Exposição "Entre a favela, o inferno e o céu" de Douglas Lopes
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Artista visual e fotógrafo, Douglas Lopes (1991) nascido e criado na Favela da Maré, zona norte do Rio de Janeiro, inaugura exposição individual no quinto andar da Fábrica Bhering. Com
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Artista visual e fotógrafo, Douglas Lopes (1991) nascido e criado na Favela da Maré, zona norte do Rio de Janeiro, inaugura exposição individual no quinto andar da Fábrica Bhering. Com curadoria de Vinicius Mesquita, “Entre a favela, o inferno e o céu” apresenta séries de fotografias emblemáticas de sua produção e uma instalação inédita.
A mostra é parte de um projeto mais amplo de Lopes, contemplado com uma bolsa de dois anos no Programa de Inovação Social, Tecnológica e Ambiental (Pista), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). Conduzido por agentes culturais de diferentes favelas e complexos, o programa tem como objetivo estimular iniciativas concebidas e desenvolvidas a partir desses territórios. Além da exposição, o projeto contempla a publicação de um livro e a reestruturação da plataforma digital do fotógrafo, que será relançada no evento, e passa a se chamar Estúdio Maré.
Percurso de ‘Entre a favela, o inferno e o céu’
Treze fotografias digitais de 150 x 100cm cada, impressas sobre tecido e suspensas por cabos de aço, formam a instalação inédita “Círculo de fogo” (2026). A sobreposição de imagens dos alunos do Núcleo de Formação em Dança do Centro de Arte da Maré faz alusão ao espectro das cores do fogo. O trabalho ocupa o espaço central da galeria e cria um caminho visual a ser percorrido pelos visitantes. “Gosto de brincar com o fogo e da conexão entre a luz do fogo e a fotografia”, conta o artista.
Outro destaque da exposição é a fotografia panorâmica “Dois de janeiro” (2018), de 36 x 110cm, que registra um arco-íris duplo. Captada em 2 de janeiro, em dois anos consecutivos, a imagem cria uma conexão afetiva, porém efêmera, entre duas comunidades cujo controle territorial está nas mãos de grupos rivais. É uma nova forma de se construir narrativas sobre os territórios, para além da violência e das desigualdades sociais.
Em preto e branco, a fotografia digital “Nas águas desta baía há muito tempo” (2024), o artista toma emprestado o título de um livro de Nei Lopes para mostrar a área do antigo Pier Maria Angu, na Favela da Kelson. Antigamente próspero, o espaço segue como uma área de pesca e lazer, apesar da poluição das águas e dos sinais de degradação do espaço. A obra também evidencia como questões sociais e territoriais interferem no acesso à cidade e aos espaços de lazer.
Outra imagem em preto e branco que fala de memória e história é “Itaparica e Vera Cruz” (2022), de 400 x 60 cm, que registra o trajeto que cruza a Baía de Todos-os-Santos, principal palco da Batalha de Itaparica (1823), marco das lutas pela Independência da Bahia e do Brasil. O trabalho amplia a pesquisa do artista para além do território carioca.
Já a fotografia “Beleza extraordinária” (2021) registra uma rua antes movimentada, agora deserta, com lixo acumulado. Lopes destaca texturas e contrastes, a partir de elementos cotidianos como aves, nuvens, luz, asfalto e resíduos.
Em “Tudo que habita é luz” (2025), um tríptico de 150 x 250 cm cada, Lopes reúne paisagens de diferentes favelas em uma composição vertical. A sobreposição e a disposição das imagens fazem referência à própria verticalização das comunidades, ao mesmo tempo fragmentada e conectada. Na imagem central, um menino carrega o bastão do Reisado do Maracatu, introduzindo na composição uma dimensão ligada à cultura popular, à tradição e à continuidade de saberes.
“Yaya” (2016) é uma fotografia que faz parte do conjunto de registros que Lopes fez durante anos no Ceasa, a central de abastecimento do Rio de Janeiro. São caixotes de plástico para peixe, nas cores azul e laranja têm a palavra Yaya, na lateral. O que interessou a Lopes foi a forma de empilhamento, a multiplicidade, o acúmulo de itens. Fotografar a repetição, a aglomeração das coisas com texturas, cores e formas diversas, mas que criam uma unidade escultórica, é um de seus métodos de observação dos gestos cotidianos.
Desde 2014, Douglas Lopes vem construindo sua trajetória de forma independente, buscando inserir sua fotografia em diferentes circuitos de circulação. Em sua pesquisa, ele inverte o olhar da chamada “fotografia antropológica”: com lugar de fala, ele constrói uma narrativa em que os lugares e seus habitantes não aparecem apenas como objetos de observação, mas como protagonistas de suas próprias histórias.
A partir de um olhar atento às contradições da cidade, ele encontra outras narrativas possíveis para lugares frequentemente vistos de fora. A exposição reflete sobre questões sociais e políticas, ao mesmo tempo em que usa a potência da fotografia para imaginar outra vida urbana no Rio de Janeiro.
Serviço
Exposição | Entre a favela, o inferno e o céu
De 16 de setembro a 18 de fevereiro
Segunda a sábado, 9 às 18h
Período
Local
Fábrica Bhering
R. Orestes, 28 - Santo Cristo, Rio de Janeiro - SP
