Sob uma chuva fina subo a colina que circunda a Usina de Arte, em Água Preta, Pernambuco. No alto encontro Óculo, escultura de Arthur Lescher, uma das obras mais recentes instaladas no parque. O grande arco de metal não detém o vento nem a garoa, mas enquadra a paisagem e os prédios da antiga Usina Santa Terezinha, produtora de açúcar desativada há quase 30 anos. Como uma objetiva, a obra reorganiza o olhar sobre um lugar onde estruturas industriais arruinadas, vegetação e exemplares de arte contemporânea passaram a dividir o mesmo território.

Óculo, de Arthur Lescher

Criada em 2015, a Usina de Arte ocupa hoje cerca de 45 hectares e reúne mais de 50 obras e instalações de artistas brasileiros e estrangeiros.  O empresário Ricardo Pessôa de Queiroz e sua mulher, a arquiteta Bruna, são os proprietários do local e administradores do projeto. Para visitar esse museu a céu aberto não há um percurso a seguir. Os trabalhos aparecem de forma aleatória entre árvores, lagos, antigas construções e restos da estrutura industrial, algumas vezes incorporando a própria memória do lugar.

O primeiro curador contratado, o artista José Rufino trabalhou diretamente com esses vestígios. Em Scopulus, utiliza uma antiga cadeira e madeiras encontradas nas oficinas para construir uma figura associada ao senhor de engenho e, em Ligas, reúne facões usados no passado para o corte da cana. Márcio Almeida também se aproxima desse passado em Eremitério Tropical, que tangencia a morfologia “radicante”, que se refere às plantas que produzem raízes no processo de deslocamento. A construção de alvenaria é gradualmente tomada pela vegetação, na qual trabalho e ócio aparecem como questões ligadas ao universo da cana.

Na fachada do prédio da antiga destilaria, Alfredo Jaar instalou Claro-Escuro, um letreiro de neon de 18 metros com uma frase de Antonio Gramsci sobre o intervalo entre um mundo que desaparece e outro que ainda não nasceu. A localização acrescenta outra camada à obra: o neon atravessa um edifício que perdeu sua função original e hoje integra um projeto exclusivamente dedicado à arte.

A história ajuda a entender o que permaneceu nessa paisagem. Adquirida em 1926 por José Pessoa de Queiroz, bisavô de Ricardo e sobrinho do presidente Epitácio Pessoa, que governou o Brasil de 1919 a 1922, a Usina Santa Terezinha tornou-se um complexo açucareiro que chegou a ser o mais importante do País, reunindo milhares de trabalhadores, vila operária, escola, igreja, mercado, hangar e uma ferrovia própria com mais de cem quilômetros.

Usina de Arte

A primeira grande ruptura ocorreu com a Revolução de 1930. Ligado ao grupo político derrotado, José Pessôa de Queiroz passou a ser perseguido. O Jornal do Comércio, de sua propriedade, foi invadido e o palacete, no Recife, incendiado. Ele deixou o país e a usina passou por um período de administração externa e por uma longa disputa para a retomada de seu controle. Mais de meio século depois, em 1982, nos últimos anos da ditadura militar, uma intervenção ligada ao SNI (Serviço Nacional de Inteligência) afastou os acionistas da administração. A produção foi interrompida, processos trabalhistas se acumularam e, nos anos seguintes, parte do patrimônio foi fragmentado. Trilhos, locomotivas, vagões e equipamentos foram vendidos. A atividade industrial não voltaria a se recuperar.

Parte considerável do corpo da fábrica, no entanto, permaneceu de pé, com galpões, moendas e equipamentos. Ao longo dos anos, terras e imóveis foram sendo readquiridos pela família, muitos deles em leilões judiciais. É sobre parte desse território que surge, décadas depois, a Usina de Arte, agora o projeto começa a avançar também para dentro do antigo corpo industrial. A recuperação da cobertura e dos caixilhos abriu caminho para uma nova etapa, com intervenções nas lajes e a perspectiva de transformar parte desses grandes espaços em um futuro museu. A arquitetura industrial permanece exposta, com linhas retas, grandes vãos e uma escala determinada pela antiga função das máquinas.

Ricardo entende que “o objetivo nunca foi devolver ao conjunto uma aparência de novo, mas preservar sua arquitetura e adaptá-la aos futuros espaços expositivos, mantendo visíveis as marcas deixadas pelo açúcar, vapor e trabalho”. Com esse princípio, no interior da Usina, a arte contemporânea começa a ocupar alguns espaços já restaurados, como a instalação Autômatos (2017/2025), de André Komatsu, uma das primeiras obras incorporadas ao futuro museu. Formada por cinco módulos construídos com grades de aço, ferro, vidro aramado e plástico, o trabalho investiga os permanentes processos de construção e desconstrução que moldam as cidades contemporâneas. Esse trabalho dialoga diretamente como o edifício que também atravessa um processo de restauração. No mesmo período, Rodrigo Sassi inaugurou sua obra modular Fractal, outra integrante do acervo. Na antiga destilaria da Usina, com pé direito de 14 metros, as 12 peças de encaixes idênticos formam várias composições que se destacam sobre as paredes impregnadas de histórias.  Assim, o futuro museu começa a tomar forma sem que o edifício precise esconder aquilo que já foi.

Do lado de fora, entre dezenas de artistas, Marina Abramović ocupa a paisagem com Generator, um muro de 25 metros com conjuntos de almofadas de quartzo que propõem ao visitante uma experiência corporal e de concentração. A inauguração da obra contou a presença da artista que performou junto com os visitantes.

Marina Abramović, Generator

Em um contexto crítico, Diva de Juliana Notari intervém diretamente sobre uma colina com um trabalho de grande força em defesa do corpo da mulher. Em Átrio, Marcelo Silveira, retoma a estrutura do pátio interno da antiga Casa Grande. Cabeça de Bandeirante, de Flávio Cerqueira, coloca na horizontal uma figura historicamente destinada ao pedestal, enquanto Matheus Rocha Pitta, em Um Campo da Fome, aborda um assunto fundamental na sociedade brasileira e responsável pelos dramáticos deslocamentos do Nordeste para o Sudeste e o Sul do país, sobretudo no período de 1940 a 1970.

Hoje, o território da Santa Terezinha ganha outra dimensão com a inauguração da Praça Leonardo da Vinci, em 18 de junho último, instalada no centro da vila operária, onde vivem antigos funcionários da usina ou descendentes deles. Ali, o artista cearense Narcélio Grud reúne três esculturas interativas concebidas a partir do movimento e de princípios mecânicos: Roda Riacho, acionada pela água, vento ou por uma manivela, Pêndulos Interativos, balanços que criam efeitos diversos a partir do deslocamento dos corpos e Playground Eólicas, estruturas que respondem à ação do vento e produzem movimentos, sons e efeitos visuais. O projeto nasceu da parceria entre a Usina de Arte e O Pequeno Colecionador, iniciativa criada por Arthur Lescher e Marianne Klettenhofer para aproximar as artes visuais do universo lúdico. Alguns artistas brasileiros já participaram do projeto em outras cidades. Para Ricardo, Leonardo da Vinci simboliza a curiosidade como motor do conhecimento. “Nossa intenção é despertar nos jovens a vontade de compreender como as coisas funcionam, inspirando-os a olhar para o mundo com inventividade”, resume.

Entre a contemplação proposta por Lescher e a experiência física imaginada por Grud, a Usina de Arte encontra sua medida: preservar a memória sem imobilizá-la, para que ela continue produzindo novos sentidos.


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