“Céu-Eclipse” é um nome enigmático para uma exposição que lida com a questão fundante da relação entre o homem e o seu ambiente. A mostra em cartaz até o fim de abril no Museu Paranaense (MUPA), combina abordagens cosmogônicas, imaginárias a indagações de caráter investigativo, científico, tocando num dos pontos mais sensíveis da atualidade: uma consciência dupla, paradoxal, de paralisia e convocação à ação diante do colapso ambiental. Enquanto a noção de céu contida no título – tomado de empréstimo de um livro de poesias publicado em 1999 por Régis Bonvicino – alude a uma simbologia potente (que lida com noções como tempo, clima, natureza, ciclo…), a ideia de eclipse remete a essa sensação de suspensão, à consciência de que vivemos um momento de crise em que a espécie humana é convocada a agir. Afinal, estamos diante de muitos pontos de não-retorno, num cenário de “oclusão temporária”, como explica Pollyana Quintella, que assina a curadoria do evento com Richard Romanini, diretor artístico do museu.
A seleção é enxuta, com apenas oito artistas. Mas traz um conjunto diverso de linguagens e origens, estabelecendo conexões com a ecologia, a memória e as cosmovisões. Vão de intervenções minúsculas e delicadas, quase imperceptíveis, como a instalação de Flora Leite, que alinha pequenas abelhas de acordo com o percurso do sol no espaço expositivo, à expografia construída com materiais precários e de refugo, reforçando a ideia de instabilidade que atravessa toda a mostra. Destaca-se, por exemplo, a lona agrícola translúcida que empresta ao espaço um caráter ao mesmo tempo diáfano e transitório, material que será reaproveitado ao término do evento para a construção de um viveiro e um sistema de coleta de água criado pelo núcleo de arquitetura do museu.
O caráter incomensurável das forças da natureza, a pequenez e ousadia do indivíduo diante do gigantesco poder de elementos como o vento e o gelo estão na base dos trabalhos de Francis Alÿs e Guido van der Werve. Em “Tornado”, o artista belga radicado no México enfrenta os moinhos de vento de forma quixotesca e amedrontadora, enquanto em “Nummer acht, everything is going to be alright”, o holandês caminha sozinho no Mar Báltico congelado, sendo seguido por um gigantesco barco quebra-gelo, que automaticamente desfaz o caráter romântico do deslocamento solitário, deixando uma ferida aberta na paisagem. São coreografias de escalas desiguais, como bem afirmam os curadores no catálogo da exposição, com muitas camadas de leitura e incômodo, falando de destruição e poesia, resistência e assombro.
O vento, elemento que na ação proposta por Alÿs tem um caráter trágico, revelando ao mesmo tempo impotência e voluntarismo, é incorporado por Erika Verzutti de forma um tanto irônica. A passagem das massas de ar é apenas sugerida, por uma certa malemolência que entra em choque com o caráter estável do bronze, gerando um inesperado efeito de desordem nas esculturas, deslocando seus elementos de forma suave e bagunçando uma suposta ordem idealizada, projetada.
Noções como acaso, instante, fatalidade conduzem o espectador ao longo dos trabalhos propostos. Essa noção de frágil equilíbrio também se faz presente nas delicadas esculturas de aparência flutuante criadas por Marcelo Conceição a partir de materiais banais recolhidos em garimpos urbanos pelas ruas do Rio de Janeiro, onde viveu por dez anos.
Dentre as muitas imagens presentes na mostra, talvez o raio seja a mais presente. E potente. Em “Temporali”, o italiano Alberto Garutti conecta dois territórios distantes, fazendo com que uma instalação de lâmpadas presentes no Museu Paranaense se ilumine cada vez que um raio cai na Itália. Para quem pensa que os eventos são esporádicos, apenas no mês de janeiro de 2026 mais de quatro mil relâmpagos foram registrados. Esse misto de fascínio, temor e admiração pelo fenômeno atmosférico encontra na fotografia de Davi Kopenawa e Ailton Krenak sob o arco-íris uma síntese eloquente. Instantes antes do registro feito por Christian Braga, Kopenawa havia convocado um raio no centro da aldeia, em meio às comemorações dos 30 anos de homologação da terra Yanomami. Outro documento de grande impacto resgatado pela exposição é o primeiro registro fotográfico de um relâmpago, feito em 1882 por William Jennings. São lampejos, centelhas luminosas que iluminam, assustam ou conectam histórias e narrativas, criando nexos instantâneos ou duradouros.
“Não queríamos estruturar a exposição como um manifesto ecológico”, diz Romanini. A curadoria tampouco convoca a arte a dar respostas. “A arte não está sendo convocada para resolver problema algum”, diz Pollyana, acrescentando que cabe a ela — “e não é pouco” — “expandir os limites do nosso imaginário, tornar tangível o que a compreensão racional tem dificuldade de entender”.
Há também por parte da curadoria uma clara intenção transdisciplinar e uma tentativa de expandir os efeitos desse processo de reflexão para além dos limites temporais da mostra. Um alentado catálogo, com cerca de 200 páginas, será lançado na segunda quinzena de abril. Além do material relativo à exposição, nele estão reproduzidas entrevistas com os três consultores que ajudaram os curadores a “escutar o céu não apenas como metáfora, mas como entidade viva, atravessada por saberes e forças em permanente negociação”. São eles a cientista Marina Hirota, a filósofa Déborah Danowski e Sheroanawe Hakihiiwe, o xamã e artista yanomami, que também integra a exposição. Outra figura do campo da ciência, considerada como uma pedra angular para essa reflexão é o geólogo Reinhard Maack, que nos anos 1930 construiu o primeiro observatório meteorológico do Paraná e trabalhou no MUPA. O museu, que se organiza em torno dos núcleos de antropologia, arqueologia e história, completa 150 anos em 2026 e planeja para o segundo semestre uma série de intervenções no tecido urbano de Curitiba.





MARIA HIRSZMAN é jornalista e crítica de arte. Trabalhou no Jornal da Tarde e em O Estado de São Paulo. É pesquisadora em história da arte, com mestrado pela USP. Neste número entrevistou os diretores e curadores do Mupa e e escreveu sobre as futuras instalações do Sesc Parque Dom Pedro II.
LUIZA LORENZETTI é jornalista, especialista em Mídia, Informação e Cultura pelo CELACC-USP. Atualmente, é Gerente Web da Arte!Brasileiros. Nesta edição entrevistou a artista Grada Kilomba em Inhotim e conviveu com artistas da Ilha do Ferro.
FABIO CYPRIANO Jornalista, é crítico de arte, professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes da PUC-SP. Escreveu sobre a Casa Brasil e o Museu Vassouras.
JOTABÊ MEDEIROS é repórter e biógrafo, entre outros, do cantor Belchior. Foi repórter de O Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo, entre outros. Escreveu Quando a arte afro-brasileira volta em peso para casa no Muncab.
LEONOR AMARANTE jornalista, curadora e editora. Trabalhou no Jornal O Estado de S.Paulo, na revista Veja, na TV Cultura e no Memorial da América Latina. É editora e repórter de Arte!Brasileiros desde 2015. Nesta edição escreveu sobre o Museu Oscar Niemeyer e sua extensão no Parque de Vila Velha.
COIL LOPES é desenvolvedor multimídia, designer, videomaker e programador. Atuando na Arte!Brasileiros desde sua fundação, integra criação e tecnologia, produzindo fotografias, vídeos, e diagramou digitalmente a edição 74 de Arte!Brasileiros.








