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Rincon Sapiência: “No Brasil de hoje, a democracia é uma mentira, uma farsa”

O rapper Rincon Sapiência na sede paulistana da produtora Boia Fria. Foto- Henrique Santana : páginaB!
O rapper Rincon Sapiência na sede paulistana da produtora Boia Fria. Foto: Henrique Santana / páginaB!

Danilo Albert Ambrosio é um cidadão paulistano, de 32 anos, nascido na Cohab 1, comunidade de habitações populares verticais edificadas em Artur Alvim, na periferia da zona leste de São Paulo.

Em 2010, a vida ordinária do jovem teve, no entanto, um rebuliço. Já assumindo o codinome Rincon Sapiência, vulgo artístico derivado do craque colombiano que conquistou o mundial interclubes pelo Corinthians em 2000, Danilo arrebatou a cena do Hip-Hop brasileiro com o lançamento do clipe oficial de sua composição Elegância, escrita por ele no ano anterior.

Depois de enfrentar uma sucessão de subempregos e muita produção solitária, em 2014, o lançamento do EP SP Gueto BR não deixou dúvidas: o MC confirmava ali sua vocação para figurar como um artista hereditário da melhor tradição de craques da rima do País, como Sabotage, Black Alien, Mano Brown e Xis, os dois últimos de grande influência nos seus dias de formação.

Em maio último, o aguardado primeiro álbum de Rincon Sapiência veio à tona, incensado por um sem-número de avaliações positivas na imprensa local. Justo. Inspirado na saga mítica de Galanga, ou Chico Rei, monarca africano que, ao ser escravizado e trazido ao Brasil, conseguiu libertar a si e a outros escravos, depois de matar seu senhor de engenho, Galanga Livre reúne 13 composições primorosas e é sério candidato a figurar no topo da lista de melhores lançamentos musicais de 2017.

Dias depois de retornar de uma turnê europeia que percorreu cinco países, Espanha, Inglaterra, Irlanda, Suíça e Portugal, Rincon Sapiência recebeu a reportagem de página B! na sede paulistana da Boia Fria, produtora que, há dois anos, agencia sua ascendente carreira.

Em um longo bate-papo, marcado pela descontração e a sagacidade do artista, de oratória tão dinâmica e fulminante como em suas rimas, Rincon relembrou sua trajetória, opinou com ceticismo sobre o pleito presidencial de 2018, falou de apectos aparentemente frívolos perante a crônica social do rap, mas que ganham outros valores em seu discurso, como a importância da afirmação pela moda e do direito à dança. Além de mensurar a importância de uma viagem que fez à África em 2012, ele também esmiuçou, entre outros temas, o combate ao racismo e ao conservadorismo em ascensão no País.

Claro, o carismático MC também falou da expectativa para os dois shows de lançamento oficial de Galanga Livre, que ocorrerão nesta sexta-feira (29) e no sábado (30), no Sesc Pompeia (saiba mais).

Com a palavra, Rincon Sapiência, também identifciado pelo vulgo “Manicongo” (entenda porque, nas palavras do próprio artista)

páginaB! – Da infância para a adolescência vivida na Cohab 1, como seu deu a transição do Danilo para o Rincon? 
Rincon Sapiência – Cresci num ambiente musical bem forte, não no sentido de ter músicos na família, mas de se ouvir muita música. Nosso entretenimento sempre foi, e até hoje é, ouvir discos. Sempre teve muito vinil e fita K-7 em casa, aparelho de som 3 em 1… Por parte do meus pais tinha o lance da black music norte-americana, artistas como Marvin Gaye, Michael Jackson, entre outros, e o lance da música brasileira, do samba, do samba-rock, do Jorge Ben.

Como se chamam seus pais?
Ivani e Carlos.

Imagino que a juventude deles foi vivida na virada dos anos 1970 para a década de 80, quando era muito forte em São Paulo a cultura dos bailes black de periferia. 
Isso mesmo. Meu pai inclusive  – não vou lembrar de todos os detalhes – conheceu minha mãe num baile, em uma festa de rua que acontecia sempre. Durante muito tempo minha mãe falava pra gente “pô, por que vocês não dançam, por que não se divertem? No meu tempo, a gente se juntava pra ouvir música e dançar samba-rock”. Meu pai, muito vaidoso como eu, sempre usou cabelo bem redondo, as calças brifadinhas, com o risco certinho na perna. A música conectou os dois, então, naturalmente, quando eles tiveram filhos, a gente acabou crescendo nesse meio musical. Tenho dois irmãos e o mais velho, quando ele tinha uns 12 anos, veio com o lance do rap.

Como eles se chamam?
Leandro, que é cinco anos mais velho que eu, e Evandro, o do meio. Eu sou o nome que não rima. A quebra do fluxo (risos). Leandro ouvia muito rap com os amigos da escola. Muitas vezes eles faziam trabalhos em casa e os amigos dele colavam com os vinis, as fitas K-7 e as fitas VHS, que também era outro entretenimento forte.

Ele pegou a geração do rap que surgiu no Brasil no começo dos anos 1990? 
Sim. Nesse fervor do rap da periferia ele era o adolescente que, apaixonado, curtia os lançamentos dos discos, as fitas, os clipes, as roupas e tudo mais. Tem aquele lance do irmão mais velho ser a influência do mais novo, que quer vestir as mesmas roupas, quer ter uma turma parecida com a dele, e eu era aquele negritinho que queria estar ali no meio, mas, durante muito tempo, meu irmão falava “vai pro seu quarto”. Queria ficar com os parsa dele. No começo, ele brigava memo. Ia colocar uma fita K-7 pra ouvir, encontrava a música em outro ponto e dizia “você está mexendo nas minhas coisas!”. Com o tempo, ele passou a entender que era um lance que eu realmente gostava e ele começou a agregar, a me contar como era o rolê, o bate cabeça, o que era os “lagartixa” (segundo o grupo Doctor MCs, autor de Melô, o Lagartixa, no meio do rap, trata-se de um indivíduo considerado pouco autêntico, um “tipo inconveniente que só quer aparecer”).

Além do rap, você também era apaixonado por futebol, sonhava em ser jogador.
Com 15 anos, eu queria ser jogador profissional, mas comecei a desencanar, porque fui crescendo e me apaixonando pela rua. O futebol tem suas disciplinas, e comecei a entrar naquele lance de querer arrumar namoradas, de ficar na rua. O futebol e suas responsabilidades começaram a pesar e eu vi que gostava mais de me divertir do que daquela regra de treinar toda semana e jogar nos finais de semana. Foi aí que compus meu primeiro rap e montei minha banda.

Como era a formação dessa banda?
Era curiosa: uma bateria e duas guitarras. Não tinha baixo.

Você tocava guitarra?
Não, só cantava mesmo. Foi tudo muito rápido. Fiz um rap e o pessoal abraçou, porque estava rolando essa onda de ter muita bandinha na Cohab. Banda de reggae, de rock. Como muitas delas tocavam cover, quando fiz minha música foi um tempero a mais. Um trabalho autoral.

Como se chamava essa música? 
Só Sangue Bom. Era uma versão de Os Mano e as Mina, do Xis, que falava muito da Cohab 2, citava o Bronx, um time de lá, citava as mina, o samba. Fiz uma música com a mesma lógica, mas citando o time da minha quebrada, a Cohab 1, falando da minha rapaziada, do samba e do skate. Escrevi a música, montamos a banda e um grande amigo, que morava no apartamento acima do meu, estava aprendendo a tocar guitarra com uns moleque roqueirão do grunge, que ouviam Nirvana, Pearl Jam, essas fita. Fui cantando, ele groovou um groove bem simplezinho, de dois acordes, e passou a base para um outro guitarrista bala. Juntamos também um moleque novo no prédio, que tocava bateria na igreja, descolamos uma batera emprestada, fomos tocar e aconteceu a magia. Em pouco tempo a gente tinha essa música autoral, com nosso arranjo, nossa letra. As pessoas iam na garagem ver a gente tocar.

No lançamento de Boogie Naipe, Rincon visita o camarim de Mano Brown, influência inaugural de sua carreira de MC. Foto- Reprodução : Facebook
No lançamento de “Boogie Naipe”, Rincon visita o camarim de Mano Brown, influência inaugural de sua carreira de MC. FOTO: Reprodução / Facebook

E como se chamava a banda?
Munições da 38, ou MD 38. Na Cohab as ruas são identificadas por números e a nossa era a 38.

Como era viver na Cohab 1? Pra quem não tem a dimensão, não é exagero dizer que o condomínio é uma “cidade”?
Se comparada com Cidade Tiradentes e Cohab 2, nem tanto. Mas é muito grande, ao mesmo tempo em que é um lugar que, batendo perna, você anda a quebrada toda, vai para as quebradas vizinhas. Na Cohab 2 pra você ir para determinado lugar tem que ir de busão. Na Cohab 1 sempre andei a pé. E foi ali que rolou a magia, desencanei do futebol e comecei na música. Deu um certo choque com a família, porque eles me apoiavam muito no futebol, que é um mercado bem mais promissor e rentoso do que a música, um caminho mais difícil – ainda mais no rap, um movimento de periferia, sem perspectivas maiores de colocar música no rádio ou em novela.

Tanto que, nessa época, as grandes gravadoras não davam muita atenção para essa produção. O Racionais MCs, por exemplo, se consagrou na independente Zimbabwe.
Exatamente. A relação com as grandes gravadoras até hoje não é tão boa, mas nessa época era bem menos.

Você ficou com essa banda por quanto tempo?
Durou bem pouco. Formamos a banda e em pouco tempo fizemos o primeiro show em uma praça em frente ao prédio, a Praça do Morcegão. Era um evento em que a atração principal era o Xis. O evento começou à tarde, e ele só ia tocar à noite. À tardezinha, quando ainda não estava muito cheio, os moleque foi lá e disseram “ô, nois é a banda aqui da quebrada, deixa a gente tocar?”. Fiquei morrendo de medo, torcendo para os cara falar que não, mas eles disseram “busca lá os instrumentos” (risos). Carregamos tudo na mão, tocamos com violão e o cristal, que amplifica o som, cantei e tive apoio. Desci do palco o pessoal veio dar um salve. Fui pegando gosto e sigo até hoje. Desde que comecei não parei mais de escrever. Tenho vários cadernos que encontro até hoje na casa da minha mãe.

Suas letras falam do cotidiano da periferia com a mesma desenvoltura que falam da própria música, do cinema, da moda. Como você formou esse repertório tão diverso de informações?
Levei um tempo. Como sempre falo, desde que conheci o rap, meus ídolos sempre foram os Racionais MCs. Mas era muita pretensão um moleque como eu querer ser como os Racionais ou contar experiências fodidas de vida em uma música de cinco minutos. O rap deles contava uma realidade muito adulta, de quem está no front. Quando ouvi o Xis descobri que ele tinha essa característica do rap do Racionais – o lance do orgulho racial, de falar da periferia –, mas num estilo mais zona leste, do cara que gosta de futebol, que fala sobre a relação dele com as garotas, que tem um estilo visual bacana, uma desenvoltura diferente da dos demais rappers.

Além do lance de ele também reafirmar a influência da música brasileira…
Exatamente. Ele trazia referências que me agradavam muito. Então, também quis ser rapper por causa do Xis, o que já era um viés diferente, de fazer rap falando de coisas que não eram tão habituais no rap tradicional. Comecei com uma banda, ou seja, já apareci como um ponto fora da curva. Como a banda durou pouco, passei a me virar sozinho e comecei a pegar bases de batidas de instrumental gringo. Na Galeria do Rock tinha muito disso, CDs com nomes do tipo “Bases para Rappers Volume 1”, “Bases Para Rappers Volume 2”. A gente comprava esses CDs e encaixava as letras. Baixei também o Hip-Hop Ejay, um programa de edição que já vem com vários loops de harmonias prontos, loops de baixo, de bateria, e ia encaixando nas letras.

Ou seja, compor sempre foi uma experiência solitária? Você, muitas vezes, fazendo tudo?
Sim, fazendo tudo, mas, nessa época, com algum apoio do meu irmão, Leandro, e também de um DJ do Radial, um baile que fui muito

Onde rolava esse baile?
No Tatuapé (bairro da zona leste de São Paulo). Tem um primo meu da zona norte, que é muito tirador de onda, e ele às vezes dormia em casa para ir com o meu irmão no baile de sábado do Radial. No domingo, eles acordavam contando histórias da noite, das mina que eles pegaram, do meu primo zoando os lagartixa dançando. Então, pra mim era um sonho fazer parte daquilo. Quando comecei a sair para fazer balada peguei a época dos clubbers. Ia muito para a Broadway ouvir música eletrônica, drum n’ bass; Dj Marky, Patife, essas fita. Comecei a sair com um amigo pretinho, clubber. Ia lá me divertir, mas para mim era um pouco difícil arrumar umas minas, porque o pessoal me chamava de “mano”. Todo mundo clubber, os cabelo arrepiado com sabonete de glicerina, e eu colava carecão memo, tipo rapper (risos).

Lembro que nessa época, de forma pejorativa, os clubbers de bairros nobres, como o Jardins, chamavam esse pessoal de “cyber-manos”…
Na real, tinha os clubbers e os cyber-punks (vindos das periferias de São Paulo) que também curtiam música eletrônica, mas coisas mais pesadas, como o Prodigy. Era uma classe mais rude. Os clubbers eram meio que os emos daquela época. Tinham medo dos cyber-punks, porque às vezes saiam até umas tretas. Skatistas também não gostavam de clubbers. Então, o meu perfil era esse que os clubbers tinham medo (risos). Foi nessa época que comecei a arrumar meu pessoal, umas namoradinhas, e vi que conseguia virar a noite e curtir ouvindo música. Eu ainda era menor de idade, mas lá no Radial não rolava fiscalização. Numas três vezes que fui pra Broadway pensei “acho que agora consigo ir pro Radial”. E lá era outra fita. Não me sentia um extra-terrestre no rolê. Um dos DJs, o William, que morava na Cohab, tinha computador, Soundforge (software de edição de áudio), sabia samplear, coisas que não eram tão democráticas. Muitas vezes, para fazer as batidas, eu ia na casa dele ou de algum amigo que tinha computador. Mas o massa é que em pouco tempo de rap eu tive essa fase de usar o Hip-Hop Ejay, e pude ter um trabalho autoral e autêntico, mesmo com as minhas limitações. Às vezes, eu ia para algum festival de rap que cantava um milhão de grupos e via muitos parecidos com Racionais, Facção Central, De Menos Crime, e eu já tinha um lance meu.

Rincon e parte do elenco do clipe de A Coisa Tá Preta. Foto Angelo Lorenzetti
Rincon e parte do elenco do clipe de “A Coisa Tá Preta”. FOTO: Angelo Lorenzetti

Buscava outras referências?
Quando ia pro Radial eu tinha a influência do rap norte-americano. Já quis ser como o Master-P , como o DMX, como o Ja Rule. Tive também a fase do Hip-Hop Underground, que era justamente o contrário, uma cena de rap em que as pessoas não escutavam esse rap mainstream, a rapaziada escutava Mos Def, A Tribe Called Quest, Jurassic 5, um lance mais ligado a cultura do DJ, do free-style. No Brasil, minhas referências já eram o Kamau, Academia Brasileira de Rimas, Quinto Andar, esse lance, até que achei meu viés, meu vocal, meu flow.

E nessa época você fazia muitos shows?
Rolavam, mas era naquele esquema guerrilha, tocando em escola pública, no Jardim Elaine, próximo da Cohab, onde havia uma rapaziada que fazia uns eventos. O domingo todo era de rap. Rolavam batalhas de MCs, shows. Eu sempre ia como filhote de alguém. Às vezes, um grupo que tinha mais caminhada ia pra algum canto e me levava. Ia pra Francisco Morato (município da Grande São Paulo, próximo a zona leste da capital), pegava trem, andava pra caralho e, chegando lá, nada era organizado. Cantava um milhão de grupos, os shows eram longos e eu nunca sabia a hora em que ia cantar. Mas, ao mesmo tempo, como eu era novo e um grupo tinha que apoiar o outro, eu tinha disposição e apetite para segurar essa barra toda. Com o passar do tempo comecei a ficar mais chato, cobrar mais do meu trabalho e da minha produção. Depois de um bom tempo, meus irmãos compraram um computador e comecei, enfim, a colocar as músicas que eu gostava nas minhas bases. Ouvia muita música brasileira. Sampleava Eumir Deodato, Banda Black Rio e encaixava minhas rimas. Gravava num microfone dinâmico, formava repertório, tinha umas cinco músicas no My Space e todo mundo se amarrava. Depois que eu gravei Elegância, aí é que o bagulho ficou sério. Gravei a música em 2009, mas em 2010 lancei o clipe e começou a rolar dois ou três shows todo mês. Ganhava uma merreca e trabalhava com telemarketing, que pagava pouco também.

Falando das barras que você passou, antes de emplacar com a música, você teve de encarar um monte de subempregos.
Durante muito tempo tentei arrumar emprego, mas não rolava. Sempre acreditei no meu trabalho com o rap, mas era difícil. Eu era o irmão mais novo, queria usar cabelo grande, usar alargador na orelha – até usei um tempo –, mas minha mãe ficava doida “como é que você vai arrumar emprego assim? Seus irmãos trampando e você aí?”. O telemarketing foi o que me salvou, porque eu podia trampar do jeito que eu quisesse, podia ir tatuado, com a roupa ou o cabelo que eu quisesse.

Em que área de telemarketing você trabalhava?
Fazia suporte técnico de TV a cabo e internet.

Um inferno, não?
Veneno total. Mas comecei a trampar com isso para poder comprar minhas coisas. Passei três meses de experiência, vi que eu não ia ser mandado embora e comprei uma placa de som Behringer, um microfone C-3 e uma mesa de som de quatro canais. Comecei, então, a gravar melhor minhas coisas, mas, querendo ou não, fiquei lá no trampo. Meu plano era comprar os bagulhos e sair fora, mas meio que viciei nessa praia do telemarketing e ficava nessa e no rap. Na hora em que faltava o dinheiro pra comprar alguma coisa eu pensava, “putz, amanhã vou logo cedo na Força Sindical”. Ia pra lá, as pessoas olhavam meu perfil e era sempre “telemarketing”. Saia com umas três cartas de encaminhamento e uma delas cantava. Começava a trampar num lugar novo, trampava, trampava até que ficava de saco cheio e caia fora.

Voltando ao rap Elegência, a letra traz uma mensagem que, para alguns, pode soar contraditória e gostaria que você abordasse essa leitura. Explico: no ano passado, fiz duas reportagens que contavam a história dos bailes black em São Paulo e dois dos entrevistados, o Seu Osvaldo, primeiro DJ do País, e o Serjão Discotecário, que faleceu recentemente, disseram que nos anos 1960 e 1970, para além do lance da autoestima, o negro tinha também a obrigação de se vestir bem para evitar ser mal-visto pelos brancos. Como você vê essa questão?
Na real, o que vejo como marcante é que, por exemplo, nessa época que escrevi Elegância, surgiu uma safra de novos rappers, como eu, Emicida, Rashid, Projota, e essa é uma música que fala muito dessa retomada, de trazer um pouco esse lado da autoestima, que sempre teve no rap. Mas, pelo jeito que era a periferia antes, as coisas passavam muito pela crítica social, pela denúncia. A gente chegou num momento em que a classe pobre de periferia estava começando a ter mais poder de consumo, a conseguir se inserir melhor na sociedade, a ocupar mais espaços, então, Elegância é, para mim, uma música marcante por causa disso. Muitas músicas dessa época têm esse fator, mas Elegância se destacou. Algo interessante, porque o rap sempre falou de humildade, das origens. A gente vem da periferia, a gente tem que ter orgulho de onde veio, mas não tem que achar da hora ser desfavorecido. Acho que o discurso da Elegância passa por isso. Eu mesmo falando disso pode parecer muita pretensão, mas eu vejo o rap se preocupando com o visual a partir de Elegância. Uma música vanguardista, no sentido de assumir que uma coisa é você ser um cuzão egocêntrico outra coisa é você ser vaidoso, entendeu? É igual o paralelo que você fez com os bailes black, uma ideia que já vinha desde os anos 1970.

Como a dança também era para eles e é para você um elemento de afirmação racial.
Sim. Sou apaixonado pela dança. E acredito que ela tem também um apelo importante para a autoestima. Tanto é que muitas pessoas quando estão fazendo um exercício de se sentir melhor, quando passam por terapia, muitas pessoas recomendam dançar, porque a dança mexe com as nossas expressões. Mas a dança sempre foi perseguida por parte de um pensamento mais conservador. Muitos falam, por exemplo, do funk e da forma que os corpos se movimentam com sensualidade. Existiam danças de matriz africana muito antigas que já eram reprimidas por ideologias católicas e colonialistas. Quando a gente se permite dançar, a gente quebra um pouco essas ideias e também quebra um pouco a ideia, que não vem da nossa origem africana, que associa muito a dança à mulher, o que é um grande equívoco. Ao propor dança, você está propondo várias coisas interessantes: mover seu corpo; liberar energias que vêm à tona somente quando você dança; o lance do encontro com outras pessoas, principalmente no samba-rock, onde se dança em par e trocam-se os pares nos bailes. Então, eu diria que a dança também faz parte da minha proposta, como ativismo e como entretenimento.

Em agosto último, Rincon e banda no programa Cultura Livre, atração da TV Cultura, apresentada por Roberta Martinelli. Foto- Reprodução : Facebook
Em agosto último, Rincon e banda no programa “Cultura Livre”, atração da TV Cultura, apresentada por Roberta Martinelli. FOTO: Reprodução / Facebook

Falando do funk, o que você pensa dessa lei que pretende proibir os pancadões? 
Vejo uma mentalidade extremamente antiga. As pessoas tem problema com isso. Tenho uma amiga que trabalha com dança afro e tem movimentos que alguns mestres africanos passam que muitos brasileiros se sentem reprimidos em fazer. Principalmente as garotas, dependendo do movimento, se tiverem que abrir as pernas, por exemplo. Então, isso faz parte dessas ideias que sempre reprimiram a gente, esse movimento de que isso é errado, é profano. O funk passa muito por isso. Você pode, sim, colocar na mesa várias ideias positivas e negativas, mas o funk essencialmente propõe o encontro, o entretenimento. É muito prático você parar o seu carro, abrir o porta-malas, colocar um som e as pessoas se divertirem, cada um gastando o que pode consumir, sem a formalidade de pagar para entrar. Então, essa autonomia do funk também incomoda. O funk é um mercado muito organizado e rentável. Tem muitas pessoas ganhando dinheiro, fazendo as coisas acontecerem sem necessariamente precisar de rádio, de grandes gravadoras. Muitos artistas estão aí fazendo shows, tocam num baile em Guianazes e depois vão tocar em São Matheus. O funk é muito independente. Tudo gira pelo funk. Tudo acontece de eles para eles. Então, acho que também por isso tentam criminalizar o funk. A deixa que eles pegam é falar do que rola na periferia, no que diz respeito às drogas. Coisas que já estão lá, com o funk ou não. Então, algumas ideias, como o erotismo, já existem lá, com o funk ou não. Estão, por exemplo, nas propagandas de bebida, que sempre colocam a mulher com apelo sexual. Vejo uma gigantesca hipocrisia. Já estive numa reunião, quando meu filho estudava no prezinho…

Você tem um filho de qual idade?
Ele está com 9 anos, se chama Emanoel. A professora dele e a diretora da escola eram muito gente boa, mas houve um momento em que elas falaram que não gostavam do funk, que não achavam legal, por exemplo, ver as crianças cantando funk. Estive numa recreação promovida por eles e o tempo todo tocava sertanejo. Aí eu reparava que se falava muito de beber. Tinha uma música que tocou, que foi uma das que mais me chamou atenção, porque o cara falava para a mina deixar o namorado dela, amigo dele, e eles irem pra algum lugar discreto pra se pegar. Aí pensei, “pô, música de talarico do caramba!”. E o que acontece aí? Você vê que o martelo tem peso diferente quando se está falando de uma música de periferia, uma música de preto. Quando esses valores partem de outras pessoas, de outras classes sociais, não existe esse crivo. Então, vejo essa criminalização do funk como algo hipócrita e injusto.

E como você vê o crescimento do funk em São Paulo, que, aliás, também tem impulsionado a discussão sobre essa lei?
Acho massa. São Paulo tem esse potencial. As periferias da cidade são praticamente o Nordeste. Muito vizinho cearense, baiano, alagoano. São Paulo é um lugar que tradicionalmente trouxe outras culturas e fez suas adaptações. Isso aconteceu com o samba e também acontece com o funk. Acho bem interessante, porque mantém viva a tradição da música de periferia. Hoje em dia, o rap ganhou outro caráter. Eu mesmo vejo isso. Acho muito louco o rap estar na periferia, mas sei que falo de muitas coisas que são cabeçudas e não vão entrar no popularesco. Mas o funk é um ponto de vista de periferia, que também acaba sendo segmentado. Em São Paulo, eles criaram o nicho deles e tem pessoas que se incomodam “ah, o rap perdeu para o funk”. Discordo. Acho que o rap não perdeu para ninguém. Essa geração do funk criou, por uma série de coisas, sua identidade. São Paulo também trouxe o Passinho do Romano (estilo de dança derivado do funk surgido no bairro Jardim Romano, na zona leste). A dança e o funk são muito associados ao lance da sensualidade, saca? E o romano também é sensual, mas trouxe outro lance, outro movimento, porque agregou os homens à dança. Então, acho que o funk é do Rio de Janeiro, mas São Paulo conseguiu construir seu tempero, suas características e seu legado.

Há pouco você falou de autonomia. E quando é que você criou sua própria autonomia?
Fiz isso com a democratização dos recursos de tecnologia. Minha criatividade rende bastante, no que diz respeito a produzir e a compor, mas com o passar do tempo passei a entender que, para acontecer, tenho que colocar muita energia no meu trabalho. Sou muito fã do Lil Wayne, e tem um documentário que mostra ele uma semana antes do lançamento do The Carter III, disco que vendeu um milhão em uma semana. E tem um trecho do filme que mostra um dos managers dele recebendo uma ligação de alguém dizendo “mano, o disco vendeu um milhão”. Os caras falam “ô, vamo beber, pra comemorar” e vão até um busão avisar o Lil Wayne que ele tinha vendido um milhão. Chegando lá, ele está fumando maconha e gravando. A reação dele foi dizer pro amigo “falei procê” e só. Vi, então, que não dá pra você fazer uma parada grandiosa e querer correr pro abraço. Você tem que trampar. Em se tratando da parte artística, no que diz respeito às referências que eu trago de moda, aos looks que eu monto, à linguagem de música que eu trago, toda a parte criativa está 100% no meu domínio. Já na parte profissional, que envolve fazer negócios, há dois anos, trabalho com a Boia Fria. Tentei fazer isso também, mas nunca fui um bom administrador. Hoje, a minha autonomia passa 100% pela arte.

Falando desse domínio artístico, quando e como você começou a conceber o Galanga Livre
Galanga é um fruto natural da minha criatividade. Tanto é que boa parte do repertório já tinha sido gravada quando fiz o EP SP Gueto BR (ouça), meu disco anterior. Quando gravei as músicas do EP eu já tinha gravado, por exemplo, Ostentação à PobrezaA Coisa Tá Preta e Moça Namoradeira. Tudo bem que a produção evoluiu com o passar do tempo, troquei alguns timbres, melhorei algumas coisas. A princípio, fizemos uma audição aqui na Boia Fria. Eu trouxe 17 músicas, tinha até mais, mas achei que tinha possibilidade maior de trabalhar com essas. A gente ouviu, fez algumas considerações, fomos batendo bola e depois levamos a seleção para o William Magalhães (líder da Banda Black Rio e filho do saxofonista e arranjador Oberdan Magalhães, fundador do grupo, falecido em 1984). Ele fez as considerações dele, se apaixonou pelas músicas, pelas letras e pela produção, mas achou que faltava alguma qualidade de textura dos sons. Foi aí que ele entrou no processo de coprodução. Quando era necessário trocar algum timbre, ele trocava; quando era necessário rever alguma parte orgânica para dar um tempero a mais, ele tocou nas faixas.

Capa do EP SP Gueto BR, lançado em 2014.
Capa do EP “SP Gueto BR”, lançado em 2014.

William é maestro de formação, não?
Sim, é maestro, e foi fazendo esse pente fino no processo de coprodução. Ele entrou muito no projeto. Não foi aquele lance de “fiz minha parte e pronto”. Tinha horas que ele me ligava e dizia “então, acho que tal coisa dá pra fazer isso”, e eu dizia “tá bom, sou pau pra toda obra!”. E também fui inventando coisas ao longo do processo. A música Crime Bárbaro, por exemplo, uma música muito significativa, que tem africanidade, tem um lance que eu vivia muito na época, que era curtir rock africano. Acho que esse foi um norte que impulsionou o disco. É um disco que tem muita guitarra e essa energia do rock. Foi por aí que eu vi que Galanga era especial, a história de um cara que mata o senhor do engenho. Fui costurando, inventando coisas e transformei isso num disco que tem todo um conceito na ligação de uma faixa pra outra.

Falando no lance do rock, o álbum inclusive abre com um sample do Tom Zé, da música Jimi Renda-Se, que tem um riff de guitarra bem roqueiro e é uma corruptela do nome Jimi Hendrix. Achei curioso, porque, na minha leitura, você tem afinidade estética com o Hendrix, tanto na coisa visual, quanto na liberdade de misturar influências musicais. 
O Hendrix também foi um ponto de partida. Porque, por exemplo, voltando ao lance da pesquisa de cultura afro, tem o lance do Egito, um lugar que eu sou fascinado, pela cultura e pela história, mas que as pessoas associam esse fascínio aos brancos, sendo que eles eram pretos, saca? Então, eu vejo aí um lance parecido com o rock. Se eu tiver que desenhar um personagem roqueiro, vou fazer um cara branco, cabeludo, com uma guitarra, saca? Sendo que tem um histórico anterior de construção e nascimento do rock que é preto. Então, cheguei no Jimi Hendrix muito nessa via. Tem o trocadilho da música do Tom Zé, “Jimi Renda-se”, e eu cito o Hendrix na música Vida Longa, que também tem essas sonoridades da minha pesquisa, um pouco de rock com piano elétrico, um lance que me encanta no The Doors, e o rock cadenciou muito o Galanga Livre. Jimi Hendrix é um personagem interessante, me identifico muito com ele pela parte boêmia, o cara era um vivedor. Ele era muito cobrado por não ser tão engajado em causas sociais, mas eu acho que Jimi Hendrix por Jimi Hendrix já é um engajamento, saca?

A revolução estava nele mesmo.
Exatamente. O cara tocando guitarra daquela forma, fazendo música, na Inglaterra, num cenário de maioria branca, como o do rock, com aquele cabelo, aquele visual. Tudo isso já faz dele uma figura forte. E eu acredito muito nisso. Até porque fiz esse disco, que tem esse viés racial explícito, mas pode ser que num próximo disco não tenha mais isso, e, em não existindo isso, eu mesmo já serei a referência racial. Posso estar cantando sobre relacionamentos afetivos, sobre festas, sobre dançar, porque isso também já está em mim. Pense no Pelé, um cara que é muito criticado, até mesmo com uma certa razão, mas ele vindo de onde veio, jogando o que jogou, ganhou o status de Rei do Futebol. Um cara preto, de Três Corações, fazendo tudo isso, por mais que muitas vezes ele tenha se mostrado passivo quando não deveria ser, no meu ponto de vista, no que diz respeito à representatividade preta ele, é um cara grandioso. A história dele fala por ele, e eu vejo isso em várias personalidades. Trabalhar ativismo racial vai um pouco além de discursar sobre ativismo racial.

Nesse momento de retrocessos das políticas públicas no País e do crescimento de um pensamento conservador que, por exemplo, escancara o racismo de parte da nossa sociedade, o ativismo do movimento negro deve continuar crescendo? 
É complicado. A parte, não digo que boa, mas que está rolando, é que ao longo dos últimos anos os menos favorecidos começaram a se expressar mais e a conquistar mais. Então, se você pensar no que é mais influente de música hoje em dia, você chega na periferia, chega nos preto ou nas mulheres, chega nos gays, chega em classes que continuam sendo oprimidas, mas, que hoje, são mais inseridas do que outrora. Fora essa inserção, que foi conquistada, a gente está se informando e falando mesmo que a coisa tá preta, que a coisa não tá boa. Os gays também se assumindo e falando as parada memo, com vestimenta, com atitude. Isso tem influenciado e isso levou essa classe conservadora a se posicionar, da mesma forma que a gente se posiciona. Até porque eles falam “pô, mano, o pessoal só tá crescendo, só tá forgando, tá saindo da sua zona, mesmo que seja em passos lentos, mas taí; tá ocupando espaço, têm cotas, e eles estão se formando, tão tendo grifes, tendo canais no Youtube, tão se articulando e levando uma. A gente precisa se posicionar também!”. Então, a oposição, digamos assim, tá tirando suas máscaras, porque eles sempre existiram com esse pensamento famoso, como o do Bolsonaro, por exemplo. Pessoas que pensam como ele sempre existiram, mas de tanto que a gente se afirmou eles foram obrigados a se afirmar também, a tirarem as máscaras. Antes, a gente era apunhalado de um forma que a gente achava que tava todo mundo junto, e só tomava. Hoje em dia, os oponentes a gente já sabe quem são, e eles se posicionam. Acho que é um viés bom pra se ter as discussões e procurar resolvê-las. O Brasil sempre foi atrasado, nesse sentido. Sempre existindo o racismo, a homofobia, uma série de coisas, e a gente falando “não, que é isso?! O Brasil é da hora. O país da miscigenação, num sei o que lá…”, sendo que não é bem assim.

A democracia racial caiu em xeque?
Hoje, a parada é mais explícita, e isso leva a gente a se posicionar melhor, cada um sabe onde deve se situar e isso é um caminho para o avanço. Mas, em contrapartida, esssa pessoas que representam a oposição são influentes, pessoas que movimentam as máquinas, os grandes canais, os grandes veículos de comunicação. Daí rola essa polarização que está acontecendo agora e todo esse retrocesso. É uma situação bem difícil. Então, pode se estourar uma bomba e rolar uma saída infeliz, ninguém quer que tudo vire um caos; ou pode se estourar uma bomba e as pessoas se sentirem mais cobradas em saber votar melhor, em saber se engajar melhor, em saber se posicionar e, a partir disso, acontecer uma mudança. Às vezes, essas situações catastróficas podem desencadear situações positivas. Então, acho que estamos vivendo esse momento “aguardaremos cenas do próximo episódio”.

Você acredita na solidez das instituições do País. Há pouco você falou do Bolsonaro, e logo teremos eleições presidenciais. Hoje, você acredita na democracia?
É tudo muito explícito. Eu não tenho ligação com partido nenhum e não coloco minha mão no fogo por político nenhum. Mas sei que uma coisa democrática é você votar e escolher seu candidato. Mas aconteceu o golpe, e em pouco tempo veio todo esse lance: Amazônia, educação, saúde. O retrocesso está acontecendo e isso mostra o quanto as pessoas que são eleitas e ocupam esses cargos tem responsabilidade sobre as coisas que acontecem no País. Então, acho que a leitura a ser feita é “pessoas erradas nos cargos, coisas erradas acontecem”. Com pessoas mais éticas e sensatas, coisas éticas e sensatas acontecerão. E isso é parte da democracia. A gente escolhe na urna, mas a partir do momento em que a gente escolhe e nossas escolhas não são vigoradas, a partir de mudanças como esse golpe, acontece esse monte de merda que está aí. A gente saiu desse domínio da democracia. No Brasil de hoje, a democracia é uma mentira, uma farsa.

No Largo da Batata, em São Paulo, durante a série de shows Música Pela Democracia. Foto- Reprodução : Facebook
No Largo da Batata, em São Paulo, durante a série de shows “Música Pela Democracia”. FOTO: Reprodução / Facebook

Mudando de assunto, como foi a experiência de excursionar na Europa pela primeira vez?
A viagem à Europa foi muito boa. Fui à França,  Suécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Inglaterra. Foi muito louco, porque chegando lá você vê o que é verdade e o que é mentira. Eu, que gosto muito de moda, pensei “pô, vou pra Paris, e tal “… Daí cheguei lá e vi que os brasileiros se vestem muito bem. Você vê um monte de gente cafona pra caramba (risos). Vi também um monte de problemática. Vi crianças pedindo coisas na rua, vi tráfico. E conversando com as pessoas, na maioria dos lugares que eu fui, ouvi gente falando de problemas particulares; da política, do social, das drogas. Então, o legal de ir a vários lugares é que você sai do mito e conhece a realidade. O mesmo aconteceu quando conheci o Senegal e a Mauritânia, onde as pessoas gostam de vender a coisa da África tribal.

Como é que foi essa viagem? 
Foi excelente. Mostrou esse mesmo impacto. Você vai pra África e pensa “puta, lá o bagulho é loco”, mas chega lá e vê pessoas que falam três, quatro idiomas, gente que já viajou para um monte de lugares, que manja um monte de músicos bons e que têm muitas referências.

Em que ano você foi? 
Fui em 2012. Fiquei 14 dias no Senegal e três dias na Mauritânia. Lugares que eu, tendo condições, moraria lá de boa. Passaria um ano fácil. Estando lá, eu, que gosto de pesquisar africanidades e coisas do mundo, identifiquei o quanto a Europa também é um celeiro de africanidade. Muitas das bandas de música africana tem seu trabalho constituído na Europa, na Inglaterra, na França, onde há rappers do Senegal, do Mali. Depois de conhecer esse pedaço da África, tive também a curiosidade de conhecer esse lado africano da Europa. Não demorou muito, a gente teve a oportunidade de ir pra lá e foi bem o que eu imaginei. Conheci muitos artistas interessantes. A maioria dos lugares da Europa tem essa coisa cosmopolita de reunir árabes, gente do Sri Lanka, da Índia e da África, uma diversidade. Teve situações em que eu fui pra rua em Lisboa, como na Caparica, quebrada memo, e parecia que eu tava na Cohab 2. Aquele ritmo de rua, malandrage memo, a gente ouvindo muito afrohouse. Eu ligava o bloco de nota, ia compondo na rua, e calhou que eu fui visitar o estúdio do Branco, que era do Buraka Som Sistema, e saí de lá com  uma música nova, que encaixei com uma faixa de um outro produtor, o King Kong. Posso dizer que voltei um artista novo, pensando nos novos voos.

Rincon e banda durante apresentação recente em Paris. Foto- Lisandro de Almeida
Rincon e banda durante apresentação recente em Paris. FOTO: Lisandro de Almeida

Aliás, dias atrás, Gilberto Gil revisitou o repertório do Refavela, álbum lançado há 40 anos e que também foi influenciado por uma viagem dele à África.
Exatamente. Esse disco do Gil é incrível! O Galanga Livre não tinha um nome de projeto, mas tinha essa ideia de afrorap, uma música com linguagem moderna, mas com referências de música brasileira. Moça Namoradeira, por exemplo, tem o lance do bass pesadão, mas tem  também a ciranda da Lia de Itamaracá. O poder disso eu descobri em um festival que eu fui em Dakar, que tinha pessoas do mundo todo e, mesmo não entendendo o que eu falava, elas se identificavam com meu som, pelo berimbau da capoeira, pelo paranauê. Saí de lá pensando “esse é o caminho, isso aí que você tá fazendo é global e precisa ser explorado”. É por isso que digo que nos próximos trabalhos venho com uma mentalidade global ainda maior.

E como estão os preparativos para os shows de lançamento oficial do Galanga Livre, daqui a duas semanas? 
Aquela ansiedade de sempre. A gente está trabalhando bastante pra dar o nosso melhor, pra render legal. Vai ser um registro especial da vida. Uma coisa que tem acontecido com frequência. Venho fazendo clipes que repercutem bem; neste ano, estive em vários lugares do Brasil pela primeira vez, como Belém e Recife; fui para a Europa.

O disco foi lançado em maio. Porque esse hiato até o lançamento oficial? 
Foi o tempo de preparação, de maturar tudo. Muita coisa aconteceu de lá pra cá. O disco saiu e a gente já tinha agenda fechada pra vários shows. Obviamente a gente tem feito o repertório do álbum, mas quis procurar um momento especial para marcar o lançamento do disco em um show com as 12 músicas e com a banda completa.

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Ouça o álbum Galanga Livre, na íntegra, no Youtube

 

O grito de resistência de Gal Costa e Waly Salomão

Arte original do miolo interno de Fa-Tal- Gal a Todo Vapor
Arte original do miolo interno de "Fa-Tal: Gal a Todo Vapor". Foto: Divulgação / Philips

Brasileiros com um mínimo de consciência política e senso de respeito ao livre arbítrio dedicaram a última terça-feira* (31.3.2014) para, exatos 50 anos depois, reverenciar a memória das vítimas do golpe civil-militar de 1964 e repudiar o legado sombrio dos 21 anos de ditadura. Pesquisa anunciada hoje pelo R-18, maior banco de dados sociais da América Latina, revelou: entre 31 de março e 1 de abril, 46 milhões de usuários trataram do assunto nas redes sociais. Nada mais justo, e oxalá esse número cresça, ano após ano. Afinal, a ditadura deflagrada com o golpe que depôs o presidente João Goulart foi o capítulo mais sombrio da história recente do País. Sob a égide de cinco marechais e generais não só os opositores políticos do regime sofreram tortura, foram mortos, exilados ou submetidos à clandestinidade, mas também os protagonistas de diversas expressões culturais do País, que procuravam manifestar, em suas obras e em seu ativismo cidadão, resistência e repúdio ao regime.

Nesses 21 anos de obscurantismo seria indigno minimizar o impacto nefasto da ditadura na vida dos brasileiros, mas houve nos dias derradeiros de 1968 – ano em que boa parte da juventude do mundo se insurgiu contra a opressão de valores comportamentais e políticos – um ponto divisor, que elevou as arbitrariedades dos militares ao ápice da barbárie. Com o decreto do Ato Institucional n° 5, em 13 de dezembro daquele ano, os militares fecharam o Congresso, caçaram mandatos, suspenderam direitos políticos e recrudesceram a censura vigente e a prática da tortura, instaurando um crescente ambiente de terror no País.

Foi nesse contexto nefasto que, dois dias após o Natal de 1968, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos, em Salvador. Encarcerados por dois meses, os compositores, que havia pouco tinham enterrado simbolicamente a Tropicália no programa televisivo Divino, Maravilhoso, justamente pela consciência de estarem flertando com o perigo, foram obrigados a sair do País e partir, em julho daquele ano, para um exílio em Londres, onde viveram por dois anos.

Mas não foram só eles que partiram. Entre milhares de brasileiros comuns, outras estrelas da nascente MPB também tiveram que botar o pé na estrada. Pouco depois, entre outros, Chico Buarque foi para a Itália, Nara Leão para a França e Edu Lobo para os Estados Unidos. Quem por aqui ficou, para poder lidar com a censura sem correr o risco de ser o próximo exilado ou cobaia de toda sorte de torturas, teve de se reinventar.

Especulações sobre as atrocidades do período diziam, por exemplo, que Geraldo Vandré sofreu lavagem cerebral e foi emasculado (teve os testículos retirados), mas ele próprio nega a suposição grotesca e até mesmo a hipótese de que tenha sido torturado. Verdade ou não, depois de sua prisão e exílio, em 1968, inquestionável mesmo foi a total reclusão e hiato produtivo do compositor do hino de protesto Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores.

Nesse contexto de guerra declarada, em que todos tinham um inimigo comum, a ditadura, então dotada dos superpoderes do AI-5, houve também quem contasse com a notória estupidez dos censores. Chico, por exemplo, que escreveu letras contundentes, como Apesar de Você e Vai Passar, chegou ao cúmulo de criar uma personagem, o sambista Julinho da Adelaide, e, camuflado em seu pseudônimo, registrar a pérola Jorge Maravilha, cujo refrão mandava recado sonoro e dos mais insolentes para o general Ernesto Geisel: “Você não gosta de mim / Mas sua filha gosta”. No mesmo contexto, Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós compuseram Pesadelo, gravada pelo MPB-4 no álbum de 1972 do sugestivo título Cicatrizes, que continha, entre outras afrontas, frases como: “Você corta um verso / Eu escrevo outro / Você me prende vivo / Eu escapo morto”.

Capa do LP Fa-tal - Gal a Todo Vapor.
Capa do LP “Fa-tal – Gal a Todo Vapor”. Foto: Divulgação / Philips

Mas houve também quem criasse e defendesse obras de extremo lirismo a partir de mensagens cifradas e subjetivas, especialmente jovens compositores e letristas que começavam a defender seus repertórios, como Luiz Melodia, o conterrâneo Jards Macalé e Waly Salomão, poeta baiano ligado a trupe tropicalista. Nesse período sombrio, em que dar continuidade a trajetória artística demandava abrir verdadeiras trincheiras, Waly (então sob o codinome Waly Sailormoon) dirigiu um dos espetáculos de maior simbolismo para dimensionarmos hoje o terror da era Médici.

Em novembro de 1971, sob a batuta de Waly, Gal Costa subiu ao palco do Teatro Teresa Raquel para dar início ao espetáculo Fa-Tal: Gal a Todo Vapor. Composto de 19 canções, o show foi dividido em duas partes; uma acústica, com Gal e o violão em primeiro plano; outra, bem mais energética, conduzida pelo Lanny Trio, uma usina de som formada pelo guitar hero tropicalista Lanny Gordin, o baterista Jorginho Gomes, irmão de Pepeu, Baixinho, também do Novos Baianos, na tuba, além do contrabaixista Novelli.

O título de uma reportagem de Teresa Gomes publicada na revista InTerValoquando da estreia do espetáculo sintetiza a experiência: “Gal Dá Um Show a Todo Vapor”. O conteúdo do texto, no entanto, é visivelmente comprometido para evitar a mordaça da censura. O que era um grito urgente contra o ambiente de terror instaurado no País foi tratado por Teresa como um lamento pelo fim da contracultura – que até definhava, mas, como veremos, o alvo de Gal era outro.

“Gal Costa está no Teatro Teresa Raquel, no Rio, num espetáculo onde ela canta, meio amarga, que o sonho hippie acabou, que a cultura underground faliu”, diz o olho da reportagem, que logo após traça um perfil do público: “Grande massa da plateia era formada pelos jovens louquíssimos, com suas roupas exóticas, cabelos enormes, colares, anéis…”.

No camarim de Gal, Teresa tentou aprofundar a pauta “declínio da era udigrudi”, mas não obteve sucesso: “Não sou cantora underground. Sou uma cantora e nada mais… O que eu sou é aquilo que se absorve da vida. Não sou nem do underground nem do establishment!”, afirmou Gal, que ainda deu à repórter da InTerValo uma pista profética “A orientação desse show é a renovação do repertório”.

Um dos trunfos do espetáculo, a seleção de canções de Fa-tal reunia pérolas da velha guarda, como Falsa Baiana, de Geraldo Pereira, Antonico, de Ismael Silva, e Fruta Gogóia, tradicional tema do folclore baiano, ao lado de clássicos inistantâneos de amigos de Gal, como Dê Um Rolê, de Moraes Moreira e Luiz Galvão, dos Novos Baianos, Como 2 e 2, de Caetano, e Charles Anjo 45, de Jorge Ben.

A histórica série de shows também carrega o mérito de ter sido determinante para consolidar os nomes de Luiz Melodia, ao revelar a primorosa Pérola Negra, Jards Macalé, Duda Machado e Waly Salomão, que escreveram dois retratos pungentes daquele início de década, Hotel das Estrelas (letra de Duda) e Vapor Barato (letra de Waly). Os versos reproduzidos abaixo escancaram que o alvo de Gal não era exatamente o ocaso da contracultura.

“Sobre um pátio abandonado / Profetas nos corredores / Mortos embaixo da Escada / No fundo do peito, esse fruto apodrecendo a cada dentada”
Excerto de Hotel das Estrelas

“Oh sim, eu estou tão cansado / Mas não pra dizer que eu estou indo embora / Talvez eu volte, um dia eu volto / Mas eu quero esquecê-la, eu preciso / Oh, minha grande, ah minha pequena, oh minha grande obsessão”
Excerto de Vapor Barato

Com esse lirismo combativo, que versava sobre as dores da permanência e do exílio como impossibilidades temporárias de uma subjetiva relação amorosa, o amor a nosso País, pouco depois, não por acaso, Waly, foi preso por portar um cigarro de maconha e amargou meses de cárcere no extinto complexo penitenciário do Carandirú, em São Paulo. Experiência que só tornou sua poética ainda mais incisiva e madura. Na solidão de sua cela, Waly escreveu, ainda sob a corruptela Sailormoon, o clássico Me Segura Qu’eu Vou Dar um Troço, publicado em 1972 pela José Álvaro Editor.

Em maio de 1972, meses depois de encerrar a temporada de Fa-Tal, Gal concedeu extensa entrevista à revista O Bondinho, em um bate-papo informal com o repórter Myltinho Severiano. O plá, para usar aqui uma gíria da época, tratava da infância na Bahia, da enorme vontade de ser mãe (desejo jamais concretizado por ela), do reencontro com seu guru João Gilberto e do significado de sua permanência no Brasil, quando podia se dar ao luxo de viver dias bem mais amenos em outro país ou continente. A argumentação vem como um quebra-cabeça cronológico, a partir de um episódio-chave para a Tropicália, ocorrido em 13 de novembro de 1968, exatamente um mês antes de ser decretado o AI-5.

“Cantei Divino Maravilhoso no Festival da Record. Anunciaram Caetano Veloso e Gilberto Gil e começaram as vaias. Entrei eu e a vaia dobrou. Vi a raiva e consegui entender. Quando passei pra frente do palco, as pessoas que estavam vaiando acabaram aplaudindo. Lembro que tinha uma menina me vaiando e eu fiquei com tanta raiva que olhei para ela e cantei: ‘É, é, é, é preciso estar atento e forte!’. Fui direto no olho dela, com uma violência tão grande que a menina parou e se sentou na cadeira. Era um acontecimento muito forte para mim. Uma coisa verdadeira. Depois, aconteceu a prisão de Caetano e Gil (seis meses depois, o exílio) e eu fazia o meu show pensando neles. Eu não podia fazer nada. O que eu podia fazer era gritar e cantar. Então, eu cantava por eles. Cantava pensando neles, cantava de uma maneira muito violenta. Era como se eu estivesse lutando por eles. Eu estava lá, junto com eles. Era o que eu podia fazer: cantar, cantar, cantar.”

Em decorrência do sucesso de Fatal: Gal a Todo Vapor, em dezembro de 1971, a toque de caixa, a Philips decidiu transformar os registros do show em um álbum duplo. Com projeto gráfico ousado, de Luciano Figueiredo e Oscar Ramos a partir de fotos de Edison Santos e do cineasta Ivan Cardoso, claro, os dois LP’s tem precariedades técnicas. Problema característico de um período em que a indústria fonográfica do País ainda não dispunha de experiência e tecnologia para realizar gravações ao vivo com alta fidelidade.

Mas esse demérito não faz a menor diferença. Quarenta e dois anos depois, as duas bolachas ainda fazem o coração bater forte, a voz embargar e as lágrimas caírem. É como um improvável túnel do tempo, que nos reporta, por meio dos músicos e da voz de Gal, ao passado de profundo torpor que adoraríamos poder reescrever.

Como disse a mãe de Gal à Teresa, a repórter que foi abordar a cantora em seu camarim na estreia de Fa-Tal: “Gracinha dá vida às músicas que canta! Não é minha filha?!”.

Verdade sem mentira, certo muito verdadeiro, diria o amigo Jorge Ben, Dona Mariá.

Texto Originalmente publicado no site da revista Brasileiros, na coluna Quintessência, em 3.4.2014

Construindo e desconstruindo

No interessante filme “A vida em preto e branco” (1998), do diretor Gary Ross, é pelo canal da TV que uma dupla de jovens regride da década de 1990 para a de 1950, incluindo-se na cotidianidade de uma pacata cidade e no recorte da moralidade da época. O diretor usa inteligentemente o preto-e-branco e a cor como referências do imaginário social existente. A filmagem está inicialmente em branco e preto e os elementos vão se colorindo na medida em que o erotismo vai se fazendo presente; mas o que quero ressaltar é que a bicromia serve fundamentalmente para mostrar os lugares dos homens e das mulheres estabelecidos e petrificados pela regulação social: as mulheres do lar que esperam o marido em casa com um sorriso na boca e o jantar pronto, enquanto os homens do espaço público retornam no fim do dia de trabalho, certos de que a cena se repetirá diariamente.

Não encontrar a mulher em casa um dia, porque foi para um “espaço colorido”, provoca um desequilíbrio na organização do lar que se estende para a cidade e que faz com que os homens se juntem no intuito de devolver a tranqüilidade à polis. Sendo que uma das regulações que se reafirmam é a de que as únicas cores permitidas são o preto e o branco, esta movimentação toda se faz para evitar uma fantasia que os aterroriza: “imaginem se chegar o dia em que as mulheres voltem à noite do trabalho e encontram os homens em casa cuidando dos filhos!”. Ou seja, imaginem se os lugares de gênero se deslocam…

O psicanalista Jean Laplanche valeu-se também das referências preto-e-branco/colorido para tratar dos conceitos de “diferença” e “diversidade”. A diferença implica uma polaridade e se coloca sempre entre dois termos, enquanto que a diversidade pode ser entre dois termos mas também entre muitos. Por exemplo a diversidade das cores, que é infinita pois sempre se pode inventar outra nova. Se há uma convenção que reduza a uma bicromia, como no filme mencionado, neste caso o que não é branco é preto. Mas se não for  assim, o que não é branco pode ser de qualquer outra cor.

Agora, uma cor é um atributo que adjudicamos a um sujeito como “qualidade” ou como “insígnia”, ou seja, qualidade como cor que o pinta – e neste caso não há contrários – ou como insígnia, por exemplo quando se trata de times esportivos, onde dizer “os verdes” ou “os azuis” é criar dois campos, que são campos de valor, opostos e contraditórios. Neste caso a cor não designa a imagem da coisa, mas “é a insígnia que cria aquilo que simboliza”, ou seja cria o campo político e social. Alguém é portador do verde, ou verde e o azul não são contrários, mas como insígnia passam a sê-lo. Passa-se assim da diversidade das cores à diferença dos campos: campos de contrários, de oposições e às vezes de ódio. Durante muito tempo a concepção binária da sexualidade, com atribuições de lugares cronificados, vem estabelecendo relações de valor e desvalor, com desigualdades e hierarquias.

As narrativas que permearam o imaginário da modernidade, construídas com base nos mitos do amor romântico, da mulher só mãe e da passividade erótica, criaram subjetividades de mulheres dóceis

A partir da revolução francesa e de seus lemas de igualdade, liberdade e fraternidade, as mulheres começaram a reivindicar seus direitos, mas se passou muito tempo para que transformações significativas acontecessem. Mostra disto é que no final do século XIX imperava a dupla moral vitoriana, consequência da organização patriarcal que dividia o lugar das mulheres entre “mães” e “vulgares”, esvaziando de erotismo o imaginário das primeiras e separando o espaço público como lugar de saber e poder para os homens, deixando o lugar privado do lar dos afetos e dos cuidados para as mulheres.

As narrativas que permearam o imaginário da modernidade, construídas com base nos mitos do amor romântico, da mulher só mãe e da passividade erótica, criaram subjetividades de mulheres dóceis, passivas ainda quando rainhas do lar, e de homens fortes, violentos, heróis e ativamente dominadores. Subjetividades que não foram reconhecidas como feitas a partir dos lugares instituídos e sim tomadas como essências universais e imutáveis: na modernidade, no seio da organização patriarcal, os lugares do feminino e do masculino foram pensados como categorias identitárias, enlaçando sexo, gênero, escolha de objeto e prática sexual.

Foi no final do século XIX que Freud tratou as histéricas de sua época e a partir desta clínica construiu os alicerces de sua teoria: os conceitos de pulsão, desejo, inconsciente, identificação, mas ao mesmo tempo com elas pode reconhecer o lugar do feminino no mal-estar cultural do momento. Freud localizou no sufocamento da sexualidade, consequência da moral repressora da época, um determinante importante do surgimento das neuroses. Moral repressora que criara indivíduos mais medrosos para a vida e mais angustiados com a morte, mas que atingia mais fortemente as mulheres, já que a sociedade exigia delas inocência e ignorância para mantê-las longe da “tentação”, já que a sexualidade só lhes era permitida dentro do casamento.

Nos dias de hoje, assistimos transformações importantes dos imaginários sociais, de suas práticas, narrativas, subjetividades e corporeidades, assim como das “lógicas coletivas sobre as sexualidades”. Muito escutamos falar hoje das lógicas das diversidades, mas não teríamos chegado até aqui sem passar por todo o processo de desnaturalização e dessencialização que os movimentos feministas e os grupos de estudos sobre o lugar das mulheres instituíram desde a década de 1960, com importantes reflexões, polêmicas e práxis que questionaram o supostamente “natural”. Estes grupos e movimentos agiram, na concepção do pensador grego-francês Cornelius Castoriadis no “instituído”, para abrirem brechas “instituintes” e narrativas inéditas. O pensamento de Castoriadis foi fonte importante para aqueles que, desde a segunda metade do século passado, vem trabalhando no sentido da desnaturalização das subjetividades e das sexualidades.

Castoriadis, que foi um dos maiores expoentes da filosofia francesa do século XX, nos ofereceu um conceito muito fértil para pensar tanto a criação da instituição social, como suas mudanças, descontinuidades e rupturas: o conceito de “imaginário social”. Na tentativa de limitar o avanço de pensamentos demasiadamente estruturalistas ou deterministas de sua época, pensou na realidade da sociedade como uma criação, não porque não existam determinações mas porque, como criações que são, em cada momento da história podem ser substituídas por outras novas.

Como o autor o afirma, não daria certo pensar a filosofia ou a psicanálise sem levar em conta a história, assim como não seria possível pensar uma existência psíquica que não seja construída no interior do processo de inserção na cultura

O imaginário do qual o autor trata não é entendido como especular, não é “imagem de”, e sim criação incessante, social e psíquica, de figuras, imagens, formas, é um “magma” de significações imaginárias que determinam as formas de sentir, pensar e desejar dos indivíduos. Isto faz com que a vinculação entre os indivíduos se dê nesse fluxo de formas que podem, por sua vez, ser transformadas pelas práticas individual e coletiva, criando um estilo de viver, amar, sofrer e morrer, e que por sua vez constroem subjetividades.

O imaginário se encarna nas instituições, que através de seus discursos tanto possibilita quanto restringe as ações dos sujeitos, tendo portanto efeitos práticos. As falas e fazeres provenientes das práxis individuais e coletivas constituem redes de significação, sendo exemplos de significações sociais o homem, a mulher, a criança… tais como especificados numa sociedade. As instituições são realidades fluidas que não podem ser entendidas pela lógica conjuntista-identitária e que estabelecem uma dinâmica permanente entre o instituído e instituinte, permitindo alterar o existente e fazer surgir o inédito.

Como o autor o afirma, não daria certo pensar a filosofia ou a psicanálise sem levar em conta a história, assim como não seria possível pensar uma existência psíquica que não seja construída no interior do processo de inserção na cultura, o que aproxima seu pensamento do fundador da psicanálise Sigmund Freud – que mais de uma vez afirmou que não se pode dissociar o individual do social e que o psiquismo se constrói na história singular, mas inserida num “mal-estar cultural” próprio do momento.

Será também na segunda metade do século XX que os movimentos feministas questionarão a opressão patriarcal sobre a sexualidade das mulheres, e que os avanços nas técnicas anticoncepcionais começarão a desvincular a sexualidade da procriação, com efeitos importantes nas subjetividades. As mulheres vão ocupando novos espaços e se encarregam de mostrar que os lugares fixos não eram da essência feminina e sim dos valores da época.

O imaginário feminino se alarga, o que traz consequências para os caminhos pulsionais e identificatórios na história de uma construção singular.

Na década de 1980, começam a ser questionados os efeitos do patriarcado na construção das masculinidades e surgem propostas sobre as “novas masculinidades”, que incluem os homens em práticas e lugares que antes não ocupavam e que incluem nos homens e suas subjetividades aspectos antes excluídos e que os enriquecem: a sensibilidade, a afetividade, a capacidade de cuidar, etc.

Desde a realidade dos corpos e das vidas surgem novas imagens e vivências que se incluem no fluxo do imaginário social

Os avanços científicos seguem em ritmo acelerado, a separação entre sexualidade e procriação, a partir dos anticoncepcionais, só se acentua com as técnicas de inseminação artificial e fecundação in vitro. Nas predições dos estudiosos, a possibilidade da procriação inteiramente fora do corpo da mulher acena no horizonte, apesar das pesadas críticas dos conselhos de ética. Os métodos de Reprodução Assistida, as cirurgias para adequação do corpo ao gênero e outros avanços ampliam o “corpo erógeno”, solicitando trabalho psíquico e acompanhamento dos efeitos inconscientes produzidos.

Desde a realidade dos corpos e das vidas surgem novas imagens e vivências que se incluem no fluxo do imaginário social. As novas realidades interrogam os vínculos de parentesco, as mudanças dos lugares de gênero mudam as organizações familiares; os corpos mudam e solicitam transformações do simbólico. Novos mitos imperam: o corpo perfeito, a juventude eterna, o amor efêmero.

Nos últimos anos passa-se a entender que não basta se questionar a desigualdade e a hierarquização entre homens e mulheres, é necessário pensar também nas desigualdades que se estabeleceram entre as sexualidades que seguem o modelo heteronormativo e as outras sexualidades que ficam patologizadas, desvalorizadas.

O pensamento binário sobre a sexualidade é posto em cheque; mais do que isto, é a chave identitária que está sendo questionada. É necessário pensar as sexualidades em chave identitária? Aquilo que é da ordem do estar com, a escolha do parceiro, ou de uma pratica sexual, tem que ser transformado em algo da ordem do ser? Há que se pensar em categorias ou podemos pensar em processos identificatórios complexos e permanentes que resultem em combinatórias singulares?

A realidade sempre nos interroga, mas talvez com maior força nos momentos nos quais no imaginário social o instituinte abrange um espaço muito grande; nos momentos de muita transformação ética, estética e política.

Em um mundo em que se constroem muitos muros, alguns de tijolos e outros de preconceitos, para evitar o contato com os diferentes, também estão se desconstruindo alguns; alguns corpos cobram visibilidade que não tinham, algumas subjetividades atravessam fronteiras antes intransponíveis, sujeitos contemporâneos incorporando algum nomadismo transitam por territórios diferentes e os pesquisadores tentam abrir as fronteiras entre saberes, não para perderem sua especificidade mas para que a complexidade não lhes escape. Entre avanços e retrocessos, aberturas e fechamentos, fragilizações da organização patriarcal e retornos violentos da mesma, vamos caminhando…

* Psicanalista, Silvia Alonso é supervisora do Curso de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e coordenadora do grupo de pesquisa “O feminino e o imaginário cultural contemporâneo”. Ela é uma das colunistas do páginaB!.

REFERÊNCIAS

Castoriadis, C. La institución imaginaria de la sociedad. Buenos Aires: Tusquets, 2007.
Fernandes, A. Las lógicas sexuales: amor, política y violências. Buenos Aires: Nueva Vision, 2012.
Laplanche, J. Problemáticas II: Castração – simbolizações. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
A vida em preto e branco. Direção e Produção: Gary Ross, 1998, DVD (124 min).

Dória ignora um dos vértices do Hip-Hop

Grafite da dupla Os Gêmeos em homenagem ao álbum Hip-Hop Cultura de Rua, coletânea, lançada em 1988, que ajudou a difundir o movimento no País ao dar voz a pioneiros como Thaíde e DJ Hum, MC Jack e Código 13. Foto: Reprodução / Facebook

Na penúltima edição da Bienal Internacional Grafitti Fine Art, realizada em São Paulo, em janeiro de 2013, um dos convidados para a série de debates promovidos pelo evento foi Paulo Mendes da Rocha, arquiteto e urbanista brasileiro de prestígio internacional. Questionado sobre o que pensava sobre o grafite, Mendes da Rocha, na época com 84 anos, afirmou: “Me parece a voz mais candente, hoje, das artes gráficas em geral”.

Ao lembrar que há milhões de anos o homem já deixava nas cavernas evidências visuais de sua passagem pela Terra, o arquiteto concluiu: “A grande novidade foi a invasão do espaço público pelas camadas mais populares de todas as cidades do mundo. Portanto, para mim, salve o grafite!”.

A difusão global do grafite destacada por Mendes da Rocha é um fenômeno iniciado nos Estados Unidos na segunda metade dos anos 1970, graças ao surgimento, em cidades como Nova York e Los Angeles, de expressões artísticas que convergiram para estabelecer os três elementos do Hip-Hop: o rap (sigla para “música e poesia”), composto pelo DJ e o MC; os b-boys e b-girls, garotos e garotas que dançam ao som do rap; e o próprio grafite.

Respeitada mundialmente como porta-voz da juventude segregada em regiões periféricas das grandes urbes, a tríade de linguagens que consolidou o Hip-Hop como uma das mais importantes manifestações culturais do século XX encontra na São Paulo de 2017, no entanto, um ambiente hostil, graças à cruzada higienista decretada pelo recém-empossado prefeito João Dória Jr. (PSDB-SP).

Ao anunciar a criação do programa Cidade Linda, no dia 30 de dezembro, Dória antecipou que destinaria tolerância zero a pichadores, e informou também que pretende desenvolver um programa de formação de grafiteiros, chamado Arte Urbana, além de criar na cidade um “grafitódromo”.

Segundo Dória, o projeto será coordenado pelo muralista Eduardo Kobra. Conhecido, dentro e fora do País, pelos retratos multicoloridos de grandes personalidades sobrepostos por temas geométricos, Kobra, no entanto, afirmou que desconhecia a iniciativa e que, devido a uma demanda de 28 painéis que produzirá em Nova York até novembro deste ano, não vai colaborar com o programa da prefeitura.

Garoto propaganda do Cidade Linda, Dória foi flagrado, no último sábado (14), trajando um uniforme laranja e cobrindo um grafite na avenida 23 de Maio, no centro da cidade, com um jato de tinta cinza. Na operação anunciou também que determinará oito espaços reservados para o grafite naquela via pública e que extinguirá as pinturas que ilustram os chamados “Arcos do Jânio”, instalados no início da 23 de maio, avenida que liga as zonas norte e sul da cidade.

 

Em sua página pessoal no Twitter, João Dória Jr. divulga ação do programa Cidade Linda. Na imagem anexada, o prefeito de São Paulo apaga um grafite na avenida 23 de Maio. Foto: Reprodução / Twitter

Ao defender o grafite como alternativa artística ao picho, Dória, em contrapartida, ignora quatro décadas de importância histórica da expressão visual para o Hip-Hop. Apagar compulsoriamente muros e muros da cidade impregnando as paredes de cinza e querer determinar espaços exclusivos para a prática do grafite é também desconsiderar a autonomia de uma expressão que sempre foi livre e sempre possibilitou manifestações legítimas das camadas menos visíveis de sociedades desiguais, como a nossa.

A ausência de diálogo com a comunidade do Hip-Hop, presente em São Paulo desde o início dos anos 1980, evidencia, neste caso, um comportamento arbitrário da nova gestão municipal. Querer gerenciar a produção de grafite na cidade é como querer intervir na capoeira e tirar da roda o berimbau, não faz o menor sentido.

No comunicado oficial sobre o projeto Cidade Linda publicado no site da Prefeitura, chama atenção o trecho a seguir: “O principal objetivo é a melhora na zeladoria urbana e o resgate da autoestima do paulistano, em ação integrada entre poder público, iniciativa privada, ONGs e cidadãos”.

Parcerias a parte, como gestor da maior cidade da América Latina, João Dória devia saber o quanto o Hip-Hop elevou – e continuará a elevar – a autoestima da juventude periférica de São Paulo. Negar a livre manifestação dessa camada expressiva de nossa sociedade é também negar a cidade em sua essência.

Vale lembrar, por fim, que os mutirões de assepsia, bem-vindos no aspecto de manutenção dos espaços públicos, provavelmente terão efeito temporário com relação ao grafite. Afinal, a proliferação de muros cinzas em São Paulo é também um convite aberto a novas intervenções. Como diz uma provocação replicada em vários pontos da cidade: “Eu picho e você pinta / Vamos ver quem tem mais tinta”.

MAIS
Na tarde desta segunda-feira (16), o vereador Eduardo Suplicy (PT-SP) publicou em sua página oficial no Facebook a foto abaixo de seu gabinete, recém-grafitado pela artista Mari Mats. No post, também divulgou a seguinte mensagem: “O grafite é uma forma de arte original, de rua, inclusiva e democrática. Rejeita restrições e regras fixas, incentiva a participação popular. Transformou-se em uma cultura de resistência à segregação social e urbana. Eu estimulo essa importante manifestação cultural e artística, destinando uma das paredes de meu gabinete à obra da artista Mari Mats”.

O vereador Eduardo Suplicy (PT-SP) apresenta o grafite recém-pintado em seu gabinete. Foto: Reprodução / Facebook

CONTEÚDO!Brasileiros
– Leia entrevista com Paulo Mendes da Rocha, capa de nossa edição 108, de julho de 2016.
– Leia também a reportagem No Fio da Navalha, de Leonor Amarante, ex-editora da revista ARTE!Brasileiros, sobre a ascensão do grafite como expressão artística.

Fela made in Brasil

Do big beat ao hip-hop; do hip-hop ao soul-jazz e o funk; do funk aos ritmos africanos, com uma passagem obrigatória pela irrepreensível obra do nigeriano Fela Kuti: em resumo, a trajetória inicial do pesquisador musical Frédéric Thiphagne, pode ser, assim, reconstituída. Em 2008, o francês de Lyon, que viveu de 2009 a 2011 em Paris, deu início ao blog Les Mains Noires (em tradução livre As Mãos Negras: lesmainsnoires.blogspot.com). Nele, Thiphagne explora seus dois maiores interesses: compartilhar preciosidades de seu garimpo musical e publicar entrevistas de outros pesquisadores, quando tem a possibilidade de produzir retratos desses personagens em seus hábitats.

Ao chegar ao Brasil, no final de 2011, e se deparar com o elevado custo das reedições de históricos LPs e compactos importados, Thiphagne decidiu abrir um selo de distribuição, o Goma Gringa, para importar obras de gravadoras europeias e americanas. Ao lidar com os impasses burocráticos e tributários da alfândega brasileira, concluiu que, por mais nobre que fosse sua missão, ela seria enterrada na vala comum da inviabilidade comercial. “No Brasil, constatei que as reedições custavam três, quatro vezes o valor praticado na Europa. Algo que me deixou chocado, pois disco é cultura e o Brasil sempre soube disso, tanto é que havia essa frase estampada na contracapa dos álbuns lançados aqui. Para mim, produtos culturais têm de ter o preço mais acessível possível. Na Etiópia, penso eu, os discos deveriam ser gratuitos. É um povo que tem uma cultura musical das mais ricas, mas que, ironicamente, não pode consumir a própria cultura.”

Reprodução do LP “Sorrow, Tears and Blood”, de Fela Kuti
Reprodução do LP “Sorrow, Tears and Blood”, de Fela Kuti

Com o declínio dos planos de importação e a chegada de um novo sócio, o Goma Gringa começou a vislumbrar outros horizontes. Thiphagne juntou-se a seu primeiro cliente no País, o conterrâneo e músico Matthieu Hebrard, radicado no Brasil há 12 anos. Formado em violoncelo e contrabaixo acústico, em Paris, Hebrard consolidou parcerias com brasileiros e se prepara, agora, para lançar um álbum com o projeto Quebrante, no qual toca baixo, canta e divide composições com Thiago França, Marcelo Cabral e o DJ Will Robinson. A afinidade entre Thiphagne e Hebrard logo apontou caminhos mais longevos para o selo, com uma decisão aparentemente simples: se importar os discos elevariam tanto o custo, por que não produzi-los por aqui? E a concretização de tal ideia é um marco zero em grande estilo. Depois de negociar com a família do músico (morto em 1997), o Goma Gringa será o primeiro selo a produzir no Brasil um álbum do pai do afrobeat, Fela Kuti, o emblemático Sorrow, Tears and Blood, lançado originalmente em 1971, pelo selo Kalakuta Records (o disco pode ser comprado no portal www.gomagringa.com).

A reedição reproduz a arte original e traz duas boas surpresas: um pôster encartado e o registro da faixa que dá título ao disco, com um arranjo de 16 minutos (a original tem 10’16”). A gravação foi especialmente concedida pela família de Fela. Outra boa nova é que a Goma Gringa pretende estabelecer via de mão dupla e lançar artistas brasileiros pelos selos que aqui representa. É o caso do germânico Analog Africa, que encomendou a Thiphagne uma coletânea dupla em LP com o melhor da produção setentista do carimbó, gênero paraense eternizado por artistas como o patrono Mestre Verequete e Pinduca. Em tempo: apesar de o francês conhecer a gíria “goma” (que significa casa) o nome do selo é a soma de goma-laca, matéria-prima dos extintos compactos de 78 rpm, e a origem das obras que se propõe a lançar.

Prelúdio da consagração mundial do compositor e arranjador Eumir Deodato

queles que desconhecem a dimensão da importância do carioca Eumir Deodato, alguns fatos: ele havia acabado de completar 18 anos quando um certo Antônio Carlos Jobim encomendou seus préstimos para orquestrar canções; precoce e solícito, também ajudou a formar outro grande arranjador, o pianista Cesar Camargo Mariano; antes de lançar Prelude (tema de hoje em Quintessência) a convite do manda-chuva da CTI, Creed Taylor (daí o nome do selo: as iniciais acrescidas do “incorported”), Deodato já havia escrito arranjos para dois de seus ídolos, o guitarrista Wes Montgomery e Frank “The Voice” Sinatra.

Mas Eumir Deodato de Almeida, nome de batismo do menino prodígio, é muito mais do que isso. De “catedrático” do samba-jazz, liderando o grupo de nome acadêmico, a “Embaixador do Funk”, epíteto atribuído a ele nos EUA, Deodato é dos talentos mais completos a surgir naquele inspirado Brasil do início dos anos 1960. Como compositor, arranjador, produtor e músico, conquistou o mundo. Vendeu mais de 25 milhões de álbuns e tornou-se artista dos mais requisitados na indústria fonográfica mundial. Até mesmo a cantora Bjork, de seara musical completamente adversa, requisitou os préstimos de arranjador de Deodato nos álbuns Homogenic, Post eTelegram.

Capa do álbum “Prelude”. Foto: Divulgação / CTI Records

O primeiro capítulo dessa consolidação global foi escrito com Prelude. Como o título sugere, o LP foi só a preliminar de uma carreira impecável. Impulsionado pelo arranjo de Deodato para Also Sprach ZarathustraPrelude vendeu milhões de cópias e chegou ao terceiro posto da parada Pop da Billboard. O segredo? A apropriação ímpar e funky do tema de Richard Strauss a partir da versão de Karl Bohm e Orquestra Filarmônica de Berlim que está presente na trilha sonora de 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick.

Produzido por Creed Taylor e gravado entre os dias 12 e 14 de setembro de 1972 no legendário estúdio do produtor Rudy Van Gelder, engenheiro de som do LP,  o LP foi lançado em janeiro de 1973. Se o produtor e o engenheiro de som eram mais que insuspeitos, o que dizer do time de músicos reunidos para as sessões de estúdio?

Tome fôlego, caro leitor: Ron Carter e Stanley Clarke (contrabaixo); Ray Barreto (congas); Billy Cobham (bateria); Hubert Laws. Phil Bodner,  Romeo Penque e George Marge (flautas); Jay Berliner e John Tropea (guitarras); Airto Moreira (percussão, leia post de Quintessência sobre o álbum Fingers); Charles McCracken, Seymour Barab e Harvey Shapiro (cellos); Peter Gordon e Jim Buffington (french horn); Garnett Brown, George Starkey, Paul Faulise e Wayne Andre (trombones); John Frosk, Mark Markowitz, Marvin Stamm e Joe Shepley (trompetes); Emanuel Vardi e Al Brown (violas); Elliot Rossoff, Emanuel Green, Gene Orloff, Harry Lookosfsy, Paul Gershman, Max Ellen e David Nadien (violinos).

Quanto a Deodato coube a ele pilotar dois instrumentos com sua usual maestria: piano acústico e piano elétrico, no caso deste último, o legendário Fender Rhodes Mark I. Os arranjos também são todos do carioca. E impressionam pela destreza em transformar tradições sem cometer heresias. Com a mesma reverência presente na releitura de Strauss, Deodato também subverteu a obra de um dos compositores mais influentes para a bossa nova, Claude Debussy, em Prelude To Afternoon of a Faun. E fez o mesmo com um standard da canção norte-americana, Baubles, Bangles and Beads, de George Forrest e Robert Wright, dupla que também deu ao o mundo o clássico Strangers in Paradise.

E o que dizer das composições do próprio Deodato? Carly & CaroleSpirit of Summer (tema que foi surrupiado na trilha do filme O Exorcista) e September 13 (escrita em parceria com o baterista Billy Cobham no segundo dia de registros do álbum, daí o nome) são irresistíveis, à primeira audição – a despeito dos outros temas, mais afeitos a arranjos eruditos, exigirem dedicação maior do ouvinte, na velha e saudável lógica do álbum que cresce a cada nova escuta.

Prelude foi seguido por outra obra-prima, Deodato 2, e abriu caminho para uma série de álbuns norte-americanos, todos impregnados da sofisticada arte de criação e reinterpretação de Eumir Deodato. Àqueles que desconhecem sua discografia, sobretudo os álbuns feitos anteriormente por ele, no Brasil, bom conselho é: corra já atrás deles!

MAIS 

Ouça o álbum Prelude na íntegra

Veja Eumir Deodato e orquestra em apresentação na TV italiana RAI

Renato Costa – O artista de rua

Paulistano do Jd. Iporanga, zona sul da capital, Renato trabalha desde os 8 anos de idade para ajudar na renda familiar. Mas, foi aos 18, pelas festas raves, que teve o primeiro contato com o circo e os malabares. A partir daí, passou a fabricar suas próprias claves e a comercializar algumas para os amigos. Viajou para o Chile e Argentina três vezes, na missão de vender materiais circenses, até que assaltaram sua oficina. Renato foi para as ruas, encontrou um bom ponto no farol da Rua Estados Unidos com a Av. 9 de Julho, no Jardim América, e lá está há mais de 7 anos. De cima de um monociclo de 3 metros de altura que ele próprio fez, Renato cria seus números e performances de farol inspirados em temas do cotidiano. No vermelho que consegue arranjar o seu ganha pão. Em dias ruins, tira em torno de 50 reais. Em bons, chega a tirar até 200, mas tudo depende do trabalho que apresenta, do tempo em que permanece no farol e da sua vibração do dia. É um misto de ator, diretor, produtor e circense. Ele ainda sobrevive do circo e sonha, um dia, chegar nas ruas da Europa para propagar sua arte.

Andressa Faiad – A estilista sustentável

Ela nasceu em Brasília, em uma família árabe tradicional, viveu entre o concreto modernista da cidade e as cachoeiras místicas da Chapada dos Veadeiros. Passou no curso de moda da Faculdade Santa Marcelina em São Paulo, mas sua mãe, por medo da cidade, não deixou que ela fosse viver lá. Então, como na época ainda não existia curso superior de moda na capital federal, Andressa foi cursar comunicação em publicidade. Há 6 anos, ainda na universidade, criou sua oficina Callicore. Escolheu o nome por ser uma espécie de borboleta com diversas variações de cores. Depois de desenvolver um pouco de seu trabalho de estilista artesanal em Brasília, ela foi tentar, há um ano, a vida em São Paulo. Com suas oficinas, tenta capacitar pessoas de comunidades carentes a produzir e reciclar a própria moda. E, aos poucos, em sua casa/ateliê, na Vila Mariana, ela desenvolve sozinha suas coleções com peças únicas e retalhos reaproveitados das sobras têxteis de grandes indústrias.

Naaliel Garzola – O taxista aprendiz

Naaliel é taxista por profissão e curioso por vocação. Sempre teve muito interesse pelos mais variados assuntos. Costuma ler de tudo e nem a agitada rotina impede sua fome por conhecimento. No intervalo entre uma corrida e outra, sempre arranja um tempo para bisbilhotar um livro. Em seus 48 anos de vida já fez um pouco de tudo, porém não lembra de ter sido tão feliz profissionalmente como quando ingressou na UTI de um hospital como atendente de enfermagem. Em uma rasteira da vida, seu cargo foi extinto e Naaliel viu se agravar um problema que sempre lhe atormentou: o alcoolismo. Em dois anos perdeu tudo, até sua esposa. Felizmente, venceu a doença e tem orgulho em dizer que não bebe há seis anos. Para dar um descanso ao pai, assumiu a função de taxista há pouco tempo em um ponto próximo a PUC-SP, onde tem prazer redobrado em trabalhar, já que frequentemente bate papos acadêmicos com os alunos. Com dois filhos já casados, pensa em retomar os estudos em breve e, quem sabe, retornar à área da saúde.

Fávio Zarza – O afinador de pianos

Há mais de 10 anos, o grafiteiro e ativista Mundano colocou no centro de seu trabalho a vida dos catadores de material reciclável. Pintando carroças e amplificando as vozes dos principais responsáveis pela reciclagem de produtos no Brasil, o artista se tornou referência na defesa dos catadores. Hoje ele atua na ONG Pimp My Carroça, que produz atividades ao lado de carroçeiros de todo o país.