Acima, retrato de Hudinilson em seu ateliê, década de 80.
O que pode a arte? Hudinilson Júnior sempre fez o que bem quis e a resposta a essa irreverência foi tornar-se um ponto fora da curva dentro do universo da arte brasileira. Sua trajetória é marcada pelo colapso do sujeito, explosão da relação com o objeto e radicalização de performances. Com vigor poético sofisticado, somado às experiências corporais e relacionais, Hudinilson deixa uma produção intimamente ligada a São Paulo, seja em performances, grafites ou arte em xerox.
Muitas de suas obras surgem na busca da simultaneidade entre pensamento e visualidade, como no dia em que surpreendeu a cidade com a imagem do seu pênis xerografada em um imenso outdoor, próximo ao parque do Ibirapuera. As reações provocadas pelo atrevimento apontavam para o desmonte das hierarquias do espaço expositivo, destruição do poder de localização da obra e ao mesmo tempo revelava a irreverência do sujeito.
Obra “Sem Título” do artista, produzida na década de 80.
Todo movimento de acionar a des – ordem perpassa pelas obras que tomam agora os 600 metros quadrados da galeria Jaqueline Martins, cuja proprietária é também a curadora da mostra. As novidades são as pinturas sobre tela, realizadas quando o artista ainda era estudante de arte na década de 1970. Uma tensão curiosa permeia a pluralidade do trabalho de Hudinilson, um dos pioneiros do movimento da arte xerox no Brasil. Melhor personagem de sua própria obra, ao criar Exercício de me ver (1981), desorganiza o pensamento crítico com a simulação do ato sexual com uma máquina de xerox. É instigante segui-lo nessa experimentação produzindo outros sentidos para o homem e a máquina. Como não lembrar de Hélio Oiticica quando sentenciou: “experimentar o experimental”? Hudinilson se expressa, sem pudor, por meio de várias linguagens que, em algumas circunstâncias, passa a ser instrumento de especulação. Para o crítico Jean-Claude Bernardet, “a fragmentação do corpo pela xerox, converte-o em paisagens abstratas, nas quais os fragmentos se esvaem”. Em sua performance com a máquina copiadora, ele utiliza seu corpo como matriz para a reprodução e investigação de possibilidades visuais.
Em 1979, Hudinilson cria o grupo 3Nós3, com os artistas Rafael França e Mário Ramiro. A união por afinidades eletivas era de amigos que pactuavam arte e forma de fazer arte. Até 1982 eles intervêm em vários pontos de São Paulo, praticando a reapropriação lúdica e crítica da cidade. O repertório de ações vai desde o ensacamento de monumentos públicos à intervenção no buraco de respiração de um túnel, à lacração de portas de galerias de arte. Todas entendidas como marco revolucionário contra as determinações racionalistas e controladoras da metrópole. Mesmo atuando com o grupo, ele jamais abandona sua produção individual que dura mais de três décadas.
Desde o início, Hudinilson mantém uma forte relação com a colagem, ponto de partida para uma fase comentarista. A isso se somam experimentos na xilogravura, suporte pelo qual a maior parte dos artistas brasileiros passou, utilizando decalques de imagens fotográficas. Hudinilson passava longas horas escolhendo fotos de corpos nus que retirava de revistas americanas. Em 1984, abandona esses modelos e centra toda a sua atenção em torno dele mesmo, quando se dedica a Narcise/Estudo para autorretrato (1984). Nesse “ensaio” dialoga com o mito de Narciso e cria sua própria identidade visual. O projeto envolve uma série de trabalhos, como uma espécie de “ópera”. Narciso passa a ser obsessão para ele que, nos últimos cadernos de colagens, revela seu interesse pelo estudo do nu masculino.
Hudinilson Jr, Amantes e Casos
Na década de 1980, o lugar da arte de Hudinilson é a rua, onde inventa grafites com desenhos incorporados à escrita, numa reivindicação de espaço de liberdade total. Seu mentor e cúmplice, Alex Vallauri (1949-1987), foi o primeiro artista brasileiro a aderir ao grafite. Como ele, Hudinilson trabalha com máscaras ou estênceis na busca de um novo espaço formal para criar, uma resistência em vão, como se fosse possível alguma naturalidade na arte.
Em vida Hudinilson se salvou de experimentar a vertigem ilusória de pertencer ao mercado de arte e de participar da internacionalização por meio das maratonas repetitivas de feiras e bienais. Só depois de sua morte seus trabalhos chegam ao exterior e desembarca, em junho, na Art Basel, na Suíça, a mais antiga e reverenciada entre as feiras de arte do mundo.
Hudinilson Jr. Até 06 de setembro de 2019 Na Galeria Jaqueline Martins Rua Dr. Cesário Mota Junior, 433 – Vila Buarque, São Paulo
Não é raro que, quando a mostra principal de Veneza é muito potente, as representações nacionais fiquem um tanto opacas. Sem dúvida, foi o que ocorreu agora em 2026. Pouco há para se falar das escolhas oficiais, mas, em compensação, exposições paralelas trouxeram artistas e pesquisas com muito diálogo com a curadoria de Em Tons Menores.
A começar pela Fundação Prada, com Helter Skelter: Arthur Jafa e Richard Prince, que tem curadoria de Nancy Spector e revela um diálogo inesperado entre a obra de dois artistas americanos: Arthur Jafa (n. 1960) e Richard Prince (n. 1949). Ambos, é verdade, trabalham com a apropriação de imagens – Prince é particularmente reconhecido pelo uso das propagandas de cigarro com cowboys, mas essa parte não está lá.
O que está lá, e é bastante surpreendente, é constatar como ambos, há décadas, vêm tratando de uma “América” decadente e preconceituosa, que não tinha como não chegar a algo tão funesto quanto o governo Trump.
O título da exposição, “Helter Skelter”, funciona como um palimpsesto de significados e referências. Originária de uma atração de parque de diversões britânico, a expressão também é uma gíria para “caos”. É ainda o título de uma canção de Paul McCartney, lançada no Álbum Branco dos Beatles, de 1968. E, no mesmo ano, o líder de culto Charles Manson apropriou-se do termo para prever uma iminente guerra racial apocalíptica, na qual afro-americanos e brancos essencialmente se aniquilariam mutuamente.
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Menos trágica e mais poética é a mostra dedicada ao artista queniano Michael Armitage, com curadoria de Jean-Marie Gallais, no Palazzo Grassi, do colecionador François Pinault. Assim como muitas obras na Bienal de Veneza, Armitage pinta em tecido lubugo, em vez da tradicional tela de linho, para fundamentar seu trabalho na cultura e história da África, o que resulta em uma superfície menos homogênea – às vezes há buracos na tela que são incorporados ao trabalho.
Além de usar uma técnica ancestral, em geral o lubugo é usado como mortalha, Armitage, mesmo tendo desenvolvido toda sua carreira na Inglaterra, usa o Quênia e seu povo como inspiração para suas obras. Aliás, em 2020, ele criou o Instituto de Arte Contemporânea de Nairobi, uma organização sem fins lucrativos.
Entre as pinturas, há desde temas como casais gays se beijando, uma referência a amigos que relataram homofobia, a cenas trágicas de naufrágios com imigrantes, como referências a filmes africanos ou mesmo à história da pintura.
Já o outro espaço da Coleção Pinault em Veneza, a Punta della Dogana, se dedica a outros dois artistas racializados: a norte-americana Lorna Simpson e o brasileiro Paulo Nazareth, com amplas retrospectivas sobre suas carreiras.
Comigo ninguém pode
Mas e os pavilhões nacionais? Há mesmo pouco a dizer, frente a exageros como o Pavilhão da Áustria, que causou furor nas redes sociais com as performances instagramáveis de Florentina Holzinger, como a mulher que de hora em hora é badalada em um imenso sino ou o jet-ski que circula dentro de uma piscina no pavilhão. Ações caras e supérfluas.
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A Austrália, que havia ganhado como melhor pavilhão há dois anos, novamente traz um artista impressionante, Khaled Sabsabi, de origem libanesa, que apenas perde em originalidade porque sua própria obra, muito semelhante ao que está no pavilhão, é a primeira obra da curadoria de Koyo no Arsenale.
A Espanha tem destaque com uma imensa instalação de Oriol Vilanova, que preenche todas as paredes do edifício com cartões-postais, criando uma espécie de Atlas Mnemosyne de Aby Warburg, em que gatos ganham mais espaço que qualquer outro tema da antiga forma de comunicação pelo correio – certamente algo de que a Geração Z não tem ideia.
Nesse contexto, o Brasil acaba se sobressaindo pela curadoria de Diane Lima com Adriana Varejão e Rosana Paulino denominada Comigo ninguém pode. O pavilhão foi restaurado de maneira exemplar, com transparências que estavam muradas. Mesmo assim, há uma discrepância evidente. Enquanto Varejão faz uma certa cosmética nas questões decoloniais, que tanto agrada o mercado, mas já vem se repetindo há décadas, Paulino, com um imaginário a partir de memórias e histórias pessoais, apresenta um trabalho muito mais contundente, que merecia ocupar sozinha o espaço.
Fachada da nova sede da Pinakotheke em São Paulo. Foto:Patricia Rousseaux
O surgimento da exposição
A ideia partiu do Max, entre 2016 e 2017, da vontade de fazermos uma exposição sobre o surrealismo, que completaria 100 anos do lançamento do Manifesto [Surrealista] em 2024. Aquilo foi muito ao encontro de algumas questões que eu já vinha pesquisando.
O Max tem um entrosamento muito grande com colecionadores. Todas as obras aqui são de coleções particulares no Brasil — no Nordeste, no Rio de Janeiro e em São Paulo —, com exceção de três fotomontagens de Guignard, que pertencem ao Museu de Arte Moderna de São Paulo, e duas de Jorge de Lima, que são do IAB.
A ideia foi tomando forma em 2020 e, quando estávamos iniciando os preparativos, veio a pandemia. Em 2024 se comemoraram os 100 anos do lançamento do Manifesto, e pensamos que era possível idealizar uma exposição que prestasse homenagem a essa data, mas que também colocasse outras possibilidades de leitura do movimento.
A primeira coisa que concluímos foi que não chamaríamos a mostra de “exposição do surrealismo”, no singular, enfatizando pela enésima vez o movimento com começo, meio e fim, dos anos 1920 aos anos 1940. Optamos por uma compreensão mais ampla do fenômeno — esse elemento subjetivo que percebemos em artistas e intelectuais de oposição à extrema racionalidade da sociedade desde o século 19, e como isso vem aparecendo, ao longo do tempo, como um contraponto. Então, achamos que seria interessante colocar o surrealismo no plural, “Surrealismos”, com o subtítulo “Arte para além da razão”.
Isso fez com que retornássemos no tempo, para antes do surrealismo histórico, e nos projetássemos para a contemporaneidade, com muitos artistas que vieram depois dos anos 1940. Permitiu fazer uma exposição que desse conta do fenômeno do surrealismo — não daquele surrealismo que percebemos no romantismo ou em vertentes mais antigas da arte, mas de um panorama que contempla também a contribuição europeia histórica.
Temos obras de 1926, de meados da década de 1920, obras emblemáticas de artistas emblemáticos. Não é uma exposição óbvia. Não é o Dalí que você viu nos “Gênios da Pintura”: é um Dalí excepcional, inusitado.
Foto: Eduardo Macarios | Coil Lopes
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Páginas iniciais do Manifesto Surrealista, escrito por André Breton, Paris, 1924.
Ismael Nery, Figura com Cubos, circa 1928.
Diego Rivera, La Niña Dormiendo, 1936.
Emiliano Di Cavalcanti, Sem Título, década de 1930.
Francesca Woodman, Sem Título, 1975-1980.
Maria Martins (1894-1973), La femme a perdu son ombre, 1946
Louise Bourgeois (1911-2010) Obese, Bulimic, Anorexic, tríptico, 2001
Trazemos alguns norte-americanos, caribenhos e latino-americanos encontrando os brasileiros nesse contexto mais alargado da América Latina. E, por todos esses contatos que o Max tem com as grandes coleções particulares — e aqui agradeço aos colecionadores que cederam as obras —, foi possível trazer alguns dos melhores exemplares dessa produção internacional que está no Brasil, e também da produção brasileira, que é de altíssima qualidade.
Então penso que, ao inaugurar em 2026, estamos de alguma maneira finalizando as festividades da reflexão sobre o fenômeno surrealista, cujo Manifesto completou 100 anos há dois anos. A exposição cumpre isso. Obviamente, ela não é nem pretende ser conclusiva, mas traz outras possibilidades de pensar essa subjetividade surrealista que transcende o surrealismo histórico.
Temos, por exemplo, Louise Bourgeois, que tem uma função especial aqui. É uma artista que não está filiada especificamente ao surrealismo histórico, mas que traz, na passagem do século 20 para o 21, uma subjetividade e uma sensibilidade totalmente conectadas com o surrealismo. Temos também um núcleo dedicado a Maria Martins, essa sim ligada ao surrealismo histórico, mas cuja qualidade e potência extrapolam aquele momento.
Recomendo a exposição porque temos, por exemplo, um Léger de 1926 nem um pouco óbvio, que exige do público um esforço para conectá-lo ao debate surrealista em vigor em Paris naquele momento, dois anos depois do Manifesto. É de uma qualidade, de um requinte e de uma sofisticação, dentro da pintura do período entreguerras, que merece a visita. Você tem Max Ernst e, fundamentalmente, o Magritte da capa do catálogo, Miró, uma escultura fantástica de Giacometti, e os brasileiros Ismael Nery e um Di Cavalcanti estupendo. Enfim, fiquei fã desta exposição. Faltam artistas, sem dúvida que faltam. Mas a mostra não tem a pretensão de abarcar tudo, nem teria condições para isso.
Acho que ela pode ser, sobretudo para os estudantes, o início de um despertar, de uma curiosidade para essa subjetividade que nega tudo aquilo que tem transformado a nossa sociedade em algo tão problemático. Muito humildemente, a exposição ajuda essa moçada a começar a pensar.
A presença das mulheres no movimento
Muitas mulheres importantes, do ponto de vista artístico, participaram de maneira efetiva do movimento. No entanto, não quero criar polêmica, mas acho que a crítica e a historiografia sobre o surrealismo têm uma dimensão misógina muito visível.
No final dos anos 1960, o Museu de Arte Moderna de Nova York fez uma grande exposição que contemplava o Dadá e o surrealismo, em que as mulheres aparecem, algumas poucas, em notas de rodapé, e outras nem são reconhecidas como tais. Maria Martins, por exemplo, que conviveu com Breton, participou de exposições e tem obras no próprio MoMA, não foi sequer citada no catálogo — por uma arrogância masculinista, com aquela empáfia estadunidense que costuma ocorrer.
Temos muitas artistas aqui. Não na quantidade que gostaríamos, mas temos contemporâneas brasileiras como Lenora de Barros, Lia Chaia e Erika Verzutti, que desenvolvem poéticas nitidamente conectadas com essa subjetividade não positivista — algo que, durante certo período, foi o que mais se divulgou no campo, inclusive na arte brasileira.
Fotos: Coil Lopes | Patricia Rousseaux |
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Marc Chagall, Le Bouquet dans le ciel de Paris, 1978.
Cícero Dias, Sem Título, década de 1940.
Vicente do Rego Monteiro, Composição Indígena, 1922.
Wifredo Lam, Sem Título, circa 1942.
Octávio Ferreira de Araújo, Composição Surrealista, 1972
Salvador Dalí, Venus Spatiale, 1984
É muito bonito rever Tunga nesse contexto ampliado do surrealismo. E rever um artista de São Paulo como Cláudio Cretti, que cresce dentro desse ambiente plural, ajuda a perceber as conexões que é possível fazer. Não é uma exposição formalista, embora tenha obras da qualidade que vocês estão vendo aqui. Acho que ela vai além.
O surrealismo para além da Europa
Historicamente, alguns surrealistas históricos — desculpem o pleonasmo, mas falo de André Breton e outros — vão para a América Central e as Antilhas, e ali fazem contato com artistas, intelectuais, poetas e escritores. Esse surrealismo de matriz europeia entra em conexão com um imaginário absolutamente fantástico, o dessas sociedades antilhanas e latino-americanas de maneira geral, o que ajuda a ampliar a compreensão que temos do surrealismo.
Há um artista muito identificado com o surrealismo internacional, Wifredo Lam, um artista cubano, filho de negros com chineses de Cuba. Ele fala: “O surrealismo está em Cuba, está na floresta, está nas pessoas”. Essas manifestações ditas marginais estão integradas à exposição, entendidas como fomentadoras de uma visão mais ampla do que pode ser o surrealismo. Acredito, inclusive, que seria possível pensar uma conexão entre essa matriz surrealista europeia e algumas manifestações que estão dentro das nações indígenas brasileiras.
Precisamos romper com aquela noção subserviente, colonizada, de dizer “o Ismael Nery é o nosso Chagall”. Não, não é. Chagall é Chagall, tem a contribuição que ele deu lá; e Ismael Nery dá uma contribuição em que conecta questões do surrealismo a outros elementos da realidade brasileira, e a singulariza. O mesmo acontece com Di Cavalcanti — há um Di Cavalcanti aqui de tirar o chapéu. Ele não é “o nosso De Chirico”. Isso é uma expressão do colonialismo sem ousar dizer seu nome, e acho muito ruim para a própria cultura e para a arte brasileira.
Lenora de Barros, Homenagem a George Segal, 1984.
Sobre a ausência de indígenas na exposição
No caso aqui, os indígenas não entraram porque não deu tempo: é um assunto cuja complexidade exige uma historiografia que dê conta dele. Talvez na próxima a gente tenha. O que precisaria ser reforçado é essa oportunidade, ocorrida no Brasil, de conexão entre os postulados do surrealismo histórico e as diversas matrizes culturais e imagéticas que perpassam a cultura. Aquilo que chamamos de América Latina, na verdade, são várias nações, várias comunidades com culturas muito específicas, ligadas não só às correntes indígenas, mas também a tradições afrodescendentes.
Destaque latino-americano
Aqui está Octávio Araújo, por exemplo, contemplado na mostra, que demonstra um tipo de produção que dificilmente surgiria num ambiente europeu. Ele mistura uma sensibilidade e uma subjetividade que, de alguma maneira, estão ligadas à questão afrodiaspórica. Um dos elementos de riqueza da exposição é esse artista, que está esquecido. Posso estar cometendo alguma injustiça — e, se estiver, peço desculpas —, mas acho que a última exposição em que me lembro de ver Octávio, com uma sala, foi Territórios, na Pinacoteca, em 2017. É bom revê-lo agora em outro contexto, internacional e latino-americano, e não mais apenas em uma exposição voltada a artistas afrodescendentes do acervo da Pinacoteca.
Um momento de revisão do surrealismo
O dado que gera esse debate talvez seja a questão mais importante levantada nas comemorações do centenário do primeiro Manifesto Surrealista, em 2024. Isso ocorre num momento de profunda revisão. Há uma exposição interessante no Beaubourg, cuja primeira edição foi na Bélgica, depois passou por Paris, por uma cidade na Alemanha, por Madri, e terminou agora em fevereiro, na Filadélfia. É uma mostra que tem um único fecho, mas que se transforma em cada país onde é apresentada. Bom, o que tem em comum? O que tem de diferente? De alguma maneira, ela reflete essa grande revisão pela qual o surrealismo vem passando, a partir de uma compreensão que não o constranja mais a um período histórico definido.
Não fui eu que resgatei [esses artistas], nós resgatamos — há aqui também uma parceria importante com o Max. O que mais me surpreende, em primeiro lugar, é Octávio Araújo; nunca é suficiente criar oportunidades para mostrá-lo. É muito bom percebê-lo em suas fotomontagens, não só pela qualidade delas, mas porque é possível ver como a fotomontagem ajudou na complexidade da sua pintura. O problema é que essas fotomontagens pertencem ao Museu de Arte Moderna de São Paulo: são públicas, mas não têm oportunidade de ser mostradas o tempo inteiro. Isso também me deixa muito feliz.
A exposição foi muito feliz em trazer artistas conhecidos por meio de obras novas, que não são esquemáticas. Vocês não veem um Dalí que mostra apenas aquilo que já se espera dele, mas um Dalí de universo poético mais ampliado. Di Cavalcanti, como falei, tem obras de tirar o chapéu. Flávio de Carvalho, Siron Franco — enfim, há artistas aqui que não costumam ser mostrados dentro desse contexto. De maneira geral, todos ganham uma nova significação. Se você puder ver um bom Di Cavalcanti, um que foge dos esquemas em que foi circunscrito, ou um Cícero Dias, acho que é sempre uma boa oportunidade.
A entrada no Pavilhão Central da 61ª Bienal de Veneza, no Giardini, é bastante ritualística: primeiro é preciso atravessar as colunas transformadas em viveiros de plantas pela artista nigeriana Otobong Nkanga. Em seguida passamos pelos trajes de Big Chief Demond Melancon, líder da tribo Young Seminole Hunters do Lower Ninth Ward de Nova Orleans, inspirados em práticas cerimoniais levadas aos Estados Unidos por escravizados africanos.
Seguimos, então, contornando as esculturas em cerâmica da senegalesa Seyni Awa Camara, que há 75 anos aprendeu de sua mãe as tecnologias ancestrais para produção de utensílios cotidianos, que hoje, aos 80 anos, ela reinventa em formato de bestiário.
Então, nos confrontamos com uma espécie de assembleia com dezenas de esculturas zoomórficas em cerâmica da artista e ativista peruana Célia Vásquez Yui, denominada O Conselho dos Espíritos Maternos dos Animais. Todos esses animais olham para apenas um lugar e parecem desafiar o visitante.
E, logo atrás, está a instalação Anatomia da Árvore da Magnólia para Koyo Kouoh e Toni Morrison, da cubana radicada nos Estados Unidos María Magdalena Campos-Pons, que tem como paisagem sonora uma composição de Kamaal Malak.
A obra é composta por um imenso painel em oito partes onde se veem as duas homenageadas do título com pés de coruja. Assentadas em galhos da magnólia, é como se elas cuidassem das sete esculturas em vidro à sua frente, realizadas em Murano, que sintetizam as etapas de floração.
Estas cinco obras, dispostas em três salas de um azul intenso, que ora parece o céu, ora o mar profundo, sintetizam o conceito da mostra Em tons menores, concebida pela curadora Koyo Kouoh (1967–2025), nascida em Camarões, primeira mulher africana a cuidar da Bienal de Veneza, que, contudo, não viu o resultado de seu trabalho, já que morreu praticamente um ano antes da abertura da mostra. Foi a equipe curatorial por ela escolhida, apelidada de Esquadra Koyo, composta por Gabe Beckhurst Feijoo, Marie Hélène Pereira, Rasha Salti, Siddhartha Mitter e Rory Tsapayi, que deu conta de colocar o projeto em pé com um resultado além de surpreendente.
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Traje de Big Chief Demond Melancon, líder da tribo Young Seminole Hunters do Lower Ninth Ward de Nova Orleans. Foto: Fabio Cypriano
Esculturas em cerâmica da senegalesa Seyni Awa Camara. Foto: Fabio Cypriano
O Conselho dos
Espíritos Maternos dos Animais, composta por esculturas zoomórficas em cerâmica
da artista e ativista peruana Célia Vásquez Yui Foto: Fabio Cypriano
Instalação do brasileiro Ayrson Heráclito. Foto: Fabio Cypriano
Anatomia da Árvore da Magnólia para Koyo Kouoh e Toni Morrison,
da cubana radicada nos Estados Unidos María Magdalena Campos-Pons. Foto: Fabio Cypriano
Marcel Duchamp, foto: Fabio Cypriano
Marcel Duchamp, foto: Fabio Cypriano
Marcel Duchamp e Maria Martins, foto: Fabio Cypriano
Escultura do porto-riquenho Daniel Lind-Ramos. Foto: Fabio Cypriano
Há mais obras nas salas descritas, mas o objetivo até aqui foi trazer em destaque as mais simbólicas, mesmo deixando de citar um pequeno canto com obras de ninguém menos que Marcel Duchamp (1887–1968), como a icônica Boîte-en-valise (1935–1941), uma mala com miniaturas de suas próprias obras que não só aponta para um questionamento do espaço expositivo, como faz uma fina ironia com o título da mostra. Junto estão ainda fotos realizadas por ele de uma exposição surrealista de 1947, onde se veem obras da brasileira Maria Martins (1894–1973). Ao lado, em mais uma ironia, está uma imagem de Akinbode Akinbiyi, uma privada descartada pichada com a frase “Fuck Duchamp” em referência ao seu urinol, um precursor da arte contemporânea. Akinbiyi, que participou da mais recente Bienal de São Paulo, no ano passado, faz da fotografia uma forma de escavação cultural, em cidades como Berlim, Dacar e Bamaco.
“Os tons menores rejeitam o exagero orquestral e a marcha militar rígida, e ganham vida nos tons suaves, nas frequências mais baixas, nos murmúrios, nas consolações da poesia, todos portais de improvisação para o outro e o diferente. Os tons menores pedem uma escuta que evoca as emoções e as sustenta em troca”, escreveu Koyo, em texto no catálogo da Bienal.
De fato, como se percebe pelas obras até agora citadas, há uma intenção em apresentar uma produção potente, que escape de categorias rígidas do que é arte, e que inscreve no campo da produção cultural a possibilidade de sonho e resistência, tomando já no título a música como referência. Ao longo da mostra, não só a sonoridade de vários trabalhos ganha relevância, como também cheiros de vários tipos, colocando a retina como algo relativo. Não por acaso, a primeira frase do texto de Koyo é “feche os olhos”.
Essa potência toda está na instalação de Campos-Pons, que também esteve na mais recente edição da Bienal de São Paulo, com um trabalho em torno de flores. No caso de Veneza, ao expor o ciclo de floração da Magnólia, que se repete todos os anos, a artista está a sinalizar como a vida sempre renasce, que as sementes se espalham e multiplicam a natureza antes do fim, uma metáfora mais que necessária nos tempos atuais.
Vale ressaltar aqui que a homenagem à escritora Toni Morrison (1931–2019), primeira mulher negra a receber um Nobel de Literatura, em 1993, no painel das Magnólias, está em consonância com Koyo, que havia pedido à sua equipe que lesse dois livros como inspiração para Veneza: Amada, de Morrison, e Cem anos de Solidão, do colombiano Gabriel García Márquez (1927–2014).
Não tem como pensar nesses livros e não se lembrar de outro trecho do texto de Koyo, que descreve os tons menores como: “As canções daqueles que produzem beleza apesar da tragédia. As melodias dos fugitivos que se recuperam das ruínas. As harmonias daqueles que curam feridas e mundos”, já que ambos se inserem no realismo mágico, ele latino-americano, ela sobre a escravidão nos Estados Unidos.
Três eixos guiaram o desenvolvimento conceitual e a coreografia da exposição desta bienal: a procissão, o jardim crioulo — precursor do conceito de agrofloresta, que mistura em um mesmo espaço diferentes espécies de plantas — e o convite ao encantamento e a importância do repouso físico e espiritual.
O estúdio de design sul-africano Wolff Architects, da dupla Ilze e Heinrich Wolff, da Cidade do Cabo, é o responsável pela elegante expografia da mostra, toda ela construída em dois tons: azul profundo e marrom claro, por conta de um revestimento de papelão ondulado nas paredes, o que traz um sentimento de conforto. Ilze participou como artista da 35ª Bienal de São Paulo, Coreografias do Impossível, em 2023.
Fazem parte da expografia áreas de descanso ao longo da exposição, com diversos tipos de cadeiras. Ao mesmo tempo, é uma edição que, por se inspirar nas procissões de carnaval que se originam nas religiões de matriz africana, é uma mostra que convoca o corpo a criar um percurso fluido e com muitos respiros. Isso faz com que haja muito diálogo entre os trabalhos e poucas salas individuais, mesmo que os artistas estejam presentes de forma generosa, em geral com muitas obras.
Também é tônica da mostra obras com uma manufatura muito próxima da artesanal, baseadas em técnicas ancestrais, o que faz com que seja uma edição com pouca tecnologia e, por extensão, com poucos vídeos. Há muitos trabalhos baseados em coleta de materiais descartados, como é o caso do porto-riquenho Daniel Lind-Ramos, que participa com três esculturas com referências ao período de escravidão, quando barcos eram usados como escape para os mangues, onde escravizados conseguiam se esconder.
Nessa mesma estratégia estão as colagens do palestino Mohammed Joha, ainda no Pavilhão Central. Suas obras são construídas a partir da sobreposição de materiais descartados como papel, cartão ou tecido, em uma relação com a necessidade de permanente reconstrução na Faixa de Gaza. A delicadeza de suas montagens, apesar de abstratas, lembra paisagens urbanas imaginárias e se torna testemunha da resistência e da recusa do desaparecimento.
Arsenale
A mostra principal de Veneza sempre se divide em duas partes, uma no Giardini, onde também estão os pavilhões nacionais e outra no Arsenale, na parte onde eram fabricadas cordas para navios há pelo menos 400 anos, um espaço espetacular com mais de 300 metros de extensão.
Pois graças à expografia, o grandioso se tornou um lugar aconchegante e, caminhar por ele, uma experiência agradável. A começar pela obra de Khaled Sabsabi, nascido no Líbano e radicado em Sydney, que também representa a Austrália nesta edição da Bienal. Ele cria um ambiente imersivo com projeções de cores que se transformam, som e aromas. É acachapante.
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Fotografias do brasileiro Eustáquio Neves. Foto: Fabio Cypriano
Eustáquio Neves. Foto: Fabio Cypriano
Instalação do brasileiro Ayrson Heráclito. Foto: Fabio Cypriano
Escultura do artista norte-americano Nick
Cave, que dançou na companhia do coreógrafo Alvin Ailey. Foto: Fabio Cypriano
Cave, que dançou na companhia do coreógrafo Alvin Ailey. Foto: Fabio Cypriano
Cave, que dançou na companhia do coreógrafo Alvin Ailey. Foto: Fabio Cypriano
Alfredo Jaar, The End of the World. Foto: Fabio Cypriano
Pintura do artista queniano Kaloki Nyamai. Foto: Fabio Cypriano
Logo na sala seguinte estão as fotografias do brasileiro Eustáquio Neves, que apresenta duas de suas séries: Arturos, sobre uma comunidade quilombola em Minas Gerais, e Cartas ao Mar, realizada sobre o Cais do Valongo, o maior porto de recepção de escravizados da história. Suas imagens são sempre construídas em camadas e é difícil não perceber um diálogo com o realismo mágico nelas.
É também no Arsenale que está o outro brasileiro na mostra, Ayrson Heráclito, em uma das mais impressionantes instalações da Bienal. Ele apresenta Juntó, um conjunto de esculturas em metal e desenhos em tinta e aquarela criando um vocabulário de insígnias e ferramentas relacionadas aos Orixás, em uma eloquente homenagem ao Mestre Didi.
Na mesma sala de Ayrson está outro destaque desta edição, o artista norte-americano Nick Cave – não confundir com o músico de mesmo nome. Cave chegou a dançar na companhia do coreógrafo Alvin Ailey, o que o levou a construir uma obra que produz diálogos entre dança, moda e arte. Em Veneza, ele comparece com uma série de esculturas em bronze, tanto dentro da exposição, como na área externa do Arsenale, nas quais corpos se metamorfoseiam em plantas e animais.
Também neste espaço estão as pinturas de grandes dimensões do queniano Kaloki Nyamai, outro dos impactantes trabalhos desta bienal. Em grandes dimensões, as pinturas trazem em geral memórias do povo Kamba, grupo étnico bantu que vive no Quênia. É visível ainda a influência de sua mãe, uma artista têxtil, já que as telas são construídas como colagens, os fios são aparentes e trazem grande efeito visual.
Uma das últimas instalações no Arsenale é O fim do Mundo, do chileno Alfredo Jaar, que cria uma espécie de catedral toda em vermelho onde um cubo de apenas quatro centímetros reúne camadas com os minerais essenciais para as tecnologias tanto de guerra como de transição verde. É um pequeno altar ao fim e ao começo de tudo.
Além da produção de artistas, Koyo apresenta ainda seis escolas criadas por artistas – blaxTARLINES, Denniston Hill, G.A.S. Foundation, lugar a dudas,
Nairobi Contemporary Art Institute (NCAI) e RAW Material Company – que apontam para a importância da educação como motor de transformação.
Em um mundo em guerras sem fim, sob domínio de empresas de tecnologia que condicionam comportamentos e geram depressão, e onde a farmacologia está mais próxima de criar doenças do que saúde, Em tons menores ensina que as mudanças começam em casa, no diálogo com a natureza e com ensinamentos ancestrais e por gestos simples. Afinal, é como a Magnólia da instalação de Magdalena Campos-Pons, uma das espécies de plantas com flores mais antigas da Terra, que representa a força da vida, a resistência e a conexão com a eternidade.
Instalação de Otobong Nkanga, Soft Offerings to Silenced Voices and to All Who Have Turned to Dust, 2026, na entrada do Pavilhão Central
Foto: Andrea Avezzù
As Bienais de Veneza das últimas décadas foram baseadas em um equilíbrio um tanto forçado entre a mostra central, com curadoria escolhida pela organização da mostra, e dos pavilhões nacionais, selecionados por instituições de cada país como uma representação oficial, que ocupa um dos 34 edifícios no Giardini ou outros espaços, especialmente alguns novos no Arsenale ou em palácios ao redor de Veneza.
Ao longo de sua longa história — a Bienal de Veneza foi criada em 1895 —, polêmicas não deixaram de existir nesta equação, mas, desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, a temperatura começou a ferver. Em 2022, artistas e curadores do Pavilhão Russo retiraram-se voluntariamente da mostra poucos dias após a invasão da Ucrânia, declarando que “não há espaço para arte quando civis morrem sob mísseis”.
Em 2024, a Rússia permaneceu fechada, enquanto a artista do pavilhão de Israel, Ruth Patir, recusou-se a abrir o espaço, junto com seus curadores, colocando um aviso na porta informando que a exposição (M)otherland só seria aberta ao público após o estabelecimento de um acordo de cessar-fogo e libertação de reféns.
De certa forma, até então, as polêmicas ficavam nos pavilhões. A 61ª edição da Bienal de Veneza mudou essa tendência. No ano passado, o artista Khaled Sabsabi, nascido no Líbano e radicado em Sydney, foi escolhido para representar a Austrália agora em 2026. Em menos de uma semana, o governo interveio para anular a decisão, alegando que, ao incluir uma imagem borrada de um ex-líder do Hezbollah, em um vídeo de 2007, Sabsabi era um apoiador do terrorismo e antissemita.
Em resposta, Koyo Kouoh, diretora da principal exposição da bienal, Em tons menores, convidou Sabsabi para participar da sua curadoria. A indignação da comunidade artística e uma avaliação independente levaram à reintegração de Sabsabi ao pavilhão australiano.
Mas a atuação de Koyo foi decisiva para o que estava por acontecer com o júri, por ela selecionado, tendo como presidente a brasileira Solange Farkas e composto apenas por mulheres, fato inédito na história de Veneza. As demais são: Zoe Butt (Austrália), Elvira Dyangani Ose (Espanha), Marta Kuzma (Estados Unidos) e Giovanna Zapperi (Itália).
Integrantes do grupo russo Pussy Riot protestam em frente ao pavilhão da Rússia na Bienal de Veneza. Foto: Marco Bertorello/AFP
Logo que foi anunciado, em abril deste ano, o júri deixou claro, a partir do conceito de Koyo, que há limites: genocidas não serão avaliados. Com isso, os pavilhões de Israel e Rússia, países cujos líderes estão sob acusação de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional, ficaram fora da disputa. Os Estados Unidos também mereciam ficar de fora, mas sem uma condenação formal de um órgão internacional independente, não coube ao júri levantar essa acusação.
Semanas depois do anúncio, o júri renunciou à sua tarefa sem declarar os motivos, mas sabe-se que a atitude tem a ver com pressões da presidência da Bienal pela manutenção de Israel na premiação, que criou, pela primeira vez, um prêmio paralelo, a ser escolhido pelo voto dos visitantes. Imediatamente, a maioria dos 110 artistas selecionados por Koyo pediu à direção da Bienal para ser excluída do prêmio e estavam sem resposta até o início de junho.
O gesto menor de dizer não do júri, contudo, trouxe um posicionamento um tanto inédito, mas necessário, no circuito das artes: saber o momento de dizer não, de que limites são necessários.
Pavilhão de Israel em Giardini durante a 60ª Bienal de Arte 2024. Foto: Hannah Goldsmith
O mercado não gosta de limites, aceita lavagem de dinheiro e de imagem com facilidade, vende para quem quer comprar, seja com nota ou sem nota. É um fato, e muitos artistas vêm aceitando participar de galerias que, sabidamente, não possuem régua ética ou moral.
Mas há artistas que estão impondo limites há anos, como Nan Goldin com a família Sackler, dinastia norte-americana fabricante de remédios opioides, responsável pela morte de cerca de 500 mil pessoas nos Estados Unidos, nos últimos 20 anos. Pois Nan Goldin liderou um movimento que retirou o nome dos Sackler de grandes museus dos Estados Unidos e da Europa.
Entrada da Chiesa di Sant’Antonin em Veneza, onde ocorre a instalação de arte Elegy da artista Gabrielle Goliath.
Também o curador da 36ª Bienal de São Paulo, Bonaventure Soh Ndikung impediu um debate em sua mostra com a herdeira do rei Leopoldo II, da Bélgica, reconhecido por liderar um genocídio no Congo em pleno século 20.
Como dizia o personagem de Herman Melville, escrivão Bartleby, “acho melhor não” pode até ser um gesto pequeno, mas saber o momento de recusar legitimar situações imorais é um exemplo mais que necessário nos tempos atuais.
Ayrson Heráclito, sob o título Juntó, obras inspiram-se em crenças religiosas e espirituais africanas que foram adotadas no Brasil. Foto: Marina Reyes Franco
Agora, ali, era
muito antes.
Consegue imaginar
a voz da
moça de outro
dia, caída
na rua,
mas ainda respirando?
Coisas postam-se entre
elas mesmas, interrompidas.
Onde
começa e onde
termina o olhar?
Outro verbo
sem presente: morrer.
Eu não disse
lembrar — imaginar
foi o que eu disse.
Consegue? A voz dela,
alguma voz
que você nunca
ouviu, qualquer voz.
Antes de alguma
coisa, ali.
O olhar talvez
comece antes
das pálpebras
se abrirem.
E acaba?
Não acaba.
Ricardo Aleixo, “Qualquer voz”, 2014.
I.
Escrever antes da forma é um gesto arriscado. Ao gentil e honroso convite da equipe curatorial para refletir sobre esta 61ª Biennale Arte, coube-me o exercício de escrever sobre um trabalho, em boa parte, ainda por vir. Tinha às mãos a lista de artistas, previamente disponibilizada; os textos curatoriais públicos e internos de trabalho; ricas trocas editoriais e, na memória afetiva, as poucas, mas intensas, conversas que tive com a maestra desse concerto, Mme. Koyo Kouoh.
Não se trata, portanto, de comentar um conceito posto em marcha pelo avizinhamento das obras no espaço, nem de interpretar retrospectivamente decisões já sedimentadas pela montagem, pelas disputas de produção, pelos inevitáveis compromissos com orçamento, diplomacia, arquitetura. Tampouco de permitir à imaginação repousar sobre as materialidades, gestos e formas apresentados pelos artistas. Trata-se, ao contrário, de pensar, a partir do esboço de um mundo, a construção de um projeto enquanto ele ainda é promessa, risco e trabalho.
No nosso caso, mais precisamente, começa por reconhecer que, numa bienal, o mundo proposto é sempre atravessado pelo que a própria forma-bienal autoriza ou retém, pelo que lhe excede e porventura lhe escapa. Para além de uma escrita prospectiva, confessadamente incompleta, detive-me em reflexões que emergiram de uma proposta em tom menor como especulação; pensar os limites e possibilidades radicais de um pensamento antimonumentalista dentro de um evento-cidade que é, em si, um monumento. E das perguntas daí derivadas: para que uma bienal hoje? Para quem? A que serve uma bienal, para além do espetáculo?
A 61ª Bienal, que propõe “refuse orchestral bombast and goose-step military marches”, ocorre num momento de saturação do formato de grandes eventos internacionais de arte, suas estruturas hiperverticais, envoltas em crises de legitimidade ética e acomodação ideológica. Momento também de exaustão, em escala global, de um regime dominante de sentido, de uma monocultura que começa a craquelar — “Este mundo não é mais branco, e nunca mais voltará a ser”, na profecia de James Baldwin —, e que mostra sua reatividade por meio de práticas variadas de violência, com ou sem verniz.
O desbranqueamento do mundo, esse longo processo de desfazimento, de desaprendizagem, de reencantamento, pede abertura dos poros, papilas e tímpanos para modos de pensamento e de criação que operam em outras frequências, e que por isso demandam outros vocabulários, requerem outros modos de relação.
Esses processos têm impacto direto nas práticas artísticas e curatoriais — ao passo em que são também por elas impactados —, gerando perguntas sobre seus processos de validação de critérios de qualidade, de criação de narrativas do contemporâneo.
Em nosso último encontro, dois meses antes de sua inesperada passagem – como palestrantes no seminário da mostra Project a Black Planet – The Art and Culture of Panafrica, no Art Institute of Chicago -, Koyo comentava empolgada, sem negar o cansaço, sobre os caminhos para Veneza. Falava da necessidade de uma “solidariedade radical” no campo das artes, enquanto perguntava, com genuíno interesse, sobre o processo que eu havia recém-vivido de realizar uma curadoria coletiva na 35ª Bienal de São Paulo, Coreografias do Impossível. Que aspectos da forma-bienal se revelavam em nossas distintas experiências? Como nossas trajetórias na direção de museus impactavam nossa prática curatorial?
Este ensaio é, de certo modo, uma continuação imaginária e fora-do-tempo dessa conversa interrompida.
II.
Em 1981, Dona Ivone Lara gravou um dos sambas mais conhecidos, e certamente dos mais amados, da música brasileira. “Alguém me avisou”, do álbum Sorriso Negro, trazia versos que rapidamente se converteriam numa espécie de dito popular, um conselho tático:
Eu vim de lá, eu vim de lá, pequenininho Alguém me avisou Pra pisar nesse chão devagarinho
A letra sugere uma escuta do invisível em que o “alguém” do título nunca é nomeado; o “lá” de onde se origina, tampouco. Uma reserva de segredo e de opacidade, em forma de versos. Embora seja um samba, sua estrutura melódica é contida, introspectiva, evitando explosões rítmicas — o que reforça a ideia de confidência, sussurro, de transmissão em tom menor.
Com seu canto baixo, voz grave e jeito nobre, Dona Ivone Lara já era uma compositora consagrada quando reclamou o “pequenininho” – não só como advérbio, ou vocativo, mas como método e como ética de respeito e cuidado. Chegar de mansinho, adentrar com cautela numa roda de samba, nos espaços de troca e de co-criação.
O gesto menor não implica hesitação ou pequenez. Anima antes uma altivez que prescinde de grandiloquência, uma presença que responde ao chamado pequenininho – sem deixar de dar o seu próprio recado:
Foram me chamar (ora, vejam vocês) Eu estou aqui, o que é que há?
No mesmo ano em que Alguém me avisou propôs dançar um samba miudinho, rejeitando a épica, a artista Beatriz Gonzalez, no marco da 4ª Bienal de Medellín, apresentou um trabalho que se tornaria emblemático da crítica institucional na América Latina. Uma faixa amarela, com letras negras e capitais, recuperando o vocabulário gráfico das manifestações de rua, onde se lê:
ESTA BIENAL ES UN LUJO QUE UN PAÍS SUBDESARROLADO NO SE DEBE DAR.
No canto inferior direito, a assinatura da artista, em vermelho e letra cursiva, seguida de “Medellín mayo de 1981”, complementa a obra.
A frase não elimina a ambiguidade do gesto, mas a instala como cerne do problema – e como método, aqui também. Criticar o “luxo indevido” desde dentro implicava abraçar a contradição de ocupar a plataforma que se questiona, usar seus instrumentos para expor aquilo que ela tende a ocultar, mobilizá-la para atingir outros fins. E devolve a pergunta ao próprio imaginário do dito “mundo desenvolvido”: por que uma bienal não seria também um luxo ali?
Daí a possibilidade da obra passar a organizar não só uma crítica, ou um veto, mas antes um programa. A forma-bienal é historicamente uma máquina de visibilidade (e, portanto, de captura), um dispositivo de produção e circulação de capitais e de prestígio. Ao mesmo tempo em que opera na redefinição de sensibilidades, reconfiguração de percepções, reprogramação de cânones, ativando campos ricos da crítica e do desenvolvimento artístico – e isso não é pouca coisa…
As obras de Dona Ivone Lara e de Beatriz Gonzalez, por diferentes vieses, servem de boa aproximação a alguns aspectos instigantes do conceito que Koyo e sua equipe anunciam ao mundo: o menor não como falta, mas escolha de registro.
Operando ao mesmo tempo como arcabouço conceitual e orientação metodológica, a menoridade reivindicada não se dá em termos de relevância, ambição ou de escala da exposição e dos trabalhos. Nem é proponente de uma desterritorialização da linguagem (o tom menor se distancia aqui, a meu ver, da ideia de uma “literatura menor”). Mas se apresenta como um modo de operar que prescinde da retórica heroica, da pretensão totalizante da representação.
O projeto defende, antes, uma prática curatorial enraizada na vida, e não nas coisas: uma prática que privilegia cuidado, responsabilidade ética e densidade relacional. Um convite à desaceleração, a ativar outras gramáticas de atenção, fora do tom da forma-bienal: “an exhibition that invites listening to the persistent signals of earth and life”, nos termos de Kouoh. A escuta é elemento importante nesse como-fazer, e sinaliza para uma prática curatorial centrada nos artistas, na alimentação de redes e espaços de arte, mais que nos objetos como fim.
III.
Um olhar detido sobre a lista de participantes dessa 61ª Biennale revela a presença significativa de artistas e redes periféricas que operam fora do circuito das grandes galerias internacionais, de práticas que se realizam à margem (estética e geopolítica) do jogo, em diálogo com nomes consagrados no circuito, and even with some famous names from the canon (e mesmo com alguns nomes célebres do cânone). Mas, em vez de fazer disso um encontro ou confronto de metodologias e estéticas, do tipo “norte encontra sul” ou “dentro versus fora”, a exposição propõe seus próprios ritmos de justaposição.
Essas dimensões se desdobram de várias maneiras. Um conjunto de trabalhos articula uma constelação de práticas nas quais espiritualidade, festa, rito e cura operam como tecnologias contemporâneas de relação. Em alguns casos, essa ativação se dá por meio de objetos e figuras que assumem função de sentinela ou mediação entre mundos — como nos juntós-totem de Ayrson Heráclito ou nas presenças mascaradas de Big Chief Demond Melancon, onde memória coletiva, proteção e performatividade se enredam. Em outros, manifesta-se em corpos, superfícies e materialidades que acumulam excesso simbólico e afetivo, a exemplo das esculturas de Ebony G. Patterson ou dos seres compósitos de Daniel Lind Ramos, nos quais ornamento, precariedade e fabulação se tornam indissociáveis.
Há ainda práticas que tomam cor, som e vibração como campos de inscrição espiritual — do índigo profundo mobilizado por Tabita Rezaire às formas migrantes e terapêuticas das Disease Thrower de Guadalupe Maravilla — compondo ambientes em que a experiência estética se aproxima de estados de recomposição sensível. As investigações espaciais de Torkwase Dyson articulam pintura, arquitetura e som, deslocando a forma para esculturas abstratas, inspiradas no Tougaloo College, no Mississippi, que acumulam camadas e histórias de conversão de uma plantation em lugar de educação coletiva e desenvolvimento de consciência política — estruturas de um espaço composicional capaz de sustentar a vida negra em meio a regimes históricos de violência, extração e controle.
Esse horizonte se adensa quando práticas que tensionam regimes de representação e visibilidade se articulam a ações pedagógicas, ativistas ou comunitárias.
Aqui, o gesto artístico não se esgota na forma, mas se prolonga em processos de aprendizagem, cuidado e confronto político. As proposições de Buhlebezwe Siwani, por exemplo, operam no limiar entre ritual íntimo e crítica institucional; enquanto o projeto colaborativo arms ache avid aeon escava a história contínua do fierce pussy, coletivo nova-iorquino de ativismo e arte, rearticulando-a para o contexto da Bienal e para o momento político imediato — um método de reinscrição da linguagem, do desejo e, neste caso, da dissidência queer, no espaço público.
Em diálogo com essas práticas, emergem pesquisas que mobilizam saberes botânicos, cosmologias agrícolas e mitologias da terra, como nas obras de María Magdalena Campos-Pons e Annalee Davis, nas quais jardins, plantas e paisagens cultivadas funcionam como arquivos vivos de histórias coloniais, diásporas e formas de resistência cotidiana.
Um outro eixo se delineia em torno do uso manual, experimental e sensorial das materialidades. Seja no laboratório analógico de Eustáquio Neves, onde processos fotográficos são tensionados para reinscrever ritos afro-diaspóricos e temporalidades insurgentes, seja na textualidade reiterada e costurada de Senzeni Marasela, o fazer artístico emerge como gesto de insistência, elaboração lenta e transmissão. Essas práticas encontram ressonância em projetos de escala ampliada que mobilizam som, cor e movimento para produzir experiências sinestésicas — como no grande “trio elétrico” de Álvaro Barrington ou na instalação de Wangechi Mutu — nos quais o corpo do visitante é convocado a escutar, atravessar e sentir.
Esse percurso encontra um de seus pontos de condensação no diálogo entre arquiteturas orgânicas e estados de metamorfose contínua. As colunas-totem floridas de Otobong Nkanga transformam a entrada da exposição em portal, sugerindo outras formas de relação entre mundos humanos e mais-que-humanos, economia e ecologia, extração e cuidado. Em ressonância, as sete colunas de Dan Lie, em permanente metamorfose material e sensorial, convertem o corredor em passagem meditativa, instaurando um regime de tempo desacelerado — um convite à respiração, à escuta prolongada e à permanência no intervalo.
Esse movimento é particularmente interessante num momento de ultravisibilidade (seletiva) de produções do chamado “sul global” – esse termo descolorante e pouco preciso, que escamoteia, dilui e beneficia os “nortes” que vivem e operam dentro do “sul”. E joga luz também para o número significativo de artistas do “norte global” também presentes, com práticas que endereçam questões prementes do contemporâneo de maneira instigante e investigativa, para além do regionalismo autocentrado (disfarçado de universalidade) que abastece o Velho Mundo. A questão então deixa de ser a de “representar”, e passa a ser: como produzir outras descrições, outras escutas, outras formas de presença?
A ênfase se desloca, então, das ideias de representatividade e de visibilidade como fins em si mesmos para questões ligadas à circulação das condições de produção, à remuneração, à expansão do sensível, à reversão do epistemicídio estético, à sustentabilidade e ao impacto de longo prazo nas cenas artísticas locais.
Nessa perspectiva, gosto de resgatar as “minor keys”, para além de suas acepções musicais e metáforas insulares, a partir da imagem literal da chave, da ferramenta que dá acesso a outros espaços. À maneira da chave dourada de Alice no país das Maravilhas, pequena demais para a maioria das portas, mas ideal para a minor door que dá acesso a mundos de artistas operando fora do tempo do desencanto e do cronômetro; a fechadura que dá guarida a “realms where time is not corporate property nor at the mercy of relentlessly accelerated productivity”, como descreve o texto curatorial.
Não é fortuito que o texto comece com um sugestivo “close your eyes”. A proposta reivindica, literal e poeticamente, modos ampliados de percepção, deslocando o ocularcentrismo na relação com as artes (assim chamadas) visuais. E propõe outros regimes de ver, de ouvir, de conhecer, em que a arte se torna uma prática sensorial, afetiva e política, capaz de sustentar imaginações compartilhadas e de dar forma a novos mundos, a criar novas linguagens. Uma episteme construída com e no corpo, que não requer apenas o equilíbrio resultante da contemplação, mas também o movimento orientado pelos sentidos, pela coparticipação, em relação: “o olhar talvez comece antes das pálpebras se abrirem”, para retomar os versos de Ricardo Aleixo que epigrafam este ensaio.
In Minor Keys, desse modo, parece indiciar uma bienal avessa ao didatismo expositivo, despreocupada com as trends e ins do mercado ou da moda. Assopra a possibilidade de fazer da forma-bienal um laboratório real, ainda que perecível, de exercício de invenção e de liberdade criativa, “fortifying for the work ahead”.
IV.
Desenvolvo essas reflexões a partir do lugar de quem testemunha, e é parte implicada, de uma geração de curadores e artistas que, ao longo da última década, vem operando uma transformação profunda no perfil profissional dessas áreas no Brasil, historicamente reservadas às elites brancas, salvo contadas exceções.
Trata-se de um processo conflituoso, heterogêneo e não garantido, mas que produziu deslocamentos significativos na paisagem artística, nos regimes de visibilidade, nos vocabulários críticos, nas bibliografias de referência, nas expectativas dirigidas à arte e a seus agentes, e no próprio horizonte de questões endereçadas ao sistema da arte mais amplamente. Ainda assim, os impactos políticos, econômicos e estéticos dessa transformação não encontram equivalência na ocupação de posições de poder nas estruturas institucionais nem nos circuitos de financiamento, instaurando menos um ânimo para celebração do que um estado de desconfiança ativa entre os profissionais do setor.
A história recente está repleta de exemplos em que a exposição intensa de corpos dissidentes em espaços centrais produziu consequências pessoais devastadoras – ao mesmo tempo em que gerou influências de longo prazo. A trajetória de Carolina Maria de Jesus – uma catadora de papel que tornou-se a maior best-seller literário do país, nos anos 1960 -, para citar apenas um caso paradigmático, condensa essa assimetria cruel entre alto valor simbólico e baixo poder material, entre relevância cultural e despossessão político-econômica. Curta duração do brilho, longa duração dos efeitos — nem sempre para quem brilhou.1
As dinâmicas dessa contradição oferecem um estudo de caso eloquente sobre os limites estruturais de transformação real dos museus e instituições de arte. Por tempo longo demais, aparências de diversidade – na composição de acervos, na imagem pública de equipes e conselhos consultivos, em exposições temáticas “plurais” cada vez mais parecidas – foram tomadas como sinônimo de decolonização, conferindo ao verniz a aparência de profundidade.
A experiência concreta de atuação nesse campo revela, contudo, que mecanismos de reconcentração de poder e prestígio se reativam precisamente no momento em que parecem ameaçados: aquilo que antes estava fora passa a ser admitido quando o lugar de chegada já não tem o valor que possuía no estágio anterior de funcionamento. Essa operação, não raras vezes, é uma resposta justamente ao desgaste de posição do pódio; uma estratégia de limpeza de imagem e de recuperação da relevância descascada pela crítica. A dialética desse jogo cheio de contradições torna o objetivo ético de transformação radical das instituições, e da forma-bienal por extensão, um horizonte impossível. O pecado capital de fundação desses espaços – suas origens coloniais, suas velhas alegorias de nacionalismo, as relações comprometidas com os interesses das elites políticas e econômicas – é a natureza mesma do limite intransponível de sua transformação.
Essa constatação de impossibilidade não é receituário pessimista para a inação, nem um desincentivo ao sonho da utopia. A urgência do mundo não dá tempo para o impasse. Ao revés, o impossível pode revelar potencialidades de rachadura do edifício, as frestas por onde a luz e o som rasgam o concreto, funcionando como motor ético para uma prática curatorial situada e criativa, consciente dos termos do jogo em que opera. Sem cinismo ou ilusões de grandiloquência, mas também sem capitulação ou descompromisso político.
Como, dentro dessa lógica, desenvolver ferramentas de desautorização das dinâmicas de categorização e tokenização próprias à forma-bienal é um dos desafios dessa curadoria desiludida. Formular táticas que frustrem a “demanda de auto-objetificação positiva” de que fala Jota Mombaça – “de acordo com a qual nós devemos sempre endereçar nossa desobediência sexual e de gênero, assim como nossa racialidade como tema central de nossa expertise”.
Sair do circuito da denúncia como única forma de consciência, abrindo espaço para as canções daqueles que produzem beleza apesar da tragédia (the songs of those producing beauty in spite of tragedy), como propõe In minor keys. Encarar as crises cumulativas e contínuas que se interligam (compounding and continuous intersecting crises) para além do regime do choque, da reencenação ou da explicação total. Dedicar um interesse curatorial genuíno a práticas artísticas e sociais que reivindicam outros entendimentos do tempo, que coreografam outras configurações de mundo – na e apesar da impossibilidade como condição.
Recusar encarnar o papel de curador-demiurgo ou, mais recentemente, a demandada posição de curador-faxineiro (aquele que limpa em superfície o histórico de violências e apagamentos institucionais, em câmbio de ganhos de carreira secundários).
Esses e outros modos de funcionamento, gestos de recusa que, ao negarem, afirmam e constroem, me parecem intimamente conjugados à proposta de uma forma “pequenininha” e generativa de fazer curadoria – esse lugar encruzilhado de mediação com e entre artistas, objetos, instituições, patrocinadores, conselheiros, públicos, galeristas et alii.
Não há fórmula única, nem receita de saída. Mas sabemos que quando as formas conhecidas se esgotam e outras ainda não se deixam ver, é a arte que sustenta a travessia e antecipa o impensado. Pisar no chão devagarinho, reorientar as potencialidades da curadoria para uma prática assentada na micropolítica do cuidado e da relação, comprometida com os artistas como sujeitos capazes de adubar o solo de futuros ainda intraduzíveis, pode ser uma boa rota de fuga.
Talvez seja essa a pista que Kouoh nos convida a trilhar nessa bienal do menor: fechar os olhos, baixar o tom, abrir-se à possibilidade, sempre à espreita, de imaginar alguma voz que você nunca ouviu.
1 Escrevi mais extensamente sobre este tema em “Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros” (2021), texto em coautoria com Raquel Barreto para o catálogo da exposição homônima.
2 Escrevi mais detidamente sobre essas ideias em “Choreographies of the impossible, crossroads of time”, in 35th Bienal de São Paulo Catalogue, organized by Diane LIMA, Grada KILOMBA, Hélio MENEZES and Manuel BORJA-VILLEL (2023).
Koyo Kouoh, curadora oficial da 61ª Bienal que, antes do seu falecimento
As eleições nacionais estão aí e isso obriga os estados e as secretarias de cultura a frear e tomar decisões sobre a aprovação de exposições e projetos, já que não se tem muito claro o que nos espera depois de outubro. Não que o Brasil seja uma exceção à regra. Vários dos países latino-americanos sofrem disputas eleitorais muito acirradas e a divisão entre a direita e a esquerda abriu uma fenda, que vai além das crises ideológicas. Hoje, o mal-estar social não encontra claras referências em antigas lideranças. Vivemos um momento de extrema convulsão e desde o confronto entre Hamas e Israel, a desmedida resposta deste último – que destruiu a Faixa de Gaza, matando milhares de palestinos – agudizou e espalhou o conflito pelo Oriente Médio.
As repercussões destes conflitos chegaram inevitavelmente à Bienal de Veneza. Esta edição é uma homenagem à camaronesa Koyo Kouoh, curadora oficial da 61ª Bienal que, antes do seu falecimento, participou do debate em que o júri por ela selecionado se mostrou contrário à participação de pavilhões cujos representantes orgulhavam-se das suas políticas fascistas e genocidas. O debate junto à direção da mostra teve como desenlace a renúncia de todo o comitê de seleção e a retirada de cerca de 160 artistas da premiação. O professor e crítico Fabio Cypriano esteve posteriormente em Veneza, onde acompanhou o debate, viu a exposição e trouxe uma análise de momentos importantes da mostra apresentada tanto no Arsenale quanto no Giardini e, inclusive, nas mostras paralelas.
No Brasil, a 16ª Bienal Internacional de Curitiba Limiares, sob a tutela das curadoras Adriana Almada e Tereza de Arruda, optou por ocupar vários espaços da cidade, com quase 300 artistas e vários curadores. O tema propõe uma reflexão sobre zonas de transição, o impacto da tecnologia na arte e novas formas de pensar e fazer. “Nos interessa discutir a necessidade de reconstruir vínculos coletivos em um cenário global marcado por polarizações, conflitos e isolamento social”, diz Tereza de Arruda.
São Paulo, por outro lado, ganhou um novo espaço de exposições e encontros com a abertura da sede paulista da Pinakotheke, inaugurada com uma mostra inédita dedicada aos “Surrealismos”. Idealizada por Max Perlingeiro, fundador da galeria, e por Tadeu Chiarelli, crítico e historiador, a exposição reúne mais de 100 obras de artistas europeus, latino-americanos e estadunidenses. Nesta edição, numa entrevista exclusiva à arte!brasileiros, Chiarelli comenta as preciosidades e diferenças da mostra.
E, para encerrar o semestre, Lara Paiva esteve no MASP, onde fez uma exaustiva reportagem sobre a arte latino-americana por meio das exposições de Damián Ortega, Santiago Yahuarcani, La Chola Poblete, Claudia Alarcón & Silat e o coletivo CADA.
Boa leitura e um bom descanso nas férias de julho e agosto!
Atravessar um limiar é o primeiro gesto exigido pela 16ª Bienal de Curitiba. No olho do Museu Oscar Niemeyer (MON), a instalação da japonesa Chiharu Shiota envolve o visitante em uma densa trama de fios vermelhos, convertendo o espaço em uma experiência física de passagem. Mais do que apresentar o conceito da mostra, a obra sintetiza seu princípio: as fronteiras deixam de separar para se tornar lugares de encontro, tensão e transformação.
Sob a curadoria geral de Adriana Almada e Tereza de Arruda, a Bienal abandona percursos lineares e aproxima artistas de diferentes gerações, geografias e culturas em torno de questões que definem o presente. Inteligência artificial, crise climática, deslocamentos e cosmologias não ocidentais atravessam uma exposição que evita respostas fáceis. Em vez de explicar o mundo, propõe habitá-lo em sua complexidade.
A tecnologia aparece como um dos principais campos de disputa. Longe do entusiasmo ou da rejeição automática, artistas como Alessandra Bergero, Panmela Castro, Mayara Ferrão, Jaqueline Duhr, Tom Lisboa e Fernando Aidar investigam como algoritmos, inteligências artificiais e bancos de imagens remodelam identidades, afetos e narrativas históricas. Enquanto alguns exploram a produção sintética de imagens, outros revelam os apagamentos inscritos nesses sistemas, mostrando que a inteligência artificial também reproduz preconceitos, hierarquias e exclusões.
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James Kudo, sem título. Foto: Divulgação/Bienal de Curitiba
Panmela Castro, Yes with no doubts, da série Relembrança, 2023. Foto: Divulgação/Bienal de Curitiba
Froiid, instalação O Pombo que Escapa ao Morcego e, ao fundo, Fabiana Gabas Kalla, Seascape: o que nos separa é também o que nos conecta. Foto: Divulgação/Bienal de Curitiba
Foto: Divulgação/Bienal de Curitiba
Max de Esteban, Red Lights, 2017. Foto: Divulgação/Bienal de Curitiba
Max de Esteban, Red Lights, 2017. Foto: Divulgação/Bienal de Curitiba
Max de Esteban, Retórica del silencio. Foto: Divulgação/Bienal de Curitiba
Gao Fuyan, Fragmentos do Tempo – Teatro do Rosto, 2006-2025. Foto: Divulgação/Bienal de Curitiba
Essa discussão encontra eco em outro eixo importante da Bienal: as relações entre natureza, ciência e convivência. Giselle Beiguelman desloca o olhar para plantas consideradas invasoras e questiona quem determina o que merece permanecer na paisagem urbana. Armarinhos Teixeira torna visíveis fenômenos naturais quase imperceptíveis, enquanto Sunjeong Hwang constrói paisagens em movimento marcadas pela delicadeza e pela fragilidade ambiental. Barbara Steppe e Li Qin transformam o livro em objeto escultórico e território de circulação entre culturas. Já Froiid utiliza o futebol para discutir os processos de elitização do espaço público, contraposto ao grande painel de Fabiana Gabas Kallás, onde pintura e ciência compartilham o mesmo campo de investigação.
A presença asiática ganha protagonismo no Pavilhão da China, com curadoria de Lyu Hongrong (Windy Lyu) e Xiao Ge. Reunindo vinte artistas, o núcleo propõe pensar a terra, a memória e os materiais como organismos em permanente transformação. Em vez de idealizar uma natureza perdida, a exposição procura compreender novas formas de coexistência. O diálogo se amplia com a participação de artistas de Macau, sob curadoria de Margarida Saraiva, que investigam os efeitos da tecnologia sobre a linguagem, a identidade e a percepção. Entre reconhecimento facial, tradução automatizada e desaparecimento de idiomas, as obras reafirmam a cultura como espaço de resistência.
A dimensão política da Bienal atravessa diversos núcleos. Sob curadoria de Ferran Barenblit e Adriana Almada, Max de Esteban examina a relação entre tecnologia, capitalismo e sistemas de controle, lançando um olhar crítico sobre a economia da vigilância e a transformação da arte em ativo financeiro. Na mesma direção, Matilde Marín e Jessie Kleemann deslocam a atenção para os glaciares, o Ártico e a emergência climática, lembrando que o colapso ambiental também ameaça modos de vida e memórias coletivas.
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Thiago Martins de Melo, Vulvo-Ctônico, da série Chama Negra. Foto: Divulgação/Bienal de Curitiba
Matilde Marín, Campos de gelo, 2004-2026. Foto: Divulgação/Bienal de Curitiba
Jessie Kleemann. Foto: Divulgação/Bienal de Curitiba
Ela Soares, Lar, 2026. Foto: Divulgação/Bienal de Curitiba
Em Camuflagens, o curador Royce W. Smith reúne artistas que investigam aquilo que escapa ao olhar imediato. Thiago Martins de Melo aproxima corpo feminino, mito e rebeldia; Javier Calvo Sandí transforma a própria pele em cartografia das violências coloniais; Paulo Nazareth faz do deslocamento um gesto político; Mabilón Jiménez Quispe atualiza a tradição dos retablos peruanos para narrar o cotidiano contemporâneo; e Regina José Galindo expõe os mecanismos de vigilância e repressão que atravessam o continente americano.
A Bienal também ultrapassa os limites do MON. No MuMA, a mostra Pó (Polvere), com curadoria de Massimo Scaringella e Chiara Franceschini, reúne Davide Boriani, Júlia Salvetti, Matteo Mezzadri e Alberto Salvetti em um conjunto que dissolve fronteiras entre matéria e percepção. Em especial, Boriani faz do visível e do invisível, do controle e do acaso, um território de permanente instabilidade.
Ao completar três décadas de trajetória, a Bienal de Curitiba reafirma sua vocação internacional sem abrir mão das questões locais. Mais do que mapear tendências da arte contemporânea, esta edição propõe um exercício de convivência entre diferentes formas de imaginar o mundo. Em tempos marcados pela polarização e pela aceleração tecnológica, seus limiares não indicam um destino. São espaços de passagem, onde o pensamento permanece em movimento.
Desde 2016, o Museu de Arte de São Paulo (MASP) organiza sua programação em torno de grandes recortes temáticos, como Histórias indígenas (2023), Histórias LGBTQIA+ (2024) e Histórias da ecologia (2025). Este ano chega a vez das Histórias latino-americanas; a noção de latinidade, tão plural, torna-se o eixo de um ano inteiro de exposições, que culminam em uma grande coletiva homônima em setembro.
Antes da mostra-síntese, que deve ocorrer em setembro, o museu desdobra o tema em uma sequência de individuais e retrospectivas que já ocupam, simultaneamente, vários andares de ambos os edifícios na Avenida Paulista. Atualmente, estão em cartaz as individuais do mexicano Damián Ortega, do peruano Santiago Yahuarcani, das argentinas La Chola Poblete e Claudia Alarcón, ao lado do coletivo Silät, somadas a um panorama do trabalho do Colectivo Acciones de Arte (CADA), do Chile. Vistas em conjunto, deixam entrever os fios que o museu pretende puxar ao longo do ano — não por acaso, três desses nomes passaram recentemente pela 60ª Bienal de Veneza, Estrangeiros por toda parte (2024), com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP.Talvez o fio mais visível entre as mostras seja o território e a violência que se abate sobre ele. Em O princípio do conhecimento, primeira individual de Santiago Yahuarcani no Brasil, 35 pinturas dão forma aos seres físicos e espirituais que compõem a cultura do povo Uitoto, que habita a Amazônia entre a Colômbia e o Peru. Pintor e escultor autodidata, Yahuarcani trabalha sobre llanchama, casca interna de uma árvore amazônica que é transformada em tela natural. A pintura que dá título à mostra, El principio del conocimiento (2019), traz no centro um ser feito de folha de coca, de cuja boca emerge uma folha de tabaco: a materialização do mito em que a entidade suprema dos Uitoto, Buinaima, concede sabedoria ao povo por meio das duas plantas sagradas.
Boa parte de sua obra se organiza em torno de uma cosmologia mágica, povoada de espíritos, em que os três mundos — o céu, a terra e as águas — estão interligados e os seres passam de um a outro. O rio é espaço liminar por excelência: ali os botos-cor-de-rosa se tornam protetores das águas durante a noite e criaturas míticas ganham vida. Em Yacuguagua (2021), um barco com rosto de peixe navega no escuro, carregado de animais e pessoas, sobre um rio revolto e cheio de sombras — o título nomeia um trecho específico do Ampiyacu, afluente da margem esquerda do Amazonas.
Mas na mostra, curada por Amanda Carneiro — anunciada como uma das curadoras da próxima Bienal de São Paulo — essas cenas místicas convivem com a denúncia, sobretudo no núcleo Tempo do choro de sangue. Em Lugar caliente (2023), figuras humanas de cabeça para baixo são lançadas ao fogo: o artista evoca o genocídio de Putumayo (1879–1912), em que empresas extrativistas da borracha assassinaram cerca de 30 mil indígenas. Seu avô, Gregorio López, foi o único sobrevivente do clã Aimeni (Garça Branca) a escapar das atrocidades de La Chorrera, epicentro do ciclo da borracha, onde milhares foram escravizados e mortos. “O tempo da borracha foi o choro de sangue. É assim que nós, uitotos, chamamos esse período, porque foi muito cruel. Nós, descendentes, sentimos essa dor, pois foi a destruição da nossa cultura”, afirma o artista. Em O primeiro homem-garça (2009–2010), Yahuarcani presta homenagem à própria origem: a figura de pés de ave aparece sentada entre criaturas fantásticas.
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‘El principio del conocimiento’ (2019), pintura de pigmento natural e acrílica sobre llanchama de Santiago Yahuarcani. Divulgação/Crisis Galeria
Claudia Alarcón & Silät, Honatsi, La noche, 2023
Claudia Alarcón & Silät, Los saltos de mi recordar, 2025.
La Chola Poblete, Sem Título, 2025
La Chola Poblete, Purple María, da série Virgenes cholas, 2023
Esses dois registros — o mítico e o histórico — se encontram em O canto das borboletas, documentário da peruana Núria Frigola Torrent exibido na mostra. O filme acompanha o cotidiano do artista em Pebas, entre a pintura e a família, também artistas e guardiões da memória da comunidade; nos momentos mais tensos, entrelaça obras que denunciam a violência colonial na bacia amazônica a uma narração em uitoto, como ecos de vozes ancestrais.
A mesma operação — transformar saber ancestral em testemunho político — também atravessa Viver tecendo, de Claudia Alarcón e do coletivo Silät, formado por mais de cem tecedeiras do povo Wichí. São 25 obras feitas à mão, entrelaçadas pela técnica conhecida como ponto yica, a partir do chaguar, bromélia de fibras resistentes nativa do Gran Chaco, segundo maior bioma da América Latina. Fundado em 2023, o Silät — cujo nome significa “mensagem” ou “alerta” no idioma wichí — reúne mulheres das comunidades de La Puntana e Alto de la Sierra, no noroeste da Argentina.
Na montagem, as obras aparecem ora emolduradas, ora penduradas em postes de madeira no meio do espaço, o que permite ao visitante perceber a materialidade e a transparência da fibra. Em uma das paredes, Hilulis ta llhaiematwek — Un coro de yicas reúne 105 bolsas yicas, objeto ancestral wichí, cada uma feita por uma integrante do coletivo. Sua confecção pode levar até um mês, e elas eram tradicionalmente usadas como moeda de troca, uma fonte de renda informal. Reunidas, tornam-se um instrumento de emancipação coletiva.
Algumas peças seguem os padrões tradicionais wichí, que remetem aos animais do Gran Chaco: um tecido aparentemente geométrico carrega, assim, história, mitologia e território. Outras são mais figurativas, como Kates tsinhay — Mujeres estrellas (2023), que evoca o mito das mulheres-estrelas. Segundo a narrativa, elas viviam no céu e desciam à Terra todas as noites por fios de chaguar que elas mesmas teciam, para se alimentar dos peixes pescados pelos homens; quando descobertas, tiveram os fios cortados e ficaram presas na Terra.
Mas o coletivo também rompe com a tradição. As integrantes passaram a tecer simultaneamente uma mesma peça e a introduzir cores intensas como laranja, azul e fúcsia, antes ausentes da paleta terrosa wichí. Essa dimensão coletiva e contemporânea se faz ver em N’äyhay wet layikis — Caminos y cicatrizes, concebido em 2025 para o 9 de Julho, dia da independência argentina, como denúncia da repressão histórica do Estado contra os povos indígenas. Em Oyhil ta iwo lipa — Nuestros tejidos unidos (2025), as emendas — os layik, ou cicatrizes — ficam visíveis no centro da obra, testemunho do trabalho a muitas mãos.
Para Alarcón, é preciso entender a relação do povo Wichí com sua terra para se aproximar do que tecem. A curadoria, de Adriano Pedrosa e Laura Cosendey, sublinha esse caráter político: os tecidos, diz Cosendey, “tornaram-se bandeiras de luta, estandartes que portam mensagens, histórias, e dão vozes às mulheres da comunidade”. Assim como Yahuarcani, Alarcón & Silät também passaram por Veneza em 2024.
Se Yahuarcani e Alarcón partem da ancestralidade para denunciar o presente, Pop andino, da argentina La Chola Poblete, inverte a chave e ataca diretamente os estereótipos coloniais — a começar pelo próprio nome: chola é termo usado como injúria racial contra mulheres de ascendência indígena nos Andes. Sua prática — que atravessa escultura, pintura, desenho, vídeo, fotografia e performance — incorpora o cânone da arte europeia, referências pop, discurso político e denúncia social a partir de uma perspectiva interseccional. Não por acaso, foi justamente esse cruzamento entre perspectiva trans, indígena e queer que rendeu a Poblete uma menção especial do júri da Bienal de Veneza de 2024.
Curada por Adriano Pedrosa e Leandro Muniz, Pop andino é, de longe, a mais controversa das exposições em cartaz no MASP. Em uma das fotografias, a artista aparece no meio de um açougue e, de um único seio, jorra leite na boca de um missionário mórmon. A reação veio na forma de um abaixo-assinado, que reuniu mais de 11 mil assinaturas, e de uma representação do deputado estadual Danilo Balas (PL) ao Ministério Público de São Paulo, que pedia a apuração do que classificou como “vilipêndio a crenças e símbolos religiosos”. O museu respondeu que não alteraria a exposição, e a artista não comentou o caso. Em 3 de junho, o MP-SP arquivou a representação.
Para Leandro Muniz, o mais potente de sua obra é justamente o debate: a possibilidade de trocas a partir de trabalhos que, a princípio, podem parecer íntimos e pessoais, mas que encontram uma ressonância coletiva.
Primeira individual de La Chola Poblete no Brasil, a mostra reúne 14 trabalhos de sua série mais conhecida, Vírgenes cholas (2022 — em processo), em que a artista combina divindades andinas e católicas, frases de protesto, dados autobiográficos, personagens de desenho e símbolos nacionais. Em Rosa mística, retrata uma Nossa Senhora loira e de olhos azuis, coberta por uma tarja vermelha onde se lê “Argentina no es blanca” — as mesmas palavras que aparecem em outra obra, La Virgen mulata (2023), que, por sua vez, representa uma mulher de traços indígenas. “A chola é uma figura histórica apagada dos lugares de contemplação e adoração. Ao se inserir nesses lugares, ela reivindica e critica esse apagamento, se inscrevendo num lugar de idolatria”, afirma Muniz.
Em muitas das aquarelas aparece uma figura de feições cholas, cujas longas tranças são puxadas por uma mão branca, repetida em série, ora gritando, ora com o rosto distorcido. Outro elemento recorrente são os alimentos: batatas e pães que evocam dimensões ao mesmo tempo simbólicas e econômicas. Em uma das paredes, esculturas de pão e arame reproduzem máscaras funerárias, usadas por diversas culturas pré-colombianas como forma de proteção. No centro da sala das Vírgenes cholas, está Venus marrona rajada (2023), também em pão e arame: a artista refigura uma mulher de feições próximas às suas e uma longa peruca de cabelo preto e liso como uma Vênus Anatômica, tradição dos séculos 18 e 19 que produzia figuras de cera dissecáveis, de órgãos expostos como numa autópsia.
Apesar de ser uma mostra sintética, abarca as diferentes linguagens e temas presentes nas obras da artista. A dimensão política abordada não é panfletária: aborda a realidade de grupos marginalizados sem rodeios, mas com certo humor. “Passa intrinsecamente por uma reflexão sobre a arte e a imagem — sobre quais imagens ganham circulação e quais corpos ganham alcance”, pontua Muniz.
Na exposição Democracia radical, do Colectivo Acciones de Arte, o coletivo vira programa político. Com curadoria de André Mesquita, a mostra reúne fotografias, filmes, cartazes e documentos de oito ações realizadas pelo grupo chileno entre 1979 e 1985.
Fundado em Santiago em plena ditadura de Augusto Pinochet, o CADA — formado pelos artistas Lotty Rosenfeld e Juan Castillo, pela escritora Diamela Eltit, pelo poeta Raúl Zurita e pelo sociólogo Fernando Balcells — tirou a arte do museu e a levou para a rua, de forma rápida e muitas vezes anônima, para escapar da censura. Pouco conhecido no Brasil, mas referência fundamental da arte política do século 20, o grupo ganha aqui sua primeira mostra panorâmica, com 177 itens reunidos de seu arquivo.
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Colectivo Acciones de Arte
Colectivo Acciones de Arte
Damián Ortega, Matéria e Energia. Foto: Cortesia MASP
Damián Ortega. Foto: Cortesia MASP
Taller Popular de Serigrafía, Ellos viven en nuestra lucha - 20 años (detalhe), 2003.
Taller Popular de Serigrafía, Argentinos a las calles (detalhe), 2002.
Mesquita destaca como o grupo foi revolucionário — foi pioneiro da videoarte, então emergente, e criou ações que ecoam até hoje, antecipando questões centrais na arte. Seus trabalhos eram multidisciplinares por natureza, unindo a crítica a uma linguagem poética e visual. “Por isso o nome democracia radical — o que propunham era uma forma de se relacionar radicalmente democrática, que exigia participação do público”, afirma.
Duas das ações giram em torno de um mesmo símbolo, o leite. A primeira delas, que estreou o grupo, Para no morir de hambre en el arte (1979), distribuiu cem sacos de leite a moradores de um bairro pobre de Santiago, com as embalagens marcadas com “½ litro de leite”: referência à promessa de Salvador Allende, deposto pelo golpe militar, de que toda criança chilena teria direito a meio litro de leite por dia. No mesmo ano, em Inversión de escena, uma passeata de caminhões de leite seguiu até o Museo Nacional de Bellas Artes, então sob controle do governo militar, com a entrada coberta por um pano branco de cem metros quadrados. Ao bloquear o museu e retomar o símbolo do leite — agora associado à desnutrição infantil sob a ditadura —, o CADA deslocava o olhar da arte para fora da instituição e transformava a própria cidade em museu.
Sua ação mais célebre, NO+ (1983), veio quando o golpe completava dez anos. O coletivo espalhou pela cidade a fórmula aberta “Não mais”, a ser completada pela população em pichações, cartazes e grafites: “NO+ dictadura”, “NO+ muerte”, “NO+ hambre”. A mostra traz o registro do primeiro “NO+”, um cartaz logo destruído por homens fardados. A consigna escapou ao controle do grupo e se espalhou: já em junho de 1984 a Inti Gallery, em Washington, dedicava uma exposição a materiais gráficos derivados do “NO+”, e, anos depois, o slogan seria reapropriado na campanha do plebiscito de 1988 que selou o fim do regime. “O slogan NO+ consolidou-se como uma expressão de militância na América Latina”, comenta André Mesquita, lembrando seus usos posteriores, do movimento feminista Mujeres por la Vida a mobilizações dos anos 2000.
Em ¡Ay Sudamérica! (1981), seis aviões sobrevoaram bairros de Santiago lançando cerca de 400 mil panfletos — uma inversão simbólica do bombardeio ao palácio de La Moneda em 1973, que derrubou o governo de Salvador Allende, porém trocando bombas por mensagens. O texto convidava a população à participação: “todo mundo que trabalha para ampliação, mesmo que mental, de seus espaços de vida é um artista”. O título também remete a uma dimensão continental — afinal, em 1973, o Chile era um entre tantos países da América do Sul sob governos repressivos, a exemplo do Brasil, do Uruguai e da Bolívia.
“Apesar de tratar especificamente do contexto chileno, o CADA dialoga com todo o contexto da arte política feita durante as ditaduras da América Latina”, afirma o curador. “¡Ay Sudamérica! pensa [a região] como um todo no contexto dos anos 1980. Mas as ações tratavam de temas políticos sem abrir mão dessa poética”.
A última ação do coletivo, já sob o agravamento da repressão, deslocou-se das ruas para a imprensa: em um retrato em preto e branco feito por Paz Errázuriz, o rosto sóbrio de uma mulher acompanha a palavra “VIUDA” — viúva.
No prédio histórico do MASP, o mexicano Damián Ortega apresenta Matéria e energia, primeira panorâmica do artista na América do Sul, com 35 obras realizadas ao longo de três décadas. A curadoria é assinada por Adriano Pedrosa, Rodrigo Moura e Yudi Rafael.
Sua obra mais conhecida, Cosmic Thing (2002), inédita no Brasil, é um fusca inteiramente desmontado e suspenso no ar, com cada peça flutuando como num diagrama. O carro é um símbolo da industrialização latino-americana — foi o automóvel mais popular no México e no Brasil. A Volkswagen instalou sua fábrica em Puebla em 1964, e os fuscas-táxi cruzaram a Cidade do México por décadas. Ao esmiuçá-lo peça por peça, num gesto que evoca tanto o manual de “conserte você mesmo” quanto a cultura das oficinas de desmanche, Ortega expõe as camadas afetivas, históricas e econômicas do objeto: promessas de modernização e ascensão social, mas também obsolescência.
O diálogo com a história da arte latino-americana é direto em Controller of the Universe (2007), instalação em que serrotes, marretas e machados congelam uma explosão — releitura do mural O homem controlador do universo (1934), de Diego Rivera, cujo tom heroico e celebratório da indústria Ortega põe em xeque.
Em 120 jornadas (2020–2023), satiriza a cultura do consumo: 120 garrafas de Coca-Cola descaracterizadas, modeladas em cerâmica a partir de argila da região de Oaxaca, polo da cerâmica tradicional mexicana. A obra deforma o ícone do consumo americano por meio de um paradoxo — ao contrário das garrafas de refrigerante, produzidas em ritmo acelerado para circular pelo mundo, as peças de Ortega exigem tempo e carregam as marcas de uma materialidade que remonta a um meio usado há milhares de anos.
Também no edifício Lina, o MASP exibe algumas de suas aquisições recentes, em diálogo direto com o tema. Voltadas à produção gráfica política latino-americana, sinalizam o empenho do museu em incorporar ao acervo um tipo de obra que entende como democrático e participativo por natureza. Ink & Blood: 1968-2009, de Abraham Cruzvillegas, reúne 41 reproduções de cartazes nascidos de movimentos sociais e políticos da América Latina — o título condensa sua dupla face: a tinta como circulação de ideias, o sangue como marca da repressão. Já o Taller Popular de Serigrafía exibe um conjunto de 52 serigrafias, concebidas entre 2002 e 2007, sobre temas sociais e políticos. Surgido na crise econômica e social que estourou na Argentina em 2001, o grupo montava sua oficina em meio a manifestações populares e protestos em fábricas recuperadas.
Vistas em conjunto — da floresta amazônica ao deserto do Chaco, das ruas de Santiago controladas por Pinochet às oficinas da Cidade do México —, as mostras desenham um campo de tensões: entre o ancestral e o contemporâneo, o coletivo e o autoral, a celebração e a denúncia. São os primeiros movimentos de um ano que ainda promete, em setembro, a grande coletiva capaz de amarrar os fios que essas mostras já começam a tecer.
FABIO CYPRIANO Jornalista, é crítico de arte, professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes da PUC-SP. Nesta edição, cobriu a 61ª Bienal de Veneza com três textos: sobre o gesto político do júri liderado por Solange Farkas, sobre a curadoria Em tons menores de Koyo Kouoh, e sobre os destaques dos pavilhões nacionais e das mostras paralelas.
HÉLIO MENEZES é curador, antropólogo e internacionalista. Foi um dos curadores da 35ª Bienal de São Paulo, Coreografias do Impossível. Nesta edição, publica o ensaio Imaginar alguma voz que você nunca ouviu, produzido originalmente para o catálogo da 61ª Bienal de Veneza a convite de Koyo Kouoh.
LUIZA LORENZETTI é jornalista, especialista em Mídia, Informação e Cultura pelo CELACC-USP. Atualmente, é Gerente Web da Arte!Brasileiros. Nesta edição, entrevistou o curador Tadeu Chiarelli na abertura da nova sede paulista da Pinakotheke e cobriu a 16ª Bienal Internacional de Curitiba.
LEONOR AMARANTE jornalista, curadora e editora. Trabalhou no Jornal O Estado de S.Paulo, na revista Veja, na TV Cultura e no Memorial da América Latina. É editora e repórter de Arte!Brasileiros desde 2015. Nesta edição, cobriu a 16ª Bienal Internacional de Curitiba – Limiares.
LARA ARRUDA PAIVA é jornalista formada pela Universidade de São Paulo. Tem passagem pela Folha de S.Paulo, Arte! Brasileiros e Jornal da USP. Nesta edição, escreveu sobre as cinco exposições do eixo Histórias latino-americanas em cartaz simultaneamente no MASP.
COIL LOPES é desenvolvedor multimídia, designer, videomaker e programador. Atuando na Arte!Brasileiros desde sua fundação, integra criação e tecnologia, produzindo fotografias, vídeos e diagramou e revisou a edição 75 de Arte!Brasileiros.
Dois pesquisadores da UFRJ e da UERJ decifraram uma inscrição no Theatro Municipal do Rio que passou 117 anos sem tradução em um local de grande afluência de turistas (cerca de 30 mil visitantes por mês). A frase traduzida foi grafada originalmente em cuneiforme persa e se localiza no painel central do Salão Assyrio do Theatro Municipal, um ambiente esplendoroso inaugurado em 14 de julho de 1909 e cuja construção e ambientação cênica ficaram a cargo da empresa francesa La Grande Tuilerie d’Ivry (também conhecida como Grès Muller). Esse grupo foi fundado em Paris pelo engenheiro Émile Muller em 1854, e foi quem construiu as balaustradas de cerâmica da Torre Eiffel. Muller morreu em 1889, mas sua empresa familiar prosseguiu fazendo obras sob a direção de seu filho, Louis Muller, e um dos últimos trabalhos da companhia antes de fechar as portas, em 1908, foi justamente a decoração do Salão Assyrio do Theatro Municipal carioca, entre 1905 e 1909.
Todo revestido em cerâmica esmaltada, com painéis de mosaico, o Salão Assyrio já abrigou um restaurante e um cabaré, além de ter sido palco de suntuosos bailes de máscaras do Theatro. A iconografia (obras e modelos) que a empresa Grès Muller — a mesma que legou à França a Torre Eiffel — enxertou na decoração, conforme esclarecem os pesquisadores, é ligada às coleções de artefatos iranianos (ou persas) do Museu do Louvre que chegaram a Paris na lendária Exposição Universal de 1889.
Em janeiro de 2025, durante uma visita ao Salão Assyrio do Theatro Municipal, o professor Alex Mazzanti Júnior, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em estudos clássicos e linguística indo-europeia, identificou que a inscrição no painel principal da sala parecia trazer uma composição em persa antigo. Mazzanti buscou saber o que significava e fez uma leitura inicial do texto persa, que não era conhecido pela curadoria do teatro. Ele então compartilhou imagens do texto cuneiforme com um expert, Matheus Treuk, professor de arqueologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), especialista em Pérsia Aquemênida. Era inequivocamente persa, mas seria prudente analisar mais detidamente o tema, e os autores resolveram buscar novas informações junto ao Theatro.
A museóloga Raquel Villagrán Seoane, coordenadora do Centro de Documentação do Theatro Municipal, integrou-se à busca e passou a colaborar com o esforço pela tradução do texto e a contextualização do ambiente, cedendo imagens de alta resolução da inscrição e documentos históricos sobre o salão. Graças a esse trabalho coletivo, os autores finalmente puderam analisar criticamente todo o ambiente cenográfico do Salão Assyrio e traduzir, contextualizadamente, a misteriosa inscrição. Entre suas conclusões, está a de que o conjunto decorativo do salão possui uma composição eclética, inspirada em achados de diversas fontes e com uma composição moderna e singular. A elucidação do contexto histórico (e das circunstâncias de manufatura da decoração) acabou gerando uma nova demanda de visitas guiadas ao salão do Theatro.
São numerosas as ligações entre o Salão Assyrio carioca e os artefatos arqueológicos preservados em Paris, especialmente no Louvre. O salão do Rio de Janeiro deriva de um crescente movimento de fascínio e imaginação orientalistas instaurado pela (re)descoberta dos artefatos de Susa no século XIX. A inscrição em cuneiforme, da qual não se sabia o significado até agora, reitera essa fascinação. O termo cuneiforme significa “em forma de cunha”, e é como se designa um dos mais antigos sistemas de escrita da humanidade, criado pelos sumérios na Mesopotâmia (atual Iraque) por volta de 3200 a.C.
O texto cuneiforme original (vertido para o padrão Unicode) é esse:
“Do Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario”.
Apadana é termo oriundo do persa antigo que designa um suntuoso salão de recepções solenes ou palácio dos antigos reis da Pérsia. Artaxerxes (497 a.C.—427 a.C.) foi um soberano aquemênida, filho de Dario. A inscrição do salão fica acima da figura de um altar de fogo, à direita, a imagem de um guardião com uma lança que serve de moldura para o início do texto. Do lado direito está a figura do rei, que pratica um ato de oferenda ou de consagração.
Já na época da inauguração do Theatro, cronistas do período debatiam se o tal “restaurante assírio” não deveria ser considerado “persa”, já que era composto por imagens de artefatos encontrados pelos franceses na antiga Susa (uma das cidades mais antigas do Oriente Próximo, no sudoeste do Irã, onde fica atualmente Shush), no final dos anos 1800. O Apadana que fizeram no Salão Assyrio é baseado no de Susa. O cronista João do Rio (1881—1921), homenageado pela Feira Literária de Paraty de 2024 e um dos originadores da moderna crônica literária no Brasil, chegou a escrever sobre o Salão Assyrio quando de sua construção, em 1913. João do Rio assinou a crônica com um de seus pseudônimos, Paulo Barreto:
“O teto que parece esmagar, as evocações de grandes ciclos históricos em que a Grécia sentia a Ásia colossal, a evocação desses períodos pela reprodução dos frisos, tudo isso ainda é mais aumentado pelo prolongamento multiplicado, refletido nos espelhos engastados em bronze antigo, pelo murmúrio das fontes d’água remorejando sobre piscinas esguias, pela iluminação leitosa das lâmpadas de formas originalíssimas”.
“A composição de algo inteiramente novo a partir da combinação de temas presentes em diversos sítios arqueológicos e provenientes de diferentes períodos históricos é uma atestação da alta expertise e erudição da Grès Muller”, afirmam os pesquisadores em extenso artigo produzido para o SciELO, o “Google” acadêmico brasileiro, ecossistema de informação sobre pesquisas científicas.
Fotos: Matheus Treuk/Divulgação
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No Rio de Janeiro, escrevem os autores do estudo, o artista, ao substituir o rei assírio e seus serviçais pelo rei persa e seus guardas, criou algo inteiramente novo. Ele se inspirou em paralelos de Persépolis e Naqsh-i Rostam, e não apenas de Susa, adaptando o tema da libação assíria à realidade aquemênida. Os atendentes nos flancos do rei, por exemplo, seguram na mão direita um “abanador de moscas” cujo protótipo aparece nos relevos da Sala do Trono de Persépolis, ao mesmo tempo em que, ecleticamente, seguram na mão esquerda uma “toalha” de tipo assírio, em vez da esperada toalha persa com um laço na ponta ou com marcas de dobra. O altar de fogo da versão carioca que substitui, no tema original, a mesa de oferendas assíria e um incensário, evoca, por sua vez, os altares dos relevos funerários aquemênidas de Naqsh-i Rostam.
Na Exposição Universal de 1889, em Paris, a civilização persa figurou em diversos pavilhões e exibições abertos ao público, como no Pavillon des Travaux-publics, no Palais des Arts-Libéraux e na Histoire de l’habitation humaine. Além do intuito instrutivo, também havia um cunho propagandístico nesse esforço, simbolizando o conhecimento e o controle do Estado francês sobre essas culturas do resto do mundo, e realçando parâmetros colonialistas de superioridade e inferioridade. Para os pesquisadores que fizeram o trabalho, “o Salão Assyrio constitui, sem sombra de dúvida, uma das obras mais fascinantes e excepcionais da história do orientalismo e da recepção da Antiguidade Persa, devendo ter um lugar de destaque nos estudos sobre o tema no país”.