Vista, desde o Canal do Bósforo, da cidade de Istambul e do Istanbul Modern. A intervenção do artista inglês Liam Gillick, gravada no exterior do museu, "Hydrodynamica Applied" (2015), é a equação de Bernoulli, que formula conservação de energia e pressão/Foto: Patricia Rousseaux
“Minha mãe era uma arqueóloga. E ela tinha uma forma muito especial de dispor uma coisa ao lado da outra, ou instalá-las ou organizá-las, decorando a casa com objetos que ela tinha achado. Quando eu era criança, durante a guerra do Vietnã, ela recebia inúmeros visitantes em Washington, e quando eu acordava, pela manhã, nunca sabia exatamente quem tinha dormido em casa. Eu penso que a dOCUMENTA (13) e outras exposições que fiz tendem a recriar aquela atmosfera. Por um lado, a vitalidade de diferentes pessoas na casa, e, por outro, a presença dos objetos que ela tinha coletado, alguns preciosos e outros encontrados na rua. A importância do relacionamento entre material cultural, a história do passado e a política do presente.”
No Istanbul Modern, inaugurado em 2004, 55 artistas foram especialmente convidados. O brasileiro Cildo Meireles apresentou o óleo sobre tela “Projeto de Buraco para Jogar Políticos Desonestos”, 2011 (ver edição 31 da ARTE!Brasileiros)/Foto: Patricia Rousseaux
Neste parágrafo da entrevista à CI MAG, publicação turca, editada em Istambul, em setembro deste ano, a diretora artística Carolyn Christov-Bakarguiev, que acaba de ser considerada uma das TOP 10 dentre as 100 pessoas mais influentes no mundo da arte pela consagrada publicação inglesa ART Review, sintetiza poeticamente por que a Bienal de Istambul pode ter trazido um grande aporte para a validação da teoria do pensamento complexo, na contemporaneidade, e o quanto a arte contemporânea é um pivô, um elemento disparador para se refletir sobre o indivíduo, a história, a política, a ciência e a literatura.
Edgard Morin, sociólogo e filósofo, inaugurou, nos anos 1970, a ideia do que passou a ser denominado como “pensamento complexo”.
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Vídeo do artista turco Nilbar Gures, “Soyunma” (“Undressing”), 1977, artista residente da Bienal de São Paulo 2014/Foto: Patricia Rousseaux
Vídeo do artista turco Nilbar Gures, “Soyunma” (“Undressing”), 1977, artista residente da Bienal de São Paulo 2014/Foto: Patricia Rousseaux
Vídeo do artista turco Nilbar Gures, “Soyunma” (“Undressing”), 1977, artista residente da Bienal de São Paulo 2014/Foto: Patricia Rousseaux
“Se tentamos pensar no fato de que somos seres ao mesmo tempo físicos, biológicos, sociais, culturais, psíquicos e espirituais, é evidente que a complexidade é aquilo que tenta conceber a articulação, a identidade e a diferença de todos esses aspectos, enquanto o pensamento simplificante separa esses diferentes aspectos, ou unifica-os por uma redução mutilante.”
Uma crítica do paradigma científico da modernidade, um desafio e uma motivação a pensar-nos, e ao nosso entorno, de forma diferente da maneira com que fomos induzidos e educados a pensar no século XIX e começo do XX, quando devíamos estudar e compreender os fenômenos em disciplinas estanques, isolados, e acreditar neles desde que pudessem ser mesurados no determinismo científico e mecanicista.
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No Istanbul Modern, instalação “The Prophets”, 2013, de Richard Ibghy e Marilou Lemmens, do Canadá/Foto: Patricia Rousseaux
A obra mais representativa do movimento da arte povera, Michelangelo Pistoletto, “Vênus dos Trapos”, 2015/Foto: Patricia Rousseaux
Na ilha de Büyükada, um barco serviu de cenário para a instalação “Saltwater Heart” do artista turco radicado em Berlim, Pinar Yoldas. Um sistema de tubos envolve o barco, e seu sistema operacional foi baseado na fórmula hidrodinâmica que está gravada na parede externa do Istanbul Modern, uma obra de Liam Gillick/Foto: Patricia Rousseaux
Dentro do barco Neurathian Boatstrap, de Marc Lutyens. A escuridão completa é para hipnotizar o público/Foto: Patricia Rousseaux
No distrito de Beyolu, centro de Istambul, na Escola Primária Grega Galata, a obra “The Salt Traders”, 2015, de Anna Boghiguiam, explora os conceitos de tempo, poder e navegação. Uma imensa embarcação que transportava sal é usada no comércio de escravos/Foto: Patricia Rousseaux
No distrito de Beyolu, centro de Istambul, na Escola Primária Grega Galata, a obra “The Salt Traders”, 2015, de Anna Boghiguiam, explora os conceitos de tempo, poder e navegação. Uma imensa embarcação que transportava sal é usada no comércio de escravos/Foto: Patricia Rousseaux
Desde 1970, os conceitos de “interdisciplinariedade” e “transdisciplinariedade”, seguidos pelo biólogo e psicopedagogo suíço Jean Piaget e pelo físico e filósofo franco-romeno Basarab Nicolescu, respectivamente, trouxeram a possibilidade de admitir a existência de um novo tipo de abordagem do conhecimento, aquele que sintetizasse a justaposição de várias áreas do saber, atravessando fronteiras epistemológicas de cada ciência e permitindo uma experiência dos diferentes níveis de realidade: reflexiva, sensorial e experimental.
Com o título SALTWATER: A Theory of Thought Forms (Água Salgada: Uma Teoria de Formas Pensantes), a Bienal de Istambul serviu de cenário para desenvolver essa ideia e provocar todos os “deslocamentos”, de espaço e de pensamento, possíveis.
A pé, de barco, de carro ou “tranvai”, visitantes da Turquia e do mundo todo acompanharam instalações, sites específicos e obras que abordavam diferentes camadas de história, de geografia e de uso das tecnologias.
Nas palavras de Carolyne, “há correntes de pessoas, de ideias, de guerras, de armas, de amor – de tudo, mas não está sempre visível”.
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O artista belga Francis Alÿs, formado em engenharia e residente no México há muitos anos, colecionou diferentes apitos construídos em madeira para reproduzir o som dos pássaros que fugiam de Ani, cidade devastada da Anatólia, localizada entre a Turquia e a Armênia.
Em “O Silêncio de Ani”, de 2014, ele registrou jovens locais brincando de esconde-esconde até a exaustão, homenageando aqueles que brincaram e morreram na cidade medieval.
Ani era conhecida como “a cidade das 1.001 igrejas” e competia em tamanho e beleza com Constantinopla e Jerusalém. No século XI, sucessivas invasões levaram seus moradores a abandonar a cidade
“O Silêncio de Ani”, Francis Alÿs
“O Silêncio de Ani”, Francis Alÿs
“O Silêncio de Ani”, Francis Alÿs
“O Silêncio de Ani”, Francis Alÿs
“O Silêncio de Ani”, Francis Alÿs
“O Silêncio de Ani”, Francis Alÿs
“O Silêncio de Ani”, Francis Alÿs
“O Silêncio de Ani”, Francis Alÿs
“O Silêncio de Ani”, Francis Alÿs
Os movimentos oceânicos que banham as costas da Turquia, com correntes que atravessam o canal do Bósforo, do Mediterrâneo ao Mar de Mármara e ao Mar Negro, produzem movimentos subterrâneos que carregam detritos de diversos continentes e albergam infinitas histórias de poder da nossa civilização.
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SALT GALATA é uma instituição privada patrocinada pelo Garanti Bank cujo foco principal é a pesquisa e construção de arquivos sobre cultura, política, design, arquitetura, economia e história social do Império Otomano e da Turquia. Um espaço para pesquisa, crítica e debate. Centenas de documentos são digitalizados, fotografados, catalogados e arquivados e servem como ponto de partida para os programas de comunicação e exposições abertas ao público. O Salt Galata está instalado em um edifício no bairro de Beyolu, construído entre 1850 e 1860, e contém registros valiosos do conflito e do massacre dos armênios, bem como a documentação da arquitetura dos últimos 100 anos/Foto: Patricia Rousseaux
Sal Galata/Foto: Patricia Rousseaux
Sal Galata/Foto: Patricia Rousseaux
O trabalho do artista Zeyno Pekünlü criado a partir de notas feitas por alunos durante a preparação para os exames está em exposição na biblioteca Salt/Foto: Patricia Rousseaux
A cidade de Constantinopla – hoje Istambul – está localizada entre as principais rotas comerciais ligando a Ásia à Europa, e foi sede do Império Romano e Bizantino, assim como posteriormente sede do Império Otomano, que nasceu no século XI, quando tribos turcas nômades se fixaram na Anatólia, região que hoje é parte da Turquia. O Império Otomano foi um dos mais fortes durante os séculos XV e XVI, englobando boa parte do Oriente Médio, do Leste Europeu e do norte da África. Foi perdendo supremacia ao longo da história. Os turcos lutaram na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) junto à Alemanha. A derrota no confronto tumultuou ainda mais o já dilacerado império, que acabou sendo abolido pouco depois, em 1923, quando foi proclamada a República da Turquia.
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A ideia de espalhar a exposição em diferentes espaços, determinantes da história cultural de Istambul – edifícios, escolas, museus – teve seu auge durante o passeio a pé por Beyolu que leva ao Museu da Inocência, construção típica de Istambul, onde o escritor turco Orhan Pamuk, ganhador do Prêmio Nobel de 2006, construiu, após terminar o romance de mesmo título, o espaço que recria não apenas a decepção de Kemal e Füsun, mas também a história política e social dos anos 70 no país/Foto: Patricia Rousseaux
Baseado na ideia de obsessão pela acumulação que o amor não correspondido de Yussum lhe causa, Kemal coleciona tudo o que sua amada usa, joga fora ou simplesmente olha para eles/Foto: Patricia Rousseaux
Esta temática literária é reproduzida por Pamuk no museu, construído a partir de objetos coletados em antiquários, livrarias, casas de família e lojas/Foto: Patricia Rousseaux
Iconografias da época trazem à mente o choque entre Oriente e Ocidente, entre tradição e modernidade/Foto: Patricia Rousseaux
Usando como ponto de partida a história de desilusão e obsessão amorosa, Orhan Pamuk traça uma paisagem social e cultural da Turquia/Foto: Patricia Rousseaux
O último andar do museu abriga as obras do artista armênio Arshile Gorky, Ato de Criações, 1947, e Vale do Armênio, 1944/Foto: Patricia Rousseaux
Museu da Inocência/Foto: Patricia Rousseaux
Museu da Inocência/Foto: Patricia Rousseaux
Museu da Inocência/Foto: Patricia Rousseaux
Museu da Inocência/Foto: Patricia Rousseaux
Um dos traumas sociais que a Bienal traz à tona, desde diferentes perspectivas, é o genocídio, em 1915, de milhares de armênios suspeitos de “sentimentos nacionalistas” hostis ao governo central. Em 26 de maio de 1915, uma lei especial autorizou a deportação dos armênios por razões de segurança interna, seguida, no dia 13 de setembro, de uma lei que ordenou o confisco de seus bens. A população armênia de Anatólia e Cilícia foi condenada ao exílio nos desertos da Mesopotâmia. Muitos armênios morreram no caminho ou em campos de concentração. Cem anos depois, o governo republicano turco se vê envolvido mais uma vez em conflitos com países limítrofes, neste caso com a Síria.
A arte traduz o sofrimento humano. E em cada época esse incorpora e desenvolve sintomas diferentes.
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Em Büyükada, uma das nove ilhas que compõem o arquipélago das Ilhas dos Príncipes, localizada no Mar de Mármara, a menos de uma hora de barco da cidade de Istambul, diversas obras foram apresentadas aproveitando as belas obras de arte, várias delas em ruínas/Foto: Patricia Rousseaux
A casa mostrada aqui pegou fogo e ficou completamente destruída/Foto: Patricia Rousseaux
Leon Trotsky, um dos maiores representantes da Revolução Russa, viveu nesta casa entre 1929 e 1933, antes de se mudar para o México, onde foi assassinado pela polícia secreta de Stalin/Foto: Patricia Rousseaux
Compra/Foto: Patricia Rousseaux
Compra/Foto: Patricia Rousseaux
Compra/Foto: Patricia Rousseaux
Saindo dos jardins da casa de Trotsky, um caminho serpenteia em direção ao mar que foi o cenário da instalação monumental do artista argentino Adrían Villar Rojas, “A Mais Bela de Todas as Mães”/Foto: Patricia Rousseaux
Composta por enormes esculturas de fibra de vidro e materiais orgânicos coletados pelo artista nas quais emergem do mar criando uma atmosfera quase fantasmagórica e surreal. A ideia de ir, sair, chegar e chegar permeia toda a bienal/Foto: Patricia Rousseaux
O artista contemporâneo investiga as dores, a geografia, a biologia, o passado. Atualiza as imagens da memória e as transforma em presente. Investiga e constrói arquivos. Formas de expressão que organizam o saber desde diferentes perspectivas e revisitam a memória vieram para ficar.
Nos anos 1960, a tradutora e intérprete alemã Margarethe Hamich se mudou com o marido para a pequena Bietigheim, no sudoeste da Alemanha, mais de uma década antes de sua junção à vizinha Bissingen. “A cidade era muito feia. Falei que ficaria no máximo três anos, mas cá estou eu”, afirma a octogenária Margarethe, hoje também uma guia especializada na joia da coroa do lugar, as construções medievais feitas com enxaimel, estruturas de hastes de madeira, encaixadas em posições horizontais, verticais ou inclinadas, com paredes de barro ou tijolos. Com cerca de 42 mil moradores, Bietigheim-Bissingen faz parte de uma rota criada pelo órgão oficial de turismo da Alemanha (DZT, na sigla em alemão) nos anos 1990, que percorre cerca de cem cidades ao longo de três mil quilômetros, de Stade, à beira do rio Elba, no norte do país, a Meersburg, no Lago Constança, no sudoeste.
Ao todo existem mais de 2,5 milhões de construções do gênero na Alemanha. A Brasileiros visitou algumas delas, não somente em Bietigheim-Bissingen, mas também em Besigheim, Schorndorf, Blaubeuren, Pfullendorf, Esslingen, Biberach e Meersburg, num dos seis segmentos da Fachwerkstrasse (o nome da rota em alemão), que abriga 26 cidades com enxaimel, em construções que datam do século 13 ao 19. Em todas, as técnicas construtivas e os detalhes arquitetônicos funcionam como uma moldura para o interessante retrato histórico oferecido pela rota.
As casas mais antigas do trecho ficam em Biberach e Esslingen. Na primeira, algumas das casas com enxaimel revelam, por meio da divisão de seus cômodos, como era a vida doméstica e citadina nesses pequenos povoados alemães, nos séculos 14 e 15. Por exemplo: uma característica marcante era o andar térreo reservado ao abrigo de animais, ao armazenamento de alimentos e à atividade econômica de seu proprietário, como a panificação ou o curtume, de que a família inteira participava. Os dormitórios ficavam nos andares superiores e o banheiro ainda era elemento praticamente ausente do vocabulário arquitetônico. Um pequeno apêndice fazia as vezes de WC, com escoamento para o vão entre as casas. Tempos insalubres.
Em Biberach, onde estão algumas das mais antigas construções do gênero, exemplar que no passado abrigou residência e tear, e hoje funciona como ateliê de cerâmica – Foto: Stadtmuseum Hornmoldhaus
Em Bietigheim, a Hornmoldhaus mostra a transição do enxaimel alemânico para o francônio, e conta 1.200 anos de sua história – Foto: Stadtmuseum Hornmoldhaus
Kessler, mais antigo espumante do país, é feito numa casa de enxaimel, em Esslingen – Foto: Stadtmuseum Hornmoldhaus
Em Frankfurt, a praça Römerberg reúne várias casas construídas com a técnica de enxaimel. Em primeiro plano, a Fonte da Justiça – Foto: Stadtmuseum Hornmoldhaus
O lago Blautopf serve de cenário para casa de enxaimel, em Blaubeuren – Foto: Stadtmuseum Hornmoldhaus
No Lago Constança, Meersburg também tem exemplares de enxaimel – Foto: Stadtmuseum Hornmoldhaus
Outro destaque de Biberach é a Weberberg, área da cidade que no século 16 chegou a reunir cerca de 400 teares, ocupando 1/4 da população. Um dos highlights do roteiro do enxaimel, o lugar se tornou um ímã para profissionais como ceramistas, escritores, designers e arquitetos.
Em Esslingen, por sua vez, a antiga praça do mercado da cidade abriga um grandioso exemplar de enxaimel, onde fica a Kessler-Haus, mais antiga fabricante de espumantes (Sekt, em alemão) do País, e a primeira de vinhos do gênero fora da França. Aberta em 1826, a Kessler ocupa um complexo com adegas e construções que datam do início do século 13, e que já haviam pertencido à Igreja. O lugar ideal para Georg Christian Kessler aplicar os conhecimentos de produção de champanhe, aprendidos diretamente com Barbe-Nicole Clicquot, a famosa viúva.
Já em Bietigheim-Bissingen, a casa-museu Hornmoldhaus, antiga residência do escrivão e oficial de justiça Sebastian Hornmold (1500-1581), revela a transição entre dois estilos de enxaimel, do alemânico (fim da Idade Média) para o francônio (início da Idade Moderna), com elementos construtivos passando a ter função meramente ornamental, como a cruz de Santo André, um “X” de madeira muitas vezes aparente na estrutura.
Mas não só isso. Lá dentro, uma maquete revela como é o esqueleto de hastes da construção, ainda sem o preenchimento de paredes com barro ou pedra. As pinturas nas paredes e no teto da Hornmoldhaus falam um pouco do estilo de vida na Alemanha durante a Renascença. Além de ornamentos florais, dos brasões da família Hornmold e da Casa de Wurtemberg, há desenhos que criticavam a Igreja Católica e o clero. Criada nos anos 1980, a casa-museu tenta contar um pouco dos 1.200 anos de história da cidade.
Na pequena Blaubeuren, mais história. As águas do lago Blautopf (panela azul, em alemão) servem de cenário para construções de enxaimel do século 15, muitas delas à beira dos canais que cortam a cidade. Há também pré-história: Blaubeuren abriga em seu principal museu a Vênus de Hohle Fels, a mais antiga figura feminina feita pelo homem, a partir de marfim de mamute. Descoberta em 2008, a Vênus tem entre 35 mil e 40 mil anos. E faz o enxaimel parecer até recente.
Matéria especial da semana- Uma tarde na Fundação Casa
Vinícius Mendes
Obstáculos, como muralhas, alambrados e portões, separam os adolescentes que ocupam o centro de atendimento socioeducativo Casa Governador Mário Covas da Fundação Casa, na Vila Maria, zona norte de São Paulo, do trânsito da pista local da Marginal Tietê. Para entrar no edifício, os visitantes precisam assinar um caderno, deixar celulares no balcão e abandonar ideias preconcebidas do lado de fora. Nesse ambiente, encontram-se 64 jovens (capacidade máxima da casa) entre 15 e 18 anos incompletos que vivenciam pela primeira vez a experiência de estarem confinados em uma instituição socioeducativa. Qualquer um deles pode ser protagonista do polêmico debate em curso no País: a redução da idade penal de 18 para 16 anos em alguns casos. A Câmara dos Deputados aprovou a Proposta de Emenda Constitucional, que prevê redução da maioridade nos casos de crimes hediondos – como estupro e latrocínio – e para homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte. Se a medida for aprovada pelo Senado, infratores de 16 e 17 anos vão cumprir pena em estabelecimento separado dos maiores de 18 anos.
Inaugurada em novembro de 2014, a Casa Governador Mário Covas conserva as paredes pintadas de verde-claro e os acabamentos, como batentes e janelas, em tons da mesma cor, só que mais escuros. Tem oito dormitórios, cada um com quatro beliches, e várias salas onde os meninos têm aulas de ensino básico, desenho, computação, confeitaria, panificação. O prédio ainda abriga uma quadra poliesportiva, mas eles preferem mesmo jogar futebol.
Todos, sem exceção, têm o cabelo cortado ao estilo militar por “motivos de higiene” e usam uniforme azul-marinho com um número de identificação – as toalhas, os lençóis, as saboneteiras, tudo tem um número. Edson Luis de Oliveira, diretor do centro de atendimento, explica que esse método, semelhante ao usado entre presos adultos, tem apenas função administrativa na Fundação Casa. “Eles não são chamados pelos seus números. Utilizamos essa prática apenas para organizar melhor as nossas atividades.”
“Olha que louco, senhor. Os caras fizeram mais unidades da Fundação Casa do que escola. Não é uma contradição, senhor?”, pergunta João. Antes que pudesse continuar, Mateus diz: “No meu bairro não tem escola nem posto de saúde, senhor”.
Pelos corredores, Oliveira fala com um e com outro, sempre chamando pelo nome – nesta reportagem, a identidade dos internos será mantida em sigilo. “Sua cama não está tão bem arrumada, hein, João?”, diz o diretor. Com um leve sorriso, ele continua: “Tudo bem, pelo menos está tudo dobrado”. Na sequência, explica: “Antes, eles deixavam tudo bagunçado. Até o dia em que os que estão no quarto cinco arrumaram as camas sem que ninguém desse uma ordem. Agora é uma concorrência para ver quem deixa o lençol mais esticado”.
O ambiente, apesar de contido, tem espaço para esse tipo de conversa entre diretoria e interno. Em um dos corredores, uma tabela chama a atenção porque informa quem é quem no centro. Nela estão escritas “as referências” de cada menino – os profissionais da equipe psicossocial.
O refeitório serve para as refeições e também funciona no improviso. No dia da visita, enquanto um dos funcionários colocava um filme para rodar na TV, outro deixava três caixas cheias de livros sobre uma mesa. Alguns meninos se interessaram pelos livros, mas a maioria preferiu assistir ao filme. Uma das caixas só tem Bíblia, presente das duas organizações evangélicas – Igreja Universal do Reino de Deus e Congregação Cristã do Brasil – que realizam cultos semanais na fundação. A frequência dos meninos nesses encontros é irregular. “Tem dias que lota. Mas tem dia que vão quatro, cinco meninos”, diz Oliveira.
A Casa Governador Mário Covas foi a 71a aberta desde 2006, quando o nome da instituição mudou de Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (FEBEM) para Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (Casa). Mais do que o rebatismo, a ideia foi melhorar o atendimento do Estado aos adolescentes em conflito com a lei. Uma das reformulações foi a descentralização da entidade, realizada por meio da construção de unidades no interior do Estado, o que reduziu o número de rebeliões, que desgastaram a imagem da antiga FEBEM.
De acordo com o último relatório da Fundação Casa, de agosto último, havia 10.035 jovens na instituição em todo o Estado de São Paulo. Desses, 7.328 (73,2%) tinham entre 15 e 17 anos e 42,9% estavam privados da liberdade por roubo qualificado. Dados de 2013 da Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente (SINASE) mostram que o País possuía 23.066 menores de 18 anos cumprindo medidas socioeducativas. Ao fazer a comparação, chega-se a um resultado alarmante: o Estado de São Paulo comporta 43% do total de adolescentes em conflito com a lei.
O que eles contam João e Mateus, ambos de 16 anos, acompanharam a nossa visita, em meio às suas lembranças, rotinas e regras. Ao longo do encontro, percebe-se que há normas bastante peculiares lá dentro, como pedir “licença” cada vez que cruzam com qualquer pessoa, andar sempre com as mãos para trás, falar muitos palavrões e terminar as frases invariavelmente com “senhor”. Eles contam que tiveram o primeiro contato com livros na Fundação Casa. João acabou de ler Cem Anos de Solidão, do colombiano Gabriel García Márquez, mas admite ter gostado mais da história de A Hora da Estrela, da brasileira Clarice Lispector. Mateus também fala sobre sua leitura preferida. Foi um livrinho pequeno e surrado chamado A Última Pedra, de Rogério Formigoni, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus. “Já leu esse, senhor?” Ao receber a negativa, ele conta que o livro trata de um jovem viciado em crack que consegue se reerguer. Mas os meninos também leem jornais e revistas. Por isso sabem argumentar sobre o que muito lhes interessa: o debate em torno da diminuição da idade penal de 18 para 16 anos para crimes hediondos. João parece mais familiarizado com o assunto, enquanto Mateus acompanha as palavras do colega para formular a sua opinião. “Olha que louco, senhor. Os caras fizeram mais unidades da Fundação Casa do que escola. Não é uma contradição, senhor?”, pergunta João. Antes que pudesse continuar, Mateus diz: “No meu bairro não tem escola nem posto de saúde, senhor”.
Ninguém passa incólume por uma temporada de privação de liberdade. “Eu odeio este lugar”, diz João. “Mas seria ingrato se não dissesse que isso aqui mudou minha vida, senhor. Nunca tinha lido um livro no ‘mundão’, senhor. Aí vim para cá e conheci todos esses caras. Agora estou lendo um livro que conta a história do mundo, dos hominídeos, do homo erectus, dos homens que desceram das árvores e começaram a andar com duas pernas. É louco, não é, senhor? Jamais leria um livro lá fora, senhor. Por isso tenho de admitir que isso aqui mudou minha vida. Vou sair daqui e nunca mais fazer cagada.” João está na Fundação Casa há um ano, desde setembro do ano passado. Ele se tornou interno depois de assaltar uma mulher em uma rua do Jardim Brasil, bairro no extremo norte de São Paulo, onde sua família mora. Na ação, João usava uma faca de cozinha. Ele conta que foi flagrado por policiais, colocando a ponta do objeto cortante no abdômen da vítima. Na hora, pensou em tentar fugir, mas foi fortemente segurado pelo policial. “Fiquei com o‘cu na mão’. Nunca tinha entrado num camburão, senhor. Fiquei lá até a minha mãe chegar. Ela estava indo para o trabalho e viu os policiais na rua. Acho que se tocou que era eu. Me deu um conforto quando ela entrou na viatura, que o senhor nem imagina. Ela estava chorando, mas foi até a delegacia, me levou lanche, acompanhou tudo.”
Nunca tinha lido um livro no ‘mundão’, senhor. Aí vim para cá e conheci todos esses caras. Agora estou lendo um livro que conta a história do mundo, dos hominídeos, do homo erectus, dos homens que desceram das árvores e começaram a andar com duas pernas. É louco, não é, senhor?
Antes da internação, João usava drogas, basicamente cocaína. Entrou nessa quando tinha 11, 12 anos. Já tinha cometido outros roubos para sustentar o vício. Seu irmão mais velho, que gerenciava um ponto de venda de drogas, também está privado de liberdade em uma penitenciária do interior do Estado. Os outros dois não tiveram experiências melhores: um está detido por tráfico de drogas e outro, que recentemente saiu da cadeia, voltou para as ruas. João não sabe nada sobre o emprego da mãe, mas tem certeza de que ela “não está ganhando bem”. O diretor Edson Luis de Oliveira diz que João “não é criminoso”. O problema dele seria o vício. “Quando chegou aqui, estava acabado. Hoje é outro menino.”
Por enquanto, João tem sonhos aparentemente prosaicos para quando recuperar a liberdade, provavelmente nos próximos dias. “Vou pegar essa marginal aí, ir até o Shopping D, comprar um BK Picanha, um saco de batata frita, um milk shake de Chokito e assistir qualquer filme que estiver passando no cinema”, diz, encarando o arame farpado no topo das muralhas do prédio.
Mateus é mais calado. Enquanto João fala, ele prefere rir da espontaneidade do único amigo que fez lá. Os dois andam sempre juntos. Mateus também está internado desde setembro do ano passado, mas chegou à Vila Maria em dezembro, depois de ficar no centro de atendimento do Brás, na região central da cidade. Ele diz que nunca se viciou em drogas e roubava para pagar desejos materiais que os pais não podiam lhe dar.
“Eu não vim de uma família rica nem pobre, mas era bem de vida, senhor. Desde pequeno minha mãe saiu de casa, fui criado pelo meu avô. Fiquei até os 11 anos lá. Ele tentou me molestar, eu e minha tia, senhor. Falei para a minha mãe, mas ela não acreditou.” Mateus conta que a mãe só começou a dar conta do problema quando ele e a tia foram visitá-la. “Minha tia chorou e minha mãe viu que eu estava contando a verdade.” Naquele mesmo dia, os três foram à delegacia para denunciar o avô. A partir de então, Mateus toma remédios para controlar o trauma. “É difícil esquecer, senhor. Às vezes, estou com a cabeça vazia e vem.”
O avô acabou preso, Mateus foi morar com a mãe, no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo. Um dia, foi flagrado com um cigarro de maconha por uma vizinha, que contou para a sua mãe, que, por sua vez, decidiu dividir o assunto com o pai de Mateus. “Ele me telefonou e disse que iria me matar. Meu pai não me batia, mas meu tio sim.” João interrompe, eufórico: “Olha aí”, aponta em direção à parte superior da orelha direita de Mateus, que tem uma cicatriz, aparentemente fruto de um corte profundo.
Com medo da reação do pai, Mateus fugiu de casa no mesmo dia do telefonema. “Fiquei na rua. Fui morar na casa de uns amigos e comecei a traficar, senhor. Meus pais até me procuraram, falaram para eu voltar para casa, mas disse que não queria porque eles estavam querendo me agredir.” Um mês depois, decidiu roubar e foi pego. Ele não tem previsão de deixar a unidade, apesar dos constantes elogios que recebe dos coordenadores, que o consideram “observador” e “inteligente”.
No desfecho do encontro, recuperamos nossos pertences na recepção da unidade. Os portões se fecham, ouve-se o som forte da tranca de ferro. Do lado de fora, às margens da Marginal Tietê, fica a questão: adolescentes em conflito com a lei ou a sociedade em conflito com os adolescentes?
Éinegável a força do nome do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. Entre os grandes da fotografia mundial, é mestre na arte de construir narrativas densas por meiode um jogo fascinante de luzes e sombras. Não por acaso, sua obra e vida estão retratadas na produção cinematográfica O Sal da Terra. Apresentado no Festival de Cannes de 2014, ganhou o Prêmio Especial do Júri, da seção Um Certo Olhar, e foi eleito o Melhor Filme pelo público no Festival de San Sebastián, na Espanha. Este ano, concorreu ao Oscar, na categoria Melhor Documentário. Dirigido por Juliano Ribeiro Salgado, filho do fotógrafo, e pelo diretor alemão Wim Wenders, O Sal da Terra foi selecionado em um universo de 134 inscritos na academia, mas não levou a estatueta, que ficou com Citizenfour, dirigido pela americana Laura Poitras, baseado na história de Edward Snowden, o ex-analista da CIA que vazou informações sigilosas e comprometedoras do governo dos Estados Unidos.
Teria sido ótimo vencer, mas vale lembrar que outras produções que colocaram o Brasil sob os holofotes também foram indicadas, não ganharam e entraram para a história. Caso, entre outros, de Central do Brasil (produção Brasil-França) e Lixo Extraordinário (Brasil-Reino Unido). Nesta edição do Oscar, os brasileiros agraciados indiretamente foram Vivian Aguiar-Buff e Antonio Andrade, que fazem parte da equipe técnica de Operação Big-Hero, da Disney, vencedor da categoria Melhor Animação.
O Sal da Terra, produção brasileira, francesa e italiana pre- vista para entrar em circuito comercial no dia 26 deste mês de março, conta um pouco da longa trajetória de Salgado e apresenta os bastidores do ambicioso projeto Gênesis, expedição que teve início em 2004, com o objetivo de registrar regiões do planeta inexploradas. Parte do resultado dessa viagem, que terminou em 2012, está no livro homônimo da expedição, pela editora alemã Taschen.
Em O Sal da Terra, os dois diretores contam o envolvimento que têm com a obra de Sebastião Salgado e o próprio fotógrafo faz observações sobre seu trabalho. Quem assiste ao documentário, se sente um tanto em viagem, tamanha a beleza das imagens. Wim Wenders, que dispensa maiores apresentações, surpreende o espectador. O ficcionista que enriqueceu o Novo Cinema Alemão, movimento que surgiu no início dos anos 1960, fala do choque emocional que sentiu quando se deparou, pela primeira vez, com uma imagem feita pelas lentes de Sebastião. Foi uma fotografia de 1986, dos trabalhadores de Serra Pelada, no sudeste do Estado do Pará, à procura de pedras preciosas. Essa imagem faz parte de uma série que retrata questões sociais. Como se sabe, na época do registro, Serra Pelada era cenário de um contexto tenso e de grande perplexidade humana.
Emocionante também a participação de Juliano, 41 anos. O filho do homem de tantas imagens belas e raras, que nasceu e cresceu na França, revela que não tinha uma relação estreita com o pai. As longas viagens e as ausências de casa por causa do trabalho provocaram uma distância entre os dois. Em entrevista à Brasileiros, Juliano afirma que sentia muita falta do pai, apesar de entender que havia algo de especial no trabalho dele. “Eu tinha consciência de que meu pai fazia algo grande, que poucos conseguem fazer. Eu tinha uns 10 anos, quando seu trabalho começou a ter mais destaque, as fotos dele saíam nas primeiras páginas de jornais franceses. Saber que Tião havia encontrado um lugar para a fotografia amenizava a ausência que eu sentia dele. Mas guardei certo ressentimento, que só mudou com a realização do filme.”
Depois de um conversa com Wenders, Juliano concluiu que compartilhava da mesma opinião do amigo alemão sobre Sebastião Salgado: mais do que um grande fotógrafo, ele é dono de um trabalho particular e precioso, que o tornou uma espécie de testemunha ocular, no sentido literal da palavra, do passado recente da humanidade. Perceber essa dimensão foi um dos principais pontos de partida de O Sal da Terra. Mas a guinada que permitiu a realização do documentário aconteceu quando Juliano acompanhou o pai em uma expedição à tribo indígena Zo’é, nativa e isolada, na região noroeste do Pará.
Lá, Juliano fez muitas fotos e vídeos, e na volta tomou a decisão de revelar ao pai o que tinha capturado em suas lentes. “Ele ficou emocionado com o que viu e isso tocou nossa relação. Meu pai é uma pessoa da imagem, entende dessas coisas. Esse momento abriu a porta para que eu pudesse pensar nesse filme, que fala sobre ele. Tião aceitou meu olhar”, diz Juliano à reportagem da Brasileiros. O filme não poderia ser diferente. Boa parte da história de Sebastião Salgado é contada por meio de suas fotografias, imagens de arquivo e recentes, feitas durante a expedição Gênesis, além de filmagens em preto e branco e coloridas.
Mineiro de Aimorés, Sebastião Salgado nasceu em 1944. Ainda jovem, seguiu para Vitória, em busca de formação universitária em Economia, na Universidade Federal do Espírito Santo. Depois, seguiu para São Paulo, onde fez mestrado, na mesma área, na USP. Foi no campus acadêmico que Sebastião Salgado conheceu Lélia Deluiz Wanick, com quem se casou.
Nos anos 1960, engajados em movimentos políticos contra o regime militar, eles foram obrigados a deixar o Brasil para viver em Paris.
Na capital francesa, Sebastião Salgado, ainda no papel de economista, começou uma carreira promissora no Banco Mundial. Mas a vida dá muitas voltas. Lélia ganhou de presente uma câmera fotográfica que mudou radicalmente a vida do marido. Com essa máquina, ele descobriu sua nova paixão. Foi um sentimento tão intenso que fez com que ele largasse tudo para se dedicar totalmente à fotografia.
É o que conta O Sal da Terra, um documentário que apresenta uma seleção extraordinária de imagens. É tão exuberante plasticamente que quase não se percebe a trilha sonora, assinada pelo ator e diretor francês Laurent Petitgand. Mas é justamente essa união de elementos sutis que faz o filme ter rara beleza, um retrato lírico de um fotógrafo que vê o mundo com todas as complexidades, contradições e poesia.
Leia aqui a entrevista completa com Juliano Ribeiro Salgado.