Exposição “Geometrias do Invisível"
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Elas criaram tecidos, pesquisaram materiais, desenharam objetos e ajudaram a transformar a relação entre arte e vida cotidiana. A influência das mulheres da Bauhaus, porém, nem sempre veio acompanhada do
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Elas criaram tecidos, pesquisaram materiais, desenharam objetos e ajudaram a transformar a relação entre arte e vida cotidiana. A influência das mulheres da Bauhaus, porém, nem sempre veio acompanhada do reconhecimento de sua autoria.
É a partir dessas trajetórias que Andrea Natali constrói “Geometrias do Invisível“, sua primeira exposição individual, que reúne 22 peças de seda pintadas especialmente para a mostra, além de lambe-lambes com composições próprias desenvolvidas a partir dessa pesquisa. Com entrada gratuita, a exposição abriu no dia 15 de outubro, no Espaço República, em São Paulo, e permanece em cartaz até o dia 29 deste mês.
As mulheres da Bauhaus
Entre as homenageadas estão Gunta Stölzl, Anni Albers, Benita Koch-Otte, Lilly Reich, Margaretha Reichardt, Lucia Moholy, Marianne Brandt e Alma Siedhoff-Buscher, mulheres que fizeram parte da Bauhaus, escola fundada na Alemanha, em 1919, e que ajudaram a reformular o design moderno.
Com mais de cem anos de história, a Bauhaus propõe integrar arte, arquitetura e design. A abertura à presença feminina convivia, porém, com restrições que direcionavam muitas mulheres à tecelagem e a atividades consideradas mais apropriadas a elas. Mesmo dentro dessas limitações, suas pesquisas ampliaram as possibilidades dos materiais e influenciaram a criação moderna.
A descoberta dessas trajetórias mudou o próprio rumo da exposição. O projeto começou a ser desenvolvido em dezembro do ano passado. “No começo, era uma homenagem aos artistas da Bauhaus em geral. Até que eu cheguei às mulheres e me apaixonei”, conta Andrea. “Quero trazer a importância delas para o que foi a Bauhaus.”
Para o curador Renato Dib, a pesquisa revela justamente a dimensão menos visível dessa história. “O invisível deixa de ser vazio e revela a influência de mulheres cujas ideias continuam a atravessar a arte e a vida cotidiana”, afirma.
Seda, luz e transparência
Na exposição, os tecidos de seda ficam suspensos, formando um ambiente de cores e transparências no qual o visitante circula entre as peças. A passagem da luz e as sobreposições alteram a percepção dos desenhos conforme o público se desloca.
“Mergulhamos em um universo de cores e formas que se modificam na nossa caminhada por ali e criam novos diálogos. Transparências se sobrepõem para criar novos desenhos”, afirma Dib.
Andrea utiliza aquarela sobre seda e um espessante que permite controlar a tinta e desenhar diretamente no tecido sem que ela se espalhe. A técnica faz parte de um repertório construído ao longo de 35 anos de trabalho, entre experimentações e cursos, como o de batique que estudou na ilha de Java, na Indonésia.
Da seda às ruas
A pesquisa também deixa o espaço expositivo para ocupar as paredes da cidade. Os lambe-lambes desenvolvidos por Andrea estão espalhados em diferentes bairros da região central de São Paulo e combinam referências às mulheres da Bauhaus, formas geométricas e elementos da fotografia da artista, incluindo imagens de escadas. “Colá-los na cidade é também ampliar a presença dessas mulheres e dar visibilidade às histórias que alimentam meu trabalho”, diz Andrea.
Ao longo da preparação da mostra, a artista desenvolveu mais de 300 composições. Dessas, Dib selecionou 20 para a exposição, explorando recursos como repetição, fragmentação e acúmulo de camadas.
Uma trajetória entre moda e arte
A relação de Andrea Natali com a seda começou muito antes dessa exposição. Ela começou a pintar o material no início dos anos 1990, quando estudava arquitetura e recebeu um convite para trabalhar em um ateliê que atendia uma loja de peças únicas nos Jardins. Depois, passou a desenvolver estampas, tingimentos e cartelas de cores para marcas como Daslu, Mixed e Osklen.
Conhecida profissionalmente como Deinha, a artista também trabalhou com aerografia e tie-dye, técnica que combina dobraduras, amarrações e tingimento. Suas criações chegaram à moda praia, às roupas de ginástica e aos desfiles, desde a época do Phytoervas Fashion, incluindo peças produzidas exclusivamente para as passarelas.
A abertura de “Geometrias do Invisível” foi marcada para coincidir com a São Paulo Fashion Week, que acontece de 14 a 18 de outubro, retomando essa ligação entre arte, moda e vestuário.
Embora tenha reduzido a produção para o mercado de moda, Andrea mantém trabalhos para a estilista Angela Motta. Suas criações integram peças da marca usadas por Glorinha Kalil, Gloria Coelho e Consuelo Blocker.
Fotografia e o retorno à produção autoral
A fotografia acompanha Andrea desde os dez anos, quando ganhou do pai sua primeira câmera. Durante a pandemia, aprofundou a produção autoral e passou a fotografar diariamente a escadaria do prédio onde mora, procurando novos ângulos para um mesmo lugar.
Foi também nesse período que retomou a seda que mantinha guardada e começou a pintar lenços, posteriormente criando peças com releituras de Kandinsky. A retomada ajudou a aproximar novamente diferentes linguagens que já faziam parte de sua trajetória.
A decisão de realizar a primeira individual ganhou força depois que Andrea transferiu seu ateliê de casa para o Espaço República, atraída pela efervescência cultural do bairro. Após participar de cerca de 30 exposições coletivas, escolheu a pintura em seda como ponto de partida para esse novo momento.
“Eu comecei pintando seda pura e é assim que eu quero fazer a minha primeira individual. É o resgate da minha arte, da minha essência”, afirma Andrea.
Da exposição para a moda
A pesquisa sobre as mulheres da Bauhaus também tem um desdobramento fora da galeria. Andrea prepara, em parceria com o estilista Gabriel Pascolato, uma coleção cápsula de oito peças, cada uma dedicada a uma das artistas homenageadas na exposição.
Gabriel é o responsável pelo desenho das roupas, enquanto Andrea faz a pintura manual de cada peça. O lançamento está previsto para acontecer ainda em 2026.
Serviço
Exposição | Geometrias do Invisível
De 16 a 29 de outubro
Segunda a sábado, das 12h às 18h. Fechado aos domingos.
Período
Local
Espaço República
Avenida São Luís 86, República – São Paulo - SP
