Exposição "Langsdorff: A expedição fluvial 200 anos depois"
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Em meio ao agravamento da crise climática, ao avanço do desmatamento e às crescentes disputas em torno dos territórios tradicionais, o projeto Langsdorff: A expedição fluvial 200 anos
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Em meio ao agravamento da crise climática, ao avanço do desmatamento e às crescentes disputas em torno dos territórios tradicionais, o projeto Langsdorff: A expedição fluvial 200 anos depois lança uma pergunta incontornável: o que foi feito do Brasil percorrido e documentado há dois séculos? Ao marcar o bicentenário da partida da histórica viagem fluvial do Tietê ao Amazonas, a iniciativa transforma uma das mais importantes viagens científicas do século XIX em ponto de partida para refletir sobre os impasses ambientais — e civilizatórios — que definem o século XXI.
O projeto estreia no dia 31 de março com a abertura da exposição Langsdorff: A expedição fluvial 200 anos depois, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP (BBM-USP). Realizada pelo Instituto Hercule Florence e pela Documenta Pantanal, em parceria com a BBM-USP, o Instituto Moreira Salles (IMS) e o Centro Maria Antônia da USP, a iniciativa se estende até junho deste ano, contemplando também uma mostra de cinema e o lançamento de publicações sobre o tema.
Chefiada por Georg Heinrich von Langsdorff e financiada pelo Império Russo do czar Alexandre I, a expedição que partiu de Porto Feliz (SP) em 22 de junho de 1826 foi uma das mais ambiciosas incursões científicas já realizadas pelo interior do Brasil no século XIX. Mais do que mapear rios, coletar e catalogar espécies, a missão buscava compreender um território ainda pouco conhecido pelos centros europeus.
A travessia fluvial entre 1826 e 1829, do Tietê ao Amazonas, passando pelas províncias de São Paulo, Mato Grosso e Grão-Pará, tinha entre seus integrantes o botânico Ludwig Riedel, o astrônomo Néster Rubtsov, o pintor Aimé-Adrien Taunay, o desenhista e inventor Hercule Florence, que se estabeleceria no Brasil, tornando-se a principal testemunha desta jornada, e Wilhelmine von Langsdorff, esposa de Langsdorff e única mulher a viajar com o grupo .
Os diários, desenhos e registros de Hercule constituem hoje uma das mais importantes documentações visuais e científicas do Brasil oitocentista, fundamentais para a construção da imagem do país no exterior e para a compreensão histórica de sua biodiversidade.
A exposição Eixo central do projeto, a mostra realizada na BBM-USP tem curadoria do Instituto Hercule Florence. A exposição se divide entre a Sala Multiuso e a Sala BNDES, estabelecendo um diálogo direto entre passado e presente. Os trabalhos apresentados são oriundos dos acervos do próprio IHF, da BBM-USP, da Bibliothèque nationale de France (BnF) e, ainda, da coleção Cyrillo Hercules Florence, hoje sob a guarda do IMS. Reunindo mais de uma centena de obras, a mostra justapõe imagens, relatos de viagens, publicações e documentos do século XIX com produções contemporâneas realizadas nas mesmas regiões atravessadas pela expedição.
Na Sala Multiuso estão registros históricos e reproduções de materiais de Hercule Florence e de outros viajantes e naturalistas dos séculos XIX e XX. Já a Sala BNDES mescla trabalhos históricos com fotografias de nomes como Lalo de Almeida, Paula Sampaio, Miguel Chikaoka e João Pompeu, que investigam temas como ocupação desordenada, assoreamento, desmatamento, queimadas, conflitos territoriais e a resistência de comunidades tradicionais nas regiões da Amazônia e do Pantanal.
Mais que atualizar as paisagens do passado, as imagens recentes criam um contraponto crítico que convida o público a perceber que a crise ambiental não é um fenômeno abstrato, mas uma transformação concreta e acelerada da paisagem brasileira.
“A expedição não é apresentada como uma façanha heroica, mas quase como um memento mori. Em apenas dois séculos, um intervalo ínfimo na história da humanidade, alteramos profundamente os ecossistemas que aqueles viajantes conheceram”, pontua Antonio Florence, tetraneto de Hercule Florence e fundador do instituto que celebra sua trajetória, o IHF. “O século XIX construiu o mundo em que vivemos hoje, inclusive o modelo de exploração que levou à devastação que vemos. Revisitar essa travessia é uma forma de entender como chegamos até aqui e de nos questionarmos quanto ao futuro que estamos construindo.”
Para Francis Melvin Lee, curadora do IHF, a iconografia da expedição não é apenas memória visual e maravilhada da natureza ali presente, mas o testemunho de um momento em que as consequências da intervenção humana ainda eram circunscritas. “Ao revisitarmos esses mesmos territórios hoje, o que emerge é uma paisagem atravessada por devastação e conflitos. A mostra tensiona esses dois polos para que possamos perceber a dimensão histórica da transformação que ocorreu nesse curtíssimo intervalo de tempo.”
Além da exposição na BBM-USP, o projeto inclui ainda uma mostra de filmes dedicada ao cinema ambiental brasileiro. Com curadoria de Mônica Guimarães, da Documenta Pantanal, a iniciativa ocorre entre maio e junho. Por fim, marcando exatamente 200 anos do início da expedição fluvial, o projeto será encerrado com o lançamento de publicações nos dias 22 e 23 de junho. Os trabalhos nascem dos manuscritos originais de Hercule Florence e reúnem textos críticos, ensaios visuais e pesquisas recentes que expandem o legado do artista para o século XXI. Mais detalhes dessas programações serão divulgados em breve.
Serviço
Exposição | Langsdorff: A expedição fluvial 200 anos depois
De 31 de março até 26 de junho
Segunda a sexta, das 8h30 às 20h30; sábado das 9h às 13h; domingos e feriados, fechado
Entrada gratuita
Período
Local
Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin - USP
Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, São Paulo - SP
