"(...) será tudo isso feito de propósito? Pode tanta destruição ser fruto apenas do acaso?", pergunta Janine. FOTO: Flickr/CC

Um dia destes, passei em frente ao Museu do Ipiranga – que fica no bem-chamado Parque da Independência, ou seja, ali onde dom Pedro rompeu nossa subordinação colonial a Portugal – e vi um aviso: “Área com incidência de febre amarela”, mais ou menos isso.

Fiquei chocado: no lugar exato onde nasceu o Brasil, o Brasil independente, está o aviso de que voltou uma doença antiga, uma doença da pobreza, uma doença que tínhamos quase vencido, mas retornou com bastante força.

Não, caro leitor, ou raro leitor como diz o Juca Kfouri: não vou fazer mais um ataque ao governo Temer, que os merece todos, por sinal. Meu problema aqui não é esse governo, somos nós, um país que não dá a menor bola aos símbolos.

E não falo dos símbolos nacionais, bandeira, hino e outros menos cotados, como o selo da República. Falo de símbolos bem mais fortes, como o lugar em que nascemos, quase nossa maternidade como país.

A poucas centenas de metros onde está o Parque da Independência, convertido em criadouro de mosquitos quase assassinos, passa o córrego do Ipiranga, aquele mesmo das margens plácidas, que ouviram um brado retumbante. Bonito, não é? Não apenas um brado, mas um que ecoou, que ao longe e pelo seu som forte deu luz a um País.

Pois o córrego hoje exala um cheiro ruim. Durante muito tempo, alagava a região; agora, canalizado, só fede, algumas ou muitas vezes ao ano.

Não é muito descaso? A primeira linha de nosso hino, a terceira palavra dela (“Ouviram do Ipiranga…”) assim desrespeitada, descuidada? É esse o amor que se tem pelo nosso nascimento coletivo, nosso nascimento enquanto coletividade? Um córrego em parte tapado, em parte esgoto?

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Vou para o Rio. A cidade maravilhosa foi fundada em 20 de janeiro de 1567. Onde? No Morro do Castelo. Procure no Waze, peça ao Uber, olhe nos mapas do metrô. Não existe. Foi arrasado, há pouco menos de um século. Na verdade, foi destruído exatamente em 1922, o ano do centenário da Independência. Um século de nosso nascimento como nação independente, de nossa maioridade, teve entre outros preços o de matar o berço da então capital do Brasil.

Não parece um sacrifício terrível, desse que nem mesmo os astecas fariam? Para o Brasil festejar sua independência, ele destrói o lugar em que nasceu sua capital. Psicanalistas, interpretem. A maioridade destrói o nascimento, é isso? Mas talvez nem precisemos – muito – de vocês. A interpretação é (quase) óbvia, a explicação salta aos olhos.

Sim, destruímos nossos principais lugares de memória. Volto a São Paulo. Vou ao Pátio do Colégio, que é nosso Morro do Castelo. O Pátio é o lugar, bem no centro da cidade, a um passo da Praça da Sé, em que se fundou São Paulo de Piratininga, num planalto com muitas águas, entre elas, claro, as então nada poluídas do Ipiranga. O planalto se chamava Inhambussu (aquele que se vê ao longe).

Lá está, inteiro, o Colégio dos Jesuítas. Sei que essa ordem religiosa foi um tanto controversa, mas afinal é um bom augúrio criar uma cidade a partir de uma escola. Eu, como educador, como ex-ministro da Educação, só posso gostar. Também penso que construí-la num lugar do qual se enxerga ao longe é maravilhoso, a melhor metáfora ou mesmo definição para educação: ela nos faz ver ao longe.

Blz, como hoje se escreve: beleza.

Mas olho o Colégio. Ele não tem nada do original. Esse era de pau a pique e depois de taipa, mais brasileiro impossível. O que aconteceu? O edifício foi ruindo, descuidado, até que decidiram reconstruí-lo, faz uns sessenta anos, num mix de entusiasmo e de lentidão, de modernidade (Mário de Andrade preservando o patrimônio) e tradicionalismo (a TFP o festejando).

Também aqui, choca o descuido com o nascimento da que hoje é a maior cidade brasileira.

Tanto descaso faz perguntar, inevitavelmente: será tudo isso feito de propósito? Pode tanta destruição ser fruto apenas do acaso? Ser, perdoem a rima involuntária, apenas descaso? Ou temos, alguém tem, um projeto de destruição do que somos?

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Ato falho, poderia dizer um leitor de Freud, mas não: são destruições escancaradas. O ato falho é coisa pequena, uma fala ou uma ação erradas, mas pequeninhas, que porém indicam uma verdade sobre algo maior. Por exemplo, o personagem de Casa de Papel que, ao declarar seu amor pela esposa, chama-a pelo nome da amante (o mais trivial, o mais banal dos atos falhos). Mas aqui o que temos não é essa autodenúncia involuntária, com o inconsciente vencendo a razão, o id desmentindo o ego, que aparece por exemplo em Freud, mas algo que recorda mais a Carta Furtada, de Edgar Allan Poe. (Curiosamente, é um conto analisado por Lacan, mas o que diremos aqui não tem nada a ver com esse autor).

O tema do conto é simples: um documento foi subtraído de um personagem da realeza, e escondido de maneira que ninguém o encontra. Como? Simplesmente, ficou exposto na parede, à vista de todos, com apenas alguns toques que o transformam de algo nobre em coisa vulgar. Uma das morais do conto: o melhor esconderijo é o que está mais à vista. O que menos observaremos é o mais visível, o evidente. A melhor forma de destruir símbolos, sem ninguém os perceber, é destruindo-as à vista de todo o mundo. E o melhor modo de acabar com o berço do Rio não é fazê-lo a pretexto de celebrar os cem anos da independência brasileira?

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Terminando: alguns anos atrás, de volta a Araçatuba, no noroeste paulista, decidi procurar a maternidade Santa Tresenhinha, onde nasci. E descobri que ela foi demolida. Senti um vazio. Não tinha sido reformada. Apenas, demolida. Fico pensando: como deveríamos nos sentir, quando os lugares de nosso nascimento, de nossa maioridade, são destruídos ou desmerecidos? Por que o fazem? Por que nem notamos que o fazem? Por que aceitamos? Mas aceitamos tanta coisa. O Brasil parece viciado em aceitar o inaceitável. Tanto que a destruição pode ser acintosa, não precisa se mascarar.

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