América invertida, 1943. Crédito: © Museo Torres García

“Nosso norte é o Sul” – essa frase sintetiza o pensamento de Joaquín Torres García, artista, teórico e pedagogo uruguaio que dedicou sua vida e obra a elevar a arte da América Latina, frequentemente desprezada no início do século 20. 

Torres García viveu parte da sua vida na Europa, em cidades como Paris e Barcelona, e, em vez de importar os moldes clássicos dessas tradições artísticas, incorporou elementos latinos para criar sua própria arte. Suas obras de abstracionismo geométrico traziam signos e símbolos do Sul, buscando valorizar culturas ancestrais e pré-colombianas. Em cartaz atualmente no CCBB São Paulo, Joaquín Torres García – 150 anos apresenta, além de obras, documentos, cartas e demais escritos do artista, com o objetivo de divulgar suas ideias a um público ainda maior. 

Joaquín Torres García em seu ateliê na rua Abayubá, 1934. Crédito: ©Museo Torres García

O artista é mais conhecido no Brasil por América Invertida, desenho de 1943 em que inverte a representação cartográfica tradicional, posicionando a América do Sul no topo do mapa. A obra condensa a ideia de universalismo construtivo, uma síntese entre a abstração geométrica universal e as tradições da América pré-colonial.

Realizada em parceria com o Museu Torres García, em Montevidéu, a mostra tem curadoria do brasileiro Saulo di Tarso, que pesquisa o pioneiro da arte latino-americana e propõe um diálogo entre suas obras e as de outros artistas, tanto contemporâneos quanto modernos. “É uma grande rapsódia que tenta reiterar a América do Sul como potência da arte geométrica”, afirma Tarso sobre a seleção de trabalhos. 

A exposição não se estrutura em núcleos, mas sim com base nos escritos e nas ideias de Torres García. Os andares do percurso expositivo são cortados pela linha do Tratado de Tordesilhas – firmado entre Portugal e Espanha em 1494 para dividir as terras do “Novo Mundo” –, que aparece como fio condutor e suscita reflexão sobre as consequências deste acordo nos dias atuais. 

“A mostra parte de uma linha contínua, que vai espelhando, refletindo e fazendo um zig-zag de camadas de tempo”, explica o curador. “Queríamos deixar o artista falar por si próprio – como uma espécie de arqueologia do futuro, com as ideias de um visionário da arte contemporânea”. Ele destaca publicações pioneiras de Torres García, como Cercle et Carré, revista ligada à abstração geométrica fundada por ele e Michel Seuphor em 1930, em Paris, uma das mais importantes da vanguarda europeia. “Ele traz, com uma diferença de 40 anos, ideias que só iriam aparecer [no Brasil] no movimento de arte neoconcreta”, afirma.

Em sua obra, a geometria aparece como questão fundamental: linhas simplificadas, quadrados, círculos, o eixo perpendicular, assim como a simbologia de diversas culturas humanas, unindo tradições do Ocidente à arte pré-colombiana e africana. O interesse por esses sistemas simbólicos o levou, inclusive, a estudar signos da arte rupestre brasileira a partir de livros de arqueologia.

Mais de 70 outros artistas – como Arthur Bispo do Rosário, Volpi, Cildo Meirelles, Emmanuel Nassar e Hélio Oiticica – também estão expostos. Nomes do modernismo brasileiro, especialmente as correntes concretas e neoconcretas de São Paulo, foram integrados para interagir com os trabalhos do uruguaio. 

Além disso, um dos nomes contemporâneos a participar é Anna Bella Geiger, que visitou uma importante mostra dedicada ao artista em 1978, afetada pelo incêndio que ocorreu no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro no mesmo ano. A artista fará uma performance exclusiva em sua homenagem. Já o pernambucano Montez Magno apresenta uma pintura realizada logo após o incêndio, que referencia tradições espanholas comuns ao Nordeste brasileiro. Outra pessoa influenciada por Torres García foi Lina Bo Bardi, cujas obras promovem o encontro entre os pensamentos de ambos.

Torres García escreveu cerca de 10 livros, além de numerosos ensaios, manifestos e textos pedagógicos publicados em revistas e catálogos. Travou conversas com importantes artistas de seu tempo – entre eles Vincent Van Gogh, Marcel Duchamp, Pablo Picasso e Piet Mondrian, este último tendo sido um colaborador com quem manteve uma duradoura amizade. Trocou cartas até com a escritora Cecília Meirelles, cujas palavras abrem a exposição. 

Tarso destaca a pedagogia do artista – fundou, em 1943, o Taller Torres García, em Montevidéu. Este foi o principal centro de formação, produção e difusão das ideias do universalismo construtivo. O artista propunha um método pedagógico rigoroso, que incluía diversas linguagens artísticas, com o objetivo de desenvolver uma arte  e estética próprias da América Latina. 

Os “juguetes”, brinquedos de madeira articuláveis que o artista produziu entre as décadas de 1910 e 1920 como forma de sustentar sua família, também estão expostos. Eles funcionam como modelos práticos do pensamento construtivo do artista, integrando a infância à arte moderna e estimulando uma relação ativa entre forma, estrutura e espaço.

Cachorro, 1920. Crédito: Coleção Marta e Paulo Kuczynski

A mostra foi montada a partir do acervo do Museu Torres García, já que grande parte de suas obras-primas se perdeu no incêndio do  Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Estima-se que cerca de 90% do acervo do museu tenha sido destruído na ocasião. 

“Essa exposição é um apelo à união, à transcendência, não ao aprofundamento do conflito, mas à valorização pura e simples de quem somos”, afirma Tarso. “Não somos o novo mundo – somos pessoas que vieram ao encontro de velhas culturas e geram a renovação de velhos mundos. A ideia é que as pessoas não passem pela mostra, mas sim vivenciem ela – por meio do pensamento, da sua história nas paredes, da música e de outras ativações interativas”. 

A curadoria traz um recorte específico para cada itinerância da mostra. Em São Paulo, o viés é geométrico e simbolista, enquanto, em Brasília, se reflete sobre as relações entre arte, cidade e espaço público e, em Belo Horizonte, sobre a conexão com a arte popular e a cultura mineira. Algumas das ativações – como a presença de músicas com temas decoloniais, desde Apenas um Rapaz Latino Americano, de Belchior, a Sulamericano, do Baiana System – ainda serão incorporadas à exposição.

 


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