Page 18 - ARTE!Brasileiros #47
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BIENAIS BIENALSUR

              PROJETO NUM

              Esta edição enfatiza o Projeto NUM, grupo de artistas   dia 3 de junho. Neste contexto, com uma pulsão amorosa,
              feministas, gestores e escritores que compilaram um   criativa e rebelde que foi gerada nos meses antes e após
              livro documental sobre os impulsos criativos gerados em   os primeiros #NiUnaMenos apareceram fora do museu
              torno das mobilizações nacionais lideradas originalmente   - na rua, na praça, nas salas de aula e nas redes sociais
              pelo movimento #NiUnaMenos.  O projeto vai ocupar   - imagens e narrativas que trouxeram à tona questões
              o Centro de Expresiones Contemporáneas. A mostra,   relacionadas à sexualidade, gênero e violência sexista.
              intitulada, Recuperemos la imaginación para cambiar la   O Projeto NUM procurou juntar essas coisas, motivado
              historia, se propõe a ser “um arquivo vivo, em constante   pela crença de que a imaginação tem o poder de mudar
              movimento, que relaciona obras muito contemporâneas,   a História, pela certeza de que, em cartazes, murais,
              criadas no calor da ação feminista, que não apenas denun-  curtas, reflexões, performances urbanas, intervenções
              ciam a cisheteronorma (matriz de nosso sistema), mas   em marchas há um grande potencial transformador e
              possibilitam alternativas e releituras”. Uma outra proposta   desestabilizador não apenas do cânone literário e artís-
              que também destaca o empoderamento  feminino foi   tico, mas da tradição heterossexista e patriarcal.
              inaugurada em Tucumán no último fim de semana de maio,   Quando surgiu a proposta de trabalhar com a bienal?
              a mostra Heroínas, com obras que incluem fotografias   Enviamos a proposta para a chamada da BIENALSUR e
              históricas das Mães da Plaza de Mayo              fomos selecionadas. Nós sempre trabalhamos de auto-
              A seguir confira entrevista com Mai Lumi, integrante   gestão. Na verdade, o livro foi financiado coletivamente
              do coletivo que realiza o Projeto NUM:            com um Ideame [plataforma de financiamento coletivo].
              Quando o projeto começou? Como se organizam?      Sempre quisemos reunir fisicamente os trabalhos em
              O Project NUM é um arquivo coletivo e documental   uma grande exposição e estávamos procurando uma
              que captura os impulsos criativos gerados e continua   ligação que pudesse atender às nossas necessidades.
              gerando os primeiros #NiUnaMenos, em 3 de junho de   Mas a produção deixou muito a desejar e, desde o pro-
              2015. Somos Nina Kunan, Lucia Reissig, Laura Harness,   jeto, acabamos pedindo muitos recursos materiais e
              Eugenia Salama e Mai Lumi, e trabalhamos no projeto   econômicos.
              desde meados 2015. Nos autoconvocamos com a idéia   Quais são os temas relevantes nos trabalhos do projeto? E quais
              específica de captar este conteúdo em um livro, para   os formatos?
              dar espaço para as criações nascidas da nossa subjeti-  Há artes visuais, registro de desempenho, fotos, litera-
              vidades neste contexto.                           tura, vídeo e instalações. O trabalho é feito por artistas
              De onde surgiu a ideia de trabalhar artisticamente as questões   e não artistas. Isso é importante: o projeto NUM nasceu
              do movimento NiUnaMenos?                          do desejo de expressar impulsos criativos em resposta
              Percebemos que o contexto de urgência sociopolítica   a um momento específico. Nesse sentido, este projeto
              nos desafiava individual e coletiva-                           tem uma carga muito forte em sua diversi-
              mente e que as manifestações surgi-                            dade: pulsa o desejo de imaginar e refletir
              ram para além da própria militância.                           a partir da arte. Somos muitos e muito
              Era inevitável não ver como as ruas                             diferentes, mas esse desejo desafia todos
              e as redes sociais estavam cheias de                            nós, e é disso que trabalhamos. Tanto a
              conteúdo. Nossa missão era con-                                 arte quanto o feminismo são infinitos
              densar e arquivar esses trabalhos                              em sua subjetividade, não pretendemos
              sem hierarquias. O movimento Ni                                representar um movimento inteiro ou
              Una Menos constitui politicamente                               manifestar uma mensagem especial, ape-
              uma experiência muito mais vasta                                nas possibilitar um espaço. Portanto, há
              do que a que realizamos no                                      artistas de trajetória como Ana Gallardo
              Proyecto NUM.                                                   ou Fátima Pecci Carou e também profes-
              A ideia de trabalhar com a pro-                                sores de artes plásticas, trabalhadores da
              blemática feminista surge, no                                     arte, da cultura, jornalistas, ativistas,
              início, a partir do que vivia nos                                 estudantes, etc. As obras são coletivas
              momentos anteriores ao primeiro                                    e individuais.


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