Da esquerda para direita: Jamile Coelho, Cintia Maria, Marion Jackson, Barbara Cervenka e Paula Santos

Reunida por duas pesquisadoras norte-americanas durante uma década, coleção de 666 doada ao Muncab foi formada com dicas de Pierre Verger e Emanuel Araújo e quase todos os artistas que a constituem foram procurados em seus locais de trabalho
Por Jotabê Medeiros

Festejada como a maior repatriação de um único lote de obras de arte da História do Brasil, chegou ao Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), em Salvador, no dia 26 de fevereiro, a coleção Con/Vida, contendo 666 obras de artistas afro-brasileiros. A coleção era privada e foi formada durante uma década pelo trabalho admirável de duas educadoras norte-americanas: Barbara Cervenka e a historiadora Marion Jackson. Infelizmente, Bárbara Cervenka morreu dois dias depois do ato de doação, no dia 28 de janeiro, aos 86 anos, em Adrian, Michigan, nos Estados Unidos. Ela sofria de câncer.

O Museu considerou a doação um ato de resistência contracolonial e um “gesto histórico de restituição, reparação simbólica e fortalecimento da memória cultural negra no país”. Entre os artistas que integram o acervo estão nomes fundamentais da produção afro-brasileira, como J. Cunha, Goya Lopes, Zé Adário, Lena da Bahia, Raimundo Bida, Sol Bahia, Manoel Bonfim, entre muitos outros, abrangendo diferentes gerações, territórios e linguagens artísticas. A coleção é composta por pinturas, esculturas, fotografias, xilogravuras, arte sacra, gravuras e estampas.

As obras chegaram a Salvador no dia 12 de janeiro, após um complexo processo logístico internacional, que envolveu embalagem especializada, adequação às normas de conservação museológica, trâmites alfandegários e transporte técnico especializado, com o apoio da Alfândega da Receita Federal em Salvador. Desde então, o acervo vem sendo incorporado ao Muncab, onde passa por procedimentos técnicos de museologia. A iniciativa contou com patrocínio do Ministério da Cultura (MinC) e da Petrobras, por meio do Fundo Nacional de Cultura e da Lei de Incentivo à Cultura. A ação também tem parceria da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador (Secult Salvador) e prevê, em suas próximas etapas, programas de formação artística, ações educativas e estratégias de difusão pública do acervo, para ampliar o acesso da sociedade a esse patrimônio. Mantido pela Petrobras, o MUNCAB contou, para a concretização da repatriação, com a parceria do Instituto Ibirapitanga, que viabilizou recursos prévios fundamentais para a operação internacional de retorno das obras ao país.

A historiadora norte-americana Marion Jackson, também conhecida como Mame Jackson, PhD pela Universidade de Michigan e professora, conversou com ARTE! BRASILEIROS sobre o que as levou, ela e Barbara, a iniciarem a coleção e, finalmente, 34 anos depois, a doarem tudo para um museu brasileiro. Ela e Barbara, em suas muitas vindas ao Brasil, visitaram frequentemente o Museu Afro Brasileiro do Ibirapuera e chegaram a conhecer o curador baiano Emanuel Araújo, que as encorajou em sua pesquisa. Elas também tentaram fazer um encontro de Emanuel com Juanita Moore, diretora do Charles H. Wright Museum of African-American History. Infelizmente, no dia em que chegaram com Juanita a São Paulo, ele tinha recém-falecido. Tiveram também aconselhamentos com o etnólogo francês Pierre Verger (1902-1996), que ainda vivia em Salvador, e o lendário artista Mestre Didi (1917-2013).

arte!✱ – Por que vocês iniciaram uma coleção de arte com esse intuito de mapear a produção afro brasileira?

Marion Jackson – Nós não começamos com uma intenção. Nem mesmo pensamos nisso. Começamos por conta de um interesse pessoal. Tanto eu quanto Barbara estávamos interessadas na relação entre cultura, arte e história, e particularmente na experiência da cultura afro-americana e a arte. E isso ocorre amplamente nas Américas, tanto na América do Norte quanto na América do Sul. E percebemos, em nossas pesquisas iniciais, a forte influência africana no Brasil. Isso é algo pouco conhecido na América do Norte. E nós ficamos intrigadas e queríamos vivenciar algo assim. Então, nossa primeira viagem ao Brasil, em 1992, foi motivada por um interesse pessoal. Estávamos interessadas em aprender mais sobre a interessante cultura popular brasileira. E então, à medida que nos familiarizamos com isso por meio daquela primeira viagem e do nosso relacionamento com as pessoas, particularmente na Universidade Federal da Bahia (UFBA), quisemos voltar. Queríamos compartilhar essa experiência com outras pessoas na América do Norte que, assim como nós, eram muito desinformadas inicialmente. Bem, isso nos levou a voltar ao Brasil, ano após ano, montando pouco a pouco, peça por peça, artista por artista, uma coleção, uma coleção crescente, e compartilhamos essa coleção por meio de pequenas exposições. As primeiras delas, na década de 1990, foram bastante modestas.

Onde mostravam as obras que estavam adquirindo no Brasil?

Nós as exibíamos em um local de trabalho, não era nem mesmo uma galeria, simplesmente colocávamos as obras de arte em pódios ou pedestais. Mas, gradualmente, começamos a trabalhar com pequenas galerias e museus por todo o país, por meio de amigos que tínhamos. Eu lecionava em uma universidade canadense durante parte desse período, e Barbara na Universidade de Michigan, onde eu também havia estudado. Nós duas éramos professoras na Universidade de Michigan no final dos anos 80 e no início dos anos 90. Barb permaneceu lá por vários anos depois que me mudei para o Canadá, mas continuamos a trabalhar juntas porque o interesse dela era muito forte e ela continuou vindo ao Brasil todos os verões durante nossas férias de verão. Tivemos exposições cada vez maiores e mais bem-sucedidas que viajaram para universidades muito importantes, museus e outras instituições. O Field Museum em Chicago, a UCLA, na Califórnia, o Museu da Civilização em Ottawa, Canadá, e vários outros lugares. Mas nosso maior projeto, nossa exposição final, chamava-se “Bandidos e Heróis, Poetas e Santos: Arte Popular do Nordeste do Brasil” e foi inaugurada no Museu Charles H. Wright de História Afro-Americana em 2012. Ou melhor, em 2013. Trabalhamos nisso durante todo o ano de 2012, montando, e ficou lá por cerca de oito meses, e depois viajou para mais 23 cidades. Bem, de lá para o Museu De Saussure de História Afro-Americana em Chicago, que foi o primeiro museu do país dedicado à história afro-americana. E de lá para Atlanta, para um museu que atendia sete faculdades e universidades historicamente negras. Então, esse foi o seu início. Foi financiado pela Fundação Nacional para as Humanidades dos EUA. E era um projeto para três locais e com quatro anos de duração. Mas recebemos uma ligação, durante esse período da Fundação Nacional para as Humanidades dos Estados Unidos, perguntando se gostaríamos de trabalhar com eles por mais cinco anos e levar a exposição para todo o país. Eles pagariam os custos, ajudariam a organizar a turnê e a desenvolver materiais educacionais e promocionais adicionais. Aproveitamos a oportunidade e foi maravilhoso.

Com a ajuda e o apoio adicional da fundação, a exposição percorreu outros 23 locais nos Estados Unidos, desde a Costa Oeste, do Havaí a Massachusetts, e a muitos outros lugares. Foi uma turnê muito bem-sucedida. Recebi ótimas avaliações e respostas dos visitantes, e foi uma experiência emocionante.

Como terminou essa itinerância?

Conforme a turnê se aproximava do fim, e de fato chegou ao fim durante a pandemia de Covid, os dois últimos locais tiveram que ser cancelados porque muitas instituições culturais estavam fechadas na época, então perdemos esses dois últimos locais. Mas o museu, a própria exposição, voltou para nós. E naquele momento estávamos pensando em como lidar com isso. Tínhamos vindo ao Brasil em 2020 para conversar com pessoas. Isso foi durante a pandemia, pouco antes da Covid, e no início da turnê, quando Bandidos e Heróis ainda estava em turnê nacional. Então não havia nada que pudéssemos fazer.

Mas voltamos para conversar com artistas e diretores de museus que conhecíamos e outros líderes culturais, pessoas que conhecíamos e que poderiam ter informações ou conselhos para nos dar sobre como encontrar um lugar, de preferência no Nordeste do Brasil, onde pudéssemos deixar essa coleção quando a turnê terminasse, para que ela se tornasse parte do acervo permanente. Queríamos devolver a coleção à sua terra natal e queríamos que fosse um museu de prestígio. Queríamos ter certeza de que, onde quer que a coleção estivesse, os artistas, as comunidades, as pessoas daquele segmento da cultura, da cultura popular, da arte do povo, pudessem vê-la e vê-la celebrada, e que isso pudesse levar a uma melhor compreensão entre todos os segmentos da população. É uma forma de arte que, mesmo no Brasil, havia sido negligenciada, realmente ofuscada pela arte colonial e acadêmica. Mas trazer uma coleção significativa – e sentimos naquele momento que era uma coleção significativa, tanto em tamanho quanto em pedigree – por ter viajado sob os auspícios da principal instituição cultural dos Estados Unidos, o National Endowment for the Humanities, para 23, ou melhor, 25 locais no total, e por ter tido uma turnê muito bem-sucedida pelos EUA e Canadá. Então, nós achamos que seria importante que isso chegasse a um lugar onde pudesse ser realmente celebrado e usado, e onde pudesse servir como o próximo passo lógico no que consideramos nossa gestão da coleção.

Aqui no Brasil, o retorno dessas obras tem sido incluído no esforço sobre decolonização e repatriação. O que você acha disso?

Nós não estávamos realmente envolvidos no discurso internacional sobre decolonização e repatriação. A repatriação geralmente tem a ver com reivindicações conflitantes de propriedade. Que parte do seguinte: quem é o dono desta coleção? Algum conjunto de obras que foi comprado ou, em alguns casos, roubado de algum grupo ou instituição em algum momento da história. Frequentemente, há reivindicações do local ou grupo de onde veio de que eles realmente têm os direitos de propriedade originais. Então, a repatriação geralmente é um tipo de conflito sobre quem é o dono de algo. Nós não tivemos nenhum problema desse tipo. Nós compramos todas essas obras, em sua maioria, individualmente, de artistas individuais, em alguns casos por meio de uma galeria que representa um artista, mas na maioria dos casos, esta coleção foi realmente adquirida individualmente de artistas. E nós vimos que nossa missão não era possuir ou guardar isso, mas sim usar e focar nisso com respeito à própria coleção. E estávamos tentando imaginar seu futuro mais útil. E o que concluímos, Barbara e eu, foi que esse futuro mais útil seria no Brasil, em um museu de renome. E seu propósito lá seria aumentar a compreensão e a apreciação por essa obra brasileira singular. Essa era uma arte singular para os artistas e para a cultura do povo de onde a arte surge. É um grupo, um tipo de arte e, na verdade, um segmento da população brasileira que foi negligenciado no passado como parte fundamental da cultura brasileira. E pensamos que essa doação, se fosse para um museu de renome, poderia levar adiante essa missão. Uma missão que fizemos o possível para promover quando a obra estava em exibição na América do Norte.


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