“Eu vim aqui porque, sei lá, os meninos me pediram. ‘O pessoal da USP quer que você vá lá e tal, é importante e interessante pra eles, sabe como é, que gente como você dê um pulinho lá, chegue lá, cante umas coisas’. Aí eu vim”, disse Gilberto Gil.
O depoimento acima não é de agora. Foi registrado em 26 de maio de 1973 frente a uma plateia de mais de mil estudantes na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Quinze dias antes, durante uma apresentação no Anhembi, no festival Phono 73, Gil e Chico Buarque tiveram os microfones cortados pela polícia política da ditadura militar ao tentarem cantar a música Cálice. Gil tinha voltado do exílio fazia um ano apenas, e era seguido de perto pelo aparato da repressão política. O ato também era um protesto contra o sequestro, desaparecimento e assassinato do estudante Alexandre Vannucchi Leme, do curso de Geologia, um mês antes.
Em data ainda a ser anunciada, nos meses de outubro ou novembro próximos, 53 anos após aquele show na Escola Politécnica, Gil, agora com 84 anos, regressará à USP para fazer um novo pocket show para os meninos “que pediram”: dessa vez, fazendo trilha para sua própria consagração: ele receberá, com música, evidentemente, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de São Paulo. E os “meninos que pediram” são hoje os experimentados Rubens Rewald (chefe do Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP, que requisitou o título Honoris Causa), Ivan Vilela (compositor, arranjador, pesquisador e violeiro), Guilherme Wisnik (vice-diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP), Nabil Bonduki (também da FAU e vereador, ex-secretário de Cultura de São Paulo) Alfredo Manevy (cineasta e docente da UFSC, ex-secretário executivo do Ministério da Cultura e ex-presidente da Spcine), Fabiana Cozza (cantora, escritora e pesquisadora de MPB) e Fabio Maleronka (sociólogo, produtor, editor e consultor da Unesco).
Em 1973, o show que Gil fez na USP foi gravado e lançado, como um registro ao vivo, com 25 faixas. No final da apresentação, ele voltou a cantar Cálice, que tinha sido censurada no show Phono 73. Gil tinha plena consciência de que a canção tinha sido vetada pela ditadura. “Tenho a impressão que ela tinha sido apresentada à Censura, tendo-nos sido recomendado que não a cantássemos, mas nós fizemos uma desobediência civil e quisemos cantá-la”, explicou, no livro Todas as Letras, organizado por Carlos Rennó. Na apresentação que fará para receber o título na USP, certamente Gil não cantará muito, porque não é um show lato sensu, mas representará uma exaltação dos direitos civis.
Não é o primeiro título de Doutor Honoris Causa do cantor baiano: ele já tinha recebido 11 homenagens do tipo até agosto, quando o Conselho Universitário da maior e mais importante universidade da América Latina o laureou. Em 2001, ele tinha recebido o título pela Universidade de Coimbra, em Portugal. Seguiram-se os da Universidade Federal da Bahia (UFBA), UERJ, UFRJ, UFRGS (no ano passado) e outras internacionais, como a Berklee College of Music, instituição norte-americana. Além da importância histórica, estética, intelectual e comportamental da obra de Gilberto Gil na História da música brasileira, os argumentos para a concessão do Honoris Causa ao músico têm base ainda na relevância de sua postura de afirmação da cultura negra em trabalhos como o álbum Refavela (1977). Gil também tem se empenhado, desde sempre, em preservar o trabalho dos blocos afro do Carnaval de Salvador. Outro ponto que contribuiu é a atividade em prol da cidadania. Sua passagem pelo Ministério da Cultura entre 2003 e 2008 ficou como um “turning point” em relação às políticas públicas para o setor. A cultura “deixou de ser periférica, ornamental ou subsidiária para propor uma centralidade nas políticas de Estado”, afirma o texto de concessão do título.
A mesma sessão que aprovou o título Honoris Causa a Gil também referendou a entrega da honraria para a fotógrafa e ativista suíço-brasileira Claudia Andujar, de 95 anos. O título para Claudia foi proposto em conjunto pelo Museu de Arte Contemporânea (MAC) e pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Claudia chegou da Europa ao Brasil aos 24 anos, em 1955. Quando tinha 13 anos de idade, ao voltar para sua casa, na Hungria, encontrou a mesa de jantar posta, porém vazia. Antes da refeição, seu pai fora preso e deportado para um campo de concentração nazista, onde acabou assassinado com parte da sua família.
Ao tornar-se artista, já vivendo no Brasil, Claudia Andujar optou por conectar-se ética e emocionalmente a grupos vulneráveis da sociedade brasileira, como os indígenas (e sua cosmovisão) e os bichos das florestas. Reconhecida mundialmente pelo seu grandioso trabalho com os Yanomami, ficou célebre sua série de fotografias em preto e branco O Voo do Watupari, registro de uma viagem que empreendeu, em 1976, a bordo de um fusca preto, de São Paulo até o território daquela etnia, em Roraima. Sua obra despertou o mundo para as questões de sobrevivência dos povos originários, e ela contribuiu para a demarcação da Terra Indígena Yanomami, em 1992.
“A concessão dos títulos a Gilberto Gil e Cláudia Andujar representa o reconhecimento da USP de trajetórias que ultrapassam os limites de suas respectivas linguagens e se confundem com a própria história cultural e social do Brasil. São artistas que fizeram de suas obras uma forma de compreender o País, ampliar horizontes e afirmar a importância da liberdade, da diversidade e da dignidade humana por meio da música e da fotografia. Para a USP, homenagear Gilberto Gil e Cláudia Andujar significa reconhecer que a produção de conhecimento não se limita aos espaços acadêmicos”, afirmou o Reitor da USP, o médico Aluísio Segurado, que ainda não estava na USP em 1973 – tinha apenas 16 anos -, mas, como cientista, reconhece as lições da História e da dialética social e política.
O retorno de Gil à USP será um marco histórico também pelo momento de fragilidade democrática que o Brasil vive, com sucessivas tentativas de golpes de Estado movidos pela extrema direita, como a de 8 de janeiro de 2023. Em 26 de maio de 1973, havia um caldeirão de arbitrariedades rondando o País. O show foi convocado pelos estudantes como um ato político e clandestino em homenagem ao estudante Alexandre Vannucchi Leme, assassinado pela ditadura. Após o crime, houve uma missa, em 30 de março de 1973, na Catedral da Sé, para 5 mil pessoas. O ato desencadeou uma sequência de prisões de alunos da USP entre os meses de abril e maio. Cerca de 30 estudantes foram presos, o que aumentou a revolta da comunidade universitária. Os eventos culturais que foram convocados tentavam chamar a atenção para aquele cerco. No momento do show de Gil, que era alvo preferencial, um aviso no quadro negro avisava que tinham sido soltos 29 estudantes, mas quatro seguiam presos. Gil não apenas prestou sua solidariedade, como fez um show magnífico.





