Exposição “Rio Que Grita" de Joyce Ribeiro

sab11julO dia tododom09agoExposição “Rio Que Grita" de Joyce RibeiroA mostra reúne obras pela cidade e oferece programação gratuita com oficinas, roda de conversa, mediação, percursos e mapas interativos.Cidade de São Gonçalo do Sapucaí, São Gonçalo do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais - MG

Detalhes

Ruas, parques, estabelecimentos e outros espaços de São Gonçalo do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais, passam a integrar uma exposição de arte contemporânea, a artista, educadora e historiadora Joyce Ribeiro transforma histórias, causos caipiras, objetos do cotidiano e referências da cidade natal em fotografias, vídeos, cerâmicas, escritos, ações urbanas e contações de histórias.

A mostra Rio Que Grita reúne obras distribuídas por diferentes pontos da cidade e uma programação gratuita com oficinas, roda de conversa, mediação cultural, percursos de van e a pé e distribuição de mapas interativos.

Primeira individual de Joyce Ribeiro em São Gonçalo do Sapucaí, a exposição é resultado do Projeto Bageira, pesquisa desenvolvida pela artista durante seis anos sobre os modos de relação, ação e convívio no interior. O trabalho também discute a concentração da formação, da circulação e do reconhecimento da arte contemporânea nas grandes cidades.

“Bageira não é sobre levar arte para o interior, mas afirmar que a arte já está lá – e que ela pode ser um espaço de construção de vínculo, de leitura de mundo e de invenção de outras possibilidades de existência que podem interessar a qualquer pessoa, de qualquer lugar”, destaca Joyce. 

Da cidade natal à pesquisa artística

O projeto começou a ganhar forma em 2020, quando Joyce estendeu uma faixa em uma rua da Vila de Fátima, bairro onde nasceu e viveu por 28 anos. Nela estava escrita a frase: “Pensar nela, em oposição a pensar em não pensar nela”.

Naquele período, a artista caminhava pela cidade, anotava as lembranças provocadas pelos lugares e, no dia seguinte, relacionava essas anotações à ficção, à escrita e a novas imagens do território. A faixa integra agora a exposição.

Joyce abriu seu primeiro ateliê aos 14 anos, começou a lecionar aos 17 e, aos 28, mudou-se para São Paulo para estudar artes visuais. O contato com instituições, escolas e espaços de formação modificou também seu olhar sobre São Gonçalo do Sapucaí.

Ao retornar à cidade, passou a aproximar os conhecimentos adquiridos no circuito da arte contemporânea das narrativas, dos hábitos e das referências do interior.

“Não me interessa separar o que é lembrança, invenção ou história, mas compreender como essas dimensões produzem juntas uma forma de conhecimento”, afirma Joyce Ribeiro.

No texto de apresentação da exposição, o artista e analista Enrico Rocha observa que, no movimento entre a pequena cidade e o maior centro urbano do país, Joyce percebeu que migrar também pode tornar alguém estrangeiro no próprio lugar. Essa estranheza transformou-se em matéria para a produção artística.

A árvore que virou canoa

A origem simbólica do projeto está na Bageira, árvore que ocupava a região central de São Gonçalo do Sapucaí, nas proximidades da igreja matriz. Mesmo abatida em 1956, ela permaneceu nas histórias e referências dos moradores.

No projeto, Joyce cria outro destino para a árvore: depois de morrer, a Bageira teria se transformado em uma canoa para tocar o rio Sapucaí. “Bageira representa justamente a permanência intangível da história e da memória, ela guarda o imaginário regional de uma comunidade sobre o seu território”, afirma a artista.

O título Rio Que Grita também se relaciona ao território. De origem tupi-guarani, a palavra Sapucaí pode ser traduzida como “rio que grita” ou “rio que canta”, em referência aos sons produzidos pelas cumbucas da árvore sapucaia ao caírem na água.

A imagem do rio conduz a exposição e se associa a ideias de movimento, fronteira, deslocamento e retorno.

Causos e narrativas orais

Formada em História pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e pós-graduada em História, Sociedade e Cultura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Joyce utiliza causos, mitos, lendas, boatos e narrativas orais como formas de produzir conhecimento sobre a vida comunitária.

Para o curador da exposição, o arquiteto, artista visual e diretor do Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP), Nilton Campos, essa abordagem se relaciona diretamente às questões da arte contemporânea. “A arte contemporânea tem, em sua essência, a proposta de discutir a própria realidade e o cotidiano em que vivemos”, afirma.

Segundo o curador, a combinação entre histórias locais, ficções e diferentes modos de contar amplia a reflexão sobre memória, pertencimento e imaginação. Cada narrativa pode mudar de acordo com quem a conta, o lugar em que é apresentada e as pessoas que a recebem.

Obras construídas com a cidade

Parte dos trabalhos resulta de encontros e acordos estabelecidos durante a pesquisa. Na ação Profundo, realizada no Lago Piscina, antigo local de mineração transformado em parque, Joyce depositou uma boia de mergulho na água.

Moradores que acompanhavam o trabalho disponibilizaram um barco, ensinaram a artista a remar, ajudaram na gravação e permaneceram no local até a conclusão da ação.

Em outro trabalho, Joyce estabeleceu um trato com o caminhoneiro Reinaldo Massei, conhecido como Sr. Branco. Ele emprestou o para-barro do caminhão para que a artista pintasse a frase “Rio Que Grita” e assumiu o compromisso de contar, pelas estradas do país, que Sapucaí significa “rio que grita” ou “rio que canta”.

Para Nilton Campos, a presença das obras em diferentes pontos permite que a exposição mobilize tanto os espaços quanto as pessoas da cidade. “O que mais me chamou a atenção na exposição, é que a Joyce, ao fazer essa proposição artística, ativa a própria cidade, fazendo com que os moradores repensem suas origens e suas referências no espaço urbano”, afirma.

Enrico Rocha sintetiza essa relação no texto de apresentação da mostra: “A cidade participa”.

Serviço
Exposição | Rio Que Grita
De 11 de julho a 9 de agosto

Período

11 de julho de 2026 - 9 de agosto de 2026 (O dia todo)(GMT-03:00)

Local

Cidade de São Gonçalo do Sapucaí

São Gonçalo do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais - MG

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