Page 19 - ARTE!Brasileiros #53
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em um período de incerteza. Comprar arte é um luxo e
algo que se faz em geral quando se está animado, com
boas perspectivas”.
O fato é que não demorou muito para o quadro mudar,
já a partir de maio ou junho, e mesmo em um ano em
que feiras presenciais foram desmarcadas, uma a uma,
o balanço anual de diversos galeristas em 2020 destoa
- por vezes drasticamente - do que se podia esperar.
“Apesar do contexto externo todo, para nós o saldo
foi extremamente positivo. Foi o ano em que a galeria
mais vendeu”, conta Bruna Bailune, da jovem galeria
Aura, fundada em 2015. Amaro também fala em meses
“excelentes” após o susto inicial. Se nem todos tiveram
performance assim tão positiva, ao menos uma recu-
peração e reaquecimento do mercado são confirmados
pelos dez entrevistados, incluindo leiloeiros e diretores
de feiras. Tamara Perlman, consultora sobre mercado
de arte e cofundadora da feira Parte, sintetiza: “Tenho
conversado com galeristas e o que se vê é que não foi
um ano ruim, pelo contrário, em geral 2020 foi um ano
bom. O mercado está aquecido”.
Uma pesquisa divulgada recentemente pelo Pro-
jeto Latitude - realizada pela aBaCt em parceria com a
Cena de SOAP Apex-Brasil e que entrevistou mais de 50 casas do país
(2020), de Tamar - confirma esta percepção. Na média, em comparação
Guimarães, filme
apresentado pela com suas vendas de 2019, as galerias apresentaram
Fortes D’Aloia e resultado igual ou superior no primeiro e terceiro trimes-
Gabriel na Art tres de 2020, tendo números piores apenas no segundo
Basel Miami trimestre - que se refere aos primeiros meses da quaren-
Beach e na
plataforma fdag tena. A pesquisa não alcança os últimos meses do ano,
mas os galeristas contatados pela ARTE!BRASILEIROS
confirmam que deve ser mais um período positivo.
a previsão era a pior possÍvel. Com a chegada A quebradeira que se viu em outros setores do comér-
do novo coronavírus ao Brasil e com os decretos de cio no país, portanto, passou longe do mercado de
quarentena a partir do mês de março, os agentes do arte e, ao invés de assistir ao fechamento de casas, o
mercado de arte não podiam vislumbrar nada além Brasil viu a abertura de galerias como a hoa e o Proje-
CORTESIA DA ARTISTA, DAN GUNN LONDON E FORTES D’ALOIA & GABRIEL
de uma grandiosa crise no setor. Ao relembrar este to Vênus, em São Paulo, a Index, em Brasília, além da
momento, as falas dos galeristas entrevistados pela expansão de galerias como Celma Albuquerque (com
ARTE!BRASILEIROS caminham sempre no mesmo a nova Casa Albuquerque) e Jaqueline Martins, com
sentido. “O começo foi o mais duro de todos, acho a abertura de escritório em Bruxelas. Em outro caso
que nada se compara a esse período”, diz Eliana Fin- notável, o leiloeiro James Lisboa afirmou em entrevista
kelstein, da Vermelho. “O impacto foi realmente muito recente que em um leilão realizado em agosto chegou
grande nos meses de março e abril. Parecia que ia ser o a vendar 97% das obras disponíveis (a média antes da
caos”, afirma Alexandre Roesler, da galeria Nara Roesler. pandemia era de 65%), incluindo peças com valores
Segundo Marcos Amaro, sócio da Kogan Amaro, abril muito acima dos preços iniciais.
foi um mês “quase nulo”, e seria impossível imaginar O quadro geral é bastante mais positivo no Brasil
que em um momento de grande preocupação e cautela do que em outras regiões, incluindo polos centrais do
as pessoas pudessem pensar em comprar arte. Thiago mercado de arte como eua e Europa. Em uma pesqui-
Gomide, da Bergamin & Gomide, segue o mesmo racio- sa divulgada pela Art Basel e pela uBs em setembro,
cínio: “Nós somos o primeiro tipo de gasto que se corta realizada com 795 galerias de todo o mundo, os dados
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