Na grande cúpula do Museu Nacional da República, em Brasília, centenas de banquinhos de madeira sugerem um desafio como aqueles das variações sobre um mesmo tema. Ledo engano. Ali, são os temas que se apossaram de uma hipotética funcionalidade única. Na exposição Bancos Indígenas do Brasil: Rituais, em cartaz até 22 fevereiro no Museu Nacional, a seleção de 600 bancos (recortada de um lote de 1,3 mil peças da impressionante Coleção Bei, amealhada por Marisa Moreira Salles e Tomás Alvim nos últimos 20 anos) apresenta uma diversidade de visões de 51 etnias de todo o Brasil, algo raramente igualado em termos de arte indígena.

Dada a unicidade temática, é de se perguntar como a mostra Bancos Indígenas está maravilhando espectadores em todo o mundo e levando centenas de visitantes à Esplanada dos Ministérios diariamente. Recentemente, ao escolher aos 10 melhores exposições de arte nativa de 2025, a publicação norte-americana First American Art Magazine incluiu a mostra brasileira como um dos destaques. A exibição dessas peças iniciou-se ainda durante a conferência COP 30, em Belém do Pará, em novembro, juntando-se a outros artefatos
agora em exposição em outros locais icônicos de Brasília, como o Palácio Itamaraty e o Memorial dos Povos Indígenas.

Os banquinhos indígenas, a princípio, parecem sugerir um uso só e inequívoco: o de sentar-se. Mas representam uma diversidade grande de destinações, a maior parte delas cerimoniais. Há bancos de pajés, de caciques e bancos de usos femininos. Há peças que integraram rituais de reclusão, de passagem, de agradecimento pela colheita, de cura ou
em memória de mortos. Como se sabe, as cerimônias são eventos centrais nas culturas
indígenas, mas elas não são uniformes. Entretanto, o banco tem sido um objeto cotidiano
presente em grande parte delas.

Uma onça parda em movimento esguio olha para a esquerda, e seu olhar e a posição das
orelhas enfatiza um diálogo com o espectador. Um sapo com a língua estirada guarda as
costas do banquinho de pernas curtas. O rabo do macaco, esticado até o solo, compõe um
tripé de equilíbrio no banco que o torna à prova de quedas. O banco-caranguejo posta a
garra à frente para criar um braço de apoio. Bancos-saguis levam os filhotes às costas.
Gaviões de duas cabeças, urubus, antas, pacas, tatus: a floresta comparece esculpida em
toda sua diversidade na festa dos banquinhos de aldeia.

Esculpidos, em geral, a partir de uma peça de madeira única, um tronco ou uma raiz, sua
forma se desenvolve a partir das formas já presentes na natureza, e o que espanta é a
multiplicidade de visões que os povos indígenas aplicaram a partir da oferta natural.
Conforme escreveu Darcy Ribeiro, na contribuição indígena na formação da identidade
nacional, além da matriz genética, incluía-se a de “agente cultural que transmitia sua
experiência milenar de adaptação ecológica às terras recém-conquistadas”. Os bancos
ritualísticos exemplificam formidavelmente essa capacidade de adaptação ecológica. Suas
formas, encaixes, curvaturas e entalhes seguem as pistas daquilo que já se ofertava na
mata, no tronco que desceu o rio ou na raiz que emergiu com a queda da árvore.

Segundo os curadores, quase todos eles indígenas (Akauã Kamayurá, Antonio Bane
Huni-Kuí, Krumaré Karajá, Mayawari Mehinaku, Rael Tapinaré, Salomão Tikuna, Sokrowe
Karajá, Tawai Yudjá, Thiago Djekupe, Warealup Kaiabi, Yawapi Kamayurá), os bancos de
madeira são peças de destaque na hierarquia indígena, sendo muito utilizados pelo pajé e
pelo cacique. “É comum que o cacique se sente em seu banco ao transmitir notícias à
comunidade, anunciar novas diretrizes, administrar agendas ou mediar conflitos”.

Há também uma seleção fabulosa de bordunas, clavas, remos, lanças, machadinhas e
outros objetos em torno das peças de destaque, que são os bancos. A consistência das
narrativas que o objeto carrega o torna uma peça de “anti-design”, algo que não está a
serviço de equacionar um problema ou uma demanda estética, mas sim de fazer uma
transição harmoniosa entre o que a natureza oferece e o espírito humano necessita.

“O banco é, portanto, um objeto de uso difuso e carregado de significados, que acompanha
momentos marcantes da vida indígena”, diz o texto dos curadores. “Abordá-lo a partir do
seu uso ritual acrescenta novas camadas de sentido, revelando ainda mais complexidade,
sofisticação e beleza nas culturas dos povos originários do Brasil”.


Cadastre-se na nossa newsletter

Deixe um comentário

Por favor, escreva um comentário
Por favor, escreva seu nome