Para aprender a ver, a inteligência artificial precisa de olhos humanos. É essa contraposição, feita de trabalho, classificação, extração de recursos e vigilância, que O Mundo Através da IA, no Sesc 24 de Maio, traz ao foco.
Com cerca de 70 obras de 29 artistas de vários países, a exposição, organizada pelo Jeu de Paume, de Paris, com a curadoria do pesquisador Antonio Somaini, não pretende explicar o funcionamento técnico da inteligência artificial nem celebrar suas conquistas: ela olha para a IA como fenômeno histórico, político e cultural: uma forma contemporânea de organizar o mundo e decidir o que pode ser visto, reconhecido, classificado ou descartado.
O título contém parte da questão. O mundo não é simplesmente visto pela inteligência artificial: é reconstruído segundo aquilo que seus sistemas conseguem identificar. Rostos, gestos, objetos e territórios tornam-se dados. Ver deixa de ser apenas uma ação e passa a ser também uma operação de poder.
Mas essa história não começa com a IA. A instalação Calculando Impérios: A Genealogia da Tecnologia e Poder desde 1500, de Kate Crawford e Vladan Joler, ocupa duas paredes que somam 12 metros e aproxima as tecnologias atuais de antigos processos de colonização, exploração e extração. O que parece novo revela estruturas conhecidas: territórios mapeados, corpos classificados e recursos extraídos.
Hito Steyerl exibe Mechanical Kurds (2025), videoinstalação que aborda conflitos políticos e a desigualdade de direitos das comunidades curdas nos territórios da Turquia, Síria e Iraque. Em sua investigação sobre imagem, tecnologia e poder, a artista toca numa questão que atravessa a exposição: quem vê e quem é visto. É o velho princípio do panóptico de Jeremy Bentham ver sem ser visto, reaparecendo sob novas formas de vigilância. Gregory Chatonsky segue por outro caminho. Em A Quarta Memória, a estrutura metálica em chamas que envolve um monitor de tela negra desloca a memória para o território da alucinação computacional. Aqui, lembrar pode também significar reconstruir, desviar ou inventar uma realidade que o algoritmo jamais viveu.
A exposição derruba a ideia de uma tecnologia imaterial. Por trás dos algoritmos existem energia, água, minerais, servidores e trabalho humano. O filme imersivo Acapulco (2022–2024), de Bruno Moreschi e Pedro Gallego, revela pessoas que classificam imagens, moderam conteúdos e realizam tarefas para que os sistemas aprendam a reconhecer padrões. É também pelo ato de classificar que Giselle Beiguelman entra nessa discussão e confirma a primeira linha do meu texto. Ela é uma das principais artistas/pesquisadoras do Brasil trabalhando com arte e inteligência artificial e exibe dois trabalhos. Em Beleza Corrosiva (2025), mostra equipamentos descartados e paisagens contaminadas que expõem os rastros físicos da tecnologia. Já em Botannica Tirannica (2022), investiga a classificação botânica e suas relações com ciência, colonialismo e poder. Apesar das diferenças estéticas profundas, ela diz dialogar com a investigação de Kate Crawford e Vladan Joler.
A exposição revisita histórias de dominação e resistência que atravessam a arte e a ciência no Brasil e, nesse sentido, pergunto a Beiguelman: O que vai ficar e o que vai desaparecer? “Escolher é disputar quem terá direito à memória. Destaco particularmente imagens, objetos e saberes que desafiem as narrativas dominantes de contracodificação, como as matemáticas africanas e as práticas indígenas que evidenciam uma antecipação dos fractais, sem deixar de lado outras escrituras urbanas, como o pixo e os códigos de resistências nas ditaduras.”
Em São Paulo, essa genealogia ganha uma camada brasileira. A edição acrescenta ao projeto internacional sete cápsulas do tempo, produzidas especialmente para a exposição. Em vez de construir uma história linear da tecnologia no Brasil, elas aproximam tempos e sistemas de conhecimento aparentemente distantes. Uma delas reúne materiais ligados à fisiognomia, à antropologia criminal e à eugenia, entre eles estudos de Raimundo Nina Rodrigues, fotografias de cangaceiros decapitados e o Boletim de Eugenia, de 1929. O conjunto desloca a discussão sobre reconhecimento de corpos para muito antes dos computadores: classificar corpos é uma prática anterior aos algoritmos.
As cápsulas aproximam ainda a arte computacional de Waldemar Cordeiro, o Poema/Processo, experiências dos anos 1980 e o pensamento de Vilém Flusser, de referências à taxonomia colonial, às pixações nos muros paulistanos como sistema de códigos visuais e às experiências fotográficas de Hercule Florence. Histórias que desconstroem a ideia de que a relação entre arte, tecnologia e pensamento começou agora.
O Mundo Através da IA apresenta, assim, a inteligência artificial não como um futuro recém-chegado, mas como resultado de uma longa história de imagens, máquinas, trabalho, ciência e classificação. E deixa uma pergunta atravessando a exposição: Quando uma máquina aprende a ver, quem ensinou a máquina a olhar?
Entrevista com Antonio Somaini, Professor De Harvard e Sorbonne e Curador da mostra
arte!✱ – Como você construiu a seleção de artistas da exposição? Procurava mostrar diferentes maneiras de trabalhar com a inteligência artificial ou diferentes posições críticas diante dessa tecnologia?
Antonio Somaini – Procurei artistas cujas obras abordam a IA a partir de perspectivas críticas, ou seja, reflexivas e conscientes das profundas questões estéticas, epistemológicas, históricas e políticas envolvidas na transformação que estamos vivendo. Alguns desses artistas utilizam modelos de IA para desenvolver essas abordagens críticas, enquanto outros recorrem a outras mídias, diagramas, esculturas etc., para falar sobre a IA.
arte!✱ – A exposição sugere que a inteligência artificial não se limita a produzir novas imagens, mas transforma nossa maneira de ver o mundo. De que forma a IA modifica hoje o nosso olhar?
O título da exposição é O Mundo Através da IA, e sugere que a IA, não como uma tecnologia única e uniforme, mas como um conjunto heterogêneo de algoritmos e modelos, está transformando a maneira como vivenciamos o mundo: nossa maneira de perceber, imaginar, pensar, lembrar, escrever, produzir imagens e sons, interagir com os outros e trabalhar.
Se nos concentrarmos no olhar, a IA o transforma de duas maneiras. De um lado, com as tecnologias de machine vision (visão computacional), capazes de “olhar” com um olhar não humano, matemático e algorítmico, para bilhões de imagens armazenadas na internet e extrair informações delas, mesmo quando não são visíveis aos olhos humanos. De outro, com os modelos de IA generativa, que introduzem imagens de estatuto problemático: altamente fotorrealistas, mas sem resultar de nenhuma captura óptica. Um “fotorrealismo estatístico” que não documenta acontecimentos que ocorreram, mas acontecimentos que poderiam ocorrer.
arte!✱ – A inteligência artificial é frequentemente apresentada como uma tecnologia voltada para o futuro. No entanto, trabalha a partir de dados produzidos no passado. Como essa tensão aparece na exposição?
A tensão atravessa toda a exposição. De um lado, ela é pontuada por “cápsulas do tempo”. Vitrines contendo obras de arte, aparelhos, fotografias, publicações e artefatos de outros períodos, que estabelecem relações entre presente e passado em temas como machine vision, reconhecimento facial, microtrabalho ou a própria ideia de uma arte generativa ou algorítmica. De outro, várias obras utilizam a IA para retornar ao passado e pensá-lo em termos contrafactuais, visualizando passados alternativos e possíveis.
arte!✱ – Os sistemas de inteligência artificial são alimentados por imensos arquivos de imagens já existentes. Podemos realmente falar em criação ou trata-se mais de uma nova maneira de recompor a memória visual da humanidade?
Os sistemas de IA são alimentados por enormes quantidades de imagens e textos já existentes. Durante o treinamento, aprendem a codificá-los de forma vetorial em “espaços latentes”, espaços matemáticos dentro dos quais realizam seus cálculos para posteriormente gerar outras imagens. O processo pode resultar em imagens semelhantes às que faziam parte dos dados de treinamento, mas também em imagens surpreendentes e inesperadas. Tudo depende da maneira como os modelos são utilizados e treinados. Na minha opinião, podemos perfeitamente falar em criação, porque toda criação foi alimentada por alguma forma de memória visual. Dito isso, trata-se de um novo tipo de criação, que surge do entrelaçamento e da influência recíproca entre as intenções humanas e os modelos de IA.
arte!✱ – Em um mundo em que as imagens podem ser geradas sem aparelho fotográfico, sem câmera e, às vezes, quase sem intervenção humana, o que acontece com a noção de autor?
O autor se torna uma figura que interage com modelos de IA em uma relação de influência recíproca: esses modelos o influenciam, e ele os influencia por meio de suas escolhas, de sua maneira de utilizá-los e de treiná-los. O autor não desaparece, mas entra em uma nova configuração.
arte!✱ – Diante do poder crescente das imagens geradas por IA, que papel a arte ainda pode desempenhar: acompanhar essa transformação, torná-la visível ou introduzir uma distância crítica?
A arte e os museus que a apresentam podem desempenhar um papel fundamental neste momento de transição. Podem se oferecer como espaços de reflexão e experimentação diante de um desenvolvimento tecnológico que avança a uma velocidade extraordinária.
Em 1964, em Understanding Media, Marshall McLuhan escreveu que, em momentos de profunda transformação tecnológica, as obras de arte podem atuar como “mapas de navegação social”, ajudando a atravessar novos cenários. Estamos em um desses momentos, e o papel das artes e dos museus é, na minha opinião, essencial.
arte!✱ – Depois de ver o robô chinês bater o recorde de Usain Bolt, como você interpreta essa performance no contexto atual do desenvolvimento da inteligência artificial e da robótica?
Estamos entrando em uma fase na qual a IA estará cada vez mais presente no mundo físico, tridimensional, para além das telas, ultrapassando aquela em que existe principalmente na forma de chatbots que interagem com seres humanos por meio de perguntas e respostas. É uma transformação profunda, cujo impacto social e político ainda precisa ser compreendido. A China investe enormemente no setor da robótica, e isso também pode ser observado no campo da criação artística chinesa, aspecto por enquanto menos presente em outros contextos artísticos.
arte!✱ – Na sua opinião, o robô que venceu essa competição representa uma virada na nossa relação com as máquinas e com suas capacidades físicas?
Esse recorde certamente está destinado a se tornar um momento decisivo no desenvolvimento da robótica, mas outros virão em breve. Não sei se representa realmente uma virada em si, porque as viradas se sucedem em velocidade impressionante. O que é certo é que, dentro de alguns anos, na China e em outros lugares, os robôs farão parte de nossas sociedades e estarão presentes em nossa vida cotidiana. Um cenário de ficção científica, encenado diversas vezes pelo cinema, que se aproxima da realidade, com consequências ainda difíceis de imaginar.