Page 35 - ARTE!Brasileiros #43
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se estudam “as margens”. Tudo aquilo que não   pequenas mudanças que eu gostaria de fazer e que
                             quer se ver. A negritude, as mulheres, a favela e   não necessariamente a instituição tem condições
                             os indígenas.                                de acompanhar, seja por questões econômicas
                             Conseguimos criar um elo condutor entre a curado-  ou ideológicas. Neste sentido, com tudo o que
                             ria, as exposições, as aquisições e como trabalhar   já fizemos, me parece importante ter claro que
                             a educação. O catálogo começa com um glossário   é melhor sair no momento certo. É muito sadio
                             de termos, que se vinculam à coleção. O público   colocar um limite e fechar uma história que foi e
                             pode acessar e fazer sugestões.              é muito boa na hora certa.
                             É muito bonito ver agora que estou saindo algo que
                             faz sentido como um todo e, fundamentalmente,   A!B: O que você pretende fazer agora?
                             para aqueles que trabalham no museu.         Primeiro passar um tempo na Espanha, e quero
                                                                          ficar um bom tempo gerenciando projetos como
                             A!B: Que acontece com a tua saída?           curador independente. Vou me estabelecer em
                             A partir da minha saída, todo o que foi implemen-  Madri e vou viajar a Buenos Aires, Chile, Quito,
                             tado permanece. Os programas públicos, o board.   Lima e Torino.
                             O presidente pediu ao comitê curatorial que con-
                             tinue no projeto. O que pode mudar é o conteúdo.   A!B: Você gostaria de fazer uma Bienal? Você
                             Não sei o que pode acontecer no futuro, eu tenho   acredita que há modelos esgotados?
                             um tipo de visão. Pode vir outro diretor artís-  Eu sou uma pessoa mais ligada institucionalmente
                             tico cujo interesse seja outro em determinados   ao Museu do que à Bienal. Sou membro do board
                             temas. O que a mim me interessa é ter podido   da Bienal de Istambul. De fato, é interessante para
                             implementar uma metodologia de trabalho. E esta   um curador para colocar em prática outros forma-
                             seria muito bom que ficasse. Se vai ser mantida   tos. Já fiz a Bienal de Nicarágua. Mas me interessa
                             ou não, dependerá das decisões da presidência   mais me dar o tempo necessário para encontrar
                             e do board. Mas a ideia pedagógica e educativa,   outra instituição. Tenho habilidade para a gestão
                             transversal, de investigação, de catalogar, seria   e para buscar uma coerência entre os diferentes
                             muito importante que prevaleça. Ficam muitas   desafios que se constroem a longo prazo. Nesse
                             coisas por fazer, e o ideal seria ampliar essa busca.   sentido, as Bienais são como estardalhaços e não
                             Ter uma “mirada a futuro”. Fica, sim, continuar a   necessariamente permitem deixar um legado.
                             catalogação, a ampliação de espaços para traba-  Ainda, também, é necessário reformular o con-
                             lhar e para expor. A coleção tem hoje mais de 700   ceito de Bienal. O que realmente se espera delas.
                             obras e só conseguimos expor 180. Mas deixamos   Assim como o museu do século XIX está esgotado
                             uma pré-proposta do que se precisa.          na sua formulação e temos que ir atrás de pro-
                                                                          gramas públicos e de permanentes ativações, ir
                             A!B: Agustín, porque você está saindo?       atrás de que a exposição seja um disparador além
                             A minha saída é conjunta. Na minha vinda, houve   do ato artístico, as bienais estão tentando expe-
                             um acordo onde eu estaria entre três e cinco   rimentar outros formatos, chamando a artistas
                             anos. De fato, há questões pessoais. Meu com-  como curadores, a comissários, a que um curador
                             panheiro e eu somos da Espanha, estamos há   chame outro curador, mas isso já se fez em vários
                             muito tempo longe da família. Mas também há   outros momentos. Há que pensar o conceito e
                             que entender que a partir de certo momento há   novos modelos mais imersivos.


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