Exposição “África - Ancestralidade e Sincretismos"

sab24outseg01marExposição “África - Ancestralidade e Sincretismos"Mostra reúne obras de diferentes regiões do continente e explora como as tradições africanas influenciaram a arte, a religiosidade e a formação da identidade cultural brasileiraFundação Maria Luisa e Oscar Americano, Av. Morumbi, 4077 - São Paulo - SP

Detalhes

A Fundação Maria Luisa e Oscar Americano inaugura a exposição África – Ancestralidade e Sincretismos. Com curadoria de Renato Araújo e Rafael Schunk a mostra reúne, ao total, 94 peças, entre máscaras, esculturas, bustos e objetos associados à religiosidade e às tradições ancestrais de diferentes povos e regiões do continente africano. O destaque é a coleção de arte africana de Marco Antônio de Biaggi, que ganha destaque na mostra com 70 peças; formada ao longo de décadas e apresentada ao público pela primeira vez. O percurso expositivo também inclui obras das coleções Ivani e Jorge Yunes e César De La Croix, Paris.

A exposição parte de dois eixos curatoriais complementares: 1. a diversidade, expressa na variedade de povos, regiões e manifestações culturais representados nas obras, e 2. a unidade, que se revela nas conexões entre essas tradições e na formação cultural do Brasil e das Américas. Nesse contexto, o sincretismo surge como resultado do encontro entre matrizes africanas, indígenas e europeias, em um processo que aproximou diferentes culturas sem apagar suas particularidades.

As raízes africanas da cultura brasileira
As obras evidenciam a diversidade de tradições artísticas, conhecimentos e práticas religiosas de diferentes povos africanos que atravessaram o Atlântico e foram transmitidos entre gerações ao longo das últimas décadas, deixando marcas enraizadas na sociedade brasileira. Entre os destaques estão os povos Bantu, especialmente os Bakongo, originários de regiões do Congo e de Angola, cujas contribuições abrangem conhecimentos de metalurgia e agricultura, além de manifestações religiosas e culturais presentes em expressões como as congadas.

A mostra também aborda a influência dos Iorubás, da África Ocidental, cujas tradições estão presentes no candomblé, na música, nos saberes medicinais e nas artes afro-brasileiras. Outros povos representados, como Ashanti, Maconde, Luba, Hemba, Baga, Bamana, Dogon e Senufo, ampliam o panorama da diversidade cultural do continente. “Buscamos reunir obras de diferentes localidades para apresentar parte da riqueza cultural da África. Ao mesmo tempo, quando esses objetos são colocados em diálogo, podemos perceber como essa diversidade encontrou, no Brasil e nas Américas, pontos de contato que contribuíram para a formação de uma cultura marcada pelo sincretismo”, explica Renato Araújo, curador e pesquisador da Associação Museu Afro Brasil desde 2009.

A escolha das obras a serem expostas também contempla a diversidade de materiais, técnicas e funções dos objetos, que incluem peças em madeira, bronze e fibras naturais, máscaras, esculturas devocionais e objetos ritualísticos. “A seleção do conjunto de obras permite explorar tanto a riqueza formal dessas produções quanto suas relações com a história dos povos africanos e com a diáspora que contribuiu para a formação da sociedade brasileira”, destaca Rafael Schunk, curador e mestre em artes visuais.

Sincretismo: adaptação e resistência cultural
A mostra investiga, também, o sincretismo afro-brasileiro como um processo de transformação e resistência diante das restrições impostas às práticas religiosas de matriz africana. Em um contexto histórico marcado pela escravização e pela perseguição a essas manifestações de fé, diferentes tradições encontraram caminhos para preservar vínculos ancestrais e estabelecer novas relações simbólicas.

Para Renato Araújo, o sincretismo revela a capacidade de adaptação das tradições africanas diante das tentativas de impedir sua continuidade. “A resistência diante da opressão cria o sincretismo: duas tradições encontram um ponto em comum. Quando o culto a determinadas divindades africanas era proibido, estabeleceram-se correspondências com santos católicos que apresentavam características semelhantes. Dessa forma, o que era uma restrição também se tornou uma estratégia de preservação cultural e de manutenção dos vínculos com a ancestralidade”, explica.

Esse cruzamento de referências pode ser observado em diferentes objetos presentes na exposição, como cruzes etíopes, balangandãs com pingentes de significado religioso e esculturas de santos. Mais do que uma simples combinação de crenças, essas expressões evidenciam a capacidade de reinvenção das tradições africanas e sua permanência na formação religiosa e cultural brasileira.

A presença da estética africana na arte e na cultura
Outro aspecto abordado pela mostra é a presença das formas e linguagens visuais africanas na história da arte. A exploração de linhas, volumes e soluções formais, assim como a dimensão simbólica dos objetos, atravessou fronteiras e influenciou diferentes movimentos artísticos, especialmente a arte moderna europeia.

No contexto brasileiro, essas obras também permitem reconhecer uma herança que integra a própria identidade do país. “Esses objetos têm uma dimensão histórica, identitária e, sobretudo, íntima para nós. Os africanos não são ‘outros’ na formação brasileira: suas culturas fazem parte de quem somos.”, afirma Renato Araújo. Ao preservar os contextos históricos, sociais e espirituais dos objetos, a exposição convida o público a ir além de sua apreciação estética e a reconhecer as obras como expressões de saberes, crenças e visões de mundo transmitidos entre gerações.

Ancestralidade e origens da humanidade
A relação entre passado e presente atravessa toda a exposição, que propõe uma reflexão sobre a presença das culturas africanas na identidade brasileira e sobre a ancestralidade como experiência compartilhada pela humanidade.

“A principal reflexão que esperamos que os visitantes façam ao olhar cada obra da exposição é uma pergunta a si próprio: há cerca de 250 mil a 300 mil anos não existiam seres humanos fora da África. Foi desse continente que vieram os ancestrais de todos os mais de 8 bilhões de habitantes do planeta, desde as crianças que estão nascendo agora nos hospitais, todos os descendentes futuros deles remete historicamente ao mesmo lugar: a África. Sendo assim, quanto esse misterioso continente teria a ver conosco e na verdade ainda nem sabemos?”, conclui o pesquisador e curador Renato Araújo.

Serviço
Exposição | África – Ancestralidade e Sincretismos
De 24 de outubro a março de 2027
Terça a domingo, das 10h às 17h30. Valet no local (R$ 30,00).

Período

24 de outubro de 2026 10:00 - 1 de março de 2027 17:30(GMT-03:00)

Local

Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Av. Morumbi, 4077 - São Paulo - SP

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