Detalhe da obra "Bandeirantes", 2018, impressão uv sobre caixas de arquivo de papelão, 650 x 200 cm
DOPS (Série movimentos religiosos)

As imagens que compõem o trabalho DOPS fazem parte do fundo do DOPS-ES arquivados na Série “Movimentos Religiosos” no qual encontram-se relatórios decorrentes de investigações sobre bispos católicos. A série de fotografias apresenta os principais personagens do evento organizado pela igreja católica chamado “Concílio de Jovens”, por padres ligados a Teologia da Libertação, que buscava dialogar com a comunidade questões não apenas de cunho religioso, mas dar voz para que representantes de organizações sociais apresentassem suas reinvindicações e problemas que enfrentavam. No verso de cada fotografia há uma descrição textual que indica o nome das pessoas fotografadas e se respondem ou responderam a processos e o que teriam afirmado no evento.
A manipulação no trabalho DOPS (Movimentos Religiosos) se estrutura como conceito operacional do processo de criação e de ativação da proposta. Esse procedimento retira a autoridade com a qual o documento foi produzido ao mesmo tempo que apresenta o olhar de controle do regime autoritário

 

ARTE!Brasileiros — Conta um pouco da tua história

Rafael Pagatini — Nasci em 1985 na cidade de Caxias do Sul-RS, na serra gaúcha, sou filho de um marceneiro e de uma professora de ensino de primeiro grau. Com 18 anos fui para Porto Alegre, capital do estado, com o objetivo de estudar artes na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Em Porto Alegre tive contato com o sistema de arte local e com pessoas que me auxiliaram a pensar arte e suas possibilidade criativas.
Me aprofundei desde o começo na xilogravura, talvez por ter proximidade com a madeira, por causa de meu pai. Nessa época aprendi a conviver
em grupo, morando com outros estudantes.

Em Porto Alegre passei a investigar possibilidades de usos de processos gráficos ampliando meu repertório, usando desde xilogravura até gravações e cortes a laser. Além disso tive contato com a pratica de pesquisa em poéticas visuais que me fez perceber como os procedimentos adotados ao longo do processo de criação promovem possibilidades discursivas para o trabalho. Nesse sentido o gesto de gravar, como processo de impressão de um corpo, de inscrição em um território, me levou a pensar nas questões da memória e a desenvolver uma linguagem a partir dos procedimentos da gravura e suas relações com a fotografia.

Desde cedo também comecei um percurso acadêmico. Ministrei a disciplina de gravura
na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória-ES. E atualmente curso meu doutorado no PPG Artes da Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo, com uma tese na linha de Poéticas Visuais, discutindo usos de arquivos e processos gráficos na arte contemporânea.

A!B – O que te levou a investir no teu trabalho e o que,
na tua opinião, foi fundante para tomar essa decisão?

Minha pesquisa passa pelos por processos gráficos, as relações com a fotografia e como
eles podem refletir uma discussão sobre perdas e apagamento. No entanto, quando me mudei para Vitória, tive interesse em trabalhar com questões que trazem a tona a paisagem social, a partir da memória da ditadura militar.

Esse desejo teve inicio na minha atividade como docente do curso de arte da Universidade Federal do Espírito Santo.

Aí tive acesso à relatos dos alunos, sobre violência, morte e estupros de parentes e amigos, por parte do estado. Ao mesmo tempo com isso também, mergulhei na história da cidade, do estado e do país. Essas histórias me fizeram repensar minha condição como professor de arte e como artista. Como reagir a isso, percebendo a violência como um elemento impregnado na cultura, sociedade e história brasileira. Resolvi então, estudar como foi a formação recente do estado do Espírito Santo, e como esse processo se relacionava com um projeto histórico que através do discurso do progresso promoveu ainda mais violência.

O estado do Espírito Santo possui um fluxo de capital muito grande por causa dos portos que movimentam boa parte da economia. Entre eles, o Porto de Tubarão, da mineradora Vale que exporta minério de ferro para todo mundo, é um dos mais importantes. Nesse contexto Vitória me parecia uma cidade interessante para pensar como o local se liga ao global através das commodities que passam pela cidade e como elas influenciam social, politica, estética e historicamente a memória do lugar.

O porto ao mesmo tempo que gera impostos para o município, joga minério de ferro sobre as casas, É normal acordar com um brilho escuro nas varandas. A violência simbólica, chega com o sopro do vento. Essa relação complexa entre economia, processos de exploração, tributos, poluição, me levaram a pesquisar como foi o processo de implantação do porto e a partir disso o período militar.

A economia capixaba foi baseada até a década de 50 na exportação de café, a partir da década de 60 ela se insere dentro de uma lógica de expansão de grandes projetos Industriais da economia brasileira voltada para mercado externo. Esse processo causou o acirramento das desigualdades regionais e acarretou com que os índices de violência crescessem exponencialmente. A modernização econômica, por exemplo, promoveu a construção da Samarco Mineração, inaugurada em 1977, pelo então presidente militar Ernesto Geisel. Empresa que provocou em 2015 o maior crime ambiental da história brasileira. O rompimento da barragem de Fundão, no estado de Minas Gerais, levou uma onda gigantesca de metais pesados ao rio Doce, principal rio do Espírito Santo. Acompanhei a chegada da lama tóxica na foz do rio, a destruição da vida marinha, o desespero de pescadores, ribeirinhos, a morte de um rio. As águas na cor laranja do rio Doce refletiam toda a história de autoritarismo, violência, conflitos e decadência desse grande projeto de progresso, impulsionado no estado pelo regime militar.

Como ligar as pesquisas e pensar a construção de narrativas possíveis. Como poderíamos pensar poeticamente a partir da arte como força de reação a estruturas autoritárias e a arte como espaço de invenção de práticas e utopias? Intento que minha produção apresente, como, o lugar do político nas práticas da memória pode se construir localmente e se vincular ao contexto atual brasileiro.

Para aprofundar a pesquisa me aproximei de um colega historiador da universidade, Pedro Ernesto Fagundes, que me ajudou com suas pesquisas a pensar a memória local, e iniciei a investigação com os arquivos do DOPS-ES no Arquivo Público do Espírito Santo. Me interessa pensar o arquivo como algo vivo, pulsante, que me leva a uma crise de representação que parte da arte e se aproxima da história e da sociologia.

Algumas perguntas norteiam minha prática a partir do uso de arquivos: Como foi a participação de empresários no governo militar? Qual o imaginário existente na sociedade sobre o período? Quanto essa história ainda é latente no contexto social, cultural e político brasileiro? Como trabalhar a partir de uma estética do período pode contribuir para o desenvolvimento de uma pesquisa em arte? Como recuperar as falhas, os desejos, as lacunas da memória sem impor discursos, mas abrindo o trabalho para a experiência da arte e sem fechar a pesquisa nos códigos restritos do campo artístico?

A!B – Como você escolhe os suportes?

A partir do desejo de refletir sobre a construção de discursos, duvidar das imagens e aí ir atrás de suportes e materiais. As relações instáveis entre fotografia, arte e documento, e como uma imagem transita entre documento e ficção e como levar elas para o produto final.

Assim, penso a imagem fotográfica como rastro da realidade e a possibilidade de manipulação. Trabalho com a fotografia a partir de imagens que pesquiso em arquivos e como elas podem ser subvertidas, construídas, interpretadas. Penso a fotografia como uma materialidade a ser desdobrada, fraturada, modelada, reconstruída. Como trabalho muito com arquivos públicos, sempre imagino como essas imagens funcionam como pequenos espaços públicos de discussão e debate.

A partir do uso de documentos, que objetiva aguçar a percepção, o julgamento que completa a obra é realizado pelo espectador. Assim, me interesso em criar uma incerteza para conseguir explicitar reações e posturas de quem se aproxima do trabalho. Dessa forma vejo os documentos como uma imprecisão do que é o arquivo, o que é um arquivo público, partilhado que é tão sedutor quanto impreciso.

Como exemplo disso posso citar o trabalho Bem-vindo, presidente!. Ele surgiu a partir da constatação que praticamente todas grandes empresas de Vitória-ES haviam sido inauguradas no período conhecido historicamente na cidade como “Grandes Projetos”, ao longo do período militar. Isso me levou ao Arquivo Público do estado do Espírito Santo e a pesquisar o jornal A Gazeta das décadas de 60, 70 e 80. A partir da data da inauguração desses projetos, como o Porto de Tubarão, Aracruz Celulose, Samarco Mineração, CST, entre outros, percebi que todos os presidentes militares visitaram a cidade para a inaugurar esses empreendimentos. Esse evento político de inauguração tinha uma agressividade e me pareceu interessante para entender a relação com a cidade, assim busquei a partir dessas datas entender como o jornal noticiava esses eventos. Para minha surpresa encontrei vários anúncios de empresas desejando uma boa estada aos presidentes em terras capixabas. Cataloguei esses anúncios de várias décadas diferentes, alguns inclusive das mesmas empresas, e busquei um suporte que ao mesmo tempo trouxesse a densidade dos textos presente nos anúncios, mas provocasse uma relação inversa a partir do suporte do trabalho, tais como leveza, invisibilidade e criasse um gesto sutil a partir do movimento do vento de saudação. A impressão a jato de tinta no papel japonês promoveu essas relações pela forma como o trabalho é fixado no espaço expositivo. O desafio foi entender como os anúncios se movimentavam pela ação do vento da galeria e usar diferentes densidades de papéis para que desta maneira o trabalho ganhasse movimento ao mesmo em que permitisse a leitura dos anúncios e salientasse a fragilidade dos discursos.

O trabalho Bandeirantes, por exemplo, nasceu dos deslocamentos que realizo para ir a Campinas pela Rodovia dos Bandeirantes por conta do doutorado. A forma como as pessoas com que eu pegava carona tinham orgulho em suas falas da estrada me fizeram ter interesse na história da rodovia.

A!B – Me conta da metodologia de pesquisa e como você resolve transformar essa pesquisa nesse produto final

Entendo que o trabalho está finalizado quando consigo suscitar as questões que me levaram até a pesquisa, mas, ao mesmo tempo, posso ainda imaginar aberturas e transbordamentos possíveis em suas leituras.

Nesse sentido minha metodologia parte muito do interesse em me envolver com o assunto de forma a me tornar por momentos um historiador, engenheiro, antropólogo, arquivista, sem deixar de ser artista. Ou seja, a partir da arte abrir um campo de leitura e experimentação para a sociedade. Deste jeito leio muito sobre o que estou abordando, as perspectivas interpretativas sobre o assunto. No caso do regime militar recorro muito a historiadores para buscar sustentar minhas hipóteses, sempre percebendo como essas questões ganham um novo contorno a partir do contexto e dos acontecimentos contemporâneos.

Muitas vezes, os materiais e suportes indicam novos caminhos e perspectivas para o trabalho, por isso que o desenvolvimento das obras sempre passam por um período de maturação. Os processos gráficos que utilizo funcionam muito a partir de um conjunto de procedimentos, um processo no qual a criação de um projeto é muito importante para respeitar algumas etapas. Por exemplo, a escolha da imagem é fundamental para que seus códigos possam reverberar para fazer pensar, sentir o trabalho não apenas intelectualmente mas corporalmente. Da mesma forma o próprio espaço expositivo no qual o trabalho é apresentado promove novas possibilidades discursivas, ou ainda contradições que muitas vezes não tem que ser superadas, mas reveladas. Portanto, minha metodologia acontece a partir da curiosidade de pesquisar histórias, de pensar o que me deixa angustiado, de partilhar um sentimento, abrir arquivos, buscar o não dito.

Pagattini, participou desde 2011 de inúmeras exposições dentre elas:

Em 2018 Estado (s) de Emergência com curadoria de Priscila Arantes e Diego Matos. Na Oficina Cultural Oswald de Andrade em São Paulo. O poder da multiplicação, com curadoria Gregor Janser no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre – RS.

RSXXI – o Rio Grande do Sul Experimental com curadoria do Paulo Herkenhoff no Santander Cultural, Porto Alegre. 

Abre Alas 14, na Gentil Carioca com curadoria de Clarissa Diniz, Cabelo, Ulisses Carrilho no Rio de Janeiro.

Em 2017 no 20 Festival Vídeo Brasil, com curadoria de Solange Farkas, Diego Matos, João Laia, Beatriz Lemos e Ana Pato no Sesc Pompéia em São Paulo.

Em 2012 ganhou seu primeiro Prêmio EDP nas Artes no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo – SP.

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