-de-rosa, prenhe de ovos-luz, que dança sobre a cabeça dos visitantes. A nigeriana Otobong Nkanga (1974) ocupa as grandes paredes ao fundo do prédio, nos três andares, com suas tapeçarias impressionantes, que de longe parecem um tanto abstratas, mas que na proximidade revelam-se comentários dolorosamente críticos acerca de temas fundamentais como a debacle Ambiental.
Outros trabalhos interagem de maneira desafiadora com o espaço icônico, símbolo da arquitetura moderna de Oscar Niemeyer, como o camaronês Tanka Fonka (1966), que — na parte visual de um projeto que associa diferentes linguagens — subverte a coluna central do prédio, usando-a como suporte para uma abstração cromática vibrante, povoada por signos oníricos, que remetem à cosmogonia de artistas como Paul Klee e Wifredo Lam. Já Ana Raylander Mártis dos Anjos (1995) inverte o eixo natural do prédio e sua horizontalidade, fazendo com que suas esculturas totêmicas (feixes recobertos de elementos carregados de memória familiar) atravessem de um piso para o outro, lidando de forma comovente com a lógica estrutural e escultural do amplo pavilhão, desenhando uma nova possibilidade de espaço e ao mesmo tempo iluminando o icônico espaço que abriga bienais há exatos 68 anos. Um exemplo claro do que afirmou Alya Sebti em entrevista ao dizer que a expografia seria algo como “tirar o prédio de Niemeyer para dançar”. Esse mesmo jogo de movimento e negociação com o prédio se materializa na opção cenográfica de utilizar cortinas coloridas e translúcidas para diferenciar os “capítulos” e substituir as tradicionais divisórias. Apesar de excessivos em alguns momentos, esses maleáveis campos cromáticos têm grande efeito em parte da mostra, sobretudo no andar superior, tornando ainda mais potente apresentações como a da pintura gráfica e intensamente cromática, inspirada na arte corporal indígena, de Aislan Pankararu (1990).
Brasil e África são, do ponto de vista geopolítico, as duas grandes forças da Bienal. A imponência da seleção brasileira é notável, com uma participação diversificada e ampla. Apesar de algumas representações históricas, como a de Heitor dos Prazeres (1898-1966) e Zózimo Bulbul (1937-2013), o peso da produção contemporânea (com um conjunto amplo de obras comissionadas) é majoritário. Destacam-se no segmento as participações de Marlene Almeida (1942), Márcia Falcão (1985), Gervane de Paula (1961) e Antonio Társis (1995). Oriundos de diferentes regiões do País e pertencentes a diversas gerações, eles também compõem um panorama plural de questões e linguagens, da pintura à instalação, da defesa da terra e crítica ao agronegócio à investigação da representação do corpo e da paisagem urbana, desordenada e caótica.
Diversidade semelhante está presente no outro grupo mais potente da mostra. Não apenas é grande o conjunto de artistas originários de países africanos, como a atual Bienal foi capaz de quebrar uma visão monolítica dessa produção, contornando estereótipos e mostrando uma grande diversidade de linguagens, interesses e investigações vinculadas ao presente do continente e da produção artística. Evidentemente, temas como apagamento da memória, colonialismo, opressão política e de gênero estão vivamente presentes, mas sempre em conexão àquela “intratável beleza do mundo”, um dos motes adotados como lema curatorial por Ndikung, parafraseando Édouard Glissant e Patrick Chamoiseau.
Há, evidentemente, na Bienal um conjunto amplo de trabalhos de cunho mais político, que se insurgem em torno de questões candentes. É possível citar intervenções como a de I Gusti Ayu Kadek Murniasih (1966-2006), balinesa que foi violentada pelo próprio pai aos 9 anos e autora de uma obra que explicita e reelabora experiências traumáticas e violentas ou a impactante cena de um mar pegando fogo em vídeo do grupo Forensic Architecture/Forensis. Mas na maioria das vezes não há gritos. Nesta edição, as obras parecem mais sussurrar do que gritar, procurando desvios, resgatando memórias e, como indica o subtítulo escolhido (“Da humanidade como prática”), acumulando forças para lidar com um mundo em deflagração.



















