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O LUGAR DA ARTE

             POR PATRICIA ROUSSEAUX, DIRETORA EDITORIAL
















             É CADA VEZ MAIOR A INCLINAÇÃO DOS ARTISTAS para se
             conectar com seu entorno e, de alguma maneira, trazer na sua obra
             uma reflexão permanente sobre o momento que lhes toca viver.
             Esta não é nenhuma novidade, tanto é que, ao longo da historia
             e em todas as épocas a realidade puxou as rupturas e foi ela
             que impulsionou a construção de muitos movimentos artísticos
             e obras icônicas na história da arte.
             É o caso da “Guernica” de Picasso, que imortalizou o bombardeio
             da cidade espanhola, das telas de Portinari sobre os imigrantes
             ou das imagens do apreço pela violência norte-americana nas
             telas de Andy Warhol, para citar exemplos até distantes em suas
             concepções.
             Mas se isto sempre foi assim o que mudou?
             Ao longo do tempo sempre houve escolhas estéticas e éticas,
             na intenção do artista e na recepção do espectador. Quando o
             filósofo e crítico de arte Richard Wollheim, em seu livro A Arte e
             seus Objetos, discute se as obras de arte não seriam “qualquer
             coisa além de objetos físicos” , ele afirma que “a intenção antecipa
             a visão de representação”.
             O que muda em cada época, no meu entendimento, é como o
             artista tenta traduzir sua inadequação à sua época. Artistas cos-
             tumam ser inadequados explícitos e a “representação artística”
             parece ter sido, ao longo da história humana, o melhor caminho
             para “ser no mundo” e “encontrar um lugar de fala”. À beira do
             abismo, no delírio ou na negação, artistas traduzem de uma ou
             de outra forma algo que nos conta deles e de nós.
             Porém, esta ideia que aparentemente estaria mais do que interna-
             lizada no Século XXI – após a ruptura das primeiras vanguardas há
             cem anos-, parece ser questionada hoje, não pela crítica acadêmica
             e sim pelo “homem neoliberal”, que aposta “na adequação”, em
             um mundo “moldado exclusivamente para ele”, em um mundo nos
             condomínios, cercado de garantias e certezas. Um homem que
             não vê nem sofre com a degradação do planeta, com a violência  DETALHE DA OBRA  SEM TÍTULO, DE ANNA MARIA MAIOLINO, DA SÉRIE VESTIGIOS, 2012
             crescente produto da cada vez maior desigualdade social.  Um
             homem que não vê nem quer saber do outro.
             Esse homem não quer saber de ARTE.  Ele só escolhe espelhos. Ele
             só valoriza objetos físicos que, de preferência, não o perturbem
             de forma alguma e lhe tragam paz de espirito.
             Aqui, falamos de ARTE.







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