Dois pesquisadores da UFRJ e da UERJ decifraram uma inscrição no Theatro Municipal do Rio que passou 117 anos sem tradução em um local de grande afluência de turistas (cerca de 30 mil visitantes por mês). A frase traduzida foi grafada originalmente em cuneiforme persa e se localiza no painel central do Salão Assyrio do Theatro Municipal, um ambiente esplendoroso inaugurado em 14 de julho de 1909 e cuja construção e ambientação cênica ficaram a cargo da empresa francesa La Grande Tuilerie d’Ivry (também conhecida como Grès Muller). Esse grupo foi fundado em Paris pelo engenheiro Émile Muller em 1854, e foi quem construiu as balaustradas de cerâmica da Torre Eiffel. Muller morreu em 1889, mas sua empresa familiar prosseguiu fazendo obras sob a direção de seu filho, Louis Muller, e um dos últimos trabalhos da companhia antes de fechar as portas, em 1908, foi justamente a decoração do Salão Assyrio do Theatro Municipal carioca, entre 1905 e 1909.
Todo revestido em cerâmica esmaltada, com painéis de mosaico, o Salão Assyrio já abrigou um restaurante e um cabaré, além de ter sido palco de suntuosos bailes de máscaras do Theatro. A iconografia (obras e modelos) que a empresa Grès Muller — a mesma que legou à França a Torre Eiffel — enxertou na decoração, conforme esclarecem os pesquisadores, é ligada às coleções de artefatos iranianos (ou persas) do Museu do Louvre que chegaram a Paris na lendária Exposição Universal de 1889.

Em janeiro de 2025, durante uma visita ao Salão Assyrio do Theatro Municipal, o professor Alex Mazzanti Júnior, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em estudos clássicos e linguística indo-europeia, identificou que a inscrição no painel principal da sala parecia trazer uma composição em persa antigo. Mazzanti buscou saber o que significava e fez uma leitura inicial do texto persa, que não era conhecido pela curadoria do teatro. Ele então compartilhou imagens do texto cuneiforme com um expert, Matheus Treuk, professor de arqueologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), especialista em Pérsia Aquemênida. Era inequivocamente persa, mas seria prudente analisar mais detidamente o tema, e os autores resolveram buscar novas informações junto ao Theatro.
A museóloga Raquel Villagrán Seoane, coordenadora do Centro de Documentação do Theatro Municipal, integrou-se à busca e passou a colaborar com o esforço pela tradução do texto e a contextualização do ambiente, cedendo imagens de alta resolução da inscrição e documentos históricos sobre o salão. Graças a esse trabalho coletivo, os autores finalmente puderam analisar criticamente todo o ambiente cenográfico do Salão Assyrio e traduzir, contextualizadamente, a misteriosa inscrição. Entre suas conclusões, está a de que o conjunto decorativo do salão possui uma composição eclética, inspirada em achados de diversas fontes e com uma composição moderna e singular. A elucidação do contexto histórico (e das circunstâncias de manufatura da decoração) acabou gerando uma nova demanda de visitas guiadas ao salão do Theatro.
São numerosas as ligações entre o Salão Assyrio carioca e os artefatos arqueológicos preservados em Paris, especialmente no Louvre. O salão do Rio de Janeiro deriva de um crescente movimento de fascínio e imaginação orientalistas instaurado pela (re)descoberta dos artefatos de Susa no século XIX. A inscrição em cuneiforme, da qual não se sabia o significado até agora, reitera essa fascinação. O termo cuneiforme significa “em forma de cunha”, e é como se designa um dos mais antigos sistemas de escrita da humanidade, criado pelos sumérios na Mesopotâmia (atual Iraque) por volta de 3200 a.C.
O texto cuneiforme original (vertido para o padrão Unicode) é esse:
𐎠𐎱𐎭𐎠𐎴𐏃𐎹𐎠𐏐𐎠𐎼𐎫𐎧𐏁𐏂𐎠𐏃𐎹𐎠𐏐 𐏋𐏐𐎺𐏀𐎼𐎣𐏐𐏋𐏐𐏋𐎹𐎠𐎴𐎠𐎶𐏐𐎭𐎠𐎼
𐎹𐎺𐎢𐏁𐏃𐎹𐎠𐏐𐏋𐏃𐎹𐎠𐏐𐎱𐎢𐏂𐏐
A tradução para o português é a seguinte:
“Do Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario”.
Apadana é termo oriundo do persa antigo que designa um suntuoso salão de recepções solenes ou palácio dos antigos reis da Pérsia. Artaxerxes (497 a.C.—427 a.C.) foi um soberano aquemênida, filho de Dario. A inscrição do salão fica acima da figura de um altar de fogo, à direita, a imagem de um guardião com uma lança que serve de moldura para o início do texto. Do lado direito está a figura do rei, que pratica um ato de oferenda ou de consagração.
Já na época da inauguração do Theatro, cronistas do período debatiam se o tal “restaurante assírio” não deveria ser considerado “persa”, já que era composto por imagens de artefatos encontrados pelos franceses na antiga Susa (uma das cidades mais antigas do Oriente Próximo, no sudoeste do Irã, onde fica atualmente Shush), no final dos anos 1800. O Apadana que fizeram no Salão Assyrio é baseado no de Susa. O cronista João do Rio (1881—1921), homenageado pela Feira Literária de Paraty de 2024 e um dos originadores da moderna crônica literária no Brasil, chegou a escrever sobre o Salão Assyrio quando de sua construção, em 1913. João do Rio assinou a crônica com um de seus pseudônimos, Paulo Barreto:
“O teto que parece esmagar, as evocações de grandes ciclos históricos em que a Grécia sentia a Ásia colossal, a evocação desses períodos pela reprodução dos frisos, tudo isso ainda é mais aumentado pelo prolongamento multiplicado, refletido nos espelhos engastados em bronze antigo, pelo murmúrio das fontes d’água remorejando sobre piscinas esguias, pela iluminação leitosa das lâmpadas de formas originalíssimas”.
“A composição de algo inteiramente novo a partir da combinação de temas presentes em diversos sítios arqueológicos e provenientes de diferentes períodos históricos é uma atestação da alta expertise e erudição da Grès Muller”, afirmam os pesquisadores em extenso artigo produzido para o SciELO, o “Google” acadêmico brasileiro, ecossistema de informação sobre pesquisas científicas.
No Rio de Janeiro, escrevem os autores do estudo, o artista, ao substituir o rei assírio e seus serviçais pelo rei persa e seus guardas, criou algo inteiramente novo. Ele se inspirou em paralelos de Persépolis e Naqsh-i Rostam, e não apenas de Susa, adaptando o tema da libação assíria à realidade aquemênida. Os atendentes nos flancos do rei, por exemplo, seguram na mão direita um “abanador de moscas” cujo protótipo aparece nos relevos da Sala do Trono de Persépolis, ao mesmo tempo em que, ecleticamente, seguram na mão esquerda uma “toalha” de tipo assírio, em vez da esperada toalha persa com um laço na ponta ou com marcas de dobra. O altar de fogo da versão carioca que substitui, no tema original, a mesa de oferendas assíria e um incensário, evoca, por sua vez, os altares dos relevos funerários aquemênidas de Naqsh-i Rostam.
Na Exposição Universal de 1889, em Paris, a civilização persa figurou em diversos pavilhões e exibições abertos ao público, como no Pavillon des Travaux-publics, no Palais des Arts-Libéraux e na Histoire de l’habitation humaine. Além do intuito instrutivo, também havia um cunho propagandístico nesse esforço, simbolizando o conhecimento e o controle do Estado francês sobre essas culturas do resto do mundo, e realçando parâmetros colonialistas de superioridade e inferioridade. Para os pesquisadores que fizeram o trabalho, “o Salão Assyrio constitui, sem sombra de dúvida, uma das obras mais fascinantes e excepcionais da história do orientalismo e da recepção da Antiguidade Persa, devendo ter um lugar de destaque nos estudos sobre o tema no país”.





