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O mundo reinventado de Hudinilson Junior para conferir em mostra

Hudinilson em seu ateliê
Acima, retrato de Hudinilson em seu ateliê, década de 80.

O que pode a arte? Hudinilson Júnior sempre fez o que bem quis e a resposta a essa irreverência foi tornar-se um ponto fora da curva dentro do universo da arte brasileira. Sua trajetória é marcada pelo colapso do sujeito, explosão da relação com o objeto e radicalização de performances. Com vigor poético sofisticado, somado às experiências corporais e relacionais, Hudinilson deixa uma produção intimamente ligada a São Paulo, seja em performances, grafites ou arte em xerox.

Muitas de suas obras surgem na busca da simultaneidade entre pensamento e visualidade, como no dia em que surpreendeu a cidade com a imagem do seu pênis xerografada em um imenso outdoor, próximo ao parque do Ibirapuera. As reações provocadas pelo atrevimento apontavam para o desmonte das hierarquias do espaço expositivo, destruição do poder de localização da obra e ao mesmo tempo revelava a irreverência do sujeito.

obra "Sem Título" do artista,
Obra “Sem Título” do artista, produzida na década de 80.

Todo movimento de acionar a des – ordem perpassa pelas obras que tomam agora os 600 metros quadrados da galeria Jaqueline Martins, cuja proprietária é também a curadora da mostra. As novidades são as pinturas sobre tela, realizadas quando o artista ainda era estudante de arte na década de 1970. Uma tensão curiosa permeia a pluralidade do trabalho de Hudinilson, um dos pioneiros do movimento da arte xerox no Brasil. Melhor personagem de sua própria obra, ao criar Exercício de me ver (1981), desorganiza o pensamento crítico com a simulação do ato sexual com uma máquina de xerox. É instigante segui-lo nessa experimentação produzindo outros sentidos para o homem e a máquina. Como não lembrar de Hélio Oiticica quando sentenciou: “experimentar o experimental”? Hudinilson se expressa, sem pudor, por meio de várias linguagens que, em algumas circunstâncias, passa a ser instrumento de especulação. Para o crítico Jean-Claude Bernardet, “a fragmentação do corpo pela xerox, converte-o em paisagens abstratas, nas quais os fragmentos se esvaem”. Em sua performance com a máquina copiadora, ele utiliza seu corpo como matriz para a reprodução e investigação de possibilidades visuais.

Em 1979, Hudinilson cria o grupo 3Nós3, com os artistas Rafael França e Mário Ramiro. A união por afinidades eletivas era de amigos que pactuavam arte e forma de fazer arte. Até 1982 eles intervêm em vários pontos de São Paulo, praticando a reapropriação lúdica e crítica da cidade. O repertório de ações vai desde o ensacamento de monumentos públicos à intervenção no buraco de respiração de um túnel, à lacração de portas de galerias de arte. Todas entendidas como marco revolucionário contra as determinações racionalistas e controladoras da metrópole. Mesmo atuando com o grupo, ele jamais abandona sua produção individual que dura mais de três décadas.

Desde o início, Hudinilson mantém uma forte relação com a colagem, ponto de partida para uma fase comentarista. A isso se somam experimentos na xilogravura, suporte pelo qual a maior parte dos artistas brasileiros passou, utilizando decalques de imagens fotográficas. Hudinilson passava longas horas escolhendo fotos de corpos nus que retirava de revistas americanas. Em 1984, abandona esses modelos e centra toda a sua atenção em torno dele mesmo, quando se dedica a Narcise/Estudo para autorretrato (1984). Nesse “ensaio” dialoga com o mito de Narciso e cria sua própria identidade visual. O projeto envolve uma série de trabalhos, como uma espécie de “ópera”. Narciso passa a ser obsessão para ele que, nos últimos cadernos de colagens, revela seu interesse pelo estudo do nu masculino.

Hudinilson Jr, Amantes e Casos
Hudinilson Jr, Amantes e Casos

Na década de 1980, o lugar da arte de Hudinilson é a rua, onde inventa grafites com desenhos incorporados à escrita, numa reivindicação de espaço de liberdade total. Seu mentor e cúmplice, Alex Vallauri (1949-1987), foi o primeiro artista brasileiro a aderir ao grafite. Como ele, Hudinilson trabalha com máscaras ou estênceis na busca de um novo espaço formal para criar, uma resistência em vão, como se fosse possível alguma naturalidade na arte.

Em vida Hudinilson se salvou de experimentar a vertigem ilusória de pertencer ao mercado de arte e de participar da internacionalização por meio das maratonas repetitivas de feiras e bienais. Só depois de sua morte seus trabalhos chegam ao exterior e desembarca, em junho, na Art Basel, na Suíça, a mais antiga e reverenciada entre as feiras de arte do mundo.

Hudinilson Jr.
Até 06 de setembro de 2019
Na Galeria Jaqueline Martins
Rua Dr. Cesário Mota Junior, 433 – Vila Buarque, São Paulo

Exposição de Lando e Rosana Paste investiga transformações do corpo e da matéria

Rosana Paste e Lando na Galeria Matias Brotas na abertura da exposição, julho de 2026. Foto: Cloves Louzada.
Por Giuliano de Miranda

Nenhum corpo permanece igual ao longo da vida. A matéria também não. Ela retrai, oxida, rompe, endurece, acumula marcas e registra a passagem do tempo de maneiras que nem sempre podem ser previstas. Em escalas diferentes, corpo e matéria compartilham uma mesma condição: ambos são atravessados por transformações contínuas.

É dessa percepção que parte “Eu é o outro“, exposição que reúne obras inéditas de Lando e Rosana Paste na Galeria Matias Brotas, em Vitória. Embora desenvolvam pesquisas independentes e utilizem materiais distintos, os dois artistas encontram um ponto de convergência na compreensão da criação artística como um processo permanente de investigação.

Na conversa com os artistas, fica claro um aspecto que nem sempre se torna evidente ao primeiro olhar do visitante. Tanto Lando quanto Rosana falam menos das obras acabadas do que dos processos que lhes deram origem. O ateliê aparece como espaço de investigação permanente, onde o erro, o acaso e a resposta inesperada dos materiais deixam de ser obstáculos para se tornarem parte da construção da obra.

Lando
Lando, sem título, 1999, acrílica sobre tela. Foto: Cloves Louzada.

Nos últimos meses, Lando decidiu colocar-se novamente na posição de aprendiz ao dedicar um período de formação à cerâmica em Portugal. A experiência não significou uma ruptura com sua produção anterior, mas a continuidade de uma trajetória que sempre transitou entre diferentes linguagens, recusando limitar sua pesquisa a um único meio expressivo. “Foi um momento muito rico. Quando você se coloca novamente na condição de aprendiz, percebe que sempre há outras possibilidades para o trabalho. A cerâmica me levou a experimentar novos procedimentos e abriu caminhos que certamente continuarão repercutindo na minha produção”, afirma.

Cabeças
Lando, Cabeças, 2026, cerâmica. Foto: Cloves Louzada.

Ao longo de sua trajetória, construiu uma produção marcada pela escultura, pela fotografia, pelo desenho e por diferentes experimentações com materiais. Em comum, permanece o interesse pelas transformações da matéria e pela maneira como o tempo modifica tanto os objetos quanto a percepção de quem os observa.

Rosana Paste percorre caminho semelhante, embora parta de outra experiência sensível. Seu trabalho nasce da observação do próprio corpo e das marcas deixadas pela passagem do tempo, convertendo experiências íntimas em esculturas que ultrapassam o caráter autobiográfico para alcançar questões compartilhadas por qualquer indivíduo.

Rosaninhas
Rosana Paste, Rosaninhas, 2026, bronze. Foto: Cloves Louzada.

Entre os destaques da mostra está a série Cabeças, de Lando. As esculturas recusam a lógica tradicional do retrato e apresentam rostos que parecem existir entre a lembrança e a imaginação. Cada peça preserva as marcas do modelado manual, da manipulação do barro e da ação do fogo, tornando visível o processo de sua construção. As obras sugerem identidades abertas, sujeitas às mudanças impostas pelo tempo, pela experiência e pela própria matéria. Essa investigação prossegue na série fotográfica Margem Sul, em que a paisagem deixa de funcionar apenas como registro documental para assumir uma dimensão sensível. As imagens revelam espaços onde permanência e transformação coexistem, evidenciando que também os lugares acumulam marcas do tempo e da memória.

Coágulos
Lando, Coágulos, 2026, cerâmica. Foto: Cloves Louzada.

Nas obras da artista, essa reflexão assume outra materialidade. Em Cabeça Oca, o vazio deixa de representar ausência para tornar-se elemento constitutivo da escultura. O espaço interno permanece aberto à imaginação do observador, fazendo com que aquilo que não está preenchido adquira a mesma importância da superfície em bronze. A artista desloca a atenção da forma acabada para aquilo que permanece em construção, sugerindo que toda identidade conserva espaços ainda desconhecidos.

Cabeça Oca
Rosana Paste, Cabeça Oca, 2026, bronze. Foto: Cloves Louzada.

O percurso expositivo encontra um de seus momentos mais expressivos na instalação Cipó, em que bronze e vidro dialogam para construir uma estrutura que parece expandir-se pelo espaço. A obra aproxima materiais de naturezas distintas e sugere crescimento, continuidade e interdependência. Como a planta que lhe dá nome, a instalação ocupa o ambiente estabelecendo conexões, contornando obstáculos e revelando que toda existência se desenvolve a partir dos vínculos que estabelece com o outro.

A disposição para experimentar também aparece na diversidade de materiais reunidos na mostra. Cerâmica, bronze, fotografia, vidro, instalações e objetos convivem sem hierarquia, demonstrando que cada linguagem oferece possibilidades distintas para refletir sobre memória, identidade e transformação. As obras constroem um percurso em que a matéria participa ativamente da elaboração de sentidos.

Nas cerâmicas de Lando, o barro conserva as marcas do gesto e da ação do fogo, revelando um processo que permanece visível mesmo após a conclusão das peças. Nas esculturas de Rosana, o bronze registra medidas do próprio corpo, preservando um instante que já não existe da mesma maneira. Em ambos os casos, o material deixa de ser apenas suporte para tornar-se testemunha da passagem do tempo e das transformações inevitáveis que acompanham toda existência.

Rosana Paste
Rosana Paste, Cipó, 2026, bronze e vidro. Foto: Cloves Louzada.

Essa compreensão também modifica a experiência do visitante. Em vez de percorrer uma sucessão de obras isoladas, o público é convidado a estabelecer relações entre elas. As cabeças modeladas por Lando dialogam com as esculturas corporais de Rosana; as fotografias ampliam a reflexão sobre memória para além da figura humana; as instalações expandem essas questões para o espaço da galeria. Pouco a pouco, percebe-se que nenhuma obra pretende afirmar uma identidade fixa ou definitiva.

Nesse sentido, o título “Eu é o outro” funciona como um convite à reflexão. Ao longo do percurso, torna-se evidente que identidade não corresponde a uma essência imutável, mas a um processo contínuo de construção, atravessado pela memória, pelas relações e pelos materiais que nos cercam. O outro deixa de representar apenas alguém externo para tornar-se parte indispensável daquilo que somos.

Ao final da visita, permanece a impressão de que tanto Lando quanto Rosana Paste recusam qualquer ideia de conclusão definitiva. Suas obras preservam perguntas em vez de respostas, transformando a exposição em um espaço de investigação compartilhada.

“Eu vivo desenhando mentalmente, vivo desenhando e imaginando”

Iran do Espírito Santo
Iran do Espírito Santo
Foto: Leo Faria

Às vésperas da abertura de Peças Frias — O Desenho, individual de Iran do Espírito Santo inaugurada em 30 de junho na Fortes D’Aloia & Gabriel, o artista conversou com Lucia Koch. A mostra reúne desenhos e esculturas produzidos entre 2007 e 2025, entre eles o “Compasso” (2025), escultura com a altura de um corpo humano, e “Sem título (Alambrado)” (2007–2026), desenho de parede apresentado pela primeira vez no Brasil depois de ter estreado na Bienal de Veneza em 2007.

A conversa percorre os temas que sustentam a produção de Iran há décadas: a tensão entre precisão e falha, a dualidade entre o objeto funcional e sua forma geométrica, o que acontece quando um instrumento de desenho — compasso, régua, gabarito — se torna ele mesmo obra. Koch conduz a entrevista como artista que compartilha vocabulário e inquietações com o entrevistado, leia a seguir.

Lucia Koch: A maioria das perguntas vem das nossas conversas anteriores. Você mencionou que a altura do Compasso (2025) é 1,80m, que é a altura de um homem, entre aspas, uma espécie de Modulor. Seria uma atualização do Modulor, do Le Corbusier ou do Homem Vitruviano do Leonardo? Porque a mim essa relação parece mais irônica do que afirmativa…

Iran do Espírito Santo: É mais irônica. Eu não pensei no Modulor, pensei no Homem Vitruviano. Eu tinha lido um livro há um tempo sobre ele, que é uma referência muito forte na História da Arte e da arquitetura. Mas essa referência não foi uma coisa tão programada. Um dia eu estava trabalhando com o compasso e tive a ideia de fazer a ampliação na escala humana, por causa dessa relação antropomórfica que ele tem. Quase todo mundo que já mexeu com um compasso em algum momento, brincou com isso. Suas hastes parecem duas pernas.

LK: Ou dois braços se abrindo.

IES: Eu penso mais em pernas, tem inclusive um tipo de compasso que é chamado de “bailarina”, para fazer círculos mais fechados.

LK: O Homem Vitruviano é um desenho feito com compasso. É uma ferramenta que é usada no desenho. O movimento dessas hastes é um pouco assim, dos braços e das pernas do Homem Vitruviano.

IES: Há muito tempo que eu tenho feito essas esculturas que são representações muito acuradas e técnicas de objetos específicos. E eu comecei a introduzir uma certa funcionalidade, a lâmpada que encaixa perfeitamente em um soquete, por exemplo; ou a Porca e Rosca (2015), que é construída exatamente como uma porca e rosca idealizada, sem defeitos de fabricação.

LK: A primeira vez que você falou do Compasso, e me mostrou uma imagem, me chamou a atenção você dizer: “Ele é idêntico a um compasso”. Esse “idêntico” me dá uma ideia de precisão, que me fez pensar nos inúmeros instrumentos de precisão que você já criou, e no fato de que você desenha para desenhar. Você desenha um instrumento para depois usá-lo para desenhar.

IES: É. No caso do Compasso, ele é muito mais complexo pelo número de peças, o que ocasionou numa dificuldade muito grande de execução.

LK: Você tem a ideia recorrente de reproduzir um objeto idêntico a um outro reconhecível, familiar, que você experimenta nas lâmpadas, nas caixas de sapato, em inúmeros trabalhos. Isso acontece no Compasso mas me parece um pouco diferente, porque não é qualquer objeto, o compasso e o metro são instrumentos de desenho. No traçar, no medir, em todas as maneiras eles são instrumentos de precisão. Nesse aspecto, fiquei pensando também no Sem título (Alambrado) (2007–2026), onde o desenho da mão é conduzido por uma ferramenta, uma régua fabricada por você…

IES: É um gabarito, uma régua-gabarito.

LK: Isso, uma régua-gabarito, completamente definida por você, que você desenha e manda cortar. Isso supostamente confere uma certa objetividade ao desenho, como se ele pudesse ser replicado por qualquer pessoa e ad infinitum. E um gabarito, a princípio, excluiria qualquer inconstância ou acidente, qualquer possibilidade de alguma outra coisa acontecer…

IES: Teoricamente…

LK: Mas não importa se tinha uma régua, você vê que tem um sujeito ali que desenhou aquilo. Aquilo só é uma realidade diante da gente porque alguém desenhou. Então não está totalmente isento de subjetividade. Mas tem outros trabalhos em que você usa régua, às vezes feita por você, às vezes não, como por exemplo a série de desenhos das cortinas, em que você usa uma canetinha que vai gastando à medida que você vai desenhando. E essa escassez da tinta vai produzindo uma ideia de caneta que tá falhando, tem uma espécie de recorrência de uma falha ali. Esse ritmo, que vai criando uma certa cadência, é o que produz uma ondulação no plano. E é só por isso que você consegue produzir a ideia de uma cortina. Mas então você cria um instrumento de precisão para se servir também da imprecisão que ele te proporciona. Você poderia tentar manter uma constância, regularidade, mas é impossível. Então, cada traço é único e a imagem resultante é sempre diferente.

IES: Eu sou encanado com isso há muito tempo, desde a minha juventude, com a relação entre repetição e particularidade.

LK: E da diferença, não é? Porque a repetição é o que cria espaço para a diferença aparecer com mais clareza.

IES: É, é uma encanação inclusive com a própria identidade. Identidade de uma maneira mais abrangente, das coisas em si.

LK: É, mas eu acho que tem a ver com subjetividade.

IES: Voltando nessa questão que você trouxe, do compasso ser um instrumento de desenho e medição, eu já tinha feito uma escultura de um lápis, há uns 20 anos, que se chama Lápis Prateado (2010), e é baseado num lápis real, com suas devidas proporções, é um prisma hexagonal. Essa forma, aliás, se repete em vários trabalhos. O lápis especificamente tem essa característica de ser um prisma que se intersecta com um cone, que é o que define sua forma e identidade — são essas qualidades geométricas nos objetos que acabam sendo frequentemente despercebidas.

LK: Você pega um objeto que tem uma função, que é utilitário, e faz com que a essência dele seja a forma, enquanto a função é uma espécie de dimensão poética. Ou seja, reconhecer nele um lápis é o que tem uma espécie de poesia e que carrega o conceito do trabalho. Mas a essência do objeto está traduzida na forma. Parece que tem uma inversão aí.

IES: Sim, eu acho interessante o que você apontou. Mas tem uma coisa que para mim também é importante, que é a relação e a dualidade entre a realidade concreta, que inclui a funcionalidade, a nossa existência mundana, esse embate com a realidade todo dia de fazer as coisas, e a abstração que está implícita em tudo, principalmente em tudo que é criado pela humanidade.

LK: Talvez seja por isso que você recorre às essências, àquilo que reaparece em diferentes esferas. No Compasso, por exemplo, coincidem a escala do corpo e da arquitetura. Ele tem a escala de um corpo, mas parece se referir mais à arquitetura do que à escala de um desenho entendido como projeto. Ele é mais do mundo “real”, da arquitetura construída. E nessa escala, quando a gente encontra ele encostado na parede, é como se ele estivesse ali esperando uma ação. Em repouso, mas pronto para o uso. Por outro lado, ele parece o próprio sujeito que desenha, como se mesmo parado, ele tivesse uma certa anima. É como se a possibilidade do desenho já estivesse inscrita nele, ele é quase uma criatura ali: mais próximo da mão e da cabeça que desenham do que de um instrumento para ser usado pela mão.

IES: Eu nunca tinha pensado nisso, mas nesse sentido a gente pode também fazer um paralelo com o próprio sujeito, com nós que desenhamos, que somos também um instrumento.

LK: Se deslocamos o lugar do compasso, deslocamos o nosso também. Eu também queria pensar um pouco contigo sobre essa régua que você fabricou e desenhou para fazer o desenho do alambrado. Às vezes parece que o que justifica a escolha de usar uma régua, é que com ela você cria a possibilidade de reproduzir um padrão em um outro contexto ou momento, em um outro lugar. Então são os lugares e os contextos que convocam os trabalhos quando eles reaparecem? O Alambrado apareceu pela primeira vez na sua exposição na Bienal de Veneza em 2007. São quase 20 anos. Então, o Alambrado em Veneza, é o mesmo Alambrado de São Paulo?

IES: Ele é quase a mesma coisa, porque eu usei exatamente o mesmo gabarito que usei em Veneza. O desenho atual tem quase a mesma proporção, mas é um pouco menor porque eu quis que coubesse numa parede específica do espaço novo da galeria, que é mais baixo, e tem a peculiaridade de pegar quase toda uma parede, uma parede, digamos, autoportante. Eu fiz esse trabalho anteriormente três vezes. A primeira vez foi na Bienal de Veneza, depois fiz nos Estados Unidos, e em Calgary [Canadá], numa exposição só de desenhos e pinturas de parede. Eu nunca tinha mostrado aqui no Brasil. Estou num momento de vida, de idade, que é de rever as coisas. O que ativou isso mais recentemente foi minha última exposição na Itália, na Galeria Mazzoleni, em que resolvi fazer uma mini retrospectiva. Também como uma reação de se contrapor à demanda de novidade, estou bem cansado disso.

LK: É um pouco guiado por uma lógica de mercado ter sempre um corpo novo de obras, que inicia, se encerra e se exibe numa sequência. Mas embora você diga que isso tem a ver com o seu momento de vida e de se sentir um pouco farto disso, você sempre fez conjuntos que não eram necessariamente a exibição de uma única série, de começo, meio e fim.

IES: Isso sim. Em museu não, mas em galerias sempre tem uma necessidade de mostrar coisas novas. E chega uma fase da vida que isso fica sem sentido.

LK: Sim, mas ao mesmo tempo eu fico pensando que as exposições retrospectivas, que são mais habituais em instituições do que em galerias, têm um outro aspecto que é de supor uma espécie de…

IES: Evolução.

LK: É, e justamente não se trata de evolução. Você não raciocina como quem inicia, conclui e exibe séries fechadas. Eu fiquei também pensando que você retorna às coisas que você já pensou e fez, porque elas não se esgotam em um trabalho, elas voltam a campo, não como um trabalho antigo, uma referência, uma raiz, não parece anterior àqueles outros que você tá mostrando.

Quando você faz Linha e Sombra 4 (2013—2026), a natureza da linha e a sombra da linha é a mesma, é como se você dissesse, “elas são iguais, é tudo virtual, é tudo pensamento”.

IES: Ali eu comecei a perceber que eu incorporo, de certa forma, o que as pessoas me falam dos trabalhos, do que elas percebem. E eu fiz essa pintura com o intuito de me referir a um espaço além, que não existe, mas eu não imaginava que ele fosse ilusório.

LK: Em muitos de seus trabalhos, você nos dá duas coisas aparentemente iguais, e naquilo que elas não são idênticas, a gente se obriga a pensar. Parece que você está repetindo, o que não seria exatamente novo no campo da arte conceitual, a reiteração, a tautologia. Mas depois você desmonta um pouquinho aquela compreensão rápida. Quando se vê o Alambrado, se lê um alambrado, quando você se aproxima, é idêntico a uma tela de arame, mas não é, é um desenho. Eu acho difícil chegar nesse resultado com desenho, sobretudo com representações tão sintéticas das coisas.

IES: Acho que trabalho com um potencial desmembramento da percepção que inclusive me causa certa angústia. E isso está presente nesses trabalhos todos, o copo que é formado de círculos concêntricos pode se dissolver, o sentido dele pode se dissolver. E isso, para mim, é um drama humano. Ao mesmo tempo que a gente não se liberta do nosso corpo físico, temos uma mente que parece ser imaterial, e que trabalha com conceitos. Eu acho que nem a neurologia mais avançada definiu o que é a mente até hoje.

LK: É, mas eu vejo essa clareza sobre o fato de que a percepção não só não é passiva, mas é permeada pelo pensamento e pela especulação o tempo todo.

IES: Pela experiência, né?

LK: É, mas a experiência é sempre também raciocínio, ele acontece na experiência. E é ele que parece que você está provocando, não meras ilusões.

Falando sobre liberdade, fiquei pensando sobre esses gabaritos e sobre essa certa ironia de você acabar criando instrumentos que também produzem falhas e imprecisões. Como se você nos dissesse que esse desenho é sempre subjetivo, não importa se ele é feito com a caneta direto no papel, à mão livre, ou com o uso de instrumentos.

Pensei sobre outros artistas que pensam o desenho, que expõem as circunstâncias e instrumentos do desenho, os sentidos do desenho. E lembrei da Regina Silveira.

IES: Claro.

LK: Ela fez uma série de trabalhos sobre a arte de desenhar, em que ela usa figuras que se parecem com as dos manuais de desenho… Mas eu fiquei pensando que, claro, as aproximações de vocês com a ideia de desenho são diferentes. Você falou de uma ideia de liberdade que tem um pouco a ver com a oposição da Regina à ideia do bom desenho. E fiquei lembrando que chamamos de desenho à mão livre aqueles que não são feitos com ferramenta. Quando não tem régua, quando não tem borracha, quando não tem compasso, quando não tem esses gabaritos e essas coisas todas que você deliberadamente, ostensivamente, constroi e usa. Será que é mais livre o desenho quando não tem esses gabaritos, ou esses gabaritos te dão acesso a um desenho que acaba sendo mais livre?

IES: Boa pergunta.

LK: Porque você está livre de outras coisas, livre do estilo, tem várias coisas das quais você está liberado por usar o gabarito.

IES: Eu nunca pensei muito na questão da liberdade em relação a esses desenhos específicos. Como eu disse, eu cheguei na arte através do desenho, eu fui uma criança que desenhou compulsivamente, só queria saber de desenhar, e construir coisas tridimensionais. E me interessava tudo que era representação, e não-representação também, mesmo coisas abstratas que eu não entendia, aquilo me causava um interesse, uma vontade de copiar. Eu desenhei muito, muito mesmo, a figura humana, por incrível que pareça. Eu estudei anatomia, com um livro de medicina. Não a anatomia cientificamente, mas as imagens de anatomia.

LK: Eu tenho a impressão de que as obras da exposição conversam bastante entre si. Você vê o Compasso e pensa no Estudo para copo (2014); o gabarito também pode ser entendido como um instrumento de desenho, então acaba se aproximando do Compasso. Mas a porca gigante em cima da base me parece diferente. Ela é uma peça que mantém uma certa opacidade. Dá para construir interpretações e estabelecer conexões com as outras obras, mas ela nunca se entrega completamente a elas. Tem algo ali que permanece irredutível, como se a peça insistisse na própria presença e dissesse: “eu sou só isso, estou aqui”. “Não funciono para nada, e nem tenho tamanho de porca”.

IES: É, a porca é a mais tautológica.

LK: Inclusive achei que isso apareceu para mim com mais clareza quando eu pensei no que te perguntar sobre ela. Era como se ela não servisse para uma pergunta, é como se ela fosse realmente opaca.

IES: Ela advém daquele trabalho, que eu chamo Base Fixa | Fixed Base (2016), que eram quatro grandes porcas e roscas sobre o chão formando um quadrado.

LK: Sim, eu vejo que em relação ao conjunto do seu trabalho ela não tá sozinha, mas aqui, na exposição, ela me parece deliberadamente sozinha.

IES: Tem uma questão que me interessa, que é uma questão escultórica também. De poder ver, poder examinar, como é o interior de uma rosca, desse micromundo, no caso industrial, que a humanidade criou. Eu fiz uma exposição de desenhos que se chamava Não Escondido, Porém Despercebido, que se tratava exatamente desses objetos.

LK: Sim, quando você amplia dá para ver um monte de coisas que a gente não enxergava. Mas de novo, é engraçado você falar em escultórico, eu entendo totalmente, eu acho que você encontra uma espécie de essência do objeto que é a forma, como ele é antes de para que ele serve.

IES: É uma forma, é um objeto comum, mas ele é super complexo ao mesmo tempo, aquela espiral, aquilo que potencialmente é infinito. Quando eu vi aquilo separadamente, pensei, “nossa, eu tenho que usar isso”. E por ser uma “coisa furada” também tem a ver com o direcionamento do olhar, que está presente no buraco da fechadura.

LK: Não tinha pensado nisso, de que você vê através deles, mas não vê através da sua escultura de um buraco de fechadura.

IES: Tem muita coisa que a gente pode relacionar. É diferente do Compasso, que tem vinte e tantas peças, também ampliadas. Quando ali é uma coisa só.

LK: Em Linha e Sombra 4, é quase como se você dissesse que uma linha é igual uma sombra, né? Mas o que mais me intrigou é que parece que você está nos dizendo que tudo é projeção. É isso?

IES: Não sei.

LK: Tudo é desenho?

IES: Eu comecei a fazer essa Linha e Sombra com desenhos de grafite. Fiz uma série só com grafite e também com papel carbono, que é aquela com o grau zero da coisa, que era um traço forte e um traço leve, que um representava a linha e o outro a sombra, como sendo uma coisa só. A sombra também é linha. E daí eu tive essa ideia de fazer isso no espaço, fiz numa exposição na Escócia, algumas variações disso, é uma linha bastante abstrata, poderia representar uma haste, alguma coisa, mas…

LK: Mas ela é linha, só que na sua versão ela é uma coisa, porque ela produz sombra.

IES: É exatamente isso. Essa imaterialidade, combinada com uma suposta materialidade, produz a estranheza de uma ilusão também. Eu fiz aqui em casa, já tirei, mas estava nessa parede aqui, e as pessoas achavam que ali tinha uma coisa. Eu acho isso fascinante no universo da representação. Às vezes quase nada vira “uma coisa”.

LK: Você está no campo de quem pensa como quem desenha, mesmo quando você não está desenhando, mesmo quando você faz um objeto tridimensional, mesmo quando você faz peças em pedra em Pietrasanta. E para quem desenha existe a dimensão projetiva.

IES: É porque eu, e imagino que a maior parte dos artistas, de certa forma vivem desenhando mentalmente. Eu vivo desenhando mentalmente, vivo desenhando e imaginando. E esse mundaréu de coisas que a gente pode fazer na nossa imaginação e que vamos levar pro túmulo.

LK: É, mas em alguma medida o teu desenho é uma coisa no mundo.

IES: Como?

LK: O teu desenho acaba virando uma coisa no mundo. Tudo bem que também seja no campo do virtual, ela vira uma coisa e aquilo vira um acontecimento. Eu acho isso diferente do que simplesmente representar.

IES: Opera num espaço entre o virtual e o real, não é um universo de sonhos, apesar que eu relaciono muitas vezes minhas obsessões com sonhos recorrentes. A gente falou de quase todos os trabalhos que estão na exposição, que não são muitos, mas acho interessante ressaltar que é uma exposição sobre desenho em boa medida, mas não só sobre desenho, e que foi desencadeada pela proposta de mostrar uma escultura recente.

LK: Uma escultura que tem vontade de conter muita coisa.

IES: Mas não é um desejo de mistificar a escultura, não gosto disso, mas existe sim a dificuldade técnica, levou 7 anos para executar esse trabalho. Acho que foi o trabalho que mais lutei para fazer.

LK: Mas tem uma coisa que eu acho importante dizer, que tem a ver com como se lê o teu trabalho. Nos impressiona, principalmente aos artistas que conhecem como as coisas funcionam, as máquinas, as matérias e as ferramentas, o apuro e a sofisticação técnica na produção dos objetos. Mas na hora que a gente está diante deles, o que pode nos maravilhar, nos capturar, não é exatamente isso; é a presença deles mesmo, é como eles são e o que eles são, não como eles foram obtidos.

IES: O esforço implícito nele…

LK: Não é pelo virtuosismo que esses trabalhos nos capturam, mas porque, aliado ao rigor de sua materialização, eles alcançam uma espécie de força.

IES: Porque se existe algum virtuosismo, é um virtuosismo conceitual.

LK: Sim. É porque as coisas só são preciosas assim no campo das ideias. Então, por serem perfeitas, ou idênticas, ou todas essas qualidades que elas assumem quando são produzidas com todo esse rigor, elas parecem mais ideais. É como se a gente acessasse o campo das ideias via matéria, isso nos captura muito.

IES: Eu não sei se isso fica implícito ou explícito, mas uma coisa importante pra mim, é que existe um virtuosismo no sentido técnico de pessoas anônimas, que trabalharam para que sua realização fosse possível…

LK: Que não é só teu, claro.

IES: Nossa, de jeito nenhum, isso está sendo desenvolvido há séculos, para chegar em máquinas, daí tem o operário que sabe fazer aquilo, que eu acho incrível. E é o universo que para mim é de confronto. Me lembro da primeira vez que eu cheguei quase tremendo numa metalúrgica, com medo de apresentar um projeto para uma empresa que fazia brocas perfuradoras para a Petrobrás. E eu trouxe o desenho de um abajurzinho. E esse é um universo muito masculino, né?

LK: É um pouco como ir para Pietrasanta fazer uma caixa de sapato.

IES: Exato.

LK: Mas eles devem curtir, não? Deve ser uma coisa um pouco nonsense para as pessoas envolvidas…

IES: No começo eu senti uma resistência, mas depois começaram a curtir.

LK: Porque o desafio aí não é técnico, é conceitual.

IES: Eu acho interessante essa coisa, essa convivência com a indústria, com o “artesanato” dessas práticas.

LK: Acho super importante, porque de novo você faz esse deslize para uma dimensão objetiva, mas tem um sujeito que operou a máquina. Então não é só você que é sujeito, não é só o compasso que é sujeito, a máquina, mas o cara que tá operando também.

Inhotim celebra 20 anos e convida professores a uma reflexão crítica sobre seu acervo

Tororoma
Vista de ‘Tororoma’, mostra de davi de jesus do nascimento em cartaz no Instituto Inhotim. Divulgação/Instituto Inhotim

Em 2026, o Inhotim, um dos maiores museus a céu aberto da América Latina, completa 20 anos e comemora com iniciativas nas artes, na ecologia e na educação. Nesta última, destaca-se o Descentralizando o Acesso — um dos projetos mais longevos da instituição, que nesta edição convida professores de todo o país a investigar o próprio acervo do museu.

Criado em 2008, o Descentralizando o Acesso — iniciativa da Diretoria de Educação e Território do museu em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) — adota um tema a cada ano. Em 2025, foi “Artes e Pedagogias Indígenas”; nesta edição, o escolhido foi o próprio acervo da instituição, composto por mais de 1.800 obras de mais de 280 artistas. “Aprender com os acervos: coleções contemporâneas e perguntas para o presente” marca os 20 anos do museu, que olha para si mesmo de forma crítica.

Descentralizando o Acesso
Professores participam de discussões em visita ao Inhotim com o projeto Descentralizando o Acesso. Divulgação/Instituto Inhotim – Brendon Campos

É uma das várias iniciativas do Inhotim voltadas ao aprendizado, ao lado do Laboratório Inhotim, do Lab Mães e da Bolsa de Pesquisa Arte e Natureza. João Paulo Andrade, Gerente de Educação Continuada, afirma que a área é uma das prioridades do museu: “A educação não traduz, não está a serviço da arte ou da curadoria. É a área que produz situações para que as pessoas participem de um debate público. Neste ano, o objetivo é tirar a coleção de um lugar em que ela é acessada como fonte e colocá-la num lugar em que é pensada como lugar de investigação. Isso muda tudo”, afirma.

O Descentralizando é composto por quatro etapas. A primeira se trata de um curso de extensão online com certificação da UFMG para 300 professores e estudantes de licenciatura de todo o Brasil. Os encontros foram ministrados por convidados — Wayne Modest, Clarissa Diniz, Pollyana Quintella, Guilherme Marcondes e Diane Lima — que trouxeram reflexões sobre o papel do acervo na produção de conhecimento. “O museu não fala só de arte ou natureza. As fronteiras já estão borradas — e o compromisso público colocando só essas questões em primeiro plano fica frágil”, afirma João Paulo.

A próxima etapa é voltada para cem professores de Minas Gerais, que percorrem o acervo artístico e botânico em percursos acompanhados por profissionais do museu. Em seguida, esses professores acompanham visitas escolares com grupos de estudantes da educação básica. Por fim, dez professores são selecionados para compor a residência editorial e recebem uma bolsa para desenvolver pesquisas que culminam em uma publicação, prevista para outubro.

Fundado em 2006 para abrigar a coleção do empresário Bernardo Paz, o Inhotim foi institucionalizado em 2022. Neste momento, o museu instaurou uma nova política de acervo, voltada para o comissionamento de obras — antes, a programação artística dependia dos gostos pessoais de seu fundador. João Paulo destaca que essa mudança também acarretou uma virada nos públicos e prioridades do museu: “Não adianta nada ter visibilidade mundial sem impacto local”.

Desde então, o museu incorpora trabalhos que dialoguem não só com debates universais, mas com questões locais e específicas do município em que está sediado, Brumadinho. Exemplo disso é “Contraplano”, obra recém-inaugurada de Laís Myrrha que reproduz uma edificação modernista nos moldes de Oscar Niemeyer. A estrutura vazada deixa entrever a paisagem, e o espectador se depara com uma grande área devastada pela mineração, um dos maiores passivos ambientais do estado.

Contraplano

‘Contraplano’ (2026), instalação de Laís Myrrha no Instituto Inhotim (MG). Divulgação/Instituto Inhotim

“Museus e coleções são resultado de uma decisão. Uma decisão que privilegia um campo, público e abordagem em detrimento de outros”, aponta o gerente. “Tem obras que estão aqui desde que o museu abriu — Cildo Meireles, Hélio Oiticica, Adriana Varejão, Tunga. Será que as conversas que tínhamos sobre elas em 2007 são as mesmas de hoje?”, questiona, citando que agora esses trabalhos podem ser reinterpretados ao lado de novas aquisições e mostras, como Dalton Paula e Grada Kilomba, atualmente em cartaz.

A diferença é tangível. Um exemplo é a galeria permanente Cláudia Andujar Maxita Yano – “casa da terra”, na língua Yanomami –, dedicada até então exclusivamente a fotografias de Cláudia Andujar nestas comunidades indígenas. Em 2025, foi reformulada e passou a integrar trabalhos em fotografia e vídeo de 22 artistas indígenas de toda a América do Sul, abrindo o local a novos artistas, povos e cosmologias.

Reisado
‘Reisado’ (2009), pintura de Dalton Paula. Divulgação/François Calil

Dalton Paula, um dos artistas brasileiros mais relevantes da atualidade, ganhou a mostra “Dupla Cura”, que investiga processos de apagamento e reconstrução histórica a partir de saberes e cosmologias afro-brasileiras. João Paulo destaca que Paula se envolveu com o Inhotim primeiro pela equipe de educação — em 2024, jovens do projeto Lab Arte Natureza foram levados a um intercâmbio no Sertão Negro, ateliê-escola em Goiânia, passando também pelo Quilombo Kalunga. Idealizado pelo artista e pela pesquisadora Ceiça Ferreira, o espaço é dedicado à formação e à valorização de artistas negros, reflexo de uma visão da arte como formação e redistribuição de recursos, não só como obra exposta.

Nesta edição, especificamente, a arte é colocada em um lugar de suspensão, para ser olhada, criticada, validada, apropriada e pesquisada por agentes da educação de várias áreas — artes, literatura, geografia, mas também disciplinas menos óbvias, como educação física, química e inglês. O professor não é obrigado a levar os aprendizados do Inhotim à sala de aula, mas é o que muitos fazem, e citam as visitas ao museu como experiências transformadoras para seus alunos.

Flávia Barbosa, professora de artes da rede pública em Contagem e Ibirité, participa do Descentralizando o Acesso pela segunda vez. Numa tarde de sábado, acompanhou os arte-educadores do museu e participou de discussões formativas com os outros professores. Já trouxe os alunos ao instituto, que, segundo ela, ficaram deslumbrados com a união de arte e natureza. “Isso aqui tem que ser ainda mais aberto, para trazer mais escolas, porque isso aqui é cultura pura”, afirmou.

 Paulo Nazareth
Fotografia sem título de Paulo Nazareth da foto ‘Notícias da América’ (2011-2012). Reprodução/MoMA

Ela conta que já discutiu em sala de aula obras de Paulo Nazareth, como a jornada “Notícias de América”, empreendida pelo artista entre 2011 e 2012, após convite para expor nos Estados Unidos. Nazareth registrou seu percurso, feito sem lavar os pés, caminhando e de ônibus, de Minas Gerais até a feira Art Basel Miami. Barbosa destacou aos alunos a importância dessa peregrinação, que evidencia a desigualdade latino-americana ao contrastá-la com a opulência da feira — uma das mais importantes do mundo, para a qual o artista levou “Mercado de Artes/Mercado de Bananas” (2012), composta por uma kombi repleta de bananas.

O Descentralizando integra a programação dos 20 anos do Inhotim, que se estende ao longo de 2026 com novas exposições e um seminário internacional. Nesta edição, o curso online alcançou professores de 29 municípios mineiros e 33 cidades de outras regiões do país. Em dezembro, será lançado um livro, que compila os projetos e pesquisas dos professores comissionados.

Tudo que você não sabia sobre a Liberdade

Frente negra brasileira

O Bairro da Liberdade é uma invenção institucional. É o que mostra a exposição Liberdade: bairro plural, que está aberta a partir desta terça-feira, 7, no Museu do Ipiranga. Isso porque foi somente há 52 anos, em 1974, que a prefeitura paulistana resolveu criar ali na região, de forma deliberada, o que foi chamado inicialmente de “Bairro Oriental”. Era, como assinalou texto no jornal Folha de S.Paulo da época, “um sonho de cinco anos” sonhado por comerciantes de origem japonesa. A invenção exigia a consolidação de um padrão estético. Instalaram-se 450 lanternas inspiradas nas luminárias japonesas (os postes de iluminação) que passaram a marcar a identidade visual do quadrilátero, assim como calçamento com ladrilhos hidráulicos com motivos xintoístas, um portal vermelho. Criou-se um grande Jardim Japonês, organizaram-se festas típicas (festivais das Flores e das Estrelas), os comerciantes foram instados a montar letreiros com ideogramas. O resultado foi um êxito inegável – mais de um milhão de pessoas visitam o bairro a cada ano. No ano passado, o local foi eleito um dos 25 melhores destinos do mundo para viajar, segundo o ranking Best in Travel 2026, da Lonely Planet, uma editora de fama na edição de guias de viagem.

Face a essa realidade consolidada, é difícil reabrir qualquer debate histórico sobre a Liberdade. Mas, desde abril de 2025, quando se descobriram no subsolo de uma de suas construções mais antigas, a Capela dos Aflitos, inaugurada em 1775 (durante restauro), restos mortais de uma dezena de pessoas, as unanimidades sobre a Liberdade passaram a ser questionadas por ativistas. Os restos mortais sinalizam a descoberta do antigo Cemitério dos Aflitos, que foi ativo até meados do século 19 e era onde se enterravam pessoas de origem africana e seus descendentes, assim como indígenas. Essas pessoas eram supliciadas no Pelourinho (sim, São Paulo teve um Pelourinho em local público, hoje demolido, e ficava onde hoje é o largo Sete de Setembro, ao lado do atual Fórum João Mendes) e executadas a alguns metros dali, no Campo da Forca, onde atualmente fica a Praça da Liberdade. Por sinal, a exposição traz a reprodução da “certidão de batismo” da Liberdade, com cópia do edital da Câmara Municipal, de 29 de outubro de 1858, renomeando o Largo da Forca como Largo da Liberdade.

Para os curadores da exposição no Museu do Ipiranga, a pluralidade de grupos sociais que habita ou habitou a Liberdade desde seus primórdios não autoriza que se proceda uma única reivindicação territorial. Construída na confluência de duas trilhas que vinham do litoral paulista (uma feita pelos povos originários e outra pelos colonizadores portugueses), a Liberdade foi originalmente uma região de rejeitos. Havia ali um cemitério, uma praça de execuções, um hospital e um matadouro, o que não tornava o local uma freguesia propriamente nobre para os habitantes da cidade. Mas, por outro lado, os terrenos tradicionalmente mais baratos do entorno foram atraindo moradores de diversas etnias, notadamente imigrantes, ao longo dos séculos. Afro-brasileiros, japoneses, italianos, alemães, russos, estadunidenses, chineses, taiwaneses, libaneses, haitianos, guineenses. Embora pequena, a exposição tenta resgatar os vestígios dessas presenças na constituição do bairro, com o auxílio de instituições como o Templo Budista Busshinji.

É evidente que há um componente crucial na história da escravidão negra a ser resgatado, admitem os curadores. “A gente precisa se lembrar que tanto a Capela dos Aflitos quanto a Igreja dos Enforcados, a Igreja dos Remédios, o Centro Cultural da Guiné e a Ocupação Jean Jacques Dessalines, todas estão ligadas a memórias negras. Eu te diria que, nesse sentido, as instituições desta exposição ligadas às memórias negras são as majoritárias”, explica o curador da exposição e diretor do Museu do Ipiranga, o historiador Paulo Garcez Marins.

A Igreja da Santa Cruz dos Enforcados, erguida em 1886, era um espaço de devoção que apoiava o movimento abolicionista (e que se ligou umbilicalmente à Casa de Velas Santa Rita, de 1934, referência no comércio de produtos afro-brasileiros). A busca de documentos e objetos que comprovassem a existência e a atividade dessas instituições durou mais de um ano. “A Igreja dos Remédios, que tinha uma importância fundamental para o processo abolicionista na cidade, foi demolida quando ela já estava inclusive abordada na revista número 1 do Iphan, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Ela simplesmente some. São processos violentos que a gente aborda aqui, porque quando a gente aborda a demolição da Igreja dos Remédios, a gente não tá falando mais da escravidão, não tá falando do período colonial nem do Império, mas já da República apagando as memórias da escravidão”, diz Garcez. Objetos ornamentais resgatados do templo antes da demolição foram salvos e são exibidos na mostra, como duas impressionantes cariátides (figuras femininas que servem como suporte arquitetônico) do acervo do Museu de Arte Sacra.

As populações negras seguem sendo uma presença fortíssima na Liberdade. “Atualmente, elas prosseguem chegando. Provêm do Haiti e, sobretudo, dos países da África Ocidental. Como é o caso do Centro Cultural da Guiné, que mostra a presença contemporânea dessas populações negras que estão chegando ao bairro. Acho que é um arco de tempo de memórias negras diverso”, diz Paulo Garcez Marins. Dessa presença contemporânea, o caso da Ocupação Jean Jacques Dessalines é o mais veloz fenômeno: organizada em junho de 2021 por 80 famílias de refugiados haitianos em um prédio abandonado da Praça Carlos Gomes, na Liberdade, foi despejada pelo prefeito Ricardo Nunes em 2026. Esse processo de expropriação foi documentado pela exposição, que acompanhou a luta dos
refugiados.

Segundo Garcez, a curadoria optou por abordar a história do bairro a partir das instituições que o ocuparam ao longo do tempo, “inclusive aquelas que não estão mais no bairro e que foram forçadas a sair de lá por movimentos políticos, basicamente”. Isso aconteceu em relação aos alemães e aos japoneses, durante a Segunda Guerra Mundial, mas também aconteceu com a Frente Negra Brasileira, talvez a mais surpreendente revelação da exposição. A pesquisa conduzida por Garcez, Mônica Raisa Schpun, Aline Montenegro Magalhães, Francisco Andrade e David Ribeiro concluiu que a Frente Negra Brasileira funcionou onde hoje fica o prédio da Casa de Portugal e não deixou acervos, assim como a Liga Itálica, fechada em 2010 e cuja presença também foi praticamente apagada da História. “São instituições que de alguma maneira, exerceram o seu papel, mas que tiveram também a sua vida abreviada”, explica o curador.

Documento do Serviço Secreto
Documento do Serviço Secreto de São Paulo, de 1944, sobre vigilância de moradores japoneses na rua da Glória, na Liberdade.

E o que foi a Frente Negra Brasileira, da qual tão pouco se sabe? Foi um partido político criado em 1931 para eleger representantes que defendessem os direitos civis das pessoas negras, àquela altura quase nada acessados desde o final da escravidão. No início, a FNB ocupou duas salas de um prédio na Praça da Sé. Depois, mudou-se para um imóvel na Avenida da Liberdade. A sede teve escritórios, salão de beleza, barbearia, salão de jogos, consultório dentário e bar. Tinha salão de festas, grupo de teatro de música e um posto de alistamento eleitoral. “O alistamento da FNB vai de vento em popa, tudo em perfeita ordem. Como perguntássemos qual o número de eleitores já qualificados, foi-nos fornecido um mapa demonstrativo dos mesmos, que atingem uma soma de 4.001 eleitores até o dia 15 deste mês”, declarou o secretário geral do partido, Isaltino Veiga dos Santos, em uma entrevista na época.

A FNB mantinha um jornal próprio, o Jornal da Raça (1933-1937). Preconizava a educação como caminho de emancipação das populações negras e chegou a ser reconhecida como partido político. Em 1937, porém, com o banimento de todos os partidos políticos pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, foi declarada ilegal e fechada e nunca mais a experiência foi retomada. Parte das cópias de fotografias e documentos da FNB exibidos na exposição foi resgatada de arquivos virtuais. “Ou seja: é muito doloroso pra nós reconhecermos isso, mas os processos de apagamento das negritudes no Bairro da Liberdade não acontecem só por movimentos demográficos ou por migrações. Ocorrem por decisões do Estado de apagar”, diz Garcez.

De onde vem o nome “Liberdade”?

Há algumas teses popularmente aceitas para a adoção do nome Liberdade. Mas duas se sobressaem.

A primeira remete a D. Pedro I. Parte expressiva da população, na época do seu reinado, o considerava um déspota. Os populares festejaram ruidosamente quando saiu um decreto, em 7 de abril de 1831, que celebrava o fim de seu reinado e a data de sua abdicação. Diziam que havia gritos pelas ruas: “Liberdade, Liberdade!”. Teria sido nesse clima que se decidiu que o Largo da Forca fosse rebatizado como Largo da Liberdade, o que expressava o desejo popular por uma nova expectativa política no Brasil.

A outra tese é mais mística e gerou até uma devoção popular. Em 1821, um soldado do Império, Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, encabeçou uma revolta por melhores pagamentos e igualdade de soldos entre brasileiros e portugueses, e foi condenado à morte. A execução foi marcada para o Largo da Forca. Acontece que Chaguinhas, quando foi submetido à primeira tentativa de enforcamento, viu acontecer algo sui generis: a corda se rompeu. Seus algozes resolveram tentar uma segunda corda. Essa também se rompeu, o que deixou assombrados os carrascos. A população, que assistia à execução, resolveu exigir o que parecia ser uma tradição – o rompimento da corda podia significar uma intercessão direta do divino. Mas os executores não deram ouvidos e Chaguinhas foi levado à terceira corda, que não cedeu, porém o soldado demonstrava sinais vitais ao ser resgatado e acabou morto a pauladas. Chaguinhas era preto. Foi dessa execução que surgiu o culto na Igreja dos Remédios e que, mais tarde, faria surgir a Casa de Velas Santa Rita, para dar vazão à demanda dos fiéis.


SERVIÇO
Exposição “Liberdade: bairro plural”
7 de julho de 2026 a 31 de janeiro de 2027
Museu do Ipiranga
Endereço: Rua dos Patriotas, 100
De terça a domingo, das 10h às 17h. Última entrada: 16h
Sala de exposições temporárias – Museu do Ipiranga
Entrada gratuita (somente para esta exposição)
Funcionamento: Terça a domingo (incluindo feriados), das 10h às 17h (última entrada às 16h). Confira mais informações: museudoipiranga.org.br/visite/

O dia em que junho se recusa a terminar

Imagens Aereas da Festa de São Marçal. Foto: Samuel Macedo.
Por Bibiana Belisário

Ainda era madrugada quando Maria José de Lima Soares girou a chave da porta de casa. Voltara do arraial poucas horas antes, mas o descanso nunca fez parte do calendário do dia 30 de junho. Havia um batalhão inteiro esperando que ela chegasse e o corpo conhecia esse percurso havia décadas. Dormir podia esperar. São Marçal, não.

Enquanto boa parte do Nordeste desperta para desmontar bandeirinhas e apagar as últimas brasas das fogueiras de Santo Antônio, São João e São Pedro, em São Luís acontece o contrário. É justamente quando junho parece chegar ao fim que a capital maranhense decide prolongá-lo por mais um dia celebrando o padroeiro e protetor do Bumba Meu Boi.

Festa de São Marçal, São Luiz do Maranhão. Samuel Macedo.

Antes das seis da manhã, a Avenida São Marçal, no bairro João Paulo, já não pertence aos carros. Realizado todos os dias 30 de junho há quase um século, o Encontro de Bois de São Marçal chega, em 2026, à sua 99ª edição. Reunindo dezenas de grupos, especialmente do sotaque de matraca, tornou-se o encerramento simbólico do ciclo junino maranhense.

Das esquinas surgem homens carregando enormes pandeirões de couro. Depois vêm as matracas. Primeiro uma, depois outra, até que centenas delas passam a conversar entre si. Madeira contra madeira, um estalo seco, contínuo, quase hipnótico. Antes mesmo que os olhos alcancem os primeiros batalhões, é o som que ocupa a cidade.

Então aparecem as cores. Chapéus bordados de miçangas refletem a luz recém-nascida do sol. Fitas dançam ao vento, cocares de penas desenham movimentos largos sobre a multidão, crianças seguram pequenas matracas com a mesma seriedade dos adultos. Não existe público claramente definido e quem chega para assistir acaba dançando. Até a madrugada de 1º de julho, a avenida se transforma num imenso corpo brincante que pulsa ao ritmo do bumba meu boi.

Festa de São Marçal, São Luiz do Maranhão. Samuel Macedo.

É ali que Maria do Maracanã chega. Seu nome de batismo quase desapareceu diante da dimensão que assumiu dentro da cultura popular maranhense. Presidenta do tradicional Boi de Maracanã, conhece cada etapa da festa que brilha diante dos olhos do público, mas também aquelas durante os outros onze meses do ano.

“É um momento de celebração de todo um trabalho de 365 dias que a gente fica no barracão. Hoje a gente vem consagrar esse momento no São Marçal. Não é fácil chegar até aqui. São muitas dificuldades, mas a gente consegue suportar e resistir para manter essa tradição da cultura popular do Maranhão viva.”

O trabalho não termina quando as matracas silenciam. “O ano todo a gente brinca. Tem visita nas comunidades, o domingo de Páscoa, quando a gente conhece as novas toadas. Depois vêm os ensaios, as prévias e o São João, que termina hoje aqui, em São Marçal.”

Com registros documentais desde o final do século XVIII, o Complexo Cultural do Bumba Meu Boi do Maranhão foi registrado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan. Em 2019, o reconhecimento ultrapassou as fronteiras brasileiras, quando a UNESCO lhe concedeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

No Maranhão, brincar boi é assumir um compromisso com uma herança que se transmite pelos corpos e pelo som. Para a pesquisadora Diana Taylor, há saberes que sobrevivem menos nos arquivos do que no repertório: aquilo que os corpos repetem, cantam, dançam e ensinam uns aos outros.

As matracas continuam marcando o compasso quando o Boi de Maracanã entra na avenida e o batalhão avança como quem conhece exatamente o peso daquele momento. O manto bordado cintila enquanto o boi serpenteia, como se ganhasse respiração humana a cada passo. Em volta, centenas de pessoas caminham na mesma direção, espremidas entre vendedores de comidas típicas, espetinhos, garrafas de água equilibradas em caixas de isopor.

“Minha história é cheia de malabarismos”, resume Maria. No boi, ela começou ainda menina, como mutuca — personagem que corre ao redor do boi batendo matraca e animando o batalhão. Décadas à frente, assumiu uma responsabilidade que nunca imaginou desejar. Em 1996, seu companheiro Humberto do Maracanã, uma das maiores referências da cultura popular maranhense, decidiu que tinha que ter uma pessoa de confiança para cuidar do boi, e ela tornou-se presidenta do grupo.

“Eu queria era estar no batalhão, brincando, bebendo sem compromisso. Quem toca o sino não acompanha a procissão”, brinca. Logo completa: “É um cuidar redobrado. Um cuidado de carinho, de amor, de responsabilidade.”

Imagens Aereas da Festa de São Marçal. Samuel Macedo.

Quem administra um boi carrega também suas preocupações permanentes. No Boi de Maracanã, mais de mil pessoas participam diretamente da brincadeira entre músicos, cantadores, bordadeiras, artesãos, brincantes e equipes de apoio.

“A gente chega de ônibus, a pé, de carona. Todo mundo dá seu jeito de chegar.” No fundo, ninguém chega apenas porque foi convocado, mas sim porque pertence.

Essa ideia atravessa o dia inteiro entre os diversos grupos que passam pela avenida e carregam consigo seus bairros antigos, os povoados do interior e uma ilha inteira de devoção. Se Maracanã é um dos nomes incontornáveis do sotaque de matraca, o Maioba ocupa lugar igualmente central na memória afetiva do Maranhão.

José Raimundo Ferreira Filho observa tudo sem esconder o orgulho. Diretor do Maioba, ele fala sobre continuidade. “Tudo começa da geração. Do meu avô, do meu pai e agora do filho, do neto. É uma geração contínua de paixão.”
Nascido no Paço do Lumiar, o grupo hoje ocupa um lugar central na memória da ilha. “A tradição vem se sustentando através do povo. Não é só o boi. É o povo que faz a tradição. O Boi da Maioba chega com aquela produção toda, mas, se não tiver o povo, ele não brinca. Sem o povo, não faz a Maioba.”

O que atravessa a Avenida São Marçal é uma genealogia inteira, onde cada brincante carrega consigo alguém que veio antes. À medida que a tarde avança, o calor diminui, mas a avenida só cresce. O cansaço aparece nos rostos, nas roupas encharcadas de suor, nas mãos marcadas pelas matracas. Ainda assim, ninguém parece disposto a abandonar o cortejo.

Há algo de romaria naquele caminhar, uma peregrinação feita de couro, madeira e canto. “A fé é o nome culminante que a gente se dá para resistir nesse cuidar. Porque não é fácil. É muito caro”, afirma Maria. São Marçal tornou-se aquele a quem se agradece por mais um ciclo cumprido e diante de quem se reafirma o desejo de seguir.

O bumba meu boi não atravessou mais de dois séculos de história brasileira permanecendo igual a si mesmo. Incorporou novas sonoridades, reinventou indumentárias, dialogou com tecnologias, passou a circular por outros espaços e conquistou novos públicos. Continuou reconhecível justamente porque nunca deixou de se transformar.

Mas nem mesmo São Marçal encerra completamente o ciclo. “A morte do boi acontece no segundo domingo de agosto”, explica Maria. Depois disso ainda vêm congressos, seminários, apresentações, viagens pelo Maranhão e por outros estados. O calendário da brincadeira apenas muda de ritmo.

A ideia de tempo espiralar, proposta por Leda Maria Martins, encontra em São Marçal uma expressão quase palpável. O passado reaparece cada vez que uma criança aprende uma toada, cada vez que um mestre ensina o compasso de uma matraca, cada vez que um batalhão volta a ocupar a avenida.

José Raimundo enxerga esse futuro diante dos próprios olhos. “Hoje em dia as crianças estão mais amorosas pelo boi. É uma geração que vai continuar.”

Quando Maria do Maracanã voltar a girar a chave da porta de casa, provavelmente já será noite outra vez e a festa terá terminado apenas por enquanto. Talvez consiga dormir um pouco mais do que na véspera, ou não. Mas a certeza é de que em poucos meses o barracão voltará a encher.

E, quando o próximo 30 de junho chegar, as primeiras matracas voltarão a responder umas às outras antes mesmo que o sol nasça. Como se, no Maranhão, junho nunca tivesse ido embora. Ou, quem sabe, como se algumas formas de memória simplesmente se recusassem a terminar.

Quando a arte ocupa a paisagem

Omar Salomão e Mirella Schena
Omar Salomão e Mirella Schena, curador e coordenadora artístico-cultural do Parque Cultural Casa do Governador, 2026. Foto: Fabíola Fraga.
Por Giuliano de Miranda

Entre esculturas, jardins e o mar, o Parque Cultural Casa do Governador consolidou-se como uma das iniciativas mais singulares da arte contemporânea brasileira. Reunindo obras de importantes artistas, exposições temporárias, ações educativas e uma proposta curatorial que transforma a paisagem em parte da experiência estética, o espaço tornou-se referência por integrar arte, natureza e formação de público em um mesmo projeto cultural.

Carlos Vilar
Escultura de José Carlos Vilar, Ondas, 2025, aço. Foto: Fabíola Fraga.

A experiência proposta rompe com o modelo tradicional dos museus fechados. O visitante encontra jardins, caminhos, árvores e o horizonte do mar integrados às obras. A paisagem se torna elemento constitutivo da própria experiência artística, já que cada caminhada produz novos enquadramentos, novas relações entre luz, vegetação e escultura, fazendo com que nenhuma visita seja igual à anterior.

Natan Dias
Escultura de Natan Dias, Movimento à tecnologia, 2021, aço, Foto: Fabíola Fraga.

Ao longo dos últimos anos, o Parque reuniu um acervo com artistas do Espírito Santo e nomes fundamentais da arte brasileira, em um diálogo permanente entre a produção local e o circuito nacional da arte contemporânea. Essa convivência amplia repertórios, fortalece a visibilidade dos artistas capixabas e insere o Estado em um cenário que historicamente concentrou suas principais instituições culturais entre Rio de Janeiro e São Paulo.

Para o diretor curatorial, Omar Salomão, a experiência do visitante constitui o principal eixo do projeto: “Você caminha em meio as árvores e, de repente, encontra uma escultura. Em outro momento, ela aparece novamente sob outra luz, em outro enquadramento. O visitante está sempre em movimento, e a própria obra também muda de acordo com esse deslocamento, nesse contexto, caminhar transforma-se em parte da fruição estética. Nesse percurso, o visitante desacelera, observa a paisagem, percebe a mudança da luz e estabelece relações que dificilmente seriam possíveis em um ambiente expositivo convencional. A contemplação acontece em movimento, aproximando arte, arquitetura e natureza”.

Essa concepção também orientou a formação do acervo permanente de esculturas. Sem restringir a coleção exclusivamente à produção regional nem concentrá-la apenas em artistas consagrados de outros estados, o Parque construiu um conjunto capaz de promover encontros entre diferentes gerações, linguagens e pesquisas da arte contemporânea.

Um dos pontos altos desse expressivo acervo artístico está no Magic Square #3, Invenção da Cor, Penetrável, de Hélio Oiticica, uma das figuras centrais da arte brasileira do século XX. Sua presença amplia o diálogo entre a produção capixaba e um dos mais importantes legados da arte contemporânea brasileira, reforçando a vocação do Parque como espaço de intercâmbio, pesquisa e circulação de ideias. Na avaliação do curador, essa convivência entre artistas de diferentes origens e trajetórias amplia as possibilidades de leitura do público e contribui para inserir a produção realizada no Espírito Santo em um diálogo mais amplo com a arte contemporânea brasileira.

Hélio Oiticica
Obra de Hélio Oiticica, Magic Square #3, 1977/2026. Pintura sobre alvenaria, cobertura de policarbonato, granitina, 5 x 15 x 15 metros. Foto: Fabíola Fraga.

Outro núcleo importante é a Galeria Gabinete, espaço expositivo instalado no antigo gabinete da residência que hoje integra o Parque. Dedicada às exposições temporárias, a galeria amplia as possibilidades curatoriais da instituição ao apresentar não apenas obras concluídas, mas também processos de criação, pesquisas e experimentações artísticas. Em algumas mostras, o público acompanha etapas do trabalho dos artistas, aproximando-se dos caminhos que antecedem a realização das obras e ampliando sua compreensão sobre a arte contemporânea.

Mais do que reunir um acervo qualificado, porém, o Parque busca construir uma relação permanente com seus visitantes. Para o curador, grandes eventos, concertos e inaugurações são importantes, mas não definem o sucesso de uma instituição cultural. O verdadeiro desafio consiste em fazer com que as pessoas retornem ao espaço simplesmente pelo desejo de estar ali. É essa transformação que, segundo ele, já começa a acontecer. Essa mudança torna-se ainda mais evidente na forma como diferentes públicos passaram a ocupar o espaço.

Galeria Gabinete
Fachada da Galeria Gabinete. Foto: Fabíola Fraga.

Nos primeiros meses de funcionamento, muitos visitantes aproximavam-se das esculturas com certa cautela, inseguros diante da linguagem da arte contemporânea. Com o tempo, essa relação tornou-se mais espontânea. Crianças circulam livremente pelos jardins, famílias retornam com frequência e grupos de visitantes passam a reconhecer obras e artistas, incorporando o Parque aos seus roteiros culturais.

“O Parque cria outro tempo”, observa Omar Salomão. “Ao interromper o ritmo acelerado da cidade, ele convida as pessoas a caminhar sem pressa, observar, conversar e descobrir.”

José Bechara
Escultura de José Bechara, Falta, 2025, mármore, pedra sabão e aço pintado. Foto: Fabíola Fraga.

A construção desse vínculo cotidiano também se reflete na programação desenvolvida ao longo do ano. Para a coordenadora artístico-cultural do Parque, Mirella Schena, a identidade da instituição não está apenas nas grandes exposições ou eventos especiais, mas na continuidade das ações que aproximam diferentes públicos da arte contemporânea. “O nosso principal pilar é a educação”, afirma.

A partir desse princípio, o Parque estruturou a Escola Livre de Artes, programa que reúne visitas mediadas, oficinas, palestras, encontros, atividades para escolas e seminários. A iniciativa busca oferecer experiências continuadas de formação, transformando a mediação cultural em parte central da proposta da instituição, e não apenas em uma atividade complementar às exposições.

Segundo Mirella, o objetivo é ampliar continuamente essas ações, criando oportunidades para que visitantes de diferentes idades desenvolvam uma relação permanente com o espaço. A proposta inclui cursos de maior duração e novas parcerias com instituições de ensino e pesquisa, fortalecendo a dimensão educativa do Parque.  A experiência da visita deixa de se restringir à contemplação das esculturas e passa a estimular a observação, a reflexão e o diálogo sobre a produção artística contemporânea. Essa dimensão educativa é acompanhada por um trabalho permanente de conservação do acervo. Atualmente, o Parque reúne cerca de trinta obras, sendo vinte e oito permanentes, distribuídas por jardins e áreas abertas. Expostas diariamente à maresia, aos ventos e às variações climáticas características do litoral do Espírito Santo, as esculturas passam por monitoramento e manutenção especializados, garantindo sua preservação sem interferir na experiência do visitante.

As instituições culturais buscam aproximar novos públicos da arte contemporânea, sendo assim, o Parque demonstra que essa aproximação pode ser construída pela experiência cotidiana. A visita passa a fazer parte da rotina de moradores, estudantes, pesquisadores e turistas, transformando o espaço em um ambiente permanente de encontro entre arte, paisagem e conhecimento.

Castiel Vitorino
Instalação de Castiel Vitorino Brasileiro, Sutilezas do tempo, 2024, bambu a pique, estrutura de madeira, muro de pedra, quartzo bruto e cristal bruto. Foto: Fabíola Fraga.

No Espírito Santo, essa combinação transformou o Parque Cultural Casa do Governador em uma referência nacional para a arte contemporânea ao ar livre, um espaço de encontro, descoberta e permanência, onde a arte é parte da experiência cotidiana de seus visitantes.

Na Fundação Prada Arthur Jafa e Richard Prince no “Helter Skelter”

Não é raro que, quando a mostra principal de Veneza é muito potente, as representações nacionais fiquem um tanto opacas. Sem dúvida, foi o que ocorreu agora em 2026. Pouco há para se falar das escolhas oficiais, mas, em compensação, exposições paralelas trouxeram artistas e pesquisas com muito diálogo com a curadoria de Em Tons Menores.

A começar pela Fundação Prada, com Helter Skelter: Arthur Jafa e Richard Prince, que tem curadoria de Nancy Spector e revela um diálogo inesperado entre a obra de dois artistas americanos: Arthur Jafa (n. 1960) e Richard Prince (n. 1949). Ambos, é verdade, trabalham com a apropriação de imagens – Prince é particularmente reconhecido pelo uso das propagandas de cigarro com cowboys, mas essa parte não está lá.

O que está lá, e é bastante surpreendente, é constatar como ambos, há décadas, vêm tratando de uma “América” decadente e preconceituosa, que não tinha como não chegar a algo tão funesto quanto o governo Trump.

O título da exposição, “Helter Skelter”, funciona como um palimpsesto de significados e referências. Originária de uma atração de parque de diversões britânico, a expressão também é uma gíria para “caos”. É ainda o título de uma canção de Paul McCartney, lançada no Álbum Branco dos Beatles, de 1968. E, no mesmo ano, o líder de culto Charles Manson apropriou-se do termo para prever uma iminente guerra racial apocalíptica, na qual afro-americanos e brancos essencialmente se aniquilariam mutuamente.

Menos trágica e mais poética é a mostra dedicada ao artista queniano Michael Armitage, com curadoria de Jean-Marie Gallais, no Palazzo Grassi, do colecionador François Pinault. Assim como muitas obras na Bienal de Veneza, Armitage pinta em tecido lubugo, em vez da tradicional tela de linho, para fundamentar seu trabalho na cultura e história da África, o que resulta em uma superfície menos homogênea – às vezes há buracos na tela que são incorporados ao trabalho.

Além de usar uma técnica ancestral, em geral o lubugo é usado como mortalha, Armitage, mesmo tendo desenvolvido toda sua carreira na Inglaterra, usa o Quênia e seu povo como inspiração para suas obras. Aliás, em 2020, ele criou o Instituto de Arte Contemporânea de Nairobi, uma organização sem fins lucrativos.

Entre as pinturas, há desde temas como casais gays se beijando, uma referência a amigos que relataram homofobia, a cenas trágicas de naufrágios com imigrantes, como referências a filmes africanos ou mesmo à história da pintura.
Já o outro espaço da Coleção Pinault em Veneza, a Punta della Dogana, se dedica a outros dois artistas racializados: a norte-americana Lorna Simpson e o brasileiro Paulo Nazareth, com amplas retrospectivas sobre suas carreiras.

Comigo ninguém pode

Mas e os pavilhões nacionais? Há mesmo pouco a dizer, frente a exageros como o Pavilhão da Áustria, que causou furor nas redes sociais com as performances instagramáveis de Florentina Holzinger, como a mulher que de hora em hora é badalada em um imenso sino ou o jet-ski que circula dentro de uma piscina no pavilhão. Ações caras e supérfluas.

A Austrália, que havia ganhado como melhor pavilhão há dois anos, novamente traz um artista impressionante, Khaled Sabsabi, de origem libanesa, que apenas perde em originalidade porque sua própria obra, muito semelhante ao que está no pavilhão, é a primeira obra da curadoria de Koyo no Arsenale.
A Espanha tem destaque com uma imensa instalação de Oriol Vilanova, que preenche todas as paredes do edifício com cartões-postais, criando uma espécie de Atlas Mnemosyne de Aby Warburg, em que gatos ganham mais espaço que qualquer outro tema da antiga forma de comunicação pelo correio – certamente algo de que a Geração Z não tem ideia.

Nesse contexto, o Brasil acaba se sobressaindo pela curadoria de Diane Lima com Adriana Varejão e Rosana Paulino denominada Comigo ninguém pode. O pavilhão foi restaurado de maneira exemplar, com transparências que estavam muradas. Mesmo assim, há uma discrepância evidente. Enquanto Varejão faz uma certa cosmética nas questões decoloniais, que tanto agrada o mercado, mas já vem se repetindo há décadas, Paulino, com um imaginário a partir de memórias e histórias pessoais, apresenta um trabalho muito mais contundente, que merecia ocupar sozinha o espaço.

“Surrealismos”: uma exposição para além do óbvio

Fachada da nova sede da Pinakotheke em São Paulo. Foto:Patricia Rousseaux

O surgimento da exposição

A ideia partiu do Max, entre 2016 e 2017, da vontade de fazermos uma exposição sobre o surrealismo, que completaria 100 anos do lançamento do Manifesto [Surrealista] em 2024. Aquilo foi muito ao encontro de algumas questões que eu já vinha pesquisando.

O Max tem um entrosamento muito grande com colecionadores. Todas as obras aqui são de coleções particulares no Brasil — no Nordeste, no Rio de Janeiro e em São Paulo —, com exceção de três fotomontagens de Guignard, que pertencem ao Museu de Arte Moderna de São Paulo, e duas de Jorge de Lima, que são do IAB.

A ideia foi tomando forma em 2020 e, quando estávamos iniciando os preparativos, veio a pandemia. Em 2024 se comemoraram os 100 anos do lançamento do Manifesto, e pensamos que era possível idealizar uma exposição que prestasse homenagem a essa data, mas que também colocasse outras possibilidades de leitura do movimento.

A primeira coisa que concluímos foi que não chamaríamos a mostra de “exposição do surrealismo”, no singular, enfatizando pela enésima vez o movimento com começo, meio e fim, dos anos 1920 aos anos 1940. Optamos por uma compreensão mais ampla do fenômeno — esse elemento subjetivo que percebemos em artistas e intelectuais de oposição à extrema racionalidade da sociedade desde o século 19, e como isso vem aparecendo, ao longo do tempo, como um contraponto. Então, achamos que seria interessante colocar o surrealismo no plural, “Surrealismos”, com o subtítulo “Arte para além da razão”.

Isso fez com que retornássemos no tempo, para antes do surrealismo histórico, e nos projetássemos para a contemporaneidade, com muitos artistas que vieram depois dos anos 1940. Permitiu fazer uma exposição que desse conta do fenômeno do surrealismo — não daquele surrealismo que percebemos no romantismo ou em vertentes mais antigas da arte, mas de um panorama que contempla também a contribuição europeia histórica.
Temos obras de 1926, de meados da década de 1920, obras emblemáticas de artistas emblemáticos. Não é uma exposição óbvia. Não é o Dalí que você viu nos “Gênios da Pintura”: é um Dalí excepcional, inusitado.

 

Trazemos alguns norte-americanos, caribenhos e latino-americanos encontrando os brasileiros nesse contexto mais alargado da América Latina. E, por todos esses contatos que o Max tem com as grandes coleções particulares — e aqui agradeço aos colecionadores que cederam as obras —, foi possível trazer alguns dos melhores exemplares dessa produção internacional que está no Brasil, e também da produção brasileira, que é de altíssima qualidade.

Então penso que, ao inaugurar em 2026, estamos de alguma maneira finalizando as festividades da reflexão sobre o fenômeno surrealista, cujo Manifesto completou 100 anos há dois anos. A exposição cumpre isso. Obviamente, ela não é nem pretende ser conclusiva, mas traz outras possibilidades de pensar essa subjetividade surrealista que transcende o surrealismo histórico.

Temos, por exemplo, Louise Bourgeois, que tem uma função especial aqui. É uma artista que não está filiada especificamente ao surrealismo histórico, mas que traz, na passagem do século 20 para o 21, uma subjetividade e uma sensibilidade totalmente conectadas com o surrealismo. Temos também um núcleo dedicado a Maria Martins, essa sim ligada ao surrealismo histórico, mas cuja qualidade e potência extrapolam aquele momento.
Recomendo a exposição porque temos, por exemplo, um Léger de 1926 nem um pouco óbvio, que exige do público um esforço para conectá-lo ao debate surrealista em vigor em Paris naquele momento, dois anos depois do Manifesto. É de uma qualidade, de um requinte e de uma sofisticação, dentro da pintura do período entreguerras, que merece a visita. Você tem Max Ernst e, fundamentalmente, o Magritte da capa do catálogo, Miró, uma escultura fantástica de Giacometti, e os brasileiros Ismael Nery e um Di Cavalcanti estupendo. Enfim, fiquei fã desta exposição. Faltam artistas, sem dúvida que faltam. Mas a mostra não tem a pretensão de abarcar tudo, nem teria condições para isso.

Acho que ela pode ser, sobretudo para os estudantes, o início de um despertar, de uma curiosidade para essa subjetividade que nega tudo aquilo que tem transformado a nossa sociedade em algo tão problemático. Muito humildemente, a exposição ajuda essa moçada a começar a pensar.

A presença das mulheres no movimento

Muitas mulheres importantes, do ponto de vista artístico, participaram de maneira efetiva do movimento. No entanto, não quero criar polêmica, mas acho que a crítica e a historiografia sobre o surrealismo têm uma dimensão misógina muito visível.

No final dos anos 1960, o Museu de Arte Moderna de Nova York fez uma grande exposição que contemplava o Dadá e o surrealismo, em que as mulheres aparecem, algumas poucas, em notas de rodapé, e outras nem são reconhecidas como tais. Maria Martins, por exemplo, que conviveu com Breton, participou de exposições e tem obras no próprio MoMA, não foi sequer citada no catálogo — por uma arrogância masculinista, com aquela empáfia estadunidense que costuma ocorrer.

Temos muitas artistas aqui. Não na quantidade que gostaríamos, mas temos contemporâneas brasileiras como Lenora de Barros, Lia Chaia e Erika Verzutti, que desenvolvem poéticas nitidamente conectadas com essa subjetividade não positivista — algo que, durante certo período, foi o que mais se divulgou no campo, inclusive na arte brasileira.

É muito bonito rever Tunga nesse contexto ampliado do surrealismo. E rever um artista de São Paulo como Cláudio Cretti, que cresce dentro desse ambiente plural, ajuda a perceber as conexões que é possível fazer. Não é uma exposição formalista, embora tenha obras da qualidade que vocês estão vendo aqui. Acho que ela vai além.

O surrealismo para além da Europa

Historicamente, alguns surrealistas históricos — desculpem o pleonasmo, mas falo de André Breton e outros — vão para a América Central e as Antilhas, e ali fazem contato com artistas, intelectuais, poetas e escritores. Esse surrealismo de matriz europeia entra em conexão com um imaginário absolutamente fantástico, o dessas sociedades antilhanas e latino-americanas de maneira geral, o que ajuda a ampliar a compreensão que temos do surrealismo.

Há um artista muito identificado com o surrealismo internacional, Wifredo Lam, um artista cubano, filho de negros com chineses de Cuba. Ele fala: “O surrealismo está em Cuba, está na floresta, está nas pessoas”. Essas manifestações ditas marginais estão integradas à exposição, entendidas como fomentadoras de uma visão mais ampla do que pode ser o surrealismo. Acredito, inclusive, que seria possível pensar uma conexão entre essa matriz surrealista europeia e algumas manifestações que estão dentro das nações indígenas brasileiras.

Precisamos romper com aquela noção subserviente, colonizada, de dizer “o Ismael Nery é o nosso Chagall”. Não, não é. Chagall é Chagall, tem a contribuição que ele deu lá; e Ismael Nery dá uma contribuição em que conecta questões do surrealismo a outros elementos da realidade brasileira, e a singulariza. O mesmo acontece com Di Cavalcanti — há um Di Cavalcanti aqui de tirar o chapéu. Ele não é “o nosso De Chirico”. Isso é uma expressão do colonialismo sem ousar dizer seu nome, e acho muito ruim para a própria cultura e para a arte brasileira.

Lenora de Barros
Lenora de Barros, Homenagem a George Segal, 1984.

Sobre a ausência de indígenas na exposição

No caso aqui, os indígenas não entraram porque não deu tempo: é um assunto cuja complexidade exige uma historiografia que dê conta dele. Talvez na próxima a gente tenha. O que precisaria ser reforçado é essa oportunidade, ocorrida no Brasil, de conexão entre os postulados do surrealismo histórico e as diversas matrizes culturais e imagéticas que perpassam a cultura. Aquilo que chamamos de América Latina, na verdade, são várias nações, várias comunidades com culturas muito específicas, ligadas não só às correntes indígenas, mas também a tradições afrodescendentes.
Destaque latino-americano

Aqui está Octávio Araújo, por exemplo, contemplado na mostra, que demonstra um tipo de produção que dificilmente surgiria num ambiente europeu. Ele mistura uma sensibilidade e uma subjetividade que, de alguma maneira, estão ligadas à questão afrodiaspórica. Um dos elementos de riqueza da exposição é esse artista, que está esquecido. Posso estar cometendo alguma injustiça — e, se estiver, peço desculpas —, mas acho que a última exposição em que me lembro de ver Octávio, com uma sala, foi Territórios, na Pinacoteca, em 2017. É bom revê-lo agora em outro contexto, internacional e latino-americano, e não mais apenas em uma exposição voltada a artistas afrodescendentes do acervo da Pinacoteca.

Um momento de revisão do surrealismo

O dado que gera esse debate talvez seja a questão mais importante levantada nas comemorações do centenário do primeiro Manifesto Surrealista, em 2024. Isso ocorre num momento de profunda revisão. Há uma exposição interessante no Beaubourg, cuja primeira edição foi na Bélgica, depois passou por Paris, por uma cidade na Alemanha, por Madri, e terminou agora em fevereiro, na Filadélfia. É uma mostra que tem um único fecho, mas que se transforma em cada país onde é apresentada. Bom, o que tem em comum? O que tem de diferente? De alguma maneira, ela reflete essa grande revisão pela qual o surrealismo vem passando, a partir de uma compreensão que não o constranja mais a um período histórico definido.

Não fui eu que resgatei [esses artistas], nós resgatamos — há aqui também uma parceria importante com o Max. O que mais me surpreende, em primeiro lugar, é Octávio Araújo; nunca é suficiente criar oportunidades para mostrá-lo. É muito bom percebê-lo em suas fotomontagens, não só pela qualidade delas, mas porque é possível ver como a fotomontagem ajudou na complexidade da sua pintura. O problema é que essas fotomontagens pertencem ao Museu de Arte Moderna de São Paulo: são públicas, mas não têm oportunidade de ser mostradas o tempo inteiro. Isso também me deixa muito feliz.

A exposição foi muito feliz em trazer artistas conhecidos por meio de obras novas, que não são esquemáticas. Vocês não veem um Dalí que mostra apenas aquilo que já se espera dele, mas um Dalí de universo poético mais ampliado. Di Cavalcanti, como falei, tem obras de tirar o chapéu. Flávio de Carvalho, Siron Franco — enfim, há artistas aqui que não costumam ser mostrados dentro desse contexto. De maneira geral, todos ganham uma nova significação. Se você puder ver um bom Di Cavalcanti, um que foge dos esquemas em que foi circunscrito, ou um Cícero Dias, acho que é sempre uma boa oportunidade.

Quando menos é mais

A entrada no Pavilhão Central da 61ª Bienal de Veneza, no Giardini, é bastante ritualística: primeiro é preciso atravessar as colunas transformadas em viveiros de plantas pela artista nigeriana Otobong Nkanga. Em seguida passamos pelos trajes de Big Chief Demond Melancon, líder da tribo Young Seminole Hunters do Lower Ninth Ward de Nova Orleans, inspirados em práticas cerimoniais levadas aos Estados Unidos por escravizados africanos.

Seguimos, então, contornando as esculturas em cerâmica da senegalesa Seyni Awa Camara, que há 75 anos aprendeu de sua mãe as tecnologias ancestrais para produção de utensílios cotidianos, que hoje, aos 80 anos, ela reinventa em formato de bestiário.

Então, nos confrontamos com uma espécie de assembleia com dezenas de esculturas zoomórficas em cerâmica da artista e ativista peruana Célia Vásquez Yui, denominada O Conselho dos Espíritos Maternos dos Animais. Todos esses animais olham para apenas um lugar e parecem desafiar o visitante.

E, logo atrás, está a instalação Anatomia da Árvore da Magnólia para Koyo Kouoh e Toni Morrison, da cubana radicada nos Estados Unidos María Magdalena Campos-Pons, que tem como paisagem sonora uma composição de Kamaal Malak.

A obra é composta por um imenso painel em oito partes onde se veem as duas homenageadas do título com pés de coruja. Assentadas em galhos da magnólia, é como se elas cuidassem das sete esculturas em vidro à sua frente, realizadas em Murano, que sintetizam as etapas de floração.

Estas cinco obras, dispostas em três salas de um azul intenso, que ora parece o céu, ora o mar profundo, sintetizam o conceito da mostra Em tons menores, concebida pela curadora Koyo Kouoh (1967–2025), nascida em Camarões, primeira mulher africana a cuidar da Bienal de Veneza, que, contudo, não viu o resultado de seu trabalho, já que morreu praticamente um ano antes da abertura da mostra. Foi a equipe curatorial por ela escolhida, apelidada de Esquadra Koyo, composta por Gabe Beckhurst Feijoo, Marie Hélène Pereira, Rasha Salti, Siddhartha Mitter e Rory Tsapayi, que deu conta de colocar o projeto em pé com um resultado além de surpreendente.

Há mais obras nas salas descritas, mas o objetivo até aqui foi trazer em destaque as mais simbólicas, mesmo deixando de citar um pequeno canto com obras de ninguém menos que Marcel Duchamp (1887–1968), como a icônica Boîte-en-valise (1935–1941), uma mala com miniaturas de suas próprias obras que não só aponta para um questionamento do espaço expositivo, como faz uma fina ironia com o título da mostra. Junto estão ainda fotos realizadas por ele de uma exposição surrealista de 1947, onde se veem obras da brasileira Maria Martins (1894–1973). Ao lado, em mais uma ironia, está uma imagem de Akinbode Akinbiyi, uma privada descartada pichada com a frase “Fuck Duchamp” em referência ao seu urinol, um precursor da arte contemporânea. Akinbiyi, que participou da mais recente Bienal de São Paulo, no ano passado, faz da fotografia uma forma de escavação cultural, em cidades como Berlim, Dacar e Bamaco.

“Os tons menores rejeitam o exagero orquestral e a marcha militar rígida, e ganham vida nos tons suaves, nas frequências mais baixas, nos murmúrios, nas consolações da poesia, todos portais de improvisação para o outro e o diferente. Os tons menores pedem uma escuta que evoca as emoções e as sustenta em troca”, escreveu Koyo, em texto no catálogo da Bienal.

De fato, como se percebe pelas obras até agora citadas, há uma intenção em apresentar uma produção potente, que escape de categorias rígidas do que é arte, e que inscreve no campo da produção cultural a possibilidade de sonho e resistência, tomando já no título a música como referência. Ao longo da mostra, não só a sonoridade de vários trabalhos ganha relevância, como também cheiros de vários tipos, colocando a retina como algo relativo. Não por acaso, a primeira frase do texto de Koyo é “feche os olhos”.

Essa potência toda está na instalação de Campos-Pons, que também esteve na mais recente edição da Bienal de São Paulo, com um trabalho em torno de flores. No caso de Veneza, ao expor o ciclo de floração da Magnólia, que se repete todos os anos, a artista está a sinalizar como a vida sempre renasce, que as sementes se espalham e multiplicam a natureza antes do fim, uma metáfora mais que necessária nos tempos atuais.

Vale ressaltar aqui que a homenagem à escritora Toni Morrison (1931–2019), primeira mulher negra a receber um Nobel de Literatura, em 1993, no painel das Magnólias, está em consonância com Koyo, que havia pedido à sua equipe que lesse dois livros como inspiração para Veneza: Amada, de Morrison, e Cem anos de Solidão, do colombiano Gabriel García Márquez (1927–2014).

Não tem como pensar nesses livros e não se lembrar de outro trecho do texto de Koyo, que descreve os tons menores como: “As canções daqueles que produzem beleza apesar da tragédia. As melodias dos fugitivos que se recuperam das ruínas. As harmonias daqueles que curam feridas e mundos”, já que ambos se inserem no realismo mágico, ele latino-americano, ela sobre a escravidão nos Estados Unidos.

Alguns eixos guiaram o desenvolvimento conceitual e a coreografia da exposição desta bienal: a procissão, o jardim crioulo — precursor do conceito de agrofloresta, que mistura em um mesmo espaço diferentes espécies de plantas — e o convite ao encantamento e a importância do repouso físico e espiritual.

O estúdio de design sul-africano Wolff Architects, da dupla Ilze e Heinrich Wolff, da Cidade do Cabo, é o responsável pela elegante expografia da mostra, toda ela construída em dois tons: azul profundo e marrom claro, por conta de um revestimento de papelão ondulado nas paredes, o que traz um sentimento de conforto. Ilze participou como artista da 35ª Bienal de São Paulo, Coreografias do Impossível, em 2023.

Fazem parte da expografia áreas de descanso ao longo da exposição, com diversos tipos de cadeiras. Ao mesmo tempo, é uma edição que, por se inspirar nas procissões de carnaval que se originam nas religiões de matriz africana, é uma mostra que convoca o corpo a criar um percurso fluido e com muitos respiros. Isso faz com que haja muito diálogo entre os trabalhos e poucas salas individuais, mesmo que os artistas estejam presentes de forma generosa, em geral com muitas obras.

Também é tônica da mostra obras com uma manufatura muito próxima da artesanal, baseadas em técnicas ancestrais, o que faz com que seja uma edição com pouca tecnologia e, por extensão, com poucos vídeos. Há muitos trabalhos baseados em coleta de materiais descartados, como é o caso do porto-riquenho Daniel Lind-Ramos, que participa com três esculturas com referências ao período de escravidão, quando barcos eram usados como escape para os mangues, onde escravizados conseguiam se esconder.

Nessa mesma estratégia estão as colagens do palestino Mohammed Joha, ainda no Pavilhão Central. Suas obras são construídas a partir da sobreposição de materiais descartados como papel, cartão ou tecido, em uma relação com a necessidade de permanente reconstrução na Faixa de Gaza. A delicadeza de suas montagens, apesar de abstratas, lembra paisagens urbanas imaginárias e se torna testemunha da resistência e da recusa do desaparecimento.
Arsenale

A mostra principal de Veneza sempre se divide em duas partes, uma no Giardini, onde também estão os pavilhões nacionais e outra no Arsenale, na parte onde eram fabricadas cordas para navios há pelo menos 400 anos, um espaço espetacular com mais de 300 metros de extensão.

Pois graças à expografia, o grandioso se tornou um lugar aconchegante e, caminhar por ele, uma experiência agradável. A começar pela obra de Khaled Sabsabi, nascido no Líbano e radicado em Sydney, que também representa a Austrália nesta edição da Bienal. Ele cria um ambiente imersivo com projeções de cores que se transformam, som e aromas. É acachapante.

Logo na sala seguinte estão as fotografias do brasileiro Eustáquio Neves, que apresenta duas de suas séries: Arturos, sobre uma comunidade quilombola em Minas Gerais, e Cartas ao Mar, realizada sobre o Cais do Valongo, o maior porto de recepção de escravizados da história. Suas imagens são sempre construídas em camadas e é difícil não perceber um diálogo com o realismo mágico nelas.

É também no Arsenale que está o outro brasileiro na mostra, Ayrson Heráclito, em uma das mais impressionantes instalações da Bienal. Ele apresenta Juntó, um conjunto de esculturas em metal e desenhos em tinta e aquarela criando um vocabulário de insígnias e ferramentas relacionadas aos Orixás, em uma eloquente homenagem ao Mestre Didi.

Na mesma sala de Ayrson está outro destaque desta edição, o artista norte-americano Nick Cave – não confundir com o músico de mesmo nome. Cave chegou a dançar na companhia do coreógrafo Alvin Ailey, o que o levou a construir uma obra que produz diálogos entre dança, moda e arte. Em Veneza, ele comparece com uma série de esculturas em bronze, tanto dentro da exposição, como na área externa do Arsenale, nas quais corpos se metamorfoseiam em plantas e animais.

Também neste espaço estão as pinturas de grandes dimensões do queniano Kaloki Nyamai, outro dos impactantes trabalhos desta bienal. Em grandes dimensões, as pinturas trazem em geral memórias do povo Kamba, grupo étnico bantu que vive no Quênia. É visível ainda a influência de sua mãe, uma artista têxtil, já que as telas são construídas como colagens, os fios são aparentes e trazem grande efeito visual.
Uma das últimas instalações no Arsenale é O fim do Mundo, do chileno Alfredo Jaar, que cria uma espécie de catedral toda em vermelho onde um cubo de apenas quatro centímetros reúne camadas com os minerais essenciais para as tecnologias tanto de guerra como de transição verde. É um pequeno altar ao fim e ao começo de tudo.

Além da produção de artistas, Koyo apresenta ainda seis escolas criadas por artistas – blaxTARLINES, Denniston Hill, G.A.S. Foundation, lugar a dudas, Nairobi Contemporary Art Institute (NCAI) e RAW Material Company – que apontam para a importância da educação como motor de transformação.

Em um mundo em guerras sem fim, sob domínio de empresas de tecnologia que condicionam comportamentos e geram depressão, e onde a farmacologia está mais próxima de criar doenças do que saúde, Em tons menores ensina que as mudanças começam em casa, no diálogo com a natureza e com ensinamentos ancestrais e por gestos simples. Afinal, é como a Magnólia da instalação de Magdalena Campos-Pons, uma das espécies de plantas com flores mais antigas da Terra, que representa a força da vida, a resistência e a conexão com a eternidade.

Júri de Veneza 2026 mostra que é preciso dar limites

Bienal de Veneza
Instalação de Otobong Nkanga, Soft Offerings to Silenced Voices and to All Who Have Turned to Dust, 2026, na entrada do Pavilhão Central Foto: Andrea Avezzù

As Bienais de Veneza das últimas décadas foram baseadas em um equilíbrio um tanto forçado entre a mostra central, com curadoria escolhida pela organização da mostra, e dos pavilhões nacionais, selecionados por instituições de cada país como uma representação oficial, que ocupa um dos 34 edifícios no Giardini ou outros espaços, especialmente alguns novos no Arsenale ou em palácios ao redor de Veneza.

Ao longo de sua longa história — a Bienal de Veneza foi criada em 1895 —, polêmicas não deixaram de existir nesta equação, mas, desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, a temperatura começou a ferver. Em 2022, artistas e curadores do Pavilhão Russo retiraram-se voluntariamente da mostra poucos dias após a invasão da Ucrânia, declarando que “não há espaço para arte quando civis morrem sob mísseis”.

Em 2024, a Rússia permaneceu fechada, enquanto a artista do pavilhão de Israel, Ruth Patir, recusou-se a abrir o espaço, junto com seus curadores, colocando um aviso na porta informando que a exposição (M)otherland só seria aberta ao público após o estabelecimento de um acordo de cessar-fogo e libertação de reféns.

De certa forma, até então, as polêmicas ficavam nos pavilhões. A 61ª edição da Bienal de Veneza mudou essa tendência. No ano passado, o artista Khaled Sabsabi, nascido no Líbano e radicado em Sydney, foi escolhido para representar a Austrália agora em 2026. Em menos de uma semana, o governo interveio para anular a decisão, alegando que, ao incluir uma imagem borrada de um ex-líder do Hezbollah, em um vídeo de 2007, Sabsabi era um apoiador do terrorismo e antissemita.

Em resposta, Koyo Kouoh, diretora da principal exposição da bienal, Em tons menores, convidou Sabsabi para participar da sua curadoria. A indignação da comunidade artística e uma avaliação independente levaram à reintegração de Sabsabi ao pavilhão australiano.

Mas a atuação de Koyo foi decisiva para o que estava por acontecer com o júri, por ela selecionado, tendo como presidente a brasileira Solange Farkas e composto apenas por mulheres, fato inédito na história de Veneza. As demais são: Zoe Butt (Austrália), Elvira Dyangani Ose (Espanha), Marta Kuzma (Estados Unidos) e Giovanna Zapperi (Itália).

Integrantes do grupo russo Pussy Riot protestam em frente ao pavilhão da Rússia na Bienal de Veneza. Foto: Marco Bertorello/AFP

Logo que foi anunciado, em abril deste ano, o júri deixou claro, a partir do conceito de Koyo, que há limites: genocidas não serão avaliados. Com isso, os pavilhões de Israel e Rússia, países cujos líderes estão sob acusação de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional, ficaram fora da disputa. Os Estados Unidos também mereciam ficar de fora, mas sem uma condenação formal de um órgão internacional independente, não coube ao júri levantar essa acusação.

Semanas depois do anúncio, o júri renunciou à sua tarefa sem declarar os motivos, mas sabe-se que a atitude tem a ver com pressões da presidência da Bienal pela manutenção de Israel na premiação, que criou, pela primeira vez, um prêmio paralelo, a ser escolhido pelo voto dos visitantes. Imediatamente, a maioria dos 110 artistas selecionados por Koyo pediu à direção da Bienal para ser excluída do prêmio e estavam sem resposta até o início de junho.
O gesto menor de dizer não do júri, contudo, trouxe um posicionamento um tanto inédito, mas necessário, no circuito das artes: saber o momento de dizer não, de que limites são necessários.

Gabrielle Goliath
Pavilhão de Israel em Giardini durante a 60ª Bienal de Arte 2024. Foto: Hannah Goldsmith

O mercado não gosta de limites, aceita lavagem de dinheiro e de imagem com facilidade, vende para quem quer comprar, seja com nota ou sem nota. É um fato, e muitos artistas vêm aceitando participar de galerias que, sabidamente, não possuem régua ética ou moral.

Mas há artistas que estão impondo limites há anos, como Nan Goldin com a família Sackler, dinastia norte-americana fabricante de remédios opioides, responsável pela morte de cerca de 500 mil pessoas nos Estados Unidos, nos últimos 20 anos. Pois Nan Goldin liderou um movimento que retirou o nome dos Sackler de grandes museus dos Estados Unidos e da Europa.

Gabrielle Goliath
Entrada da Chiesa di Sant’Antonin em Veneza, onde ocorre a instalação de arte Elegy da artista Gabrielle Goliath.

Também o curador da 36ª Bienal de São Paulo, Bonaventure Soh Ndikung impediu um debate em sua mostra com a herdeira do rei Leopoldo II, da Bélgica, reconhecido por liderar um genocídio no Congo em pleno século 20.

Como dizia o personagem de Herman Melville, escrivão Bartleby, “acho melhor não” pode até ser um gesto pequeno, mas saber o momento de recusar legitimar situações imorais é um exemplo mais que necessário nos tempos atuais.