Exposição "Epitélio", de Peter de Brito

sab28fev(fev 28)10:00sab11abr(abr 11)19:00Exposição "Epitélio", de Peter de BritoCom formação em biologia, Peter de Brito utiliza retratos familiares e símbolos da supremacia branca para discutir a herança das teses eugenistas no BrasilPórtico, Travessa Dona Paula, 116 – Higienópolis, São Paulo - SP

Detalhes

A Galeria Pórtico apresenta a primeira exposição individual de Peter de Brito no espaço, com curadoria de Claudinei Roberto da Silva. A mostra “Epitélio” inaugura o calendário da programação anual da galeria e dá continuidade à pesquisa do artista sobre mecanismos racistas que operam de múltiplas formas na sociedade e as memórias das cicatrizes que compõem esse corpo social.

Com formação em biologia, educação física e artes plásticas, Peter de Brito constrói uma prática pautada pela experimentação técnica e pela reflexão sobre o corpo, além de não dispensar a ironia, o que resulta em trabalhos de voltagem poética e política. “Meu engajamento com causas sociopolíticas começou a aparecer em meu trabalho artístico naturalmente, como resultado de um processo de imersão no tema corpo”, afirma o artista.

Peter é idealizador da performance “A presença negra”, criada em 2014 em parceria com Moisés Patrício. A ação promoveu a ocupação de pessoas afro-brasileiras em galerias e instituições culturais durante as aberturas de exposições. A trajetória do artista reflete esse cenário; apesar de iniciar a carreira artística há mais de 20 anos, tornou-se representado por uma galeria somente no ano passado, ao integrar a Pórtico.

Tais questionamentos surgem na série “Eugenia”, em que o artista utiliza a descoloração como procedimento formal. Peter manipula água sanitária sobre tecidos de algodão preto para revelar a imagem, em um processo que define como uma “despintura construtiva”. Aplicando cuidadosamente diferentes concentrações de água sanitária, com pincéis ou derramando o líquido sobre o tecido, Peter tem um controle rigoroso sobre o tempo de ação do material, onde formas se configuram em vários tons de ocre e sépia para compor o tom da pele dos personagens, conforme ele mantém ativo ou cessa a ação do cloro, com banhos de água.

Entre autorretratos e registros familiares, Peter discute a ideologia eugenista e sua herança na contemporaneidade, manifestada na violência policial e na sub-representação em cargos de liderança. No Brasil, negros somaram 86% dos mortos por intervenção policial em nove estados em 2024, segundo o relatório “Pele Alvo: crônicas de dor e luta”, da Observatórios da Segurança.

O artista cita a obra “A Redenção de Cam” (1895), do espanhol Modesto Brocos (1852-1936), utilizada sempre como tradução visual da tese do branqueamento no Brasil, que anos após a abolição da escravidão, propunha formas de controle da miscigenação e do embranquecimento progressivo da população negra, em consonância com os discursos eugenistas que marcaram o final do século 19 e início do século 20.

Epitélio ou tecido epitelial

O tecido do corpo que reveste superfícies internas e externas, como a pele, funcionando como camada de proteção do organismo, é apropriado no título da mostra. Para o curador Claudinei Roberto da Silva a derme social, corrompida e machucada por séculos de ordem colonial, têm, contudo, a capacidade de cicatrizar-se.

“É comum que a superfície da pele cicatrizada adquira um matiz diferente da original, tornando-se mais escura ou mais clara, conforme a natureza do ferimento e do consequente processo de regeneração do tecido. Os indivíduos, a depender da sua disposição de espírito e condição de classe, arranjam artifícios cosméticos ou cirúrgicos para mitigar e mesmo extinguir essas marcas; mas o tecido social esgarçado não se remenda artificialmente”, completa.

Entre as fotografias, o tríptico “Mimese” (2005) mostra mãos sendo lavadas com sabonete até se descolorirem. A obra marca o início da investigação de Peter sobre técnicas de descoloração em suportes que vão de pôsteres/reproduções de obras de arte ao brim de algodão. O último serve de base para a pesquisa atual, composta de pinturas de grande e pequena escala.

Em “À flor da pele” (2023), Peter articula referências de duas áreas centrais de sua trajetória — a biologia e as artes visuais. A instalação apresenta um vaso com um arranjo de flores brancas imerso em corante preto, que, gradualmente, tinge as pétalas — uma metáfora visual sobre processos de apropriação da cultura e exploração do trabalho da população negra.

Retomando as políticas de extermínio associadas à ideologia eugenista, a obra “Enquanto o seu lobo não vem” (2024) reconstrói um capuz do movimento supremacista Ku Klux Klan, no qual são bordados cílios, que remetem à personagem Emília. O trabalho dialoga, portanto, com a figura de Monteiro Lobato, escritor que integrou a Sociedade Eugênica de São Paulo, fundada em 1918.

“Acredito que esses trabalhos venham a se somar a tantos outros que dão ensejo à crítica e à reflexão sobre o assunto”, completa de Brito.

Serviço
Exposição | Epitélio
De 28 de fevereiro a 11 de abril
Terça a sexta, das 10h às 19h, e sábados, das 10h às 17h

Período

28 de fevereiro de 2026 10:00 - 11 de abril de 2026 19:00(GMT-03:00)

Local

Pórtico

Travessa Dona Paula, 116 – Higienópolis, São Paulo - SP

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