Exposição "Estranha Natureza" de Adriana Coppio
Detalhes
A Sardenberg tem o prazer de apresentar Estranha Natureza, de Adriana Coppio. Plantas, insetos, construções e figuras humanas oferecem a proximidade de um mundo conhecido. Aos poucos, as formas admitem
Detalhes
A Sardenberg tem o prazer de apresentar Estranha Natureza, de Adriana Coppio. Plantas, insetos, construções e figuras humanas oferecem a proximidade de um mundo conhecido. Aos poucos, as formas admitem outras leituras. Um tronco sugere um corpo, um inseto se confunde com um galho, uma reunião de crianças adquire a gravidade de uma aparição. O reconhecimento abre uma pergunta. “Estranha” designa tanto aquilo que vemos quanto o movimento de um olhar que começa a rever suas certezas.
Nas pinturas em acrílica de Coppio, a cor participa dessa dúvida. Amarelos e ocres aproximam matérias distintas, verdes se adensam nas sombras, rosas ganham intensidade junto aos azuis. A luz parece emergir do fundo da tela ou concentrar-se numa superfície, conferindo-lhe uma presença inesperada. O olhar acompanha essas relações, descobre semelhanças e depois as desfaz. Uma planta pode sugerir alguém sem deixar de ser planta. A imagem sustenta ambas as percepções.
Em Exuberância em Azul, o azul ocupa grande parte da tela e altera a escala perceptiva do vaso. O recipiente alaranjado e as flores rosas avançam contra esse campo, enquanto diagonais escuras o atravessam. Os galhos e suas sombras oferecem configurações diferentes de um mesmo organismo. A intensidade cromática confere à planta uma presença que encontra ressonância no protagonismo do vegetal em Tarsila do Amaral. Coppio preserva as irregularidades e texturas do crescimento, fazendo a cor conviver com a observação minuciosa da matéria.
Em Florida, os tons quentes do vaso, do tronco e do piso estabelecem continuidades, interrompidas pelos claros da parede. Ao fundo, uma flor esculpida encontra sua contraparte na planta viva. A repetição do motivo aproxima ornamento e organismo, mas seus tempos divergem. Uma forma foi fixada na arquitetura; a outra permanece sujeita ao crescimento. Na base avolumada da rosa-do-deserto, podemos reconhecer membros ou um corpo recolhido. Essa anatomia possível aproxima a pintura das continuidades entre corpo e natureza exploradas por Maria Martins. Em Coppio, a metamorfose permanece suspensa no olhar, que pode reconhecer uma figura humana e voltar a perceber a planta.
Sua toxicidade acrescenta uma tensão à cena. Cultivada pela beleza, ela participa da intimidade doméstica sem se tornar inteiramente inofensiva. O vaso acomoda essa convivência entre atração e risco. Também a flor esculpida merece atenção, pois a pintura dá espessura ao que facilmente seria percebido como simples decoração. Diante dela, podemos perguntar quanto de nosso julgamento já estava decidido ao classificarmos alguma coisa como ornamental. O olhar chega às imagens com valores aprendidos, que elas podem colocar em questão.
Em Anjos, os claros dos trajes aproximam as crianças numa forma coletiva, enquanto os rostos preservam diferenças e expressões particulares. As asas permitem reconhecer uma encenação religiosa. A frontalidade e a quietude, porém, emprestam ao grupo a solenidade de uma aparição. Esse encontro entre infância, intimidade e imagem sagrada permite uma aproximação com Farnese de Andrade, em cujos objetos bonecos e referências devocionais adquirem uma presença inquietante. A afinidade se estende aos insetos pintados por Coppio, cujas configurações sugerem máscaras ou rostos. Entre a criança vestida de anjo e o inseto que parece devolver nosso olhar, a pintura mantém aberta a dúvida sobre o que constitui uma presença.
A infância comparece na possibilidade de experimentar outra identidade, de vestir uma imagem e oferecer-se ao olhar dos outros. Há uma afinidade com os livros de histórias, nos quais o extraordinário pode surgir dentro de um ambiente familiar. O inquietante se insinua nessa proximidade.
Em Hierofania, os ocres aproximam o tronco e a construção, tornando difícil estabelecer onde termina uma matéria e começa a outra. A copa se abre em verdes e amarelos contra o céu. A árvore que brota da igreja parece participar de sua arquitetura, ao mesmo tempo que a transforma. O título orienta nossa atenção para uma manifestação do sagrado; a pintura mantém em aberto seu lugar. Ele pode estar no edifício, no crescimento vegetal ou na relação que nosso olhar estabelece entre ambos.
Num presente que solicita identificação e resposta imediatas, essas pinturas prolongam o intervalo entre ver e decidir. Sua pertinência está na experiência de perceber que a primeira identificação permanece insuficiente e que precisamos voltar à imagem. A cor nos aproxima, uma semelhança nos detém, um detalhe modifica o conjunto. Em Estranha Natureza, a familiaridade não encerra o encontro. Quanto mais olhamos, mais percebemos o que ainda escapa.
Serviço
Exposição | Estranha Natureza
De 26 de outubro a 26 de novembro
Terça a sexta, das 10h às 18h; Sábados, das 11h às 17h
Período
Local
Sardenberg
Travessa Dona Paula, 29 / 134 - Consolação - São Paulo - SP
