Exposição "Alegorias ancestrais" de Elias Santos
Detalhes
Na exposição Alegorias ancestrais apresentamos um conjunto de desenhos produzidos por Elias Santos em 2004, pertencentes à série iniciada em 1995. A presença das máscaras dos Zambiapungas abre
Detalhes
Na exposição Alegorias ancestrais apresentamos um conjunto de desenhos produzidos por Elias Santos em 2004, pertencentes à série iniciada em 1995. A presença das máscaras dos Zambiapungas abre espaço para uma leitura que articula as marcas de sofrimento presentes nesses corpos à violência histórica exercida contra populações africanas e afrodescendentes no Brasil. Nessa perspectiva, a deformação das figuras deixa de remeter apenas a experiências individuais e passa a evocar os processos de repressão que incidiram sobre essas práticas culturais e religiosas.
Paralelamente ao desenho, Elias desenvolve uma investigação escultórica ligada ao reaproveitamento de materiais cotidianos. Suas primeiras esculturas revelam o interesse por caixas de papelão, tecidos e materiais comuns encontrados no cotidiano urbano, como lixas adquiridas em lojas de construção civil e retalhos de tecidos. As esculturas apresentadas nesta exposição pertencem a dois momentos distintos de uma mesma pesquisa, compreendendo peças produzidas entre 2010 e 2013 e, posteriormente, entre 2024 e 2026. Em ambos os períodos, o papelão ocupa um lugar central em sua prática: um material simultaneamente frágil e resistente é utilizado tanto como estrutura prototípica quanto como parte constitutiva das peças. Após a modelagem dos volumes, as esculturas passam por sucessivas etapas de emassamento, lixamento e revestimento com tecidos preparados pelo próprio artista. O processo evidencia uma relação cuidadosa com a matéria, na qual cada etapa de elaboração contribui para a transformação de materiais ordinários em formas de grande sofisticação formal. Apesar de transitar por diferentes materialidades, suas esculturas encontram unidade na atenção dedicada aos processos construtivos, ao trabalho paciente de execução e à transformação dos materiais.
Na série mais antiga de esculturas geométricas aqui apresentada, predominam tonalidades sóbrias, como preto, branco e cinza, reforçando a dimensão estrutural e quase arquitetônica das peças. Suas formas pontiagudas e rigorosamente construídas evocam uma reflexão sobre a própria natureza da geometria, entendida não apenas como um sistema abstrato, mas como um princípio presente na constituição do mundo. Como observa o próprio artista, a forma geométrica está na base das formações minerais e das moléculas que compõem os organismos vivos e, consequentemente, as formas orgânicas.
À medida que essas esculturas se desenvolvem, seu geometrismo vai se complexificando, remetendo a repertórios simbólicos associados às religiões afro-brasileiras. Entre essas referências, destaca-se a relação que Elias Santos desenvolve com Exu, orixá responsável pela comunicação entre os mundos material e espiritual, cuja presença se manifesta de maneira recorrente em seu imaginário formal e simbólico. Em uma de suas peças, por exemplo, o tridente surge de forma explícita, tensionando a fronteira entre abstração geométrica e signo ritual. Esses elementos do universo das religiões afro-brasileiras atravessam o repertório visual do artista e se incorporam ao seu vocabulário formal. Embora não tenha sido iniciado na religião, Elias passou a conviver com esses universos, a frequentá-los e pesquisá-los após mudar-se para Salvador, onde ingressou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Entre terreiros, festas populares, feiras e manifestações culturais afro-brasileiras, esse conjunto de referências sedimentou-se em seu imaginário, tornando-se parte constitutiva das estruturas simbólicas e formais que atravessam sua produção.
A série mais recente de esculturas inaugura um novo momento em sua pesquisa. Nos últimos anos, a partir do convite da Galatea para participar da exposição coletiva Cais (Galatea Salvador, 2024) e dar continuidade à apresentação de suas obras na galeria, Elias retoma sua produção escultórica, incorporando formas mais curvas, camadas cromáticas intensas e materiais brilhantes, especialmente o lamê, tecido amplamente utilizado tanto nas vestimentas do candomblé quanto nas fantasias carnavalescas afro-baianas. Apesar da produção recente, a investigação desses materiais é anterior e remonta à sua experiência como assistente na confecção de adornos para o bloco afro Olodum, entre 2009 e 2010, quando teve contato direto com tecidos, brilhos e estampas, preservando as sobras desses materiais para futuras experimentações.
É nessa nova fase, apresentada nesta exposição por meio de esculturas inéditas, que suas obras se tornam mais sensuais, vibrantes e luminosas, intensificando suas dimensões performáticas. Os tecidos metálicos, brilhos e superfícies cintilantes projetam signos afro-brasileiros em um horizonte futurista, unindo ancestralidade e imaginação. As formas evocam memórias e cosmologias herdadas, refletindo um brilho do passado como forma de iluminar novas fabulações para o futuro.
Ao longo de sua trajetória, Elias Santos transforma a geometria em um campo de investigação no qual rigor formal, observação da natureza e repertórios afro-brasileiros se entrelaçam. Em suas esculturas, ritmos simétricos, estruturas modulares e volumes cuidadosamente construídos evocam tanto princípios presentes na constituição do mundo natural quanto símbolos e cosmologias associados às tradições afro-diaspóricas. Nesse sentido, sua produção aproxima-se de uma linhagem de escultores afro-brasileiros, como Rubem Valentim, José Adário dos Santos e Ayrson Heráclito.
Seja nos desenhos inspirados pelas formas híbridas das orquídeas, nos corpos mascarados que evocam os Zambiapungas ou nas esculturas construídas a partir de materiais reaproveitados, a obra de Elias revela um interesse contínuo pelos processos de transformação, nos quais natureza, corpo e ancestralidade se conectam em uma mesma investigação. Entre a precisão construtiva e a exuberância sensorial, suas obras articulam passado e presente, permanência e reinvenção, afirmando sua prática como forma de atualização de memórias e cosmologias que permanecem vivas e em constante transformação.
ALANA SILVEIRA é produtora cultural, curadora e diretora da Galatea Salvador
Serviço
Exposição | Alegorias ancestrais
De 03 de julho a 10 de outubro
Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, das 10:00h às 19:00h; Sexta, das 10h às 18h, das Sábado, das 11h às 15h
Período
Local
Galeria Galatea Salvador
R. Chile, 22 - Centro, Salvador - BA
