Page 16 - ARTE!Brasileiros #45
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BIENAIS NAÏFS DO BRASIL 2018






             UMA SOCIOLOGIA POPULAR E VASTA





             EDIÇÃO DA BIENAL NAÏFS OCORRIDA EM 2018 MARCA CONTRIBUIÇÕES ARTÍSTICAS PARA DISCUSSÕES
             POLÍTICAS E SOCIAIS DO CONTEMPORÂNEO


             POR JAMYLE RKAIN

















             “POPULAR SIM, INGÊNUO JAMAIS”, a frase do   entrada com as obras sem título de Arlindo de
             artista baiano Nilson Pimenta colocada na orelha   Oliveira que fazem menção à ocupação das fave-
             esquerda do catálogo da 14ª Bienal Naïfs do Brasil   las cariocas pelo BOPE. Ao lado delas, a peça
             denota muito bem o panorama da exposição, que   intitulada Não corra que eu vim buscar sua alma,
             foi apresentada no Sesc Piracicaba até o último   também de Arlindo e também fazendo alusão
             dia 25 de novembro. Sob o tema “Daquilo que   ao grupo da polícia, expressa com veemência a
             escapa”, a curadoria teve a intenção de refletir   opinião do artista e sua contribuição para a dis-
             sobre o que poderia fugir aos seus olhos duran-  cussão sobre o genocídio do povo pobre causado
             tes as visitas aos ateliês dos artistas, que foram   por essa ocupação nos morros, devido aos abusos
             chamados por eles de “casas-ateliês”. Afinal, é   cometidos pelos militares, também das UPPs e
             dentro do próprio lar que os artistas naïfs do Brasil   também das forças armadas, que participam da
             produzem suas obras.                        intervenção militar na Cidade Maravilhosa.
             Esta edição da Bienal Naïfs também mostra que   Há uma série de obras, de diferentes artistas, que
             há muitas questões que podem escapar de quem   remetem a temas levantados pelo feminismo. A
             observa a obra de um artista popular olhando-o   mais impactante foi feita por Alex dos Santos,
             a partir da concepção do primitivismo, que reduz   artista de Jaboticabal/SP e é intitulada A vio-
             esses artistas a um rótulo que pode significar   lência contra a mulher, de 2018. Nela, o artista
             um julgamento pelo contexto sócio-cultural em   aborda uma série de brutalidades cometidas con-
             que vivem. Talvez o ponto mais latente disso na   tra mulheres, desde as fogueiras da Inquisição
             mostra seja o fato de que muitas obras abordam   até a Lei Maria da Penha, traçando uma linha do
             discussões sociais e políticas, muitas vezes identi-  tempo. A artista Ana Zamaro se faz presente com
             tárias, que podem muitas vezes se fecham apenas   a obra Absolutas, também deste ano, na qual pinta
             à ambientes acadêmicos e seriam reproduzidas
             apenas por artistas que tenham acesso a isso.
             Os naïfs se mostram muito à frente nesse ponto,   AO LADO, ACIMA, GIVAGOMES, FLORIDA PAULISTA, SP, RESIDE
             assinalando nitidamente o seu posicionamento   EM GUARANTÃ DO NORTE, MT, SALVE O VERDE I, 2017, ACRÍLICA
             sobre algumas dessas questões.               SOBRE TELA. ABAIXO, NILSON MACHADO, RONDONÓPOLIS, MT,
             Quem visitou a exposição já se deparou logo na   ARTE NO CABELO I, 2018, ACRÍLICA SOBRE TELA


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