Moisés Patricio, em performance junto a Sete Cantos para Pai João de Camargo

FRESTAS é um evento de arte contemporânea relevante no interior de São Paulo que acontece desde 2014. Já contou com as curadorias de Josué de Mattos, Daniela Labra, Diane Lima, Beatriz Lemos e Thiago de Paula Souza ao longo de 10 anos, oferecendo sempre uma visão interdisciplinar e uma memória sobre o território, reunindo artistas, comunidades, e pesquisas. 

Nesta 4ª Edição a curadoria é formada pelas pesquisadoras Luciara Ribeiro, nascida na Bahia, mestre em História da Arte, estuda artes não ocidentais em especial africanas, afro-brasileiras e ameríndias; por Naine Terena, nascida em Cuiabá, mestre em Artes e doutora em Educação, pertence ao povo Terena e atua entre a prática educativa e a produção audiovisual, e Khadyg Fares doutoranda em História da Arte pela UNIFESP pesquisa estudos anticoloniais e práticas artísticas não hegemônicas. Colaboram também com o projeto Cadu Gonçalves, Cristina Fernandes e Val Chagas na produção educativa. 

Para as curadoras o título e conceito “do caminho um rezo”, partiu de um processo de escuta do território de Sorocaba e região, suas memórias, conflitos, espiritualidade e presenças vivas, que foram se alinhavando com suas pesquisas e a leitura das reflexões do intelectual indígena, doutor em historia Tadeu Kaingang. À cosmovisão Kaingang, de que “todo caminho é um rezo”, somaram-se as noções de caminho como lugar de encruzilhadas e também de confluências. O encontro com Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo) e Silvia Rivera Cusicanqui, trouxe reflexões sobre o conceito do thaki, da língua indígena andina, aymara, que se refere a uma senda sinuosa, não linear que incorpora uma caminhada consciente e viva. A espiritualidade aparece como um lugar de memória e um trajeto que leva a locais sagrados.

Na abertura da mostra, Moisés Patrício, artista visual e babalorixá, conduziu uma caminhada saindo do Sesc em direção à Capela, onde a instalação sensorial Sete Cantos para Pai João de Camargo, homenageia o legado de João de Camargo, figura central da história negra, espiritual e comunitária de Sorocaba.

Na mostra toda, a relação da história dos artistas com a história do local é fundamental.

Nesse sentido, a escolha de um percentual importante de artistas de Sorocaba e nacionais transformam o evento em um ato social importante. “A presença significativa de participantes e iniciativas regionais surge como uma escuta do território, mas também acontece como uma decisão política no interesse de afirmar protagonismos e deslocar/repensar centralidades do circuito artístico”. Vale ressaltar que a lista de participantes se deu como resultado da pesquisa para exposição. A escolha de inúmeros artistas não conhecidos da região e fora dela junto de artistas consagrados fortalece a edição, e coloca em tensão as hierarquias consolidadas. “Utilizamos o espaço expositivo de forma estratégica para ser ocupado não apenas por artistas, mas por outros formatos de atuação, principalmente, de âmbitos educacionais e comunitários.”, comentam as curadoras. 

É interessante ressaltar que o trabalho coletivo das curadoras se reflete na escolha de obras, pouco ou nada conhecidas para o circuito de observadores de São Paulo.

No prédio no G2, a instalação, “Um encontro de terras, um trabalho coletivo entre Caianas, Coletivo Ambientalista Indígena de Ação para Natureza, Agroecologia e Sustentabilidade, fundado em 2025, em Miranda, MS, e a Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, do El Dorado, e o André Felipe Cardoso, do Quilombo São Félix em Minaçu, Goiânia, desde 1997. Um encontro de muitas mãos e conhecimentos, de sementes da mata atlântica, cerrado e pantanal, cerâmicas produzidas no Quilombo Alto Santana e queimadas artesanalmente a lenha. Cestarias e tintas da terra de povos indígenas, e quilombolas. 

A ideia de fresta, está implicada no nome do evento. Trata-se da construção de uma mostra pensada para atravessar conceitos que até hoje foram vistos como estanques. A pintura, a cerâmica, a luz, a fotografia, a palha, os tecidos. Se utilizando da arte contemporânea, diferentes conceitos que outrora pertenciam a segmentos sociais e culturais das populações brasileiras e internacionais, começaram a aparecer para um público amplo, não setorizado e não conhecedor.

Frestas 2026 é um trabalho digno da capacidade com que a arte tem de acompanhar seu tempo.

Colectiva Ch’ixi – La Paz, Bolívia

Trançando e destrançando identidades

Performance que articula memória ancestral andina e experiência migrante contemporânea, a partir do gesto simbólico de trançar e destrançar cabelos. A ação propõe uma reflexão poética sobre heranças, deslocamentos e resistências que constituem os corpos no presente, por meio de elementos visuais, sonoros e corporais.

A performance nasce da trajetória da Colectiva Ch’ixi, espaço comunitário localizado na cidade de La Paz, que articula práticas como agricultura, construção, exposições de arte e participação cidadã. 

Brasil, e especialmente Sorocaba, tornam-se um território simbólico de troca e reflexão sobre identidades múltiplas, atravessadas por histórias de migração, ancestralidade e pertencimento. No contexto da Trienal, a ação ativa o encontro entre três matrizes identitárias — andina, africana e europeia — com ênfase na presença afro-andina.


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