Page 22 - ARTE!Brasileiros #43
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BIENAL SUR ENTREVISTA






           A seguir, publicamos trechos do texto Anna Bella
           Geiger en dialogo con Diana Wechsler, de julho de
           2017. Publicado originalmente no livro-catálogo
           da exposição Anna Bella Geiger, Geografía física
           y humana, com curadoria de Estrella de Diego. A
           mostra ocorreu por ocasião da parceria do Cen-
           tro de Arte Contemporâneo, de Sevilla, La Casa
           Encendida, de Madrid e o MUNTREF Centro de Arte
           Contemporáneo, de Buenos Aires, instituição que
           forma parte essencial da Plataforma BienalSur.

           Em primeira pessoa…


                      Drawing has a quality of permanent
                       openness, renewal, and revelation.
                       It is a “via directa” to my thoughts,
                                    an X-ray of my work
                                    Anna Bella Geiger, 1997

           Os caminhos da vida são narrados várias vezes.
           Artistas de variadas e extensas estradas, como
           Anna Bella Geiger, têm forjado ao mesmo tempo,
           sua carreira e a narrativa que a organiza no tempo.
           Cada história incorpora matizes diferentes. Não
           obstante, o que os une é a voz de quem as revela,
           no caso, Anna Bella, que enfatiza os fatos fun-
           damentais, momentos de ruptura, obsessões e
           continuidades. Essas identidades que a compõem
           e de onde elas operam.


           Diana Wechsler: Anna Bella, você começou muito jovem   e do pensamento. Eu ainda não sabia disso, mas
           sua carreira. O que te levou a escolher o caminho das artes   eu já tinha encontrado o meu caminho.
           visuais? O que foi relevante na tua formação? Quero dizer,   Em 1945, quando estudava no liceu francês, aqui
           você lembra de algum fato especialmente marcante, qualquer   no Rio de Janeiro - tinha doze anos e a segunda
           escolha que pode ser lida à distância como uma indicação de   guerra mundial ainda não tinha acabado -, colo-
           seu desenvolvimento. Por exemplo, digamos que o desenho   car um anúncio no painel da escola: “alunos,
           é um leitmotiv de teu trabalho. Isto tem a ver com a tua for-  cadastrem-se para o concurso de cartazes ‘Como
           mação ou como uma relação que pode ser estabelecida entre   imaginam a cidade de Paris liberada’”. Isso me
           o desenho e o pensamento? Ou talvez em ambos termos…  comoveu muito, porque eu já sabia o que estava
           Anna Bella Geiger: Desenho com lápis desde que   acontecendo na guerra, o que estava acontecendo
           eu tenho dois anos. Depois pintava as paredes   com a minha família na Europa. Eu pensei sobre o
           do meu quarto. Me lembro muito bem o dese-   que eu ia desenhar com as três cores da bandeira
           nhava e que ficava pensando como eu poderia   francesa. Baseada em uma fotografia que tinha
           terminar o desenho. Acho que quando traçava   visto, eu desenhei o piso e a estrutura da Torre
           um gesto ou uma linha determinada, de alguma   Eiffel com lápis preto e adicionei dois jovens de
           forma tinha já tinha uma percepção do desenho   mãos dadas, uma mulher e um homem, vestidos


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