Page 52 - ARTE!Brasileiros #43
P. 52

EXPOSIÇÃO ARTIGO






           LUGARES DO PENSAMENTO





           POR TANIA RIVERA*












           QUANDO PAULO
           HERKENHOFF, então diretor
           do MAR, me convidou para
           a curadoria da exposição
           que se chamaria Lugares da
           Loucura, preocupou-me o risco
           de este título reforçar a ideia
           de “loucura” como doença,
           como condição deficitária         SOLÓN ROBEIRO, O ARQUITETO DO SONHO, 2016. TAKE DO VÍDEO DESENVOLVIDO EM RESIDÊNCIA ARTÍSTICA NO
                                             MUSEU BISPO DO ROSÁRIO, ARTE CONTEMPORÂNEA
           restrita a determinadas
           pessoas. Para relançar a
           questão com a arte, em um     da proposta de Freud          a compartilhar novas
           gesto político de suspensão de   de entendê-lo não como     configurações de sociedade,
           classificações excludentes e de   pensamento errôneo ou     como explicita agudamente
           reconhecimento do campo da    sintoma a ser eliminado, mas   a produção artística mais
           “loucura” como uma complexa   sim como reconstrução ativa   recente. A intersecção entre
           construção social, propus     da realidade por parte de     “loucura” e arte deve hoje,
           substituirmos o termo por     alguém que a teria perdido    portanto, ser tomada em
           delírio.                      devido a uma vivência de      chave política, afastando-nos
           A curadoria levava-me, por    desestruturação grave.        das vias históricas de encontro
           esta via, a retomar algumas   Delirar seria, neste sentido,   entre elas no século XX pela
           articulações teóricas         um trabalho psíquico muito    idealização da primeira como
           fundamentais em minha         importante, que corresponde   “expressão” pura de um
           trajetória. Foi a questão da   a uma tentativa de cura – e   sujeito apartado da cultura
           psicose que me encaminhou     deve ser considerado, em      (na ideia de “arte bruta” ou
           de um doutorado em            minha opinião, como potência   “outsider”) e na valorização da
           psicanálise para o estudo     de criação de caminhos        segunda como “terapêutica”
           da arte, muitos anos atrás,   singulares na cultura.        nela mesma.
           em busca da caracterização    Tal trabalho do delírio       Mas como transmitir em uma
           de modos desviantes de        encontra portanto o campo     exposição tais complexas
           construção do sujeito e       da arte, que também propõe    elaborações conceituais?
           da realidade. A noção de      operações diversas de         Como transformar tais
           delírio foi muito importante   construção e transformação   ideias em uma proposta de
           nessa articulação, através    da realidade, convidando-nos   experiência em dado espaço,
   47   48   49   50   51   52   53   54   55   56   57