Exposição coletiva "Esgarçar"
Detalhes
É um feliz expediente que faz com que a escultura de Giovanni Fantauzzi receba os visitantes de Esgarçar, na AM Galeria SP. Embaralhando as noções de dentro
Detalhes
É um feliz expediente que faz com que a escultura de Giovanni Fantauzzi receba os visitantes de Esgarçar, na AM Galeria SP. Embaralhando as noções de dentro e fora, interior e exterior, a peça do artista que trabalhou com Amilcar de Castro (1920-2002) dá as boas-vindas, já expandindo o perímetro de um espaço do tipo cubo branco. A exposição coletiva, com 21 artistas, centra o foco de sua discussão nos limites, vistos sob variados modos. Entre as questões colocadas, existem desde situações formais, como o bidimensional e o tridimensional, a abstração e a figuração, entre outras, até duos mais específicos, como a arte e a ciência, a paisagem e a materialidade, a fragmentação do corpo etc. A mostra engloba linguagens diversas, como a pintura, a fotografia, o têxtil, a escultura, o vídeo, a performance e o desenho.
Na família do tridimensional ampliado, além de Fantauzzi, Bruno Cançado, Marina Rodrigues, Maria Helena Andrés, Michelle Rosset e Renata Egreja lidam com questões diversas e fazem com que condições fenomenológicas sejam centrais na aproximação público/obra. O tensionamento dos elementos estruturais dos trabalhos, a organicidade deles (para Egreja, por exemplo, por que não considerarmos o objeto como pintura expandida, na mesma linha orgânica do corpus de obra dela?), as conexões com dados projetuais e do desenho acompanham a leitura do recorte apresentado.
No campo do corpo presente na coletiva, há a fragmentação tão potente e perceptível no conjunto. Liane Roditi engaja-se nas agruras impostas ao feminino, Yohana Oizumi ressurge num lócus de saúde mental – o conjunto hospitalar de Franco da Rocha – que evoca um antigo horror, Paula Huven lida com o não ver, Thany Sanches cria um pictórico ancorado em flashes contínuos e curtos da modernidade pornográfica e Andrey Rossi faz do corpo exilado dos outros, por conta da pandemia, exercícios estéticos sobre a solidão, enquanto Beatriz Lindenberg usa o próprio corpo como gramática do gesto em desenhos. Julia Pereira, Marinalva Rosa e Manoel Veiga ostentam o pictórico como linguagem movediça, sendo que Veiga trabalha faz décadas nas bordas entre arte e ciência.
Laura Villarosa e Yasmin Guimarães exploram a paisagem e a materialidade, com Villarosa optando pelo têxtil e Guimarães sedimentando seu Calder na paisagem friccionando as linhas do horizonte e do chão. Desali, na série Sangue de bairro (assinada em par com o cineasta Affonso Uchôa), crava o olhar na paisagem humana de Contagem, MG, extraindo da perspectiva periférica aproximações com gêneros como a natureza-morta. Moara Tupinambá usa o cromatismo para a ligação com o arcaico e o ancestral. Naira Pennacchi segue até a Serra da Capivara, no Piauí, onde há indícios primevos do homem nas Américas e discute origem e permanência no vídeo Ventre. Sua peça de câmara da série Ponto-Cruz traz materiais à beira do esgotamento conferindo nova configuração de cores, volumes e matéria à paisagem rural. E seria um bom fecho para Esgarçar as três obras de Manuela Costa Lima, em que o espiritual em dourado entinta e quase soterra os banais e cotidianos cartões de ponto, gerando encantamento em pleno mundo do trabalho.
Mario Gioia, setembro de 2026
Serviço
Exposição | Esgarçar
De 12 de setembro a 10 de outubro
Segunda à sexta, das 10h às 19h; sábados, das 10h às 14h
Período
Local
AM Galeria SP
Av. Nove de Julho 4865, 1A, Itaim Bibi, São Paulo - SP
