Page 40 - ARTE!Brasileiros #43
P. 40
EXPOSIÇÕES SÃO PAULO
POR UM GRITO DE
RESISTÊNCIA
REUNIÃO DE OBRAS DO ACERTO DO VIDEOBRASIL FEITA
POR JÚLIA REBOUÇAS NA EXPOSIÇÃO MITOMOTIM
NÃO TEM NENHUM RECEIO POR SER POLÍTICA
POR JAMYLE RKAIN
EM TEMPOS NOS QUAIS A ARTE tem sofrido contra uma institucionalidade. É sempre um desejo de con-
com reações caluniosas ao se mostrar política, testação”, declara.
algumas instituições optaram por isentar suas Já a palavra “mito” surgiu da contestação sobre os mitos
mostras de qualquer tipo de militância. Outras, criados no decorrer da história do País, como o do “homem
corajosas, dão aos curadores e artistas a voz cordial” e o das “harmonia entre três raças”. Desta forma, o
necessária para propagar a mensagem desejada. palíndromo criado na união das duas palavras se referem, de
É o caso da curadora Júlia Rebouças, que buscou acordo com ela, a um motim do mito: “É no sentido de pensar
obras que se encaixassem no que ela define como que é preciso desconstruir os clichês identitários”.
“estratégia de hackeamento para pensar o nosso Utilizando muito da linguagem da televisão, meio muito mais
momento político”. utilizado pela massa na época que nos dias de hoje, buscou
Convidada para fazer a curadoria, Júlia teve pouco também discutir o papel do discurso televisivo nas questões
tempo para preparar a mostra MitoMotim, que políticas e sociais: “Também é uma discussão sobre comuni-
fica em cartaz no Galpão VB até 28 de julho. Essa cação e mídia. Vamos descobrindo quem está representado
limitação de prazo fez com que ela optasse por na mídia”, acrescenta.
focar sua pesquisa no próprio Acervo Histórico Além das obras do acervo, Júlia convidou outros artistas para
da Associação Videobrasil, o qual já conhece há participar da exposição, com instalações. “É um conjunto de
algum tempo, tendo trabalhado várias vezes com a artistas pelos quais me interesso e acompanho. Eles são os
instituição. “Eu disse ‘vamos fazer um motim com nossos aliados nesse contexto todo”, explica. Para ela, ao
o que temos aqui’”, conta a curadora. A partir daí, mesmo tempo que eles criam diálogos também criam contras-
todo o processo da exposição foi construído com tes, mas não se opõem, e considera: “São artistas importantes
os braços e os recursos do Videobrasil. para o País e que têm uma arte disruptiva e contestadora”.
Escolheu um momento específico da história do O grupo de convidados é formado por Artur Barrio, Marilá
País para articular sua ideia. Quis, então, olhar Dardot, Randolpho Lamonier, Rivane Neuenschwander, Sara
para o momento do processo de redemocratiza- Ramo e Traplev.
ção do Brasil, passando pelas décadas de 80 e
90. Para ela, a construção desse período reflete MitoMotim
na realidade atual. A insurgência de um grito de Até 28 de julho
resistência diante do que ela considera “tempos Galpão VB
Av. Imperatriz Leopoldina, 1150 - Vila Leopoldina, São Paulo
difíceis” levou à palavra “motim”: “Motim é levante
40