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EXPOSIÇÃO ARTIGO
as condições tradicionais de
exposição. Buscando ativar
tal dimensão – que passei a
considerar como uma das
características fundamentais
do delírio –, minha tentativa
foi de pôr virtualmente em
movimento as obras, na
sucessão de pontos de
vista de cada espectador
PRETA COM VERDE (DA SÉRIE OPEN HOUSE), 2007. OXIDAÇÃO DE EMULSÃO FERROSA E ÓLEO SOBRE MADEIRA. a passear entre elas.
COLEÇÃO DO ARTISTA
O convite do Sesc Pompeia
para acolher uma nova
finos cabos de aço, a flutuar nós. Surpreendeu-me, então, versão de Lugares do Delírio
na arquitetura circundante, atentar para o fato de que permitiu que tal proposta
ou posicioná-las, em geral em também a história da arte expográfica se expandisse
grupo, sobre bases frágeis é marcada por estratégias e radicalizasse graças a
– mesas de pernas tão finas diversas de construção de sua singular arquitetura,
quanto possível e de alturas tal superfície e, pelo menos diametralmente oposta à
variáveis, dispostas de forma desde o início do século estrutura do “cubo branco”.
ramificada e complexa, de tal XX, de sua destruição, na Nesse espaço de convivência
maneira que não há trajeto tentativa de levar a arte amplo e aberto no qual
preferencial predefinido e para fora da representação nenhuma superfície é neutra,
cada um deve errar entre elas, e fazê-la reencontrar a vida em suas paredes de tijolinhos,
traçando seu próprio caminho. (pulsante) e o mundo (sempre seu lago serpenteante (como à
Só depois de ter tomado problemático). espera de barcos que viessem
tal decisão percebi que ela Aos poucos, me dei conta de habitá-lo) e sua continuidade
punha em ato uma hipótese outra faceta, ainda, implicada com a área onde brincam as
muito interessante sobre no projeto expográfico: crianças, Lugares do Delírio
o delírio: a ideia de que ele tratava-se da tentativa de pôr parece mover-se em várias
recusa a superfície neutra de as obras em instabilidade, direções, no desdobramento
representação sobre a qual se ou mesmo em movimento, de cenas múltiplas – de
inscreve cada objeto, isolado à maneira do que se dava perto ou de longe, em suas
dos demais, em sua relação nas celas-ateliê de Bispo do panorâmicas e em seus cantos
com determinada palavra. Rosário enquanto ele estava –, redesenhando-se em cada
Uma vez rechaçada tal base vivo: as diferentes peças trajeto de cada espectador,
da representação, cujo modelo eram reposicionadas e às no exato instante em que seu
seria o da folha de papel em vezes modificadas por ele olhar transforma algumas
branco na qual se inscreve em um jogo complexo que obras e, para além delas –
algo, o mundo apresenta-se Frederico Morais qualificou quem sabe? – talvez venha a
como palimpsesto, como de “barafunda”. Sua dinâmica mudar algo no mundo.
contaminação de objetos interna torna arbitrária a
e escritas múltiplas a se própria delimitação de cada
combinarem segundo o olhar elemento como “obra”, *Tania Rivera psicanalista, pesquisado-
ra e curadora
– a leitura – de cada um de problematizando radicalmente
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