Aos 80 anos, Ruy Antônio Barata estreia na literatura com “Esse Rio é Minha Rua”, um fascinante relato que reencena quase um século da cultura e da política da Amazônia
Por Jotabê Medeiros

Quantas famílias brasileiras puderam receber em seu círculo de acolhimentos os poetas Elizabeth Bishop, Robert Stock e Mário Faustino, o viajante Mário de Andrade, o guerrilheiro Carlos Marighella e o filósofo francês Jean-Paul Sartre? Que puderam experimentar a eclosão da vida na modorra de um pôr do sol nas águas verdes do Rio Tapajós ou da janela de um bangalô no Rio Negro, do esplendor de casarões ribeirinhos à estreiteza de uma quitinete de 70 m2 em Copacabana?

Somente por conta de revisitar essa largueza de cenários e experiências, Esse Rio é Minha Rua (Editora Paka-Tatu, 2026), a estreia literária, aos 80 anos, do médico paraense Ruy Antônio Barata, já seria um assombro. Mas, ao reencenar a história de quase um século de sua família em diversas locações do Pará e do Rio de Janeiro, o autor vai muito mais longe: ele recupera uma inédita visão da construção da identidade nacional, resgatando um recorte quase negligenciado pela historiografia e sociologia – o impacto da política nacional na Amazônia profunda, e vice-versa. São dezenas de tentativas de golpes de Estado, efetivação de golpes de Estado, golpes para dentro e golpes para fora, do tenentismo e de Getúlio até o inefável Jarbas Passarinho e sua vocação inata para o autoritarismo.

Essa saga familiar, que se inicia ainda no alvorecer do século 20, envolve o leitor pelo sabor íntimo da narrativa, a pulsão poética das histórias, a consistência do texto e das visões, a funda consciência política e social, a clareza histórica. O inventário de qualidades da obra desse paraense de Óbidos se apresenta não para satisfazer o apetite trivial da vaidade literária, mas para contar uma história real e vertiginosa de um Pará que raros viveram, e mais raros ainda conseguiriam descrever com tal presença de espírito.

O livro percorre mais de meio século de desenvolvimento de uma consciência regional e universal. Uma explicação de como a Guerra Fria, a Segunda Guerra Mundial e as batalhas políticas e militares no Brasil (de Luiz Carlos Prestes, Carlos Lacerda e Brizola) e na América Latina (de Perón a Che Guevara) influíram na formação social e cultural do Norte do País é a essência que emerge do livro, e que é preciosa pelo que traz de iluminação e desvendamento. “Penso que até hoje o Pará continua como filho órfão da Nação, para quem tudo dá e de quem nada recebe”, escreve Ruy, que foi preso duas vezes durante a ditadura civil-militar e espancado por seus captores.

Médico paraense Ruy Antonio Barata

As palavras apresentam um outro Brasil, uma realidade diferente. Peraus, por exemplo, são abismos traiçoeiros que emboscam viajantes em rios caudalosos ou margens misteriosas. A sobrevivência dos netos de Alarico Barata (pioneiro advogado de presos políticos e dos direitos humanos) e Noca Barata, de seu único filho, Ruy (e de sua amada, Norma), adquire duplo significado nesses peraus, esses abismos fluviais: o da sobrevivência física e também simbólica. Nascido numa casa cujo quintal tinha o Rio Amazonas passando ao fundo, Ruy Antônio, radicado em São Paulo desde os anos 1970, revisita a história do avô e do pai em progressão épica. Ruy Barata pai (1920-1990), advogado, poeta (e mau pianista), foi classificado como um autor da Geração de 45 pelo crítico Benedito Nunes, e edificou sua poesia em diálogo com os autores mais consistentes do seu tempo – caso do notável Mário Faustino. Comunista e idealista político, equilibrou-se entre as contendas políticas do pai, Alarico, sempre em embate contra o autoritarismo de regimes autofágicos, e a idealização artística de um sonho nativista, movimento que o levaria a criar, com o irmão de Ruy Antonio, Paulo André Barata (1946-2023), grande parte dos fundamentos da moderna música paraense.

Ruy Antônio Barata teve o seu discurso de formatura copidescado por Juscelino Kubitschek, recebeu o físico Mário Schenberg na sala de sua casa, recebeu proposta de Carlos Marighella para integrar a luta armada, teve sua carreira médica sabotada pela repressão política. Tudo isso aconteceu na Amazônia, nas dobras de uma aventura cultural diversa e desconhecida da maioria dos brasileiros. Terror político, censura, exílio, a consolidação do poder da imprensa, a mística do exotismo, o futebol arte, as rodas de violão, as professoras de piano, os frades educadores: tudo que Ruy Antonio presenciou no entorno de sua vida familiar atua na construção desse livro, um legado que é parte do que se tornou e que o impulsionou até essa apoteótica viagem literária.

É tudo tão surpreendente que às vezes parece realismo fantástico. Afinal, qual é a memória de infância que admitiria uma solução tão heterodoxa quanto colocar uma jiboia no forro do teto de casa à noite para comer os morcegos-vampiros que se alojam ali? E que narrativa da ditadura civil-militar se recorda de uma mãe entrando em um aparelho comunista tomado pelo Exército, em pleno 1964, para arrancar sua filha das mãos dos militares e ainda lhes passar um corretivo publicamente? Esse Rio é Minha Rua é uma história que roça romances de García Márquez.

A formação política e cultural da capital paraense, Belém, se imbrica sanguineamente com a trajetória da família Barata. Ali, os Barata exerceram influência, organizaram resistência, combateram o isolamento cultural e divisaram o futuro. Entre o início do século 20 e as rebarbas do golpe de 1968, o livro faz prioritariamente o balanço de uma formação, de uma convicção, de uma fé ética – a de que a ciência não se faz apartada da cultura, do humanismo, do idealismo, da amizade e da camaradagem.

Começando pelo retrato sócio-político do avô, Alarico, em meio às diásporas do ciclo da borracha, de um duelo político figadal com um adversário jorgeamadiano, e às aventuras de uma corte semi-aristocrática (“extrativista e bachaleresca”), Ruy Barata nos presenteia com um relato pessoal rico, surpreendente e multicolorido, atravessado sempre pela música, pelo cinema, pelo glamour de uma província que se sonhou metrópole um dia. O pai poeta, o primo goleiro, o irmão compositor, o tio bancário que escapuliu para o Rio de Janeiro, os professores, as namoradas, os estrangeiros de passagem. Seus relatos são como matrioskas russas, pequenas histórias que escapam de dentro de outras histórias e vão revelando novas ligações, novos esclarecimentos.

Sempre de um ponto de vista pessoal, a saga dos Barata, com seus tios maneiristas, suas avós misteriosas, seus netos desgarrados, suas comidas sincréticas, seus segredos de alcova, os poemas de combate, o violão-parabólica do compositor Paulo André, tudo vira literatura nova e profundamente brasileira. Botos bons e botos maus, bossa nova e foxtrote, testes do formigueiro, órfãs amas de uma vida, protagonismos na etnologia de Henri Coudreau e testemunhas do sonho de Fitzcarraldo de Henry Ford, Vice-Rei do Norte e Bigode de Veludo – o resultado que se extrai de Esse rio é minha rua, ao final de sua leitura, é de estupefação e maravilhamento. Há um Brasil que moldou silenciosamente o País que conhecemos e ao qual nunca nos foi dada a honra de conhecer de fato. Mergulhar no DNA mais profundo de nossa ancestralidade dá a conhecer essa história que, sendo tão pessoal, é ainda mais nossa e coletiva do que os igarapés escondiam.

SERVIÇO

Esse Rio é Minha Rua. De Ruy Antonio Barata. Editora Paka-Tatu, 2026. 438 páginas, 120 reais. Lançamento nacional nesta sexta, 6, na Livraria da UFPA, no Complexo dos Mercedários (Boulevard Castilhos França, s/n, Centro Histórico, Belém, Pará).


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